terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Uma febre convertida



III

Cádor,


Admito em glórias que, ao ler sua carta, vi retrato meu desde a primeira palavra. Quanta alegria ao vê-lo despido de suas certezas feitas à base das traças. Você procura em mim algo que ainda é seu. Procura entre minhas palavras e frases feitas, a cura para o seu desejar ser mundo e todos os livros que lê. Você me conhece e sabe o quanto me perturbo. Sou vela não acesa quando não me brutalizam, mas você tem esse tenebroso dom de me questionar e me colocar em comparações – comparações que já tive de lidar durante o tempo em que estivemos juntos. E era sempre essa porcaria literária ofuscando minha existência. Você e suas eternas evoluções filosóficas. Me aniquilam – me manipulam – me aterrorizam. Mas suporto-as porque eu mesma criei seus dragões. É tudo criação minha e me enobreço e me estico – de corpo inteiro – ao vê-lo mastigar minha vida e reproduzi-la em busca de sua criação. Lembro das vezes que agüentei – por amor ou por medo – suas leituras idiotas noite adentro. Lia de tudo e me questionava e me roubava idéias. E agora me fala que não conhece meu mundo particular. Dou risada. Dou risada alta pela casa. Você é torto e quase um cemitério feito de mim. Eram dias afastados e, quando retornava, me falava em saudade como um falante que não conhece a língua erudita que possui. Você perdia seu gênero quando se aproximava de mim – era mero e feliz. Não admite isso porque decidiu que meus vãos são prisões e você estava sem ar dentro de mim. Como histórias antigas, como sua Grécia que só faz sentido no papel, você abandonou sua casa. Agora se abre em torrentes de compaixão. Agora se desfaz em literatura americana tão copiosa quanto os livros que lemos juntos. E me fala em calendário. Você tem sido tão cego quanto eu finjo ser. Vivi de seu calendário por tempos que não sei verbalizar. Foram tempos e horas que não sei contar e não tento. Hoje vivo e isso sufoca você. Vivo de mim e de minha existência. Tenho coisas a fazer, mas me atormenta o lembrar. O sentir me atormenta. Sentir cada passo seu nesse universo em que vivemos. Você me atormenta e sabe ser senhor de mim. É senhor de mim, pois já respondo carta que acabo de ler e já estou a enviar a verdade que você precisa. Não o esqueci. Não vivo de outros abusos. Ninguém vive sobre mim. Não há réquiem – apenas os tons da lembrança que tenho de você – indo embora em sua fase de seguir doutrinas. Que livro você lia naquela época? Acho que era aquele apego ao Kerouac. Odiei esse apego e odiei ser rejeitada. Mas me refiz às escuras. Passamos anos sem nos falar e agora eu sou Pandora. Sou e não minto. Não entro em contrapeso. Não sei abolir o que sinto. Não sei fingir. Tentei não ser aflita em minhas cartas, mas você provoca ânsias de ódio e amor. Você provoca ondas circulares em meu oceano. E falo em metáfora sim. Falo do modo como aprendi. Você deixou seu legado em mim e levou consigo partes minhas que não o deixam dormir. Que não durma então. Que não viva. Que não respire sem que me ouça, sem que me seja, sem que me consuma. Sempre fui a oferenda límpida que você soube retratar. Me ofereceu aos deuses e agora me diminui por raiva – tão imensa que me faço renovada. Sei que não se importa com outros mundos. Sei de sua falta perante a humanidade. Sei porque sou o porto de onde você partiu. Aprendeu comigo a ser legível e a sofrer em silêncio. Agora quer voz. Agora quer que eu conte detalhes meus que você já absorveu. Admita a sua inércia e fale de amor. Fale de rebentações e largue essa sua face esculpida para esconder dores. Sofre e aprende. Ninguém toma um livro em mãos, faz leitura e parte como se o dia fosse apagar imagens. Você já não vive sem minha existência? Sou altruísta, embora pouco saiba das dores comuns. Sofro sob os lençóis e sob o sol que cobriu nosso rosto. Sempre fomos iguais e vê se não me rouba novamente a vontade de continuar. Seu medo – esse medo que você sente quando eu existo, é meu alicerce. Mulheres são assim. Sou Virgínia sem vírgulas e não sou previsível. Você me esgotou ao escrever isso. Me esgotou e senti a mais completa realidade de se odiar o que se quer ter. Tenho você e você é um ponto agudo sem o qual não sei viver. Odeio me apresentar assim, mas chove e tenho que sair. Sorrirei lembrando de suas necessidades. Tão previsível quanto a sua criadora. Sofre – sofre em pausas. Leia o nosso livro e seja o meu deus particular. Já chega o tempo de você me reencontrar. E não há ataque - somos defesa de tese única. Sua febre me converte em fúria – me converte em criatura que quer ser devota e imensa sob o seu ser. E você é e será sempre o meu calendário.

Migrando sempre.


P.S.: E vê se aprende a morrer e a viver de novo.


*****


Estimada minha,


Não canto você, Virgínia. Não é do meu querer levar a janta ao pé de tua alcova. E tudo o que escrevo é amor em primeira pessoa. Ou o ódio do amor. Quero, sim, o avesso dos atos. Sou avesso e, como Bartleby, prefiro não fazer o que imaginam que sou capaz de fazer nas horas que não são minhas. Então vem você e diz que tudo até aqui não passou de uma mera coincidência?! Como pode dizer tal infâmia? Fico estupefato ao ler tais disparates e te espero em poucos dias, sem grande demora. Quero deixar claro que o uso dos colírios faz-se de extrema necessidade em teu conjunto ocular, pois jamais fui donatário de certezas, o que para você não chega a ser clara luz. Se hoje tenho alguma coisa, ou melhor, se alguma coisa a mim pertence, essa coisa é a dúvida, o avesso da certeza, a visão do não saber, do desconhecido. E, eu peço, encarecidamente, sejais lâmpada e não a luz que faz penumbrar a atmosfera. Você é vaso? O que tens que tanto busco? Teu azeite pubiano é alimento? Quando e onde? Ando a pensar que você é mosca e que não faz nem onda em água morta nem dança em rama leve. Com que argumento falas do meu procurar? Teus queixumes de quinta categoria não vão me conquistar prantos e dengos melodramáticos, Virgínia! Sou mais forte do que sua consciência pouca se presta em suspeitar. Peso uma tonelada de vida, apesar de minha idade sem nenhuma poesia. A virtude do olhar está em não enxergar as dissonâncias. Aos pinotes, granjeio para mim a imortalidade que tanto prezo. Enquanto você se esforça para ser uma criatura normal. E escrevo porque sei que vou morrer. Escrevo porque não posso viver o dia de amanhã, a noite do futuro. Mas é bem verdade que você possui relíquias que preciso para completar a minha coleção de borboletas. E também desejo os teus suvenires. E desejo, sim, ser o mundo que aprendi lendo. Todavia, mais que isso, desejo o roteiro idealizado com um sempre espanto e disciplinado estro. Tenho mais de mil desejos, Virgínia. É bom que isso fique bem claro. E um deles é matar você. Matar de algum sentimento, com algum sentimento ou pesar. E qual é mesmo a minha doença se esta não for a mesma que acomete teu pequenino corpo? Ao contrário do que reforças, não ainda te conheço, mas hei de conhecer-te. Porque é longe o teu rosto ainda não te sei, e porque também é raso o teu mar de mulher ainda não me coloquei mar adentro. Não estás a agüentar o baque de minha dor? Não suportas o meu sofrer em vida? Minha morte lhe chega primeiro que a mim? Por que tanto vomitas a discórdia, amada? Sou tão grande assim para você? Apago tua vela com meu sopro? Não tenho olhos biônicos, querida, e só lendo tuas palavras é que tomo nota do teu esforço em se ser, sem desfaçatez ou mal maior. Confesso que espero você na estação mais segura, no quarteirão dos sem-paraíso. Contigo, minha morte é segura. Hei de te lembrar que não uso mais do meu escudo. Ando a recitar versos ao vento porque dele quero me alimentar, já que em ti sou famélico. Minha atitude, de hoje em diante, será intensamente filosófica. Gastarei as palavras precisas para te dizer de meu amor e ódio. Beijou tua sombra hoje? Fotografou-a? Diafaneidade é a palavra que resume teus escritos de corpo, Virgínia, infelizmente tenho de dizer isto. Tudo é tão volátil em teu canil de ratos! Estruturo versos e campeio o atol de tua melhor criança. Ainda há o que se aproveitar. E libo. Goles profundos... Aprenda uma coisa: a criação é o universo de Deus. Deus é o texto. O satanás é a palavra. Ainda estou a te singrar, tua baía, tua lombada banhada a ouro. Quero viajar viagens e você não vem. Sua própria besta te feriu. Soube criar teu rebento, mas não soube criar a si própria. Meus pêsames, mulher morta! Onde tua fênix? Asas podadas, ou nunca a viu? Apesar da música sem cheiro que ouço, a saudade é aperto no peito. Tenho vontade do teu amor. Sofro dor distante e perto. Morro por não escrever a poesia maior que é você. Meu único poema de amor! E cadê o dragão que não vejo? Não admito nada, você é que adora concluir cedo. Sou bando de estorninhos perdido. Cavalgo no cavalo do tempo minha revistaria não lida. E hoje como ontem e amanhã sou triste até a sua chegada em alvíssaras. A cama está arrumada, teu travesseiro cheiroso adorna o vão do colchão. Acendi aquele incenso de que tanto gostas. Comprei confeitos para depois do sexo. E aquele livro do moçambicano. Eu lia Whitman quando edifiquei uma flor de metal no jardim de tua ausência. E segui em traições...

Desesperado, Cádor.

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"have a nice life
by *NuSunt"
Deviantart

Marcio Rufino disse...

Caríssimo Germano vim lhe pedir mil perdões, pois agora vejo ogrande erro que cometi comentando teu escrito como poesia. Não que não haja poesia nele, mas nota-se que é prosa e da melhor qualidade. Vim retificar meu erro e reinterar o convite à
http://emaranhadorufiniano.blogspot.com

Já estou lhe seguindo.

Abrçs!!!