sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Levantes adragoados



I
Eis a missiva ou ogiva ou orgia.
Espero ter resposta.
Segredos sempre.


Cádor,

Só em liberdade. Só me faço assim. Flor dos horários, mas só vivo em liberdade. Sempre fora assim. Desde a infância - até hoje e finalmente decorarei alfabetos. Mas o que me faz escrever é o inaudível som da chuva de agora. Cidades pequenas, nuvens cobrem rápido o céu. Me recolho cedo. Sempre o mesmo chá. Sempre a mesma leitura. Ainda folheio aquele livro que não consigo ultrapassar a página 28. Tem uma citação lá que me tortura. Faço mil leituras e é a Bíblia que não compreendo. É o errar que não compreendo. É o acertar distinto das pessoas simples que me corta em pedaços. Já havia lhe dito – eu queria ser simples. Um laço no sapato ou um quadro de uma cor só. Mas as minhas tentativas são erros bem sucedidos. Não sou simples. Assim como você. Não somos simples. Talvez seja isso – talvez seja uma vontade qualquer e a voz da Billie Holiday me fazendo conformada. Mas não me conformo, escritor. Sofro desses ataques. Você os conhece. Talvez não. Talvez seja impressão, mas o mundo me fez dialógica e essa estação do ano, cobre os dias em gerânios e telefonemas que me deixam irritada. E veja só. Falo de mim apenas. Como você vive os dias? O que come? De que forma veste suas roupas? De que forma se esconde dessas tempestades que criamos? Nunca perguntei, mas hoje acordei com cara de interrogação. Como o Elliot Smith – sou uma interrogação. E você, além de escritor, o que vem a ser? Humano sei que é. Se sente, já é humano e se deixa a noite ser companhia, também sabe celebrar. Ontem celebrei. Senti apenas por ter quebrado um lindo vaso de porcelana, mas do resto não me queixo. Não reclamo.

Com carinho (E transtornada por uma leitura nova).

PS.: Cartas existem e também os tempos que sempre retornam.



*****


Minha resposta.


Sabe, Virgínia, hoje me perguntaram sobre a tristeza do meu rosto. Foi como diminuir a minha esperança. Até ser triste incomoda. E eu que reclamo sempre sobre renovações, recordações. Eu vivo muito bem minha tristeza, obrigado. Deu vontade de largar tudo, a revista sobre filosofia, e soltar o braço no semblante do incomodado e perguntar sobre a felicidade dele depois do tabefe. Eu, ao contrário de você, reclamo. É um reclamar silencioso, deveras, porém perturbador. Reclamo silenciosamente por tudo e de tudo, devo dizer. E me queixaria de ti se esse vaso de porcelana tivesse sido a ânfora de cerâmica chinesa que enobrece a estante do meu quarto. Não que eu seja materialista a ponto de te matar por causa disso, mas é que não tolero assinaturas falsas. O meu retorno é sempre marginal, tombadilho. Celebro a desforra dos meus escravos internados em minh’alma, a diáspora dos meus ancestrais, o meu ar de déspota entristecido, a dinastia dos meus tufões. O ritual é simples. Vou ao mercado, compro vinho tinto o mais chinfrim, louvo a Baco e a Dionísio e “Evoé”... Depois, deito meu sono, já sem humanidade nenhuma correndo em minhas veias. Ora veja, como pode dizer de minha humanidade? Sinceramente não sei em que lugar a deixei. E se sou, deveras, não sei... não sei se sou humano. Minha escrita não diz de minha humanidade, pois posso muito bem mentir meu caráter, falsear minhas verdadeiras convulsões vulcânicas internas... e assim, construir mundos que não são bem os meus. Aí eu posso muito bem enganar você, como qualquer outro que me roube o ar. E não me venha com historinhas de ex-padeiros metidos a cantores! Por favor, falemos da desgraça, sim, mas falemos dela ampliada. E como pode dizer da liberdade? Ninguém pode tê-la! Ninguém a possui! Você não é feiticeira nem sabe a poção mágica da liberdade! Ressignifique sua postura diante de sua pequenez, Virgínia. Somos escravos de um tempo pouco, de uma hora morta, canora e insensata! E não será a Eleanor quem a livrará de tais grilhões. Eles são pesados demais, minha querida. Minha simplicidade está em me saber desumano, em me suspeitar torto, sem rosto, sem coração, sem mão, sem rede, sem canoa, sem mar. Não há em quem se espelhar. Nossos ídolos nunca nasceram, porque eles estão dentro de nós, adormecidos. Quem encara o dragão da alma? Quem? Diga-me, vamos! Quem levantará a espada contra o dragão? Melhor deixar para sofrer amanhã o sofrimento das bocas. Eu te levarei a morfina, caso precise mitigar a dor. Será um estrago tamanho, posto sua beleza. Uma pétala a menos no mundo. Mas, enquanto não chega o dia, tome do cálice. Beba do meu vinho. Quero amar o teu sexo antes da despedida fulminante. Quero libar do teu suco de mulher. Quero do amor de Sade...

Eu te espero.

P.S.: E o tempo jamais retorna, cartas sim...

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"hallucination of a cat
by =utopic-man"
Deviantart

Letícia Palmeira disse...

Estranho de ler o que eu costumava escrever. Mudei. Agora vejo.


Perfeita sua ideia de publicar as cartas de novo.