quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Silêncio das Agulhas




Parte XX


A lua está cheia e o céu está perfeito. Minha vizinha fez o favor de decorar a casa com luzinhas coloridas e faiscantes só para me lembrar que o Natal está chegando. Só para me lembrar que fiz planos o ano inteiro e alguns mal chegaram a nascer e morreram cansados. Senti melancolia ao ver as luzinhas. Ainda sinto. E sinto saudade. Acho que saudade se mata com presença. Duas doenças. Sentir e tocar. Mas não somos amor de comer todo dia. Somos temporãs. Há épocas de florescer e morrer. E hoje estamos distantes. Não sei como explicar. Mas sei o que digo. Sinto saudade de você. É como se eu mandasse um alerta urgente dizendo para alguém me trazer o homem que amo e receber prontamente a resposta: Não é tempo. Aprendo a ter paciência e me aposento em lembranças. Há coisas mais urgentes agora. Não somos mais urgentes? Pergunto-me quando foi que nosso tema mudou de direção. Suspiro e sinto amor. Aqui dentro. Nesse quarto. Recolhido e ameaçado de extinção. Sinto amor e penso em vidro de carro, relógios, farol, cinema e supermercado. Estamos nos matando a conta-gotas. Não sei se percebe. Mas cada vez que nos encontramos arrancamos mais pedaços um do outro. E volta a vida ao normal e nós voltamos sentindo falta de algo. É um livro grande esse que escrevemos. Cada tempo um capítulo. E sabemos o que sentem leitores quando seus livros não estão por perto. É vício. Talvez não exista mais amor como um dia houve. Mas há algo. Um transtorno que irrita, faz sentir abandono e não há saída. Toda cidade se torna ilha quando não se tem a presença.

*****

Somos urgências e nosso tom é de morte. Somos urgentes e nos auto-atendemos quando na distância feroz. Ainda acredito que um dia poderemos morrer de alguma modalidade de morte precoce, ou mesmo de faca. Fica a pergunta: Quem enfiará a lâmina cintilante primeiro no outro? Nossa saudade está no piano branco estancado na sala. É um objeto-imperador. Um artefato de raríssima beleza e magnitude. Uma enorme caixa onde tudo cabe, onde tudo pode soar, um sino de cordas, e quantas badaladas! Não é bom ficar querendo saber o nome. Já temos um nome. É o mesmo piano que vem caindo do segundo andar.

7 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

" the piano.
by ~tachycardia"
Deviantart

Pseudos: Virgínia Borges e Anderson Cádor

Liene disse...

... A carne sente a quentura do sangue escorrer. De morte e de fome. De amores e distâncias...

Sempre bom te ler, sempre...

Carinho imenso, Germano

albuquerque júnior disse...

[wow...

acredito que a tendência de um suicídio coletivo (desumanização X moral X desamor), sob o ponto de vista de que a valorização da vida anda se relativizando com mais intensidade, é reflexo de um isolamento crescente, uma individualização social que nasce nas tristezas de cada um, é por aí.

e saudade também é um dos sintomas de privação, não é? é o desejo de ter e/ou estar junto... por isso "toda a cidade se torna ilha quando não se tem a presença"...

eu gostaria muito de entender a fundo o que cada verso quer dizer, mas não sou onisciente; sou um alter-ego tão ignorante quanto o primeiro eu mesmo, e fico com a opinião do Diderot, de que "a ignorância está mais próxima da verdade que o preconceito"... sobre preconceito... bem, isso eu desconheço)...

té lá]

HSLO disse...

Sempre com bons escritos.

abraços
de luz e paz

Rodrigo Passos disse...

QUE BELO TEXTO, QUE PRAZER FOI EM LE-LO!!

' Cíntira's Castle ♪ disse...

' Sempre bom poder sentar em tua janela e admirada ler um bom texto!...
Ah..os bons escritores descrevem o que muitos sentem e não sabem escrever...
É sempre um imenso favor que fazem aos que desejam se entender, entender o mundo..é, entender..conhecer!

Abraço,
.D

Luciana disse...

Perfeito!Não preciso dizer nada além disso!