terça-feira, 5 de abril de 2011

Calibres de coruja


VI

Cádor,


Vi você triste. Era um retrato e era você triste me cobrando carta. Eu já escrevi dezenas. Todas feitas ao meu modo repetitivo de ser. Me repito, Cádor. Gosto de repetir, mas não me empurra dentro de armários ou me tranca em baús porque minha vista cansa. Ver tudo sempre igual me cansa. Você me conhece. Já vou me repetindo. Ontem fui ao médico e de novo fui à casa da minha mãe e de novo lembrei, por incidente, que você é de um calibre alterado. Homem de face a face e calibres. Amo a sua existência, mas sinceramente, odeio sua forma de me manipular. Você cria cativeiros em suas palavras e me ordena. Você sabe que não tenho margem. Sempre soube. Nunca escondi. Se tenho margem, deve ser tipo aquela do papel pautado, bem fina e azulada. Sou escombros, Cádor. Tenho restos. Mulher de restos. Minha sombra não protege e minha palavra não ecoa. Não sou perfeita a ponto de ser toda sua vida em um filme. Sou simples e enfadonha. Aliás, sou chata. Você lembra. Sempre que saíamos juntos, eu queria voltar. Era um medo de me perder. Só eu sei. Tenho medo sim. Admito. Admitir é perder parte da culpa. Você continua armazenando defesas e ataques. Você não muda. O tempo pode voar sobre a sua cabeça e ainda encontro o Cádor revestido em cimento. Parece uma estátua. Hoje trabalho mais cedo e vou dormir um pouco. Sobre nosso último encontro, houve motivo, mas também procurei saídas. Você me rotaciona diferente. Elabora minha frase. Mas não consegue me fazer ser outra.

Sempre.

Virgínia


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Minha cria,


Não crio você, Virgínia. Não domo nem modelo, porque não sei fazer carinho gratuito. A gratuidade, que vem da alienação dos pés, é quando a morte me aparece. Se você vem comigo, não é porque gaiola sou, mas porque você me precisa. E teu andar lento e medroso ao meu lado é o teu sinal mais vivo de me necessitar como da água no estio. Sol dourado te presenteio porque hoje e sempre quero dizer que te amo. Vivo de você e tua saída é sempre frustrada. Não tem degrau nem elevador. Subo. A copa do amor, cópula dos ventos. Vivo assim de toda a tua ruína, de todo o teu coto. Tijolo que me alicerça é você e se há criatura nesta terra de gigantes, sou eu o in-domado. Por dentro te rejunto. Acabo tua superfície áspera e gero a lisura de um bem-querer. Somos eternos e mágica é a atmosfera que nos rodeia. Eu fico, aqui é meu lugar e faço café forte, sempre, a lua lá fora triste fica também, porque a alegria vem e fica. O que de gratuito te ofereço é este meu glorioso cuidar. Não é infausto o livre destroçar de fronteira que te permito. Faço de tudo e minha naturalidade em te ser é meu lugar ameno. Não obstante tua dúvida entendida, eu imigro e viro fenômeno climático. Arranco com força a raiz mais grossa da secura e rego o chão que se abre. Classifico o amor e nosso amor é tudo em nós e de mim irrompe aquele espanto sem disciplina. Amo o teu ofício de fugitiva porque tua poética escapa do tempo cinza. Mas tudo isso, Virgínia, porque o que quero é só dizer que te tenho por amor-maior, aquele segundo que transforma o nada em som, bem dentro, fundo, profundo mundo a me cobrir de ti. Amar é quando nos afundamos no poço. Amor é aquele poeta que lemos.

O relógio apenas orna a esquerda do meu pulso.

Te badalo.


Cádor, eternamente.

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da postagem:

"Owl by =MarinaFoto"
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