domingo, 9 de novembro de 2008

Ainda da fábrica morta

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Por Germano Xavier


Amundsen

Tua adolescência febril se materializando, e eu lendo teus reflexos pela janela do meu quarto, solitário entre tantos papéis, o teto de estrelas brilhando por sobre a minha cabeça, a imaginação fluindo ventanias, viajando velas por mares tão singulares, levando-me a crer que aquela borboleta que pousou em teu ombro, no bosque da fantasia, por ora passeara ao meu lado, de mãos dadas, pegadas germinando pastos de esperança, vestígios deliberando vontades, a essência contígua e mútua fomentando florações. Conhecer-te um dia, no lar peninsular de minha ilha, fazer-te minha, inteiramente, sem desperdícios... Conhecer-te a ti, para conhecer-me mais, para desvendar-me, posto que sou baú de arcanos. Conhecer-te um dia, apenas. Conhecer-te para o sempre, para o que não se finda, para a não necessidade de outros conheceres, para permanecer perene, até o fim, até a última gestação do amor, até a derradeira fagulha, até a última centelha minha se apagar... e eu cair, debruçado, sobre o mesmo chão que me viu feliz.


Chegando em casa

Toda noite isto. Os degraus da escada elevando meu corpo cansado até a porta de ferro. Pintada em amarelo, a porta não existe a esta hora da noite. Logo as chaves possibilitam um encontro com meu corpo, minha alma e meu universo. Lá fora, a impresença das ventanias me sufoca. É nesta hora que começo a tocar tua epiderme, consciente dos fogos e dos fogaréus. Não diria a mais ninguém tua esfera saturnal, posto ínfimas as consequências de bem. Nosso universo cantado em desejos e estratégias de amar. Tua literatura ocular lendo meus abissos, e a reciprocidade em flores e casas de cancelas que escancaram o amor. É quando me deito c'os pardais, c'os canoros pintassilgos de ti em mim, co'as cópulas eólicas de nossos ventos que nos sabem eternos e instantes...


Em Cartago...

Perto daqui, como o Agostinho Santo, buscarei a verdade. Minha verdade é minha própria vida, ninguém me impedirá! A disciplina, poeta, é necessária, como correr o risco de perder a bandeira no alto de sua elevação. Os mastros sempre tendem à queda, perigosamente. Mas, eu sei, minha hora há de chegar, a devida hora para alguma coisa. Hoje, pela manhã, percebi isso na voz daquele que dizia "vai", e me aconteceu. Não sei explicar, aconteceu, assim, vitoriosamente, em louros e silvos de pintassilgos.


Meu filósofo

Eu compro clichês para dizer "te amo", e sou bem mais feliz assim. Eu que sempre fui o que sempre repudiei, agora logro das benesses de um aprendizado baseado em indeléveis experiências e estúpidas frustrações. Hoje sou mais político, prático das noções do pensar bem e do bem pensar. Alguns livros me substanciaram, e eu sou eles e o mundo que me rodeia juntos. Eu compro clichês para dizer que "te juro", e minha angústia cotidiana é combustível e brasa. Ah, como sou tão maior em minha ilusão diária! Como sou tão mais perto daquilo que sempre manifestei desejo! Como sou tão mais eu em me saber defeito! A minha criança interna me filosofando, a infância no dorso em pitadas reaparecendo. A adolescência, atividade para especialistas, operacionalizando-me gritos de progresso. Ah, quanto orgulho de mim, quanta satisfação em me saber distante daquele outro eu, agora em sono letárgico. Quanta dádiva, meu justo senhor! Quanta glória! E eu comprando clichês para dizer que "o futuro é nosso", dialogando com meus fantasmas estafetas, aqueles, que de um dia para o outro, sem nada avisar, deitaram chão pelo além e me privaram de minha falta de autonomia. Eu ainda ando.


* Imagem retirada do Google.