domingo, 29 de maio de 2011

Quadro grande em mim


X

Até breve uma merda. Li a carta e tremo de tesão e vontade de engolir você, seus livros, suas teses - com sangue, em sentimento, em corrupção. Sou corrompida. Sou voraz e devoro. Devoro alma e a sua tem sido o meu alimento de privilégios. Privilégio é estar dentro de uma mulher e saber tocar e andar por entre telhados. Foda-se Melville e todo o resto. Foda-se o Fernando Pessoa - já devorado pelos vermes de tudo que não viveu. Quero você e sou mulher de mundos abertos. Foda-se qualquer padrão e sua leitura pela madrugada. Foda-se também quem estiver em meu caminho. Não ando em grupo. Sou Pandora sim e minha caixa só se abre com palavras. Me alimento de você também, Cádor. Foda-se a criatividade e a subjetividade. Sou escritora e me rasgo em centenas de folhas, em sangue e sêmen. Quero você - quero e terei. Sinto seus olhos, boca e seu membro poético penetrando ávido entre minhas pernas. Que seja a besta ou espada. Sou caminho de pedra, mas como você, vivo da morte e quero morrer junto com você. Morrer sem medidas. Morrer sem fome e faminta. Não tremo, não ando cabisbaixa e se você estiver ardendo por me ter, terá. Não me libero a deuses sem que haja ornamentação. Sou sua missiva sem medir palavra e sou mulher de tempos. Não me escondo. Caso me queira, queira. Ou vire páginas e deixe que Dionísio tome conta de mim.

Também escrevo com raiva.
Também sei arder por sexo e amor.

Virgínia de Cádor.

E goze por mim em suas leituras e ao ler meus textos.
Exponho meu sexo em cada um deles.
Com amor de quem escreve...


**********


Virgínia, os dicionários perderam o valor depois de você. São medonhos objetos apenas objetos. Não mais os consulto, porque sei que o significado sou eu, é você. A significação idêntica ao que não é de ordem mimética. Não sei emular sentimentos. Sou aquilo que você já sabe, que você permitiu que eu fosse. Agora é hora do fardo maior, da carga mais dolorida. Nossas envergaduras podem arder, mas precisamos do sim. A hora de nos provarmos sem prova, como em verso, como em prosa, como em faustosos favos. Bocas e outras coisas mais em lama de nós, nossas fatuidades, nossas fases que sempre passam e não passa nada, porque somos feitos da perfeição do verbo ser e tudo em nós fica, permance. E somos. Não somos despojos, mas antes a própria primeira estação. Descemos os degraus correndo contra o mundo castigado e sem, e nos elevamos, sem pedir licença. Quero você como amo. Amo-te, meu diamante. Meu tesouro escondido por tempos, tempos antigos. Nácar namorada morada de mim, amorada prece orada, flor de meu jardim: jardim das delícias, repito. Meu retrato pregado, quadro grande em mim.

(...)
Sigo teu conselho.
Iorubano nagô sou, e minha religião é você.
De sincretismos...

Cádor

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"light me a lantern by *scheinbar"
Deviantart