sábado, 5 de fevereiro de 2011

Calendário de nuvens


Eis a carta...


Triste Cádor,


Recebi sua carta enquanto ouvia sinfonias. Andei ocupada e atrapalhada e outros adjetivos que você bem conhece. Andei fora de mim. Fora desse Eu que tanto se fala. Sabe-se lá o que chega a ser esse tal Eu. São todos os sonhos do mundo ou um furto literário? Li esse trecho em uma revista enquanto esperava a Marília chegar. Ela chegou, pigarreou e me encheu com aquela problemática de suas aflições pós-maternidade. Acho que não cheguei a falar sobre a Marília com você. Ela é estreita – olhos estreitos, língua estreita – um cômodo sem mobília. Mas me acompanha desde que comecei a enfrentar aquela gente de nariz comprido que acha que merece prêmio por ler um manuscrito qualquer. Já me acostumei à Marília. Me acostumo às coisas e também às circunstâncias. Hoje enfrentarei mais uma de minhas circunstâncias. Apresentarei o projeto em que levei tempo picotando e retalhando autores. E todos irão me olhar como vitrine. Só me lembro do Chico Buarque e aquela música. Ela sempre me vem aos ouvidos. Gente passando pelas vitrines. Mas esqueçamos as vitrines, a mesa, a Marília. Sua carta é o centro – meu epicentro. Bom que me respondeu. E melhor – sempre usando o mesmo tom de decoração de casa antiga. A lembrança de você me toma o tempo. Não o tempo todo, mas quartos de tempo. Grandes quartos cheios de janelas. Melhor eu parar com minhas epifanias – pareço vendedora de enciclopédias. Você escreveu verdades e talvez eu tenha mentido. Também me incomodo. Me incomodo com livros cheios de páginas riscadas e amassadas. Me incomodo com perguntas e odeio médicos. E agora percebi que ser simples é meio que querer ser Deus. Ele é simples – nós não. Complicados em decadência e entre nossas vontades. Pensei também que talvez não seja necessário o veneno. Somos Casas de Venenos. Só não somos lentos. Sofremos do pensar excessivo e das leituras exaustivas. A Marília é lenta. Você é sombra de um quadro que já me desfiz, mas sombra não evapora. Você não evapora. E você é humano – somos todos. E você é triste – para a minha completa alegria. Somos iguais e saiba, o cálice será bem-vindo. Você conhece meus tons. Conhece e sabe o que pode receber de mim. Só recebo amor em gigantes goles. Nada em gotas, nada aos poucos.

Tendo epifanias,

Sua.

P.S.: E o que virá após o continuar?


*****


Ruborizado, escrevo-te...


E você que permanece calma em se esconder de mim. Por que não se revelar? É medo o teu pão diário, mulher? Você que não me diz se levantará a besta medieval e mirará o olho do grande dragão... que não me diz se sente fome do tempo azul... você que simplesmente não me diz nada... E eu a usar somente as roupas que me permitem o movimento livre dos braços, mormente o do braço direito. Minhas roupas são brancas, meus calçados são de pele. Maquiagem é coisa rara aqui em casa, prefiro dicionários. Eu como apenas do tempo-cruzeiro, navegador, marinheiro. E engordo fácil. Leio muito Melville e ele me diz das embarcações para o céu e para o inferno. Tudo com horas marcadas, locais das escalas, portos de desembarque e embarque, tudo. E o tempo caminha comigo para onde vou, e para onde não irei o tempo também caminha junto, contíguo a mim, casal com um mês de anel no dedo. E vivo meus dias na fúria de se querer Ítaca. Pousos são sempre quarteirões de sonho. Minha cantiga de escárnio que nunca fiz – farei?. Por favor, Virgínia, assuma seu posto de retratista barata, que não sabe enxergar sem as lentes de aumento, sem a grand’angular mecânica, que não consegue ver com o olho in natura. Olhar com o olho in natura foge às suas habilidades? Por que não me prova do teu mundinho particular? Não sabes singrar mares? Quer que eu te puxe pelos braços e diga qualquer coisa já quase vomitando em ti e que a hora é também já chegada e que não há mais tempo nem a merda e a desgraça do outono a perder? O teu calendário é gregoriano? Para que tantos brasões? O rato não roerá da mesma maneira suas pelúcias e te fará caquinho ou coisa menor que uma bola de gude? Assim vou acabar por acreditar que não consegues retornar de onde estás. Esquecestes o novelo no labirinto de Teseu? Você matou o espírito de Ariadne? É você Pandora, mulher? Diga-me, vamos! Abra a boca! Soluce algum pus de dentro desse vil organismo sem préstimo algum! Abre-te, Virgínia! Até tu, Brutus?! Sejais Sherezade e me conte do tudo que te faz nada, que eu preciso do teu néctar. Deuses alimentam-se da liberdade, somente eles. Receita de Narciso só te ampliará o desgosto. Por isso, seja mais coração e não surrupie mais da pouca literatura que te conhece. Sabe de uma coisa, eu não me importo com as dores pós-parto de ninguém! Eu já suspeito de longe de minha falta de humanidade, mas é que estou em busca do que é insólito em mim. Desejo minha podridão, minha infâmia, minha imundice. Foda-se o filho que nasce! Será mais um na turba. Mais um, só isso. E eu não pertenço a esta classe anônima. Não tenho sangue azul, mas tenho minha palavra. E nela me componho. Construo toda uma sonata, ou meu próprio e sorumbático réquiem. Sabe, Virgínia, estou farto de estreitezas. No dorso quero o largo do mundo, o denso do homem. Assim me tornarei o imortal ser que tanto almejo. Esqueça a Marília e me fale de você! Por favor, até quando serei obrigado a corroborar tal frasear? Jamais comprei enciclopédias de grosso calibre externo nesses vendedores ambulantes que não suspeitam nem do “a”, quiçá do “b”. Não! Não é o teu incomodar que me incomoda. É o teu acomodar-se. É ele que me tira o sono, que me priva dos finais de semana melindrosos, que me promove úlceras e pedras nos rins. Você acabará sendo a minha assassina. Matar-me-á sem dó, aos poucos, para sorrir do meu sangue endurecido no azulejo. Minha realidade desponta ofensiva. Sinto-me fraco ao tentar qualquer defesa. Perco paulatinamente meu poder de contra-ataque. E me rendo aos teus desmandos, aos teus acessos de previsibilidade, às tuas apoteóticas frases de efeito. Minha dúvida é se me safarei. Minha questão é saber se fui, se sou, se serei...

O futuro é nuvem, eu sou chuva, sempre caio.

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Flight Of The Dragon
by *MasPix"
Deviantart

Angélica Lins disse...

Só me resta aplaudir em pé.

Achei belo!