sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sobre o amargo do coágulo



V


Voz Dos Dias,


Estou lendo. Ando lendo todo livro que encontro em meu caminho. Li, em uma única tarde, O Iceberg Imaginário e Outros Poemas. Veio me visitar a Elizabeth Bishop. Li ao som da Fiona Apple e suas valsas. Da janela, vi ruas e gente correndo demais. Eu não corro, você sabe. Talvez seja esse o motivo que me leve a ler poesia e não prosa. O Quintana esqueceu de dizer que poesia é a única verdade que existe – todo o resto é invenção. Essa é minha observação após ler poemas que falam tanto de mim e me comprometem.

Fiz reformas em mim – agora sou professora de português também. Abri mão dessa minha bobagem de dizer tudo em inglês. Deixei nossa língua mãe ser meu objeto de estudo. Posso citar algumas regras gramaticais de tanto que já pesquisei para as aulas que preparei. Já estamos em maio. Nem havia percebido o correr desse tempo atarantado. Lembrei daquele quadro de Dali – o tempo e o relógio derretido. Sei que não é esse o título, mas obras não precisam de títulos, eu acho. Eu preciso de títulos. Hoje sou meu próprio arquétipo. Gosto dessas palavras e sei que você também tem um violento apego por fonemas e vocábulos. Sabe que choro de rir ao lembrar da forma como você fala? Sua forma de exaltar sempre as tônicas. Som que não esqueço. Sua voz aquece e é melhor ouvir você me apedrejar com sua inteligência do que ouvir Nina Simone. Você é aquele personagem de filmes antigos. Sempre que chega sua fala, o silêncio adormece. Eu adormeço lembrando de nossa conversa sobre conhecimentos gerais. Quanta pergunta formulada de uma só vez. Quem fez isso, Virgínia? Quem escreveu aquilo, Virgínia? Dom Quixote seria morto pelos moinhos, Virgínia? À luz de meu abajur antigo, morro de rir e me reviro dando voltas na cama que logo não será minha. Sim. Organizo meus planos. Fiz uma lista das coisas que me são necessárias. Músicas, relógios, fotos, roupas de algodão e minha coleção de espelhos. Apenas um espelho e meu Narciso fica contente.

De suas lembranças, guardo todas. As levarei comigo também. Poemas do Neruda e comprarei pijamas para você. Ficará como eu – Como éramos. E mal acreditei nas mudanças. Sopas e alimentos mais saudáveis? Cádor e suas mudanças e leituras. Vejo livros do Fernando Pessoa e já me vem sua cara flutuando em imagens. Amo seu rosto. E amo suas cartas. Minhas aulas de literatura que chegam pelo correio. Abro as cartas como aqueles pobres soldados longe de casa. Você é o lar, morada e estação na qual quero adormecer. Quero suas brincadeiras, suas risadas amarradas e suas mãos apoiadas em mim. Por isso decidi. Não. Decidimos juntos. Largaremos esses mares de agora e faremos história. Que ninguém saiba ou que o mundo nos engula.

Das vidas, meu filho está bem. Parte de mim que não será nosso estrangulamento. Ele é prova de que sou mulher, Cádor. Prova de que o mundo será seu. Meu trabalho, cansativo. Meu corpo, pequenino e ainda mais leve. E se o amor morre? E até quando ele vai? Seremos respostas para suas perguntas. Quero o mundo fora da janela e quero o mundo de sua varanda com vista para os dias. Fala pro Dante que ele perdeu a voz. Fala para o Cádor que a Virgínia está pronta. Quero vestido de poesias. Quero nossa vida de volta. Quero estar morta e viva em nossos instantes. Pode reconstruir seus vãos porque, embora eu seja borboleta, preciso de uma prateleira para saber que também tenho espaços.

Espero carta ou você, liberto do tempo, em busca de mim.


“O amor é o menino obstinado, o navio,
Até mesmo os marinheiros que procuram por uma desculpa
Para ficar no píer
O amor é o menino em chamas.”

(Elizabeth Bishop In, Casabianca)


Com Amor, Virgínia.



*****


Mulher,

Tenho saudade e eu gosto mesmo do que é violento. E eu gosto do gosto das facas sangrentas, gangrenando o organismo, sangue que coagula, ficando duro e preto e espesso plasma já quase sólido. Insólito. Gosto de tudo em você como a carta que chega e diz que sou o texto que vai vazando e vai voando e vai viajando no vento veloz e o vôo. Que diz vou. Minha saudade é sempre e não tem vírgula nem ponto como a sua saudade não tem vírgula nem ponto porque somos a literatura inversa e que versa sobre os dias que estão para acontecer em mim dentro e fora de fora para dentro e de dentro para dentro do meu mundo que vai e vai pois você vem vindo. Você vem vindo no navio, de navio, fumaça e toque alto de buzina. É a tua saída e é a tua saída, meu amor. Quem sai sempre chega e começa sem recomeçar porque nunca começamos. Sempre fomos o haveria de ser, em suspeitas. Mas nem assim você foi morta mulher. Foi viva e grande, apesar de seu curto um metro e meio de altura.

Andei a ler literatura francesa. Literatura Noir, negra, meio Maupassant meio Flaubert. O Gato Preto do Poe me surgiu em aparição numa tarde destas quaisquer. E li e fiquei preso. Temos que descobrir o segredo que os grandes escritores utilizam para impelir deliciosamente um leitor ao gozo de um texto de qual calibre for. Há uma espécie de grude que liga o olho ao papel e que não nos deixa o escape para outras direções. E devorei o texto e vi a crueza humana. E vi a barbárie, como vi o estado demoníaco do ser em golpes de loucura. E vi o arrepio em minha epiderme quando a culpa é apenas um detalhe. Culpar quem, se há maneiras mais fáceis de se gozar sandices? E tenho saudade de ver você à mesa, lendo, como quem degusta uma lagosta e pinga os ácidos do limão sobre a carcaça dourada.

Meu amor, não precisa correr. Deixa o moinho girar. Deixa o baile a música iluminar. E me chama para a dança que eu te chamo para a vida. Verdadeira. Eu já sei de teu comprometimento e de teu passado triste e sem a graça do tempo que você já tem. Não quero livros fechados. Quero a pia limpa e você me ensinando a fazer bolo de café. Que missão a tua de me fazer gostar do gosto do café, bebida quente que amarga minha jugular e que nunca tive simpatia. E eu gosto quando professores de geografia ou de matemática assumem o papel de também serem professores de idiomas maternos. A maternidade é mesmo uma dádiva. Engrandece uma fêmea. Você sabe disso. E eu, desde já, assumo você perante o mundo. Não vou mais esconder meu amor e sempre colocá-lo por baixo do tapete. Agora vou atentar para o que meu coração pede a tanto tempo, e são tempos e são tempos. E planos são sempre planos e planos são sempre bons. Planos lembram metas e metas lembram alvos e alvos lembram a tua alvura de chamar-te por “minha branca”.

E se você for a resposta para as minhas perguntas, Virgínia, então que venha logo o teu sal e o teu condimento inteiro, que eu me faço em conserva para ti. Serás tu a que me falará dos estados do amor? Se ele é ou não é? Se ele é mesmo ele ou é outro? Se culpa é também amar ou se amar não é do tempo nem do espaço? E foi violento e está sendo. E foi coisa de livro e será página de romance realista de Henry Fielding e você será o mimo de minhas correntes e o pingente do meu colar. Não sei mais construir enunciado para dizer que te amo mais que a mim mesmo, porque vai ver o amor só assim funciona, em doação e entrega e dor no peito.

Peço venha forte e venha sem medo e venha com fome e venha correndo e mude minha vida e me faça homem e me amamente seios e durma em minhas roupas e durma de meias e não durma e se acenda e me queime e venha forte e venha sem medo e venha com fome e abra a porta e atravesse o corredor e me olhe com gana e escancare um sorriso lindo e seja você e não se guarde e não se prive e que você seja a liberdade e o meu vôo e que só venha se vier forte e se vier com fome e se vier sem medo.

Porque, Virgínia, foi violento e está sendo.

Amor: termino forte.

Cádor

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"the day they went away by *jyoujo"
Deviantart