quarta-feira, 1 de junho de 2011

Arrebatação


XII

Desliguei o telefone, tomei ares e me quebro só de imaginar que hoje pode ter se aberto uma porta que sabíamos que, um dia, iria se abrir. Mas sou fantasiosa e não perco meus degraus. Não perco amor só por estar longe e por ter notado - "sim, ele vê uma verdade que não sou". Não sou serpente que lança feitiços, o tempo não me fez assim. Você quer me conhecer melhor, irá me conhecer e virá à minha cidade me ver - marcaremos horas e lugares. Te arranjo até grana, faço tudo, faço tudo para ter o meu poeta comigo. Você vai me olhar e ver que sou assim... como vou descrever... e saberá se me quer, se sou ou se serei apenas uma lembrança para dias de cadeira de balanço. Cádor, é assim que o chamarei porque esse é o seu nome. Cádor é o meu mundo. Acabei de ler sua carta e nunca me fizeram tão viva como você faz com suas palavras. Você me acorda todos os dias, falando claro em meus ouvidos - e acordo esfomeada. E procuro você e já vejo sua mensagem. Uma poesia matando dias iguais. Mas nada é igual na verdade. Nada parece se repetir. Ontem você me deu suas horas, sua voz e poemas de meu poeta favorito. Você me adorna com seu ritmo e acelera minha morte de amor por ser sua metade que anda pela vida. Sou o que represento. Você é a voz que me canta em realidade e força de homem. Você é o homem - feroz e cheio de mim. Sou sua. Pode me arrebentar e esperar e me furtar de meu mundo. Comerá de mim tudo o que posso ser por você. E amo você, Cádor. Amo não de invenção, mas amo como mulher que respira Cádor e abre as pernas e se deixa penetrar por você. Somos parte de algo que já existia mesmo antes de nos conhecermos. E beijo a sua boca agora e me aninho em seus braços e ouço a voz mais bela. Estou com você - "rabiscando o sol que a chuva apagou" e "esperando o meu passar".

Sua fêmea, Virgínia.

gosto do meu corpo quando estou com o teu
(e.e.cummings)

gosto do meu corpo quando estou com o teu
corpo. é algo completamente novo.
Músculos melhores e mais vigor.
gosto do teu corpo. gosto do que faz,
gosto dos seus modos. gosto de sentir a espinha
dorsal do teu corpo e seus ossos, e o tremer
constante-tranquilo que
outra vez e outra e outra ainda
beijarei, gosto de beijar-te aqui e ali,
gosto, de afagar lentamente a indecorosa penugem
da tua pele elétrica, e isso que vem
sobre a carne despida … E grandes olhos amor em migalhas,

e gosto talvez do calafrio
que me passa de ti absolutamente novo
(Tradução de J.T.Parreira)

Um poema do cummings. Me traz você a cada leitura.

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Virgínia,

Desejo que teu colo me preserve dos mais cruéis instantes que terei de atravessar. Sei que ainda é cedo, mas as proeminências da vida mostrar-te-ão o quão realmente quis você, o quão generoso e amante lhe fui, o quão sincero. Porque quis o bosque florido em épocas secas, e você me deu. Porque quis eu as asas coloridas das mais belas borboletas, e você me presenteou sua ternura. Porque sonhei dormir à sombra de uma árvore e ver ao longe uma revoada de garças triunfantes, e você encostou o teu rosto ao meu, fazendo do silêncio a expressão mais bela do teu afeto. Quis minha lágrima a escorrer em teu seio, e você trouxe a mais fina flor de todos os jardins. A estrela mais luzidia que fulgurava na mais remota constelação confundia-se ao imaginar tão borbulhante o teu brio. Lancei âncoras de sentimentalidades no mais azul dos oceanos, e você se tornou o canto apaixonante da jovem sereia. Você foi tudo que um coração vivo bombeia. Foi você o endereço mais certo para as minhas inspirações. Contigo degustei o passar das horas mais ligeiras, a quentura dos lampejos feminis mais bárbaros, a incerteza de se querer estar vivo. Devo agradecer por estar tão distante das demais almas femininas, tão irresolutas e indignas do amor. Devo dar graças por ter me revelado as diferentes faces do amor. Por tudo, devo-te. Somente uma coisa machuca-me. É esta certeza de se estar tão distante, esta agonia de não poder senti-la - como se fosse a única capacitada a tão rara arrebatação. Fico a esperar-te de novo, deitado sobre a mesma relva do passado, e que nada mais é que a saudade de sua trágica singularidade. Porque o que há entre nossas almas é um picadeiro, uma companhia inteira de acrobatas e trapezistas desafiando a altura mais imprópria para o derradeiro salto mortal, o do amor que mata lentamente.

Até mais ver.
Cádor

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