domingo, 17 de abril de 2011

Sono para sonho

VII

Querido Escritor,

E se fez inverno em nosso tempo. Sim. Inverno e bom tempo. Assim lembro do Quintana, assim lembro de você. Lembro dos dias de olhar o céu como se tudo a ele fosse possível. Mas nada chegou a mudar. Céus são possíveis, mãos são possíveis e já chega o silêncio dos que dormem. Você dorme, escritor. Eu escrevo. Ainda permaneço de ponta cabeça, como se costuma dizer aqui. Nasci naquela cidade cinza - hoje prefiro o verde destacado dos jardins. Espero. Sei esperar. E você, aprendeu a esperar? Aprendeu a prender fôlegos? Eu aprendi. Aprendi lendo a Adélia Prado. Ela não fecha a boca enquanto não termino um verso. Como se faz verdade nossos dias. Como se torna inteira a metade. Como se torna forte a vontade da hora. Como se torna verdade o escrever.

Ainda no mesmo livro, Virgínia.

PS.: Tudo se faz tempo. Tudo se faz você.

**********

Sim,

O tempo é mesmo um temporal. Ele muda e acaba mudando a gente. Aqui fez bastante frio por um tempo, mas o sol já raiou bonito outra vez. Eu gosto do tempo frio, sempre gostei. Lembro minha infância na cidade pacata onde cresci, hoje uma cidade metida a besta. Na verdade, sou um humano pulverizado por reminiscências. Vivo delas e limpo-me delas constantemente. Mas esquecer é também lembrar, você sabe disso. Todos sabem. Lembro de tudo e não esqueço você. Lembro também, porque você sempre será aquela perdida em meus braços. E não adianta, você levou o firmamento daqui. Hoje me alimento do passado porque o presente é ralo e gratuito. Fui fraco, estou fraco, me rendi ao desespero, vivi, mas luto por você. Meu sono é para o sonho. Se durmo é para te encontrar, dimensão outra que tu és. Meus olhos fechados e tristes são lâminas contra a covardia de amar o que não posso. Aprendi com você a esperar a hora certa. Você me ensina o mundo, e eu aprendo a fome. E nossa hora é a melhor.

Sim, a mesma página.
Em estado, Cádor.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"invisibly by `gnato"
Deviantart

Hugo de Oliveira disse...

Ótimo escrito...adorei.

Rosangela Neri disse...

O que posso dizer?
Amei.

Falando em frio... hj senti uns ventinhos gelados vindos do sul para o DF, delícia!

Beijinhos carinhosos da Rô