domingo, 8 de maio de 2011

Pômulos e pórticos


IX

Cádor

Acabo de receber sua carta e aproveito para responder antes de sair para mais uma sessão de tortura em companhia da Marília. Nunca vi tanto sofrimento em um único ser. Parece uma urna fúnebre – reclama até do vento que vem torto e assanha aquele cabelo dela, cheio de nós. Sinto náuseas, mas sou amiga e amigo agüenta. E ser triste incomoda sim. Incomoda porque é como uma praga que se alastra. Sei disso porque já fiquei triste e fiquei sozinha. Tristeza assusta. Você tem que aprender A Doce Arte de Ser Feliz o Tempo Todo. É fácil fingir. Lembro de quando nos conhecemos. Muitas vezes eu fingi. Houve dias em que me era insuportável olhar sua superioridade imaculada. Sentia repulsa. Queria sumir. E agora você vem com as velhas notícias. Eu bem que imaginava. Você seria ou chegaria a ser ou então, flutuaria em seu ego por tudo que já conseguiu. Ao menos você é triste e sente revolta e lê revistas de filosofia. Eu me atenho a Reader's Digest e aqueles artigos que nos aconselham a não morrer cedo. E não morri cedo. Já passei do ponto – meu ponto de partida. Você esteve comigo - fora amigo e amor durante anos. Me conhece e sabe o quanto invento coisas. Agora estou vivenciando outra criação minha. Amei você por tantos anos e agora retiro sua estátua de meu armário. Fiz arrumação. Tanto lixo, tanta bobagem. Nós acumulamos bobagens. Acumulamos necropsia. Decidi me limpar e limpei tudo. Envio com a carta aquele seu livro cheio de colagens e fotos de pássaros. Juro - até hoje não entendi a existência desse livro. Está aqui ao meu lado, me observando com cara de amostra grátis. Vai junto com a carta e com minha desobediência. Como sempre não entendo o que me levou a escrever pra você. Talvez para me exibir. Estou em queda, mas ainda no auge. Impossível? Não. Nada é tão impossível. Existo até hoje – há milagres. Gosto de deixar você saber que estou bem. Dou risada quando lembro das coisas que você me disse quando decidiu ir à Brasília. Sempre achei que Brasília me roubaria algo. Levou você de mim. Hoje não odeio essa cidade, gosto de política e sou amiga da Marília. Ela me serve – adoro ser senhora das coisas. Ela carrega meus livros, agüenta meus porres e minhas enxaquecas. Tenho dores de cabeça – coisas do passado ainda estimulando minha memória refratária. E você, senhor de todos os livros, é humano sim. Humano e tonto. Quase um imbecil. Estou rindo agora – rindo e imaginando sua cara ao ler minhas palavras sem retórica. Não sou retórica e você é humano. Só um homem comum em plena combustão, escreve como você anda a escrever. Parece mais estar se consumindo. Me fala em dragões, em tempo, mas fora você quem apagou traços. Nada fiz. Só caminhei. E sou dona de meu tempo sim. Agora mesmo irei sair e dar minha cara à vida. A Marília irá me encher falando do novo livro de um qualquer e seguirei para o trabalho. Aí completo o ciclo. Sou dona do tempo, dona do meu nariz e de você também. Fez caso e casa sobre meu nome e agora transborda em cálices. Aceito o cálice. Você conhece meus tons.

De saída para a vida, Virgínia.

P.S.: Nada de importante – apenas achei que post scriptum combina bem com a nossa hipérbole em escrever.


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Vírgínia,

essa tua resposta é apenas um papel velho amarelado pelo tempo. Eu tinha guardado em uma de minhas gavetas vestidas com os signos do sigilo. Rarefaz-se palavras tão duras dirigidas a quem só sabe amar-te. Não é de agora, é de outrora. Bugras palavras enlameadas de passado. Quase apócrifas. Traços sem traço. Você bem sabe que destruimos coisas antigas e fizemos nosso muro de sangue. Sutis nuanças que nos percebem desde a era em que surgimos para o mundo. São crespos papelotes sem endereço, haja visto minha vistosa fuga daquilo que a ti não pertencia. Hoje nossas capas são acetinadas, nossas abotoaduras dispensam asas de papel crepom. Pactuamos com o desquitamento dos estropícios, consignamos nossas animosidades para viver melhor, galardoados pelo nosso mais que totêmico amor. Amor infundido que teima repartir prebendas. Amor teimoso de tanto amar. Radial, paquidérmico, lanho, eficaz canção é nosso amor tão tudo. Amor fragrância alcaçuz. Amor gosto erva verde de chá. Pômulos e pórticos maltratados em aberturas e fendas. Halo e cotejo, nosso palpite eterno de se envelhecer junto, sem idade nem hora. Páginas ampliadas que apagam essas, tortas e sem sexo. Palavras informes, vacilantes, editoriais de tablóide chinfrim. Nossa manchete é outra, com sangue na capa, paixão e rebeldia, homem que mata mulher e vice-versa. Assassinatos e assassinos. Morte diária e papel vermelho, escorrendo verbo na prisão. Prisão do amor. Cela escura e mistério poético. Minha bata é tão formal assim ou é forno? E o fraque, precisava? Cebolão, mantilha, galhofa, zumzum... O que será que será, Virgínia? Te como antes de matar ou mato antes de comer? Porque meu amor é assim, notícia do caderno policial. E me desculpe por ser breve. Nem só de retórica vive nosso amor. Meu caderno cultural.


Cádor

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"wish of epicness by =hyrith"
Deviantart

C. Filemon disse...

Incrível, professor! Parabéns pelo excelente trabalho aqui no blog. Já estou a segui-lo.

Abraços.

Letícia Palmeira disse...

Este post eu comentarei.

Usei vírgulas desnecessárias. E agora estou pensando: por que eu usava tanto travessão?

É bom reler coisas que escrevi assim, no repente. Detesto reler meus estragos. Mas este foi bom. E esta Marília que criei se transfigurou. Eu invento personagens vivos.

Obrigada por continuar publicando um trabalho que fizemos juntos, Germano.

Beijos.

Letícia