terça-feira, 25 de setembro de 2012

Cigarras no canto


 Por Germano Xavier

VIII


Senhor de mim,

E a tempestade fala em raios e trovões e as plantas de nosso jardim suspiram a urgência do querer ser único. Único ser dentro de um vaso, dentro de um envelope, dentro de um corpo, dentro do mundo sem fim das palavras. Encontrei o personagem de meus contos, suave e febril e eterno como a fonte que de mim sobrevive e anseia por estar em cada vocábulo que deixo escapar ao amanhecer. Você amanhece dentro mim a cada poema e a cada olhar em outra direção, sua Vênus Comum, se despe em estações de outro inverno. Amanhece em meu ventre, amanhece em meus olhos – nítido e veloz em sua força de caçador e herói dos livros que ainda não li. Amor em contentamento, em distração, em contração. Amor em movimentos e fases de lua e fases de ser meu senhor e servo de nosso relógio que ressoa, sem tréguas, nossa guerra em sermos um do outro em tempos de ser quem já somos.

Com urgência,

Virgínia de Cádor


“que tivesse um blue.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
"what's new"
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo”
(Ana Cristina Cesar In, Um Beijo)

Amo sem fim...

*****

Liubliu,

porque nossa esfera é outra, é mais e não é amor só porque é pouco e pouco não nos é. Doença que carrego no peito, meu relógio é só teu som, teu sono, teu sumiço, tua aparição. A aldeia de relógios parados, a aldeia do tempo desperdiçado, a aldeia da pele calada é o domingo sem você. Vem mais uma vez com teu ódio de amar, mulher-universo-de-mim! Vem me despir como você fez na noite fria lá fora e tão ardente cá dentro de nós. Vem no aperto do seu peito e dispara contra meu peito a bala que matar-me-á, tua dose de amar, meu mar, ó mar! Aponta a ponta da lança e vara meu coração que delira! Mira toda a tua esgrima e perfura e me cura de tanta furta-cor. Acerta perto de tudo, dilacera a hora que não vivo. A aldeia de pergaminhos trocados, a aldeia de escapulários dementes, a aldeia de alabastros febris. Porque meu cuidado em te zelar como ouro, meu diamante impuro mais puro, limpa mulher-universo-de mim vem me sujar, sugar, como nossos exercícios de outono. Nada, mergulha, vaso de jorrar o nosso cardume de morder. Apinhe-me de tuas gentes que gosto de todas em ti, tão doce tão meretriz. Vacila meu codinome e pronuncia o nome meu que é seu. Esquece a joça da vida pregressa e vem embaçar nossa devassa indevassidão. Enroscada como a cigarra no canto até o fim, tua menina em mim, flor de laranjeira, coberta de amor, alvissareira, me manda uma mensagem de flor. Traz aquela mala pequena, e me manda um bilhete de cena, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer...


Espaldar, minha costela.

Cádor

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Melancholia by *Gerry-And-Me"
Deviantart