sábado, 12 de março de 2011

Incensos e surtos



IV

Senhor das Palavras,


Hoje me sinto alegre. Alegre feito minhas florzinhas azuis. Não sei o motivo. Talvez por ter recebido sua carta. Odeio a palavra Missiva. Me desculpa a franqueza. Sou desajeitada em mentir. Não sei usar de outro artifício que não seja a verdade. Fiquei tão alegre que agradeci ao carteiro. Ele deve ter me achado uma tonta. Não sou de agradecer. Ele já me conhece – abro o portão olhando para os lados e recebo envelopes e me tranco. Mas me abri hoje. Sua carta, embora carregada de sua típica doença verborrágica, me fez feliz. Segundos, minutos e horas. Estou relendo. Você sofre de tantas dúvidas – um mar de dúvidas. Tão doce criatura que sofre sem motivo aparente. Não me satisfaço com sua dor. Se cheguei a dizer isso, deve ter sido um surto de maldade. Todos têm surtos e não fujo desse estereótipo. Surtei. Senti raiva por ter sido nomeada criatura que não enxerga. Eu enxergo. Vejo você olhando pela janela, apreciando céus inteiros e recitando poemas seus. Bela visão tenho. Você, seus ombros e mãos e corpo inteiro. Bom de se olhar. Bom de ser visto. Você tem uma bela existência. Essência turva de vinhos que ando a beber. Ontem percebi que ando a pensar como você. Doença infectocontagiosa. Penso nos mares, refúgios e nesses vocábulos difíceis que só fazem sentido vindos de sua boca. Sim. Amo. Amo e confundo. Amo e causo transtorno. Amo e ouço resposta sua – com a raiva de quem espera. Imagino que, ao me ver, partirá o vaso onde você guarda conhecimento. Mas a luta não foi de entrega. Não há paz e Seu Equador está submisso. Não venci. Apenas me faço ser o que sou. Coisinha do tempo de andar de bicicleta. Não morre, não entope a veia e esquece que sou Platão-Mulher. Há invernos e há tempos. Não sangra e não se deixa esparramar. Aquece a raiva e a plena certeza. Somos partes e uso seus disfarces. Amo maior em doses fatais. Uma mulher como um homem. É isso que Virgínia se torna ao som das folhas que caem. Não posso ser página em branco. Você escreveu sobre mim. E que haja travesseiros e que haja leitura. Porque já sou rosto e resto de você. E acenda incensos. Sigo aromas e sigo o Walt e a canção do Quintana. Sigo suas cartas. Sou o amor.

“- Eu te amo, há longo tempo
Fiz uma extensa caminhada apenas
Para te olhar, tocar-te,
Pois não podia morrer
Sem te olhar uma vez antes,
Com o meu temor de perder-te depois.”

(Walt Whitman)


À Janela, Virgínia.


*****

Querida Virgínia,


Digo saudades ao recomeçar minhas palavras. E é saudade já tão feita que não adianta mais o meu lutar contra tão grande mal que me afeta. Há males que vêm para o bem, é óbvio. E males eu quebro catando trevos de quatro folhas no jardim de casa. Jardins sempre escondem segredos, gnomos de proteção, seres de mistério. Como vai a vida aí na capital, Virgínia? E o teu filho? O teu trabalho? Espero que tudo esteja indo da maneira como você imaginou. Se você estiver feliz, saiba que também estarei. Eu também peço desculpas pela dureza de minhas frases na última correspondência. Fique certa de que tudo não passou de rancor e de momento. Tudo passa. O clima aqui está ameno, não tem feito aquele calor que costumava acompanhar o nascer e o morrer dos dias quando aqui você ainda estava. Chegou um parque na cidade, e as pessoas gastam seus dinheiros no domingo só para não suspeitarem da noite. Noites matam, parece-me. E quem quer morrer, não é mesmo... São luzes artificiais e que causam tontura. Você sabe, prefiro ficar em casa e continuar lendo os livros. Livros são, para mim, como a urgência e a espera. São necessários. Eu me refaço lendo. Minha querida, ando sonhando muito ultimamente. Sonhos de Sofia, sonhos de Eros e até sonhos de dicionário. Eu não minto o meu amor por dicionários. Lembra daquele poeminha do Neruda?


“Diccionario, no eres
tumba, sepulcro, féretro,
túmulo, mausoleo,
sino preservación,
fuego escondido,
plantación de rubíes,
perpetuidad viviente
de la esencia,
granero del idioma.


“Oda al diccionario”, poema lindo demais... Tem som de mar, gosto de brisa. Tem alma do teu significado. Palavra que quero saber. E quem melhor que o Neftali para cantar deuses e deusas! Lembra que eu li este poema para você no alto da colina? A gente chupando o azedo do umbu debaixo do pé... Bom demais aqueles tempos de roçados e verdes. Volta de novo? Tempos são sempre passados? Uma vez voltou, mas foi coisa tão diáfana. Nem valeu. Quiçá, eu sigo esperando o teu retorno. E não é teu filho que me tirará o sorriso. Você já é mulher e mãe. Eu, um mendigo qualquer, mendigando o amor. São coisas da vida. E a vida acontece, não é por acaso, nada. Como não é por acaso o leitmotiv dessa missiva. Quero dizer que você faz falta, apesar de tudo. E que eu gostei do teu gosto em escolher e me presentear com tão belo e singelo e forte e profundo poema. O Walt queria, antes de tudo, cantar o “eu” dele, você sabia? Ele abre o “Flores de Relva” assim, adotando o Pessoa, pai que era, sem eras. Mas, diz-me de você! Como andam os projetos, as aulas? Ainda freqüentando o analista? Eu deixei de tomar os remédios que me receitaram no último divã. Perdi algumas idiossincrasias que você conheceu. Ando viciado em sopa. Nada muito natural, mas sopa. Daquelas prêt-à-porter, encontradas em supermercados. Gosto só do sabor “Galinha”. Sopas me fazem suspeitar o esforço que é viver. Fazem-me suar a testa branca e pequena do meu rosto. Estou feliz muito devido o teu sincero escancarar de idéias. Tua felinidade é a onça que procuro. E adoro teus olhos velhos e vulpinos. Astutos eles são. Olhos de se ensinar caminhos. E, por favor, não peça mais desculpas. Faremos um pacto a partir de agora. Nunca mais pediremos desculpas um ao outro! Combinado? Ou nos matamos ou nos vivemos! Sem dó nem dor. Recebi tua carta ainda era início de crepúsculo. Eu estava a podar umas mudas de margarida que ando cultivando. Você iria gostar e penso no teu sorriso lépido quando as rego. Teus dentes brancos, margaridas brancas que germinam. E eu penso no amor, e penso nas margaridas roxas. Ele morre, o amor? Até quando vai? Minha angústia maior é a tua demora. Eu até não deixo que a idéia de não poder ter você comigo me tome os músculos do coração. Modelei uma campânula de barro cozido para pôr como proteção. O frio é esperto e pode entrar por baixo. Congelar tudo. Fiz lareira também. É chama o dia inteiro, chamo você, clamo, reclamo, amo. O domingo vazio que não sei preencher. Ocupar de que, diz-me! Sem você aqui não há paraíso, nem Dante. Não consigo prosseguir com meu italiano com sotaque. Eu até comprei bolinhas de gude para quando o Antônio chegar. Quero brincar com ele e dizer que também sei fazer forminhas de barro, tijolos de construção. Castelos de cartas e acertar o caco de telha no céu jogando amarelinha. Sair pulando, feliz e com luzidios olhos, de uma perna só. Imaginar que sou forte e que sei vencer as adversidades. A estética de uma missiva varia consoante a finalidade, Virgínia. Fina finalidade de dizer o que quero. Hoje quero apenas paz. Hoje quero apenas caos, porque sou. Escrevo porque ando longe dos vivos. Não consigo mais conversar com os vivos, e você morreu em mim. Fez casa em mim, morada. Abrigo teu teto e teu chão, abrigo-me. Os vivos estão mudando. E eu que sempre quis ser eu mesmo. Dói tal dor. Ah, para não esquecer, vou mandar fazer um vestido de poesia para quando você chegar. Um vestido de poesia para você vestir...

Teu verso, meu verso. Inversos.
Por inteiro...

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"iii
by *aL-baum"
Deviantart

Roberta Pereira disse...

É incrível como amo as coisas que tu escreve,a forma como manuseia as palavras e as coloca em seu devido lugar,elas me proporcionam sentidos sinestesicos.Sou sua fã!