domingo, 3 de agosto de 2008

Ainda ontem

*
Por Germano Xavier

Voltei. As voltas e regressos sempre me doem. Fica uma sensação esquisita de que não devíamos nos permitir, no canto esquerdo de uma salinha sem vida, a oblação de um cântico de luz. Sofre imaginar que toda volta é um recomeço, e que recomeços tendem ao que não vingou, ao que não foi ou ao que não poderia ser. Combato, hoje, minhas obviedades mais satélites, e na procura de um fusível perdido, curto um curto que, se não é de choque, é circuito de se ir. Ainda ontem foi isso, mas sei que não me fui. Perigo é fazer o retorno impossível, o retorno insubstancioso. Melhor caminhar torto pelo caminho vital, quebrando caras e bocas, beijando luzes e lamas, estéticas mancebas. Eu tinha por mim que ontem o relógio do mundo tocou as horas que sempre desejei. E fui ponteiro, bússola de mim, mendigo do tempo, gauche vivedor, e errante. A gente sempre tem a sensação de que na próxima esquina, na padaria da rua, no banco do consultório médico, desponte o algoz voraz, surgindo pelo portão principal, decidido em nos capturar. E para isso retornos servem. Para nos dizer das horas possíveis...


* Imagem retirada do Google.

5 comentários:

Homem Hediondo n° 05 disse...

Crédito da imagem:

"Fade Away
by ~lipstickmisfit"
Deviantart

Bípede Falante disse...

Esses relógios que marcam e desmarcam as nossas vidas.

Francisco Nery disse...

tempo..

EDER RIBEIRO disse...

Sempre estamos partindo por saber que a vida não tem um porto certo, assim como sempre voltamos pelo mesmo motivo. Abçs.

Joop Zand disse...

Great picture....i like this very much.

greetings, Joop