sábado, 19 de maio de 2012

O Silêncio das Agulhas


 
Parte XXI


Ainda em inocência, aos 12 anos, me assombrei ao ver que havia mais no olho que me olhava. Era ternura, mas de uma força que só agora posso entender. Lembro-me bem o dia. Era tarde e havíamos feito enormes construções de areia em nosso quintal. Eu era encarregada de trazer pequenas coisas: flores para enfeitar, carretéis que serviam de móveis de nossas pequenas casas e corria a seu quarto para buscar seus carros em miniatura. Meus joelhos ardiam de atrito com o chão de terra do quintal. Você não queria brincar. Sentia-se entediado por querer ser maior que sua idade. Seu interesse estava nos livros, na doença em olhar mulheres, na escrita, na poesia. Eu, ainda menina, não me importava com o mundo fora de nosso jardim. Eu possuía o que era necessário: inocência, liberdade e sua companhia. Eu era devota de meu maestro que me temperava a vida. Para mim nada mais importava. Não havia febre alguma a não ser a excessiva agonia de estar feliz junto ao meu irmão. Homem grande de idade curta. Nós brincávamos durante o dia e, à noite, dormíamos cedo para não desobedecer ordens. Mas você sabe que as ordens eram apenas nossas. Era nosso o mundo no qual brincávamos de tudo. De construir e demolir castelos. Eu me irritava quando você buscava sensações que eu poderia trazer a você assim como trazia as pequenas coisas que me pedia. Eu organizava seus dias para que pudesse brincar comigo em nosso tempo de ainda sermos juntos. Porque, se havia algo que me importunava, era saber que um dia você ganharia outros mundos e nossas tardes e nossos dias perderiam a tonalidade que tanto nos unia. Idade maior chegando, você atormentado de sonhos e eu menina demais para saber como poderia servir ao senhor de meus anos. Mas, um dia, inventei de ler um livro já lido por você. Era de poesia. O tormento maior que simplórias almas não suportam. Eu li durante uma tarde inteira enquanto você esteve fora de casa caçando ares que não alimentam. Você dizia que estava sempre com amigos. Mas era outro o seu enredo. E percebi sua verdade ao ler seus livros de poesia. Quanta vida, quanta morte, quanta vontade. Sentidos me invadiram e eu mal sabia respirar e já estava sedenta por algo que havia se tornado essencial. Eu afastava amigas, vizinhos, sorrisos. Passei a ler poemas todos os dias para penetrar no mundo de meu irmão que de mim já se sentia exausto. Dizia-me sempre para eu brincasse sozinha porque você estava cansado e havia coisas a fazer. Eu não possuía mais o menino que brincava desde as primeiras horas do dia até o fim da tarde ou começo de noite. Você crescia e percebi, ao ler poemas, que também já me excedia em idade. Eu desejava não mais o sorriso infantil. Era carne que ardia e lembro-me bem. Brincávamos sozinhos e você estava impaciente porque dizia ter algo a fazer e eu já armava planos e nunca fora indecente sua irmã. Era só poesia que me adulterava a fome. No quintal, era por do sol, voltei com brinquedos nas mãos e você não mais queria brincar. Seu olhar era imenso de espanto. Fora assim desde o início quando eu ainda era menor. Quando nasci, disseram-me que você não sossegou até ver sua irmã e queria tanto tê-la nos braços. Fomos unidos durante toda a infância. Nunca ninguém ousou me tocar porque havia você em todos os lugares. Você me guiava para ser sua sacerdotisa, alguém em quem pudesse confiar, alguém que ouvisse suas rezas de pecado durante a noite e nunca contasse seus segredos. Eu queria apenas tê-lo. E percebi que era tempo. Você me desejava à pele. Queria mais que sangue e sorrisos de irmão que protege. Você queria a mulher e eu já havia me tornado imensa como você desde o dia em que li seus livros. Ainda havia inocência. Mas era uma inocência de idolatria. E, no quintal, feito irmãos, você abriu meu corpo com suas mãos e penetrou sua alma idêntica e me fez adoecer em dormência. Eu estava completa. Era meu irmão que me fazia liberar represas de um desejo que crescera nas tardes de nossas vidas sempre tão contidas e felizes. Mas algo nos atormentava e fora eu a primeira a tomar razão. Envolta em seus braços, lembro-me bem, depois de saciados, seminus, atados em um só corpo, sorri de menina que era mulher e prometi que seria eu a desgraça a lhe corromper a vida. E hoje, ainda jovens e afoitos, visito meu irmão e abro meu corpo para que ele se faça completo. O mundo não nos entenderia acaso nos visse deitados e completos em comum acordo de perfeição. Sou mulher de meu irmão e dele nunca serei dividida. Estamos serenos, embora inquietos, desejando da fome herdada, o corpo que da semente nunca será corrompida.


É amor tudo isso? Não se sabe, não se saberá. Mas é um patrimônio de incomensurável valor para outras existências que não as nossas a prática de nossos atos. Sentimentos verdadeiros são patrimônios humanos, portanto devem ser zelados por nossas instituições de fé interna. É assim como penso. Havemos de nos prontificar para a construção de um legado de paz nos corações dos outros que nada têm. A humanidade que nos espreita pode aprender o gosto da vida conosco e com os incríveis beijos de nossas paralelas que se chocam nas bordas mais imponderáveis. É irresistível, confesso. Não posso amar de outro jeito senão te amar na irmandade de ser, do ser, de sermos. Tal bordadura imprevisível que apostou no tempo e fez dele amplificador de saudades sadias. E o que dizer das lembranças que possuímos de tudo que fizemos juntos? Daria para encher centenas de velhos baús com nossas reminiscências, não daria? Mana, eu te amo como a natureza ama a cor, como a água ama o rio, como o fogo ama o gás combustível. Explodiremos feito estrelas em supernova até o dia do juízo final. E ai de nós que praticamos o amor ilegal... ai de nós! Como devem ser suaves as queimaduras do inferno! Ah, como é belo o inferno de amar!

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"- No Title 19 -
by ~KARRR"
Deviantart

Textos:
"Anderson Cádor" e "Virgínia Borges"

Curiosa disse...

Germano, gostei muito de seus escritos ...
bom encontrá-lo ... um ótimo 2011.
bj

Controvento-desinventora disse...

Incesto literário...Lindo texto!