quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

À voz das Agulhas



O Início

João Cabral de Melo Neto acreditava no alguidar.
Acreditamos em agulhas e mãos.

Eu o encontrei. A velha crença de encontros na esquina, encontros em sinais de trânsito, em parques e bancos esquecidos. Todas as árvores existiram mais. Pude sentir que verdade é mergulho raso e piscinas são domingos. Contraí músculos e respirei forte. Do contrário, meu ser estranho, já teria deixado minha força em casa. Meus montes de força e lembranças antigas. Eu o encontrei sem sutileza ou palavra decorada. Simples par de luvas. Simples e infectada por minha raiva, inércia e descontração de fim de mundo. Animal amedrontado. De cima a baixo, um animal triste e perdido. Olhar de anos perdidos e a respiração embutida. Um plano esquecido por deus. Um anjo caído entre o espantar dos dias e a clareza de momentos de descoberta. Me senti como na primeira série, no colégio. Uma lesma tímida escorrendo pelas paredes do banheiro azul. Colégios e paredes azuis e eu escorrendo feito lesma. Uma preguiça de abrir os olhos e enxergar. Sentia tudo. Toda a necessidade dentro dos olhos. Cabeça baixa, criatura pequena se escondendo dos professores. Era novamente. Em frente. Em círculos. O animal perdido pretensioso e sempre com olhar de pressa. Típico olhar de quem procura luz. Eu era a luz. Vestia o que tinha e o que tinha era seu porque o mundo não penetrava e vestia e caminhava. Não pensei em trôpego ou qualquer outra palavra decorada de um livro recém lido. Deixei livros. Era eu e o animal relutante em me olhar. Era medo e desespero e também um pouco mais de medo e desespero a mais. Uma par de olhos e já era tempo de mãos e vi que ele possuía mãos e a língua era a mesma língua que eu costumava usar quando chorava escondida no banheiro de azulejos azuis. Voz igual. Havia lido que animais como baleias e outros seres que não soubessem a língua escrita, poderiam ser nocivos. O animal não era como esses seres. Era do mundo onde se guarda minutos e espadas e coisas que se perdem ao longo da vida. Ele me guardou desde minha infância. Era belo e denso mascarado de incolor. Mas vi cores e dores e ausência e também o triste líquido que espalha almas. Era a minha alma que ele carregava.

Fomos. Seremos.

nasci no dia em que ela. fui ver se lá fora a ânsia era maior que o próprio tempo e vi que morremos, estamos ou vamos ficar, mortos, tesos e duros, faltando. e alguma coisa é apenas. aí ela inventou chegadas e rios, disse de milharais e pequenos tubinhos brancos que se fumam. eu tomei chuva e lavei minha alma e meu pé era o mesmo pé de antes, de andar as distâncias em que. rios sempre existirão quando imaginarmos. rios são caudalosos e meu sentimento tinha algas. meu sentimento era poluído. veio de longe o terno que me cobriu e o baile deixou de ser apenas o apenas. gravata em bordas doiradas e sempre. o tempo foi de sempre. não acabou e não teve final. quando escrevi sobre a alma fez aquilo de derramar-se. virou água e pão. pão é simplesmente aquilo de se comer, coisa bíblica. e ela era pão e mito. pão integral, queijo, ovos, bolo preto e refrigerante. ela não e mesmo assim tomou. chegou de amarelo e voltou cor de máquina de escrever barulhenta. fez só a cerimônia de se perguntar sobre coisas de espanto. é que quando a gente tem dentro da gente aquela coisa de amar a gente sente, senta, tenta não, mas acaba chorando no final. é que amar é coisa de quem sente e senta e chora e mente no divã só para sair da sala e correr mesmo com a camisa de força e a prisão dos braços para os braços do outro louco que também ama. dá e vai, escrevendo sempre da mesma forma a gente acaba lendo diferente. leitura bucal, labial, vaginal, anal. sabe, é que um dia a gente vira minhoca de adubar terra e esquece que podia. e eu não esqueço. minhocas não pensam, mas seres-amamos sim. eu que quis ser a fumaça daquele cigarro e perfurar o esôfago dela, conhecer o pulmão direito dela, maltratá-lo, corroer o estômago, o reto, o delgado, diluir a própria bosta! ser também a doença. territórios ela de ser. nadaria. nada ria. na daria. eu prometi que ia estudar e comprar o incenso que ela preferia. não iria permitir que lhe faltasse a fome. aí quando comprei a massa no mercado ela quis o azedo de dentro. é que lá dentro ela plantou uma rosa vermelha. rosas precisam ser regadas com insumo orgânico, líquido seminal. para polinizar, o sêmen. só assim nascem amores-perfeitos.

E conto algum tem novidade quando repele a vastidão de sentir que os olhos movem e por momentos transparentes, movimentos e sândalo, o que era nocivo tornou-se dia e noite e ela, que encontrou o par de luvas, soube que agulhas sofrem no silêncio. Eles se tornaram a voz das agulhas que costuram o tempo indecente de viver dos dias que não se limitam. Amor é dor e um texto com reticências e pijamas e nomes compostos e o número que compõe a unidade. Das cinzas às agulhas que sabem cantar, dois em histórias de continuar sempre.

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Mist.
by ~AndokaStock"
Deviantart

Letícia Palmeira disse...

Vou ler sem parar.