sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Mais um tempo de nascer





Sejamos francos: o mundo já não pode ser mais descoberto. Já invadimos os seus escuros. Todavia, ainda é um dia bonito esse. No corredor externo estou, no manejo de minha antiga máquina de escrever, hoje revisitada por meus artelhos. Bonito também o cenário que minha parte oeste agora avista, um céu sutilmente azul, sem exageros, dois coqueirais adolescentes, verdes com extremidades douradas. E tudo isso por detrás do muro rosáceo que traça um espaço limítrofe com a casa contígua. Mas eu sei – a gente sempre deseja o além e o ademais das coisas -, ou imagino saber, que a vida não é só isso que nos acerca em rutilâncias e fulgores. Creio isso ser o de menos, o fungível. Dizem os sinos que o Bom Homem nasceu e que ano finda agora. Mas não conheço o Homem e nem sei se acredito. Tanto que se porventura alguma vez em minha vida estive ao seu lado, não me ative aos seus encalços. E no momento estou descalço. Na verdade, nenhum borrachudo abafou meus pés no dia que acontece. Coisa de cinco graus abaixo da temperatura ambiente é como deve estar o velho piso retangular e avermelhado do rol em que estou, mas não estou com frio. Dificilmente sinto frio. Tenho essa sensação por outras coisas, não pelo frio propriamente dito, mas que ela existe é certo que sim. E é justamente por esses desencadeamentos, muitas vezes inoportunos, que tomo consciência do quão estranho posso ser se. E sou somente isso? Certamente não. Significo. Fito novamente o vermelho dos azulejos. Sinais de passos não existem, como não há nada de interessante em meu horizonte leste. Apenas um lavabo sujo onde as pessoas se imaginam purificadas depois de um ligeiro asseio matinal. E sei que o cachorro também é leste, o quintal fica para o ocidente. Todavia, nem sempre foi assim. Será sempre para sempre? Mas nem os “todavias” importam agora. Dizem as línguas, boas e más, que alguém nasceu e o ano finda. A vida sempre está além de qualquer coisa. Entre outras pessoas, o não se ater ao ínfimo é coisa natural. Não sei suprir minhas deficiências com suplementos vitamínicos sintéticos. Não sei. Aprendi desde cedo que o bom mesmo é o que dá trabalho, que nos faz pestanejar, suar. Aquilo de sentar a bunda numa cadeira, noite inteira, noite adentro, aquilo de suar a camisa, de matar o leão diário. Aprendi em casa que a vida, para ser boa, tem de ser dura. E tem sido assim comigo desde o dia em que resolvi que morreria escrevendo. Tem sido árdua a minha vida, apesar de não parecer. Disse, sim, ensimesmado, numa certa tarde de março ou abril, de algum certo ou incerto ano, que minha missão aqui na Terra seria escrever, deixar coisas impressas em papéis. Escrever sobre tudo, sob tudo, com pressa, compresso, sem, com, amando, detestando, não e sim, escrever, escrever sem fim. Faz alguns anos e hoje estou dos meus vinte e tantos de vida. Os últimos passei lendo e escrevendo. Poemas sem pé nem cabeça, prosas sem graça, com graça, desejosas, textos e textos. Vida escorrida do meu peito, do que já vi, ouvi, li, senti. E mesmo olhando os muitos papéis que guardo comigo, tingidos numa letra horrivelmente medonha, perco-me e não sei dizer se estou indo como desejei. Mas sinto que estou seguindo. Passos lentos, ingênuos ainda, mas estou. E isso me faz alegre, porque triste já sou de nascido. Escrever me faz acordar do pouco sono que durmo, alimenta-me na tarde dominical de fome anímica, seduz-me, apaixona-me, diz a mim que sou algo e isso basta. Sou algo para mim, e basta! Escrevo, escrevo, escrevo. Escrevi. Escreverei. Sim, escreverei até quando me for possível escrever, até quando me for possível destilar minha água podre ou límpida num papel alvo, puro de tanta criança interna. Portanto, faça daí que faço de cá. Esqueçamos um pouco dos frios e acendamos nossos quentes. É um pedido. Feliz 2011.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Quando a morte passa e balança os roseirais coloridos





Não consigo chorar. Mas eu devia. Hoje, sob o sol pernambucano, fez-se surgir a Morte, sempre apressada para os de bom coração, e para a dona de uma das mais belas histórias de vida que já conheci em toda a minha vida. Estelita vai continuar sendo o nome de uma mulher de grande bravura. Os são-bentenses de todas as gerações, mesmo essa juventude sem senso de irmandade, sem sentimentos e artificial, deveriam render a ela suas merecidas homenagens. Talvez o meu choro não significasse nada diante das inesquecíveis lembranças que trago ao lado dela. Quando penso em minha infância, uma das primeiras imagens que me vêm à cabeça é a da minha tia preparando bolos à mão. Era um ritual bonito de se ver. Ela encostava uma pequena bacia plástica ao corpo, na altura do umbigo, e ficava horas misturando a massa com uma colher de madeira. Eram bolos irresistíveis. Ainda mais quando vinham acompanhados de um bom naco de "raspa", um tipo de queijo tradicional naquelas bandas nordestinas. Não deixou filhos, só a certeza de que a Vida é uma criança ou um animalzinho de estimação, que por isso deve ser muito bem criada ou domesticada, para não dizer vivida. Não deixou filhos, mas deixou saudades. Uma coleção completa delas, passando pelas saudades eternas (que nem os ácidos da vida corroerão) até as saudades dos gestos e fatos mais triviais (nem por isso menos inolvidáveis). Estelita, que era e continuará sendo irmã do meu pai, trazia em sua totalidade humana uma bondade demasiado farta. Minha tia sabia viver! Mesmo moribunda, consequência de um diabetes que lhe tirou boa parte da visão, Estelita regava todos os dias as roseiras do seu mundo. Sabia das fontes mais próximas e das águas mais cristalinas e puras, mesmo em terras onde a liquidez das coisas é deveras escassa. Saía de casa quando o sol ainda estava se mostrando infante, numa disciplina e pontualidade suíça, e caminhava a alma do rio Una como se preparasse para uma batalha que sempre estava próxima a acontecer: a batalha por uma vida doada à felicidade dos outros. Certamente o mundo perde uma de suas mais belas atrizes principais, pois ela não se aceitaria no rol das figurantes. Estelita era muito mais que uma personagem, era o próprio elenco, um coletivo de gestos de solidariedade e de amor que faziam-na dona de um grande exército de admiradores de sua índole, de seu caráter e de toda a sua dedicação. Quando a morte passa e balança os roseirais coloridos, só haveremos de perceber a presença do vento, que se esconde por trás do farfalhar das folhas verdes. Mas a Morte se viu retraída diante da fortaleza de espírito que Estelita possuía. A Morte passou e só conseguiu levar a matéria, a carne, a parte que apodrece com a ação do tempo. A verdade de suas palavras, o afeto de seus carinhos, o abraço quente e acolhedor de seus braços, os registros de luta de seus olhos, a transparência de seu gestual sensível e piedoso, assim como a garra fibrosa de sua sertanidade permanece, tudo isto permanecerá vivo e atuante como um exemplo para os que a rodearam... Segue tua viagem, assinalando com suas mãos firmes as rotas mais dignas de serem atravessadas. Com sua missão cumprida, tia Estelita partiu para as nuvens mais alvas do céu, onde somente as almas imortais conseguem chegar.

Este texto foi escrito (In memoriam) em 15 de dezembro de 2005, como preito à morte de Tia Estelita. Porém, boa parte das palavras nele contidas servem também como uma homenagem póstuma à Tia Preta, falecida no dia de ontem (13 de fevereiro de 2008), na cidade do Recife. Que descansem em paz...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A espera




de tanto esperar se atreve,
o homem - o atrever-se na espera -
tomba a redobrar-se na esfera
do tempo, que se faz de breve.

vive, vivo, a vida é fria amplitude
quando se quer em jás a eternidade
e desejar-te, assim, seren'ansiedade...
um vil e mudo estandarte d'atitude.

e eis que se troto minh'andança
na simples espera d'encontrar-te,
minha, fina flor d'esperança

a germinar... oh, campos de marte!
long'estás, fugaz suspiro. ru'desencontro,
o de querer ter-te a vir d'encontro.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Justo, justíssimo





"Mas por que não criar o projeto, o destino?", balbuciou o homem esquelético que vestia um paletó de brim já em frangalhos. Eu tinha acabado de pegar o ônibus para a estação da Lapa. De Brotas até lá, por todo o percurso dediquei-me a ouvir o homem. "Passei várias noites sem dormir direito, levantando angustiado e aos sustos. A vida é tão curta, sabe. Tão traiçoeira! O rapaz tão novo, estudado. Bem de vida já, casado. Era engenheiro elétrico da Continental e na honestidade devia ganhar 7 mangos todo mês. Tinha uma filha bonita, saudável, uma mulher zelosa. Sabe, eu fico me perguntando o porquê?"

"É mesmo assim. Quando Deus quer, nada atrapalha. Não adianta. Deus é sempre justo, justíssimo!", disse a senhora que dividia o banco com ele. Quando eu ouvi aquilo, fiquei encabulado. Qual a palavra que poderia definir Deus? Seria "Justiça"? Ou "Amor"? Qual? Quem poderia me responder isso? Alguém? Mas, há mesmo Deus? Quem é? Fiquei todo torto na cadeira, sem jeito, como sempre fico quando algo me perturba. "Mas que justiça injusta essa, não?", pensei comigo. Levar assim, tão jovem moço, para o abisso do desconhecido. Deixar órfã uma linda menina de 11 anos. Enviuvar uma dama no auge da idade, idade balzaquiana.

"Que justiça é essa, meu Deus?", alinhavei. E desde quando acredito tanto em Deus pra render culto assim, pedir explicações em momento tão embaraçoso? E por que estou escrevendo a palavra "Deus" assim, com letra maiúscula? Algum temor perante justiça tão cruel? "O que está acontecendo comigo? O que aconteceu comigo?", vociferei com meus botões, arrefecidamente. Senti o ar abafado. Sinais de fumaça, muita. Estávamos na Estação da Lapa. Umidade fumacenta entrando pelos pulmões e poros. Comecei a suar, andando. Sou um sujeito imprestável suado. Não consigo me concentrar. E eu tentando matutar mais sobre o ocorrido dentro do ônibus. "Quem me censurava? Por que não conseguia continuar a reflexão sobre aquela conversa?", gritei internamente, inquirindo-me. As pessoas me atropelavam, esbarravam em mim. Depois lembrei da frase proferida pela senhora de saia e batom escarlate: "É mesmo assim. Quando Deus quer, nada atrapalha. Não adianta. Deus é sempre justo, justíssimo!"
...

Continuei caminhando. Na lanchonete mais próxima, pedi uma água mineral bem gelada. Muito desgaste para um dia que apenas começava.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Do verbo mudar




Devíamos mudar de comportamento com a mesma frequência que trocamos a mobília da nossa casa. Uma nova decoração para cada etapa da vida. Papéis de parede e tintas coloridas deviam acompanhar a nossa infância. Aliás, as tintas coloridas deviam ser itens obrigatórios durante toda a nossa existência. São, de fato, muito importantes. Diria, para ser mais franco, fundamentais. Para a mancebia, cores mais instigantes, objetos mais pontiagudos e/ou afiados. Afinal, é um período de sangramentos, de cortes, de feridas e de cicatrizes. Mascarras e sequelas que servirão justamente para nos definir, para nos caracterizar (de caráter). Espelhos cairiam bem, muito bem. Espelhos por toda a casa. No quarto, atrás da porta. Na caixa do banheiro. Outro grande, bem grande mesmo, na sala de visitas. Um de igual proporção no quarto das crianças e um também na garagem. Assim como todos, este breve intervalo de tempo, se mal aproveitado ou mal utilizado, muito nos compromete e nos aturde. Por isso os espelhos. Necessitamos, aqui, estar sempre em contato com a nossa imagem, no desígnio de nos auto-encontrarmos, de realizarmos uma autocorreção diária. Já que andaremos feridentos pelas ruas dessa nossa imatura idade, é sempre bom saber enxergar as nascentes desses horríficos ferimentos. Para isso servem os espelhos.

Ó deuses, santificai os espelhos que podem refletir as almas dos homens!

Quando adultos, uma boa receita seria mesclar um pouco da inocência infante com o tom cinza da responsabilidade e das ações resolutas que sabem resumir bem as formas e perfumes desses vergéis, sem jamais esquecer de pôr uma pitada de amarelo-mostarda nesse prato, pantomina das conquistas pessoais, materiais e espirituais. Seria essa a fase do aprimoramento, da concretização e do reconhecimento. Uma etapa de muita cautela e paciência, de muita experiência. Os móveis, aqui, deverão estar muito bem combinados, em perfeita harmonia e ajuste. Sem folgas, os parafusos apertados no simbolismo da segurança, da racionalidade em detrimento da emoção. Nada de pinturas surrealistas ou abstracionistas na ornamentação. A distorção das coisas, dos fatos, aqui, não será de muita valia.

Agora, um sinal de alerta. Uma advertência para o estado das gavetas. Conservem-nas sempre muito bem fechadas, cerradas até o limite dos seus "umbrais", até que toquem as suas outras peças de contato. Não é proveitoso deixar brechas nesse patamar da vida, elas podem ser extremamente perigosas. Podem significar más influências, dissoluções e , acima de tudo, conflagrações que irão nos dissolver por completo, nos queimar e , na pior das hipóteses, nos tornar inúteis, meras estátuas de carne estragada ou aparelhos fungíveis.

Depois da fugidia aurora temporal, será preciso uma acurácia tamanha na arrumação e na escolha e na preferência das tintas que irão predominar em nossas vidas. Ao cabo dos semblantes marcados, caberá agora o uso de nossas ferramentas de defesa, de nossas armas de retaguarda. É o tempo de sermos insolentes, chegando ao extremo, de derrubarmos muralhas e fortes com os nossos aríetes ou com os nossos gládios, numa batalha mais dura. Um tanto que alquebrados, disporemos de nossa adormecida impudência, no justo intento de nos cobrirmos com os louros e com as glórias oriundas da sabedoria apreendida com o fel das quedas. É momento de contarmos os nossos proventos e não de lamentarmos os nossos infortúnios, os nossos átimos de agouro. É local de desfrute, de deleite e de congraçamento. O perigo aqui é cair no abismo da obscuridade, dos gestos desvalorizados, tornados escórias e refugos. Cabe aqui o olhar vivo, clínico, em busca de diagnosticar a fonte do gozo etéreo. Os pensamentos e ideais devem percorrer os caminhos da eternidade. Debaixo desses trovões, pensar efêmero é retroceder e, como já sabemos, a infância é, a essa altura do campeonato, apenas um retrato na memória.

Devíamos mudar de atitude com a mesma periodicidade que trocamos de roupa. Todavia, tudo tem de ser muito bem estudado e necessário mesmo. Ninguém deve mudar por mudar, assim, sem precisão. Para cada ocasião, um novo espécime de sorriso, um novo modelo de cumprimento, sempre mais afirmativo e veraz. Pela manhã, na companhia do sol, um "bom dia" radioso e claro. No descanso solar, o "boa tarde" amigo e, no silêncio da lua, o "boa noite" sincero. Certamente, agindo assim, seríamos muito mais felizes. O número de pessoas depressivas decresceria. O estresse não faria tantas vítimas.

Na vida, tudo é uma questão de arrumação e de bom senso. Se bem soubéssemos, a partir desse instante selecionaríamos as nossas amizades da mesma maneira que escolhemos as tintas que colorirão os cômodos de nosso lar. Selecionaríamos os gostos, se amar ou não, se querer ou não, se ir ou não, se ser ou não. Da mesma forma, jogaríamos fora as nossas desilusões, os nossos desapertos e desapegos, assim como descartamos algumas peças do vestuário. E viveríamos mais e melhor, sem distorções, sem desatinos. Então, o que você está esperando? Acho que é hora de uma faxina geral...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sobre o selvagem




A Luís Osete


Ele está - porque me perguntam, respondo, os lógicos -
ali, tão perto e tão distante, tão-somente
só em se deixar estar perdido, inerme,
disfarçadamente esconde tua cidadela,
teu forte, nos arroubos do branco.
Tua tez, tua estrela - o teu fado?, fardo? -
de universar, de mundar, de amadurar
em sempre. Aonde tu vais, passarinho?
- perdido, ai, na perdição mais deliciosa,
a arte, de viver, de sonhar, de estar
sendo, onde tu te encerras? -, bicho
do mato que nem eu - esse menino
é muito homem. Viajado, procura a viagem
que nunca faremos, mas que ela existe,
tua procura. Investiga, deslinda, os
sons, os barulhos, as pegadas do tempo
que jamais ouviremos, mas que elas o habitam,
um caçador. E quando batem à porta,
digo que está, e que não te atenderás
porque navega o inextenso espaço. Vais,
não acompanho, deixo-te seguir, não singro
teu mar, respeito-te, amigo, irmão, nosso oceano
de ganhos desponta - tua psicologia em silêncio
e ausência - mais que presente em se estar
junto, teu jeito, meu jeito, o jeito
desajeitado de ajeitar o mundo, tantos.
A liberdade na chave que carregas, de ouro
o olhar, o gesto, o apreço, a manipulação
das horas. E quando te chamam, persisto,
e digo - atenderás, os lógicos? -, não a ti,
mas aos que vêm, curiosos, teu desgoverno.
Não te acordo, deixo-te o sono, eterno,
deixo-te a paz, dos desvarios, das certezas loucas.
A tua verdade, anda, não te prives, vais,
qual bicho do mato, sem vis governos.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Retalhos ( I )





I
Ela lavava a roupa como se estivesse lavando a alma.


II
Poetas são passarinhos, simplesmente voam, e nada mais que isso, mesmo sabendo eles que não há ação mais bela que voar, nada mais ostensivo.


III
No fim do dia, a tarde febril corou-se de carmesim.


IV
Dormir é cobrir o corpo de noite.


V
- Mãe, tô saindo de casa!
- Então vista uma roupa, meu filho.
- Não precisa, mãe.
- Como assim?
- É que eu vou poetar!


VI
Vento ventania vem viaja voa vai...


VII
Outro dia me perguntaram se eu tinha medo do amor.
Eu respondi que tenho.


VIII
No meu aniversário de julho, ganhei um amor novinho em folha. Mas o melhor de tudo foi ouvir o crepitar do papel de embrulho quando comecei a tomá-lo para mim. Todas as expectativas são mesmo mágicas.


IX
Preamar
Mar pr’amar
Pra amar
Você


X
Dicionários...
O meu,
quase duas mil páginas.
Quanta poesia, meu Deus!


XI
E que sina é esta, tamanha,
de estar sempre se machucando?
Pátria mãe gentil, Brasil!,
a tua sorte, quem viu?


XII
Vender-se–á poesia no varejo,
a um preço único:
o do desejo.

XIII
a) Idade da Pedra Lascada:

Coca! Cola! Coca! Cola!

b) Idade da Pedra Polida:

Uga, Uga! Uga, Uga! Uga, Uga!

c) Idade dos Metais:

Uhr, Uhr, Uhr, Uhr, Uhr, Uhr...


XIV
Não há nada mais bonito que a luz
de uma estrela pequenina.
Claridade sem lâmina a dizer:
embebeda-te, ó cancioneiro!


XV
Existe tanto na pouca distância
que nos separa e nos priva
de vivermos... não imaginas
quanto...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Juazeiro: Terra do Sol




O papel mais importante do cronista talvez não seja o de elaborar um retrato de um determinado tempo, de um momento na história, de um espaço no universo dos fatos, numa antevisão de que tudo isso pode ser o resumo de toda uma ópera litero-jornalística baseada apenas na ação contemplativa, derivando-se, posteriormente, para a reflexão. Ainda sou daqueles que confia mais na potência dos olhos, do saber ver, do saber manipular o ínfimo na direção do gigantescamente sublime. Ao contar o presente panorama juazeirense através do seu livro-reportagem, Josemary Nunes consegue demonstrar que o leve e breve comentário acerca do acontecimento cotidiano pode e deve ser permeado de elementos narrativos e ferramentas outras que possibilitem a ancoragem do sentido textual no melhor cais da palavra. Um dos acentuados pormenores da obra está logo diante de nossa face: a comicidade. Não o efeito do riso e da graça gratuita, mas a sábia caricatura do que afronta a ordem sisuda do texto, o gesticular de imagens e sons que a palavra abarca quando é bem tratada. Daí um mundo inteiro de significações mais verossímeis e relevantes atingir os mais recônditos lugares no homem habitante do real. Juazeiro da Bahia surge em suas diversas facetas, doces e cruéis, ingênuas e obstinadas, despida e ficcionalizada. Com toda a licença possível dada à escritora, nuances míticas e simplórias dividem espaço com o jogo do que é mais trivial e carismático na cidade. Eis um trabalho que tenderá a fabricar novos caminhos, novas esferas de visão, renovadas atmosferas interioranas, surpreendendo-nos com toda a beleza e toda a feiúra de um lugar que, antes de qualquer outra consideração, ensina-nos a suportar o duro sol dos puros castigos no simples movimento do piscar de olhos, numa imorredoura rotina mista de dor e prazer. A cidade, sem sombra de dúvidas, vive e revive nas crônicas de Juazeiro: Terra do Sol.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

No reino do barro e da criação





O perfil jornalístico parece um recurso fácil para um escritor que resolve fundar um reino dentro de uma realidade objetiva ou, ainda, “mitificar” uma personagem. Coragem é o que não falta a Emanuel Andrade, salgueirense radicado em Petrolina, que após inúmeros encontros com a louceira Ana Leopoldina dos Santos, a Ana das Carrancas, resolve documentar a trajetória de vida e criação de uma das mais ilustres artesãs do nordeste brasileiro. O livro A Dama do Barro é um retrato, dentre vários possíveis, de uma sertaneja que, mesmo atravessando os difíceis obstáculos de uma existência sem regalias, soube gerar um novo mundo a partir das suas necessidades. O que não é desencontro num lugar onde o tempo nega-se à linearidade, ao menos o da perfilada - as informações da evolução da narrativa recuam, antecipam-se -, perde-se no que parece essencial, justamente para que o leitor possa, ele mesmo, andar por um universo artístico produzido por uma mente iluminada. Nas condições em que transcorre seu percurso de fugas, sempre no anseio de uma situação mais digna para se viver, Ana escancara momentos que marcariam profundamente o seu destino, como as viagens que fizera às cidades de Picos e Petrolina, o casamento com o deficiente visual José Vicente de Barros, o encontro “fantástico” com o rio São Francisco e a realização de seu maior sonho: a construção do Centro de Arte e Cultura Ana das Carrancas. A multiplicidade de olhares e significados atribuídos às misteriosas carrancas faz o próprio autor, na apresentação, procurar o que traria unidade ao livro, “uma história que tocará aqueles que têm sensibilidade para com a beleza que ainda existe no centro, ou no fundo do coração, do ser humano; o qual enxerga, com olhos bem acesos, a arte como outro ponto de partida para tudo que é belo no horizonte da vida”. Toda a carreira desta “sertanartista” nascida no Sertão do Araripe, suas perdas e suas glórias, sua devoção ao barro (matéria-prima de suas iluminações) é, sem dúvida, o leitmotiv para o livro que pretende relatar boa parcela do universo intempestivo de uma mulher que veio ao mundo disposta a ser, literalmente, maior do que a vida.


Texto publicado no Jornal Laboratório Cobaias (Publicação UNEB/DCHIII/2007)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Fortuna crítica ( III )


Carol P., do blogue http://www.theartbrazil.blogspot.com/, andou por estas minhas plagas equatorianas e acabou escrevendo o texto que se segue, por mim abraçado como fortuna de autoconhecimento. Obrigado pelas palavras, Carol. Abraço forte. Continuemos...


somos o que não somos – é essa a dor canalha que dilacera?

Conheci dia desses um cara. Quer dizer, conhecer – levado à sola da letra, ou à ponta do termo – não conheci. Fui descobrindo na sintaxe dele algo muito além do rés-do-chão. Ou – o que me pareceu tanto mais interessante – palavras dele saindo de um pavimento de concreto-asfalto, portanto chão, e se tornando imagem, também imagem-chão.

E foi virando ideia fixa. Desde o início da semana. Em meio a um sem-fim de coisas por fazer, tic-tac do cotidiano abafado – e imprevisível – em que a gente residua, querendo ou não (eis um luxo que não nos cabe), foi virando ideia fixa passar sempre por uma galeria de palavras das quais eu ia dando notícia, de mim para mim, dia-após. Um equador das coisas. De coisas. Palavras hediondas. De um cara que se diz também hediondo. Equatorial no jeito de entranhar as coisas e de se deixar ensimesmado com o que extrai dessas mesmas coisas. Pudera! Uma escrita sem linha. Uma sintaxe que vai fluxoconscientizando dali, sendo esse ali um equador de coisas ou propriamente o chão.

Uma vigésima parte qualquer de um texto qualquer – foi o que eu li primeiro. E foi também o que eu mais pressenti não saber explicar. “Somos urgências e o nosso tom é de morte”. Ou de vida que só se definirá no ato mesmo-foice que, sancionado, poderá então sancionar. “O nosso tom é de morte”. E talvez o vício nos caiba mais do que um nome. Ou um lugar. Somos, afinal, urgentes. Os vidros dos carros, os faróis, cinemas e supermercados, homem depois de homem, semáforos, compromissos, mãos que apertam e surram, tudo isso nos vem descendo e entranhando, ainda que em (conta-)gotas. E em tempo que aos outros soa hábil. Ou não.

O que não somos, Germano-Equador-das-Coisas, é o que nos faz ser. E desfazer. Encontrar no que não foi dito uma sanção escamoteada – de morte, que seja! – ou ações que resvalaram sem dar o ar da sua desgraça nas páginas dos livros de tim-tim que nos fazem descer goela abaixo, naquela-ou-nesta faculdade de louros e letras.

Sentada nesta cadeira, de frente para a tela, aqui as letras suas entranham, ainda que. Expelindo coelho do que não sou, ou do que sou em demasia, de costas para o que não tenho, as coisas suas – equatoriais – aqui se se estranham, explicam para cegar, confundem e cegam. Mas é cegueira branca. Melhor dizendo, é transparente, sem ser isso ou aquilo que as pessoas acham por bem classificar. Foi o que me fez hoje, uma vez mais, ler texto-novidade seu. O de então sobre o cinema. Com o qual concordo discordando, porque assim vejo mais graça de começar a prosa, ou de encerrá-la por aqui mesmo.

Quem sabe um dia, sem sermos sócios de homens de negócios, tanto menos bartolomeus ou ptolomeus, não vamos dar nos atalhos de uma Vie Américaine, nos sobrados de um The Dreamers, nas trincheiras d’El Ángel Exterminador ou no enclaustramento absurdamente branco daquele 1,99-supermercado-que-vende-palavras?

O que não somos é, de fato, o que nos faz desfazer.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Ele: Ariano Suassuna





Abaixo vocês lerão o editorial do segundo número (esse escrito por mim, posto que a escrita deste excerto se dava em revezamento contínuo) da Revista Visões - antiga publicação "marginal" elaborada por um determinado grupo de alunos no início do curso de Jornalismo da Universidade do Estado da Bahia e, também, uma rápida entrevista com o escritor Ariano Suassuna, realizada no saguão do Hotel JB, em Petrolina-PE.

Editorial

Saudações, caros leitores!
É com grande orgulho e satisfação, para nós integrantes da Visões, o afloramento de mais uma edição de nossa revista. Depois de horas de debate e planejamento, decidimos tornar o projeto "materializante de ideias" num processo mensal. É isso mesmo! A sua mais nova fonte de conhecimento e de leitura construtiva vai estar todo mês esperando por você. O sucesso cativante e a repercussão positiva, concernentes aos textos que fizeram parte da primeira edição, impulsionaram-nos enormemente em direção ao movimento de prosseguimento do trabalho que iniciamos. E aqui está o resultado de mais um esforço coletivo, baseado na superação individual e na harmonia de um conjunto interessado na construção de um caminho mais libertário, mais humano e consciente, onde o desafio da vida é o combustível gerador de toda a nossa manifestação. O objetivo está mais transparente e límpido. Os alvos que almejamos estão menos distantes de serem atingidos, pois a cada frase escrita, a cada texto criado e a cada suor derramado ecoa em nossos corações o fascinante desejo de continuidade em busca de uma vitória. Faça parte deste mundo visionário, você também! Leia! Discuta! Abra as janelas para uma nova visão e leve adiante essa ideia.

Por Germano Xavier.

Entrevista

(Por Luís Osete, com apoio de Ayala Lopes e Germano Xavier)

A chama eterna do Imortal

Alguém me cutuca:
- Encosta o gravador na boca dele!
Gravador em punho, as pernas de Ariano já estão cruzadas e seus olhos pedem. Viemos, vimos, e agora é chegada a hora de entrevistarmos. Mas antes ele tem uma dúvida:
- Vocês são daqui mesmo de Petrolina?
- Não, nós somos de Juazeiro.
- Juazeiro, sim.
O pigarro veio como um aviso. É necessário começar:

Revista Visões - O senhor, no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), afirmou que "a força da tradição verdadeira é aquela na qual não limitamos a cultuar as cinzas dos antepassados, mas tentamos, sim, levar adiante a chama imortal que os animava". Então, qual é a chama imortal que te anima?

Ariano Suassuna - Bom, eu citaria como os mestres, aqueles que estabelecem uma tradição na qual procuro seguir, escritores como [o novelista espanhol] Cervantes (1547-1616), [o comediógrafo, diretor e ator francês] Molière (1622-1673), [o romancista, teatrólogo e contista russo] Gógol (1809-1852), os grandes clássicos gregos, como [o dramaturgo] Sófocles (496-399 a.C.) e [o poeta épico] Homero (séc IX-VIII a. C.). E, no Brasil, procuraria seguir muito de perto o meu mestre [engenheiro e jornalista] Euclides da Cunha (1866-1909), [o poeta satírico e lírico] Gregório de Matos (1633?-1696), o dramaturgo Antônio José da Silva, o Judeu (1705-1739 e [o romancista e contista] Lima Barreto (1881-1922). São os mestres que me tocam mais de perto.

Visões - A aula-espetáculo, como o senhor mesmo afirma, "é um espaço criado para deflagrar uma discussão sobre a cultura brasileira", e sua primeira aula foi aos 19 anos...

Ariano - Aos 19 anos, apresentando 3 cantadores [os irmãos Batista-Dimas, Otacílio e Lourival] e um poeta popular [Manuel de Lira Flores], no teatro Santa Isabel, Recife. No dia 26 de setembro (dia desta entrevista) de 1946.

Visões - O que mudou de relevante no modo de se estar pensando a cultura brasileira?

Ariano - Eu tenho uma visão, como você mesmo acaba de citar reportando-se ao meu discurso, de uma espécie de continuidade da cultura brasileira, e mais recentemente, procuro me manter na linha traçada pela Escola do Recife, do [crítico, historiador da literatura e polemista] sergipano Sílvio Romero (1851-1914). O romance de 30, o folheto de cordel e os espetáculos populares brasileiros também exerceram uma influência fundamental na minha formação. Agora, quando disse esta frase [no discurso de posse da ABL] eu estava vendo que a situação da cultura brasileira se encontrava pior do que está atualmente, quer dizer, acho que hoje já está mudando alguma coisa. Você veja, por exemplo, a Rede Globo hoje está procurando se aliar a nós que defendemos a cultura brasileira. Antes havia uma espécie de indiferença ou hostilidade, hoje você vê na Rede Globo, num programa visto como é o Jornal Nacional, um quadro chamado de Identidade Brasil, ou seja, a Globo está começando a se preocupar com a identidade cultural brasileira.

Visões - Quando surgiu a preocupação de proteger a cultura popular do lixo produzido pela indústria cultural de massa?

Ariano - Ah, isto foi muito cedo, eu era talvez da sua idade quando comecei a me preocupar com isto. Entrei na faculdade de Direito com 18 anos e me juntei ao movimento do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), sob a liderança do [romancista, dramaturgo e ensaísta] Hermilo Borba Filho (1917, PE - 1976), um escritor que desempenhou um papel muito importante na minha formação. O TEP já tinha esta preocupação de preservar a nossa cultura e lutar contra o processo de descaracterização e de vulgarização da cultura brasileira, processo este que estava em curso já com os meios de comunicação naquela época e que se agravou daí em diante. Realmente, agora, estou notando por parte da juventude uma coisa que me deixa muito animado, os jovens hoje, da sua idade, estão mais preocupados com isto do que as pessoas de meia-idade, dos velhos como eu... alguns têm esta preocupação.

Visões - No dia 7 de outubro o senhor completa 60 anos de vida literária...

Ariano - Publiquei pela primeira vez um poema [Noturno] no dia 7 de outubro de 1945, no Jornal do Commercio, de Pernambuco.

Visões - O senhor poderia enumerar alguns méritos e equívocos que marcaram sua trajetória literária?

Ariano - Eu me preocupo muito com aquilo que fiz quando escrevi minha primeira peça, Uma Mulher Vestida de Sol (1947), tinha 20 anos de idade. Aos 30 reescrevi-a, já preocupado porque estava achando que tinha faltado alguma coisa. Uns 30 anos depois tive um pedido do meu amigo [cineasta e diretor de televisão] Luís Fernando Carvalho para que eu permitisse ser adaptada à televisão, aí fiz uma terceira versão, e acredito que ainda vou fazer uma quarta.

Visões - Quem são os artistas atuais que melhor representam o espírito do Movimento Armorial [surgido no dia 18 de outubro de 1970, com o objetivo de criar uma arte brasileira erudita, baseada nas raízes populares da nossa cultura]?

Ariano - Olha, nós temos um grande artista plástico [gravador, pintor, desenhista e professor] chamado Gilvan Samico (1928, PE -), que eu considero o maior gravador brasileiro de todos os tempos. Agora, nós já estamos na quarta geração de Armoriais. O movimento começou com 4 artistas; dois músicos: [o compositor, arranjador, violonista e regente] Guerra Peixe (1914, RJ - 1933) e [o compositor e instrumentalista] Capiba (1904, PE - 1997), Gilvan Samico e eu. Então esta foi a primeira geração de artistas armoriais. Depois veio uma segunda geração, integrada por músicos como Clóvis Pereira (1932, PE-) e Jarbas Maciel. A terceira geração teve pelo menos dois grandes artistas: o multiartista Antônio Nóbrega (1952, PE-) e o compositor Antônio Madureira (1949, PE-). E a quarta geração [geração que consolidou as manifestações da estética armorial nas artes plásticas], onde estão meu filho Manuel Dantas Suassuna, Alexandre Nóbrega [assessor de Ariano], o ensaísta, romancista e poeta Carlos Newton Júnior e Guilherme da Fonte (genro de Ariano).

O Ariano sol dos Arianos





Manhã de 26 de setembro de 2005. Um alvorecer como todos os outros, normal? Fosse normal e este texto não existiria. Fosse apático e não haveria esta minha inquietude em escrever. Sol. Por volta dos 40 graus. Temperatura elevada em corpo e alma.

O telefone tocou:
-Venha para Petrolina. Acho que vai dar certo!

Olhei o relógio. Os ponteiros marcavam doze horas e vinte e seis minutos. Por um instante travei confusa batalha com a pressa. Eu era um alvoroço. Fechei a porta de casa, e era como ter a leve impressão de ter esquecido algo importante. Mesmo assim, caminhei. As horas eram pássaros.

Logo a orla, as barcas, a ponte, o majestoso rio São Francisco... e o verde, o verde de toda a minha esperança. Lembro que, durante a travessia do Velho Chico, folheando as páginas de meu caderno, encontrei um poema do Abgar Renault numa folha solta. Confesso que não consegui lê-lo, e se li não houve compreensão alguma, tamanha era a convulsão interna em minha criatura.

Cheguei. Mais alguns passos e acabaria avistando, numa esquina, sentados, com caras de expectativa, meus colegas Osete e Ayala. Três pobres mortais, alguma pressa, alguma paciência, algumas perguntas e nenhuma resposta. Dois ou três quarteirões vencidos e logo estaríamos no portão de entrada do JB Hotel. Um olhar de soslaio e a ligeira constatação: lá estava ele, sentado, ao lado de sua esposa Zélia e de mais duas pessoas.

Parei, atônito com a complexidade do momento. Nesse ínterim, percebi que tinha realmente esquecido algo de relevante em meu aposento. Tivera eu esquecido, sob o meu travesseiro, o significado da palavra "profissionalismo", e percebi que assim estaria mais livre.

Entramos. A vontade era insana. Osete foi ao encontro de Alexandre Nóbrega, assessor do Imortal paraibano de Taperoá. Nesse momento, o "Titã Sertanejo" se levantou , olhou sorrateiramente para nós (eu e Ayala) e, amorosamente, abraçou uma senhora. O clima era de despedida. Logo pegaria um avião (ação que detesta), com destino à cidade de Recife, onde mora atualmente.

Foram dez minutos com ele, ao lado dele, sentindo o transpirar arfante de uma alma de 78 anos de idade e de uma brasilidade única. Confesso que no auge do meu cataclisma, minhas pernas tornaram se bambas. Confesso, também, que não prestei a devida atenção na entrevista produzida por Osete (que também tremeu). Não haveria como. Ayala, de joelhos, copiava o que se podia. Tantos nomes, tantos autores, tantas referências, tanta vida... e um só nordestino. Prendi-me ao teu vivo olhar, à tua face singular, às tuas brancas sobrancelhas, àquelas mãos marcadas por veias proeminentes, ao contraste do lenço branco no bolso com o seu paletó de linho negro, provavelmente feito por uma costureira popular desse vasto nordeste, ao teu cruzar de pernas, ao teu pigarro viciado, à tua voz rouca, à tua serenidade, àquele Brasil natural, sem plásticas.


Texto publicado na saudosa "Revista Visões! Materializando Idéias", sobre o contexto e a emoção de conseguir estar ao lado de um dos maiores nomes de nossa literatura, Ariano Suassuna. A entrevista fora publicada na íntegra na edição de número 5 da revista. Osete e Ayala são colegas de faculdade e, assim como eu, devem guardar na memória esse momento indelével e único.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Panorama comunicacional boliviano





→ Breve histórico do país

A Bolívia é um país que pertence à América do Sul. Limita-se a norte e a leste pelo Brasil, a sul pelo Paraguai e pela Argentina e a oeste pelo Chile e pelo Peru. Tem como capitais, Sucre e La Paz. É um país sem litoral, considerado o mais pobre de todas as nações da América do Sul, possuindo baixos índices sociais. Também possui a segunda maior reserva de gás natural do continente, apenas superado pela Venezuela.

A população é predominantemente indígena ou de origem indígena, o que faz da Bolívia um país multicultural. Fora das maiores cidades, é comum não se entender espanhol. O povo boliviano é bem receptivo. Quem vai ao país tem que mascar folha de coca e beber chicha; lembrando que a folha de coca é sagrada, receba sempre com as duas mãos.

REPÚBLICA DA BOLÍVIA

• Nome Oficial: República da Bolívia.

• Superfície: 1.098.581 km².

• Situação geográfica: América do Sul.

• Limites: Está atravessado pelos Andes e limita a oeste com Chile e Peru, ao norte e ao leste com Brasil e ao sul com Paraguai e Argentina.

• População: 9.427.000 habitantes (2004)

• Capital: Sucre é a capital constitucional da República e sede da Corte Suprema de Justiça. A sede do governo está em La Paz onde residem também o poder Legislativo e as Embaixadas estrangeiras acreditadas.

Bandeira: Três linhas horizontais de cor vermelha, amarelo e verde.

Moeda: Boliviano

Principais cidades:
Santa Cruz de la Sierra (1.135.526 habitantes);
La Paz (1.004.440);
Cochabamba (517.024);
Sucre (215.778);
Oruro (215.660);
Tarija (153.457);
Potosí (145.057).

→ Comunicação Boliviana

Os meios de comunicação direta, a mídia alternativa e mídias impressas, eletrônicas e digitais da Bolívia, não são acionadas de forma articulada, bem pensada em busca de espaços para visibilidade pública de resultados. O jornalista boliviano, sozinho, não dá conta de fazer escolhas, indicar caminhos, mediar conflitos, pois não possui uma formação sólida, com base conceitual, conhecedora da sociedade. As áreas profissionais, jornalismo, publicidade, propaganda, relações públicas, radialismo, televisão, editoração, multimídia, produção audiovisual digital têm todo um campo fértil aí, em que essas mídias podem ser criadas e recriadas.

Segundo Alejandro Grimson, licenciado en Ciências de la Comunicación e professor de la Faculdade de Ciências Sociales de la Universidad de Buenos Aires, o jornalismo praticado no Estado boliviano é deficiente, igual e reduzido à reprodução de paradigmas estrangeiros, com pouca originalidade, sem grandes novidades, inapto à defender o seu povo culturalmente e ineficaz na construção de uma cadeia flutuante de significados. Poucos meios defendem os interesses de uma massa marginalizada décadas a fio. Nada se faz para proteger o nativo, mas muito produz-se no âmbito de satisfação internacional. Desse modo, a fomentação de uma identidade boliviana fica prejudicada terminantemente.

Para Luiz Ramiro Belttran, estudioso das comunicações na América Latina, o rádio popular da Bolívia, ainda consegue lutar pelos direitos dos campesinos. Todavia, a verdade é que nenhuma esfera da comunicação boliviana destina-se uma boa parte de seu olhar para o seu povo, para a sua cultura, para o seu universo, o que é extremamente prejudicial.

Atualmente é difícil compreender a vida dos grupos sociais bolivianos sem os meios de comunicação de massa, os quais encontram-se pouco inteirados ao cotidiano das pessoas. Assim, a relação, que se estabelece entre as pessoas e os meios de comunicação, merece ser estudada, pois esse processo envolve uma (des)subjetividade, influências culturais, sociais, entre outras.

Ao analisarmos as transmissões das rádios e das emissoras de televisão localizadas em cidades da Bolívia, estaríamos extrapolando assim a questão de que não é na geografia que se localiza a fronteira, uma vez que o território pode ser entendido como um espaço de criação e recriação da sociedade, do povo e dos grupos.

Pouco se mostram diferentes do modelo brasileiro. As emissoras de televisão, rádio e também os impressos, acabam por corroborar um ideal de jornalismo norte-americano, baseado na espetacularização, sempre seguindo regras e normas já consagradas.

16 periódicos impressos (encontrados na pesquisa) que circulam no território boliviano. São eles:

1) Correo del Sur ( Jornal de Sucre)

2) Diario Hispano Boliviano (Jornal Espanhol com extensa cobertura dos acontecimentos bolivianos).

3) El Deber Diário Mayor (Jornal de Santa Cruz de la Sierra)

4) El Diario (Jornal da capital La Paz, de circulação mundial)

5) El Nuevo Día (Jornal de Santa Cruz de la Sierra)

6) El País

7) El Potosí (Jornal de Potosí)

8)La Estrella del Oriente (Santa Cruz)

9) La Patria (Jornal da cidade de Oruro)

10) La Prensa (La Paz)

11) La Razón (La Paz)

12) Los Tiempos (Jornal de Cochabamba)

13) Periódico Jornada (La Paz)

14) Petroleum World News (Notícias sobre o setor petroleiro)

15) Pulso Digital (Semanário on-line)

16) Washington Post – Bolivia (Filial - É escrito em Inglês)

Canais de Televisão:

1)Canal 39 (Santa Cruz de la Sierra) Exibe noticiário/novelas/séries/musicais...

2)Gigavision (Atinge todo o território boliviano) Idem ao anterior

3)Megavision Cana 118 (Santa Cruz de la Sierra) Reprisa vários programas do Multishow

4)Red.A.D.venir (Programação Religiosa)

5)Unitel TV (Só notícias)

31 emissoras de Rádio bolivianas (encontradas na pesquisa). Entre elas, estão:

1) Rádio Panamericana (Esporte 24 horas)

2) Rádio Fides 2001

3) Rede de notícias ERBOL (74 filiais)

4) Rádio Estrella 93.1 Cochabamba

5) Rádio Latina

6) Rádio Fm Bolivia (Só música boliviana)

7) Rádio Pío XII (Programação religiosa)

8) Rádio Kollasuyo (Informações sobre a mineração)

9) Radio Fm Bolivia Musica Boliviana las 24 Horas (Música e Esporte)

Trabalho da disciplina "Panorama Latino-Americano da Comunicação" (2007)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Cidades sem música "erudita"





Juazeiro e Petrolina tem déficit na cultura da música dita “clássica ou erudita”


“Não sei nada sobre música erudita”, pragueja a estudante de História Lilian Silva, de supetão, quando abordada por nossa equipe. Talvez ela nem desconfie da significação de sua frase, mas as palavras proferidas por ela, naquele momento, representam o conceito predominante acerca de um segmento musical mais apurado e que é compartilhado pela maioria da população brasileira, do nordeste e, para afunilar ainda mais, das cidades de Juazeiro e Petrolina. Ainda hesitante, devido à nossa presença, Lilian continua a construir enunciados, na tentativa de opinar sobre as fronteiras existentes entre o que poderia ser considerado “popular” ou “erudito”, dizendo: “Acho que as pessoas consideram o que é popular tudo aquilo que é diferente do erudito... como se o que fosse oriundo do povo não pudesse ser tido como “clássico” ou “rebuscado”... como se “clássico” fosse apenas o que é “refinado”. Isso é evidente. Se você falar em cultura como manifestação artística, invariavelmente você estará falando de duas facetas, o “clássico” e o “popular”. As pessoas sabem que existe uma espécie de divisão, mas creio que não seja algo ainda claro nas suas cabeças”.

O termo “música clássica” é sabido até por quem nunca ouviu falar de seus maiores representantes, porém ainda é pouco entendido. Para Marivaldo Pereira dos Santos, vendedor da papelaria Bom Pastor, em Juazeiro, “clássicas” são as músicas instrumentais e as evangélicas. “Eu tenho, para mim, que os corais das igrejas, o gospel , as bandas das escolas, as filarmônicas e os chorinhos são os verdadeiros “clássicos”, conjetura o comerciante, de chofre. Parece que o inconsciente coletivo, até aqui, revela-se de tal maneira imperativo, regendo uma turba de declarações. Todavia, de acordo com os especialistas, que também não chegam a um consenso, o “clássico” vai além dessas definições.

Para o professor de piano, Josué de Belisário, estudos sobre o assunto deixam transparecer, pelo menos, três definições para o termo “música erudita”, ou “música clássica”. Acerca da primeira delas, segundo ele presente em muitos dicionários, Belisário explica: “Esta define e restringe a música erudita como sendo música ”séria", em contraponto à música popular, esta vista como sendo música folclórica, música ligeira, sem grandes demandas em sua composição”. Tal definição, talvez, não seja a mais justa a se fazer, isto se considerarmos que um gênero musical, para ser sério, não precisa, necessariamente, ser ou assemelhar-se à música “erudita”.

Considerada como contrária à música popular e como “digna de respeito”, a música clássica apresenta como características de sua segunda definição tanto a clareza e o equilíbrio, quanto a objetividade na sua estrutura formal. “Embora se diga que ela possui a capacidade de eliminar qualquer expressão ou manifestação de subjetividade, emoção exagerada ou a falta de limites de uma determinada linguagem musical, o espectador dela procura, geralmente, emoção, fruição estética e surpresa, ou algum estímulo intelectual, reflexivo e filosófico, na linha de muitos compositores contemporâneos, o que acaba sendo um tanto que contraditório”, complementa o professor.

Perguntada se há uma espécie de segregação quanto aos gêneros musicais, a estudante de psicologia, Leilane Paixão, conclui: “Música popular é algo que é comum a todas as camadas de uma sociedade. Digamos que este segmento consegue ser acessível a todos, em igual frequência. Música erudita me passa a impressão de ser algo mais culto e não tão acessível e presente às camadas ditas “populares”, mas a uma classe mais burguesa, sabe.. mais intelectualizada e com uma maior aquisição financeira. Não conheço e jamais ouvi falar em algum projeto que incentivasse o estudo, a pesquisa e a prática da música clássica nas duas cidades. O que se percebe são eventos esporádicos, geralmente motivados por alguma comemoração maior ou alguma festividade tradicional. É quando se consegue enxergar uma ou duas bandas filarmônicas tocando nas ruas. Isto está mais do que claro, a gente não vê mesmo esse tipo de produção”.

Quando já íamos nos despedir e agradecer pela entrevista, Leilane levanta a voz e diz: “Ah, olha, vocês sabem como eu entrei em contato com esse estilo musical? Não? Pois vejam... primeiro que, quando era criança, costumava assistir àqueles desenhos da Disney... Mickey e Pato Donald, por exemplo. Não sei se já repararam, mas muitos episódios tinham como trilha sonora a música clássica. Recentemente assisti ao filme ”O Segredo de Beethoven" e me apaixonei pela história dele. Ele era praticamente surdo, e a música saía de dentro dele, sabe... super fascinante! Ele disse que só aprendeu a se escutar, quando perdeu a audição, e fez composições maravilhosas assim, mesmo surdo. Ele era esplêndido, fez músicas que tocam a alma. Gosto de coisas profundas assim...e a relação com os desenhos animados que citei, está justamente no fato de que eles passavam várias músicas de Beethoven”.

Ainda no âmbito de tal questionamento, a pedagoga Joana Moraes, que diz comprar e ouvir discos eruditos com freqüência, como os de Mozart e os das Sinfonias de J. Paiva Neto, é ainda mais enfática. “Música e cultura popular são derivados da cultura da massa, do povo. Já a música e cultura erudita são derivadas de algum movimento intelectual”, diz, sem titubear. Joana, nesse instante, ainda interage ironicamente com nossa equipe de reportagem, dizendo: “Olha, eu conheço alguns projetos executados em escolas de ensino público. Vocês nunca ouviram falar? Os alunos ouvem música clássica enquanto brincam. Acreditem! Mas isso é em São Paulo, e foi presenciado quando estive por lá”. O que as duas tem em comum entre si e com a maioria das pessoas entrevistadas, é justamente a idéia de que há, sim, uma diferente agregação de valor e, digamos, de respeito por parte dos dois modelos.

Esse tipo de música é mais facilmente entendida no ambiente acadêmico e exige, tanto de seus mestres quanto de seus aprendizes, um conhecimento satisfatório das partituras e de todos os seus meandros. “Alguns musicólogos adoram dizer que o termo "clássico" deva ser destinado somente à música erudita produzida no período que se estende de 1750 a 1809, a chamada “Era Clássica da Música”, corrobora Josué de Belisário. Para Rodrigo D’Lucca, professor de música, não há palavras para descrever a música clássica. “Ela é profunda, através dela você acalma o espírito e transcende tudo. Porém, infelizmente, o que vemos é um certo descaso perante esse gênero tão rico e bonito”, declara ele.

“Os meios de comunicação costumam dar espaço ao que dá lucro, ao que a massa gosta. É dado pouco espaço para a música erudita porque poucos conhecem a sua importância e seu berço”, retruca Joana, que entrou para esse universo através dos livros biográficos dos grandes nomes da música erudita do seu avô. Joana defende que o contato com esse tão rareado gênero faz-se pertinente na finalidade de elevar o conceito de mundo do ser humano em geral. “As pessoas preferem escutar "Rebelde", "Calypso" e "Psirico". Nada contra, sabe... mas é que,digamos, a música de boa qualidade tem sido de certa forma escanteada, perdida e deixada de lado. Também pelo fato de ser algo de alto custo, sabe... assistir a um concerto deve ser caríssimo!”, fala, entre risos e olhares irônicos, Leilane. “Tiro pelos shows de MPB... é claro que no nosso país a música popular, como o pagode, o samba, o arrocha, entre tantos outros, vai prevalecer, sabe... porque não é algo caro e dispendioso, e rende pra quem promove, entende? É claro que isso não impede a mídia de divulgar com mais eficiência a música erudita. Mas, eu pergunto, divulgar pra que público?... O problema é esse...”, finaliza.

De acorco com D’Lucca, tanto a cidade baiana quanto a pernambucana têm um grande potencial para esse tipo de música. “Os jovens principalmente, têm interesse, o problema é que eles não conhecem”, diz. Ele acredita que as rádios locais não apoiam a divulgação da boa música. “O bom gosto pela música vem de família, a educação musical tem de começar desde a barriga, quando a criança ainda é bebê... e as rádios só tocam besteirol, músicas sem qualidade. Aí ninguém vai mesmo gostar de música clássica”, argumenta.

Embora não pareça, o público jovem aprecia a música clássica na região. Rodrigo informa que comanda 520 alunos, e que todos passaram a gostar desse tipo de música quando conheceram e quiseram aprender a tocar instrumentos clássicos. José de Arimatéia Jr, funcionário da loja “Mundo do Som”, diz que os instrumentos utilizados para a execução de músicas “eruditas” como o violino, o violoncelo, o baixolão, instrumentos de sopro, a clarinete, o trompete, o baixo e o sax, são muito vendidos entre a clientela mais jovem. “A região tem alguns centros de ensino de música clássica como, por exemplo, a Academia Livre de Música, que funciona na rua Antônio Pedro, o grupo Nego D’Água no Kidé e o Villa-lobos. E tem também a professora Bebela que ensina piano. Mas ainda é pouco, muito pouco, quase imperceptível diante da grandeza dessas duas cidades!”, exclama o professor.

“Eu não acho que todo mundo seja obrigado a gostar de música clássica. Estamos falando de cultura, não é mesmo? Então, essa dita "importância" torna-se algo bastante relativo. Mas, falando sob o meu ponto de vista e de minha experiência, eu penso que é essencial que se produza “música de verdade”, boa para os nossos ouvidos já tão maculados por “lixos”, vocifera Leilane, que diz conhecer pessoas que tocam e convivem no universo desse estilo musical. Lilian acredita que as pessoas têm de ter conhecimento das manifestações de arte, tanto as locais quanto as globais, que são produzidas ao longo do tempo. Para ela é necessário saber que este tipo de música nasceu em um contexto que teve influências das idéias de um tempo e das pessoas de uma época. “É uma forma de conhecer melhor o passado e, ao mesmo tempo, acompanhar a mudança ocorrida dentro de um complexo social... nisso acrescentando gêneros menos difundidos e, também, os mais apreciados”, exemplifica.

“Com a vinda da Família Real para o Brasil, tivemos um bom incentivo às práticas musicais e José Maurício Garcia logrou destaque como o primeiro importante compositor brasileiro. Mas mesmo com todo esse avanço, ainda no século 19, discutir música erudita brasileira era motivo de piada. Aí veio Villa-Lobos pra nacionalizar a música no Brasil, introduzindo-a e consolidando-a”, pronuncia Belisário. O certo é que mesmo hoje, em pleno século 21, Juazeiro e Petrolina ainda são cidades que não perceberam o devido valor da música clássica ou erudita ou de concerto, muito talvez por causa de suas histórias ou de suas situações político-econômicas. Fato não muito esdrúxulo para uma população que não aprendeu a render aplausos e reverências nem aos seus conterrâneos e artistas locais, tampouco ao seu Samba de Véio, aos seus rabequeiros, aos seus maracatus, aos seus gênios anônimos. Então, fica a pergunta: o que esperar daqueles que cultuam o “refinamento”, hoje vistos como Quixotes lutando contra moinhos de vento?

Reportagem escrita em 2008, com parceria de Ecliz Rodrigues e Álvaro Luiz.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Medos intangíveis





Certa vez me perguntaram do que eu tinha medo na morte. Confesso que naquele momento não soube responder. Era, decerto, uma proposição um tanto quanto complicada para mim. Tinha lido muito pouco sobre a morte, e escrito menos ainda. Apesar de ser um jovem - ainda me considero um -, sei que deveria me preocupar com a morte e com suas respectivas intermitências. Já outro dia, um bom tempo depois, relembrando tal fato, acreditei saber deveras do que eu tinha medo na morte. Todas as "coisas" deste mundo são ou acontecem da mesma maneira que imaginamos ou do modo que queríamos que acontecessem, ou que fossem, e é justamente neste ponto que se encontra escondido o meu maior receio - convenhamos aqui que a pessoalidade não seja tão ofuscada pelo esforço do pensamento universal. A morte nem sempre vem como queríamos que ela viesse, e o pior, às vezes ela pára na esquina da vida e acaba se esquecendo de que todo mundo tem de morrer um dia. Destarte, devo dizer que deveras é nesta hora que a morte revela sua verdadeira face. Tudo se estabelece durante suas intermediações, suas pausas e suas interrupções. A sensação da dor que tarda e que não mais convém e toda a sua inoportuna presença, a sua sombra sendo refletida nas paredes brancas dos quartos últimos, a sua aura negra incrustada no velho e fedegoso redingote vagando ao redor do corpo que clama uma derradeira facada no peito que sangra e sangra até ver-se exangue... são esses os meus temores. Mas desconfio que o meu medo se resuma apenas ao que acabei de enumerar. Deve haver mais medos, mas é que a morte é tão misteriosa e discreta que acaba ficando impossível reconhecer nela nossos próprios pavores. Tenho medo do silêncio, apesar de conviver tão bem com ele durante toda a minha vida. É a hora em que a morte está mais próxima de mim. Sempre me bato com a fraqueza do meu coração. Não consigo entender como sou tão sensível. Um poeta deveria querer a morte, venerar a sua suposta última ventura... mas eu quero a morte, sim, e que ela venha calma, porém de súbito. Que ela pouse em mim como pousa o passarinho amarelo na janela do meu quarto, e que permita-me enxergar, por uma última vez, toda a beleza dos cânticos naturais mundanos. Enfim, que venha o pássaro da morte! O meu silêncio calar-te-á.