sexta-feira, 3 de junho de 2011

Corpo estranho


XIV

Para você...


Eu preciso escrever. Preciso fazer isso de verdade, nem que seja só para mim. Só para eu ler. Páginas de diário ao vento. Penso em você como presença do sol. Mesmo chovendo, há sol. Amo você da forma mais humana que se possa amar. Defeitos expostos e seu sexo exposto e vejo perfeição até em sua inércia. Hoje faz pouco mais de uma semana e eu sabia - o tempo iria dizer o que realmente havia acontecido. Desde que sai de casa e tomei o caminho para encontrar você, pensei em todos os detalhes. Durante a viagem, não avisei sequer onde estava e você sabia que eu estava chegando. Quando liguei já era quase hora e quando cheguei, você me apareceu sorrindo tímido e gelado e era mesmo o urso polar que eu havia desenhado. Em minha ansiedade, me tranquilizei em cigarros e você odiou. Eu sabia que você odiaria. Eu também sentiria o mesmo. Mas não pude evitar. Era eu, Virgínia sozinha caminhando para ver alguém que talvez eu já conhecesse ou não. Era uma aposta do tempo. Eu e o tempo. Sem personagem para me esconder, agi como sou. Largada e preguiçosa. Complicada e simples. Frágil e trêmula. Como usei em um de meus textos, sou uma bola de neve ao sol. Amei você desde o primeiro texto que li. Seus poemas carregados de linguagem esquisita para mim, eram meu refúgio. Eu entendia seus poemas e os odiava. Porque falavam de um amor que estava em mim desde tanto tempo. E quando o vi - lá parado me pedindo um abraço, fui eu sorrindo e achando engraçado. Era engraçado ter me entregue a um homem que não sabia ser real ou apenas poesia bem escrita. E fomos juntos para o tempo que se consumia a cada segundo. E eu analisei seu gesto desde o início. Sua forma de andar, seus livros, sua cômoda cheia de coisas e também as formigas que caminhavam entre nós. Vi tudo e você era gigante no meio do quarto e do apartamento. Nossa primeira conversa, assim que larguei minha mala no chão e me sentei ao seu lado foi sincera. Eu não usei disfarce ou maquiagem para dissimular. E nos beijamos. Meio tortos, mas beijamos. Eu descobri seu gosto e você soube de mim. Depois do banho, conversamos mais e então os corpos tiveram o que há muito queriam. Você me rasgou como quem abre um envelope. Se enfiou em mim e suou em meu rosto e queria sempre olhar nosso sexo um com o outro. Fomos animais. Desde o início. Sou mulher e usada pelos dias. Eu conhecia movimento de homens, mas o que você fazia sobre meu corpo, não era humano. Era animalesco. Era o nosso sexo que estava escondido. Você sabia manipular - soube. Usou de seu corpo e fez tudo o que quis, eu acho. Eu amei sua bagunça. Sou mulher e criança, você sabe. Conheço línguas e livros e nunca havia sido penetrada com tanta força e raiva. Eu vi também que você se inaugurava em mim. Estava fazendo poesia ou conto. Sempre tentava se inaugurar. Seus olhos eram tímidos e a boca era silenciosa e os braços me moldavam e machucavam. Você deve ter procurado em mim resquícios de outros homens ou semelhanças com outras mulheres. Eu fiz isso. Eu analisei sua semelhança. E não havia semelhança. Era um monstro me devorando com amor de criatura que não sabe as profundezas da água. E você viu que sou feita de água. Por isso me entorto e fico gelada ou quente demais. E nós brigamos como antigos e você me fez chorar como antigos e eu fiz você se arder como antigos. Estávamos em um duelo para amar mais e explorar mais um e o outro. Não havia como isso não acontecer. Vivemos analisando paredes, borboletas e fraquezas. Nós sabíamos que éramos inimigos amando um ao outro. E a cada dia seu beijo me arrancava mais pedaços e eu tentei ser o que sou. Beijei você como beijaria a mim mesma e contorci meu corpo em orgasmos que eram violentos de amor e vontade. Eu queria você o tempo todo. Ficava úmida só de ouvir sua voz. Mas aí comecei a fingir não querer porque já havia me deitado com você tantas vezes e meu corpo pequeno não acompanhava a força. Mas eu quis e me machuquei. E era a melhor dor que se pode ter. Não sei que força machista levou você a me querer tanto e tão ferozmente. Você quis me comer, devorar e nos sufocamos. Não por estarmos enjoando um do outro, mas porque havia algo acontecendo. Não era simples e nós sabíamos que, desde o início, não era simples. Estávamos engolindo um ao outro e em essência de incensos. E o quarto era o mundo. E passamos dias sem perceber. E era sempre na hora de dormir que a diferença surgia. Assistimos filme juntos - eu dormi. E você tomou conta de mim e saía e eu sentia saudade. E doía só de olhar para você. Seu corpo imenso me agredindo e eu aprendendo que amor também machucava. E você sentiu o mesmo. Aquela sensação que temos quando terminamos de escrever um texto bom. Sabíamos que era diferente. Seria só uma semana de culto e veneração, mas não foi bem assim. Nunca pensei que seria assim. Você teve uma mulher para você - fui inteira e voltei em metade. Porque você me arrancou pedaços e eu trouxe parte sua também. Tenho ainda seu gosto em minha boca. Minhas mãos sentem sua forma. Quantas vezes amei você com minhas mãos e olhei você me ver diferente. Vi que você se assustou também. Algo estava nos modificando. Não seríamos mais os mesmos. Não somos. Voltei pra casa e para minhas obrigações. Cuido do meu corpo que anseia pelo seu. Me tornei sua mesmo. O tempo fez isso conosco. Minha literatura parafernália anda perplexa com a minha nova voz. Você me fez mudar. E sei que mudei você também. Você teve medo. Era eu que estava ali e não a sombra ou a imagem. Eu viva em você. E cuidamos um do outro e brincamos de amor e agora é verdade. Sempre foi de verdade. Eu falei pra você que só faria diferença com o tempo. Tudo teria que voltar ao normal para sabermos o efeito. E foi devastador. Não adianta dizer que minha mudança não está ligada a você. Está sim. Não sei amar versos diferentes. Não adianta dizer que não fui louca indo até você porque fui maluca mesmo. Encontrei o senhor de mim. O homem que me devastou e chorou quando leu um texto meu. E agora somos metades. E sei que fui diferente pra você. Talvez não um corpo inédito ou sexo diferente. Fui apenas quem sou e sei que sou diferente. Isso ninguém rouba de mim. E você também é singular. O tempo pode adiantar os dias e fazer tudo parecer pequeno e tudo que escrevi pode se tornar antigo, mas não iremos sumir. Porque foi violento, como você um vez disse. Você é estranho, silencioso, não escreve diretamente pra mim - não responde e-mails. Sou estranha também. Não gosto de sair. Não sou temperada pelo sol. Por isso somos unidos. Por isso não iremos sumir. Fomos alimento e ainda somos.

"Vocês sabem,
amar demais nos torna
seres frágeis,
quebradiços."


Virgínia Borges


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Eterno amor

Amo forte. Destarte, quero a ti agradecer por incutir em mim toda a grandiosidade da dúvida. Porque sou cada dia mais seu, e depois de tanto blefar jogando cartas impostoras, arranjo-me destinado ao fim que realmente quis. Pois que nunca quis uma mulher como quero você. E você apostou em mim. E sei, por essa forma e por assim relembrar meus pássaros azedos, o quanto fui cadeia e prisioneiro do passado. Falo de mim e minhas mãos têm a fotografia de um hospital de marcas e cicatrizes. Ao cabo que tudo se renova, agora, com você por perto, num tempo bom e inesquecível, sei do sufocamento a que me detive durante o suportar das mais íngremes distâncias. Mas você veio, me ensinou a pronúncia correta de palavras difíceis e o fato de estar longe de seus suspiros e suores secretos tornou-me homem adulto e sequioso pela sagacidade do melhor dos sentimentos. Quero dizer que te amo, Virgínia. Assim louco, tão muitamente que nem sei aferir origens e motivos. Quero dizer que te amo e que o meu amor não se conhece pelos pampas da deslealdade. Amo o amor verdadeiro, o amor que fomos e somos, aquele tido como proibido e impossível. Amo, pois, com a devida certeza de não estar escrevendo ao vazio da solidão, e o meu sorriso é o mesmo credor a quem deposito tua chegada serena e silenciosa. Silenciosamente vulcânica, explodindo de baixo para cima. O meu amor a ti, e somente a ti, pertence. És tu a proprietária do meu coração. Um coração que hoje é cordilheira de ares resolutos e lutadores, posto que decidi a quem jurar minhas forças. A profundeza de teus lampejos de lascividade e amor contorcem o meu mais puro e algoz sentimento: o de desejar-te para todo o sempre. Mulher que apedreja as minhas mais imprecisas fontes de tristeza. Mulher que no quarto escuro aparece nua em carne de auroras oníricas. Força estranha de meus devaneios mais imaginados e quistos. Fulguras em meu peito como a deusa que palpita a fonte da vida no mais alto dos lugares. Quando serás realidade diária e não delírio? És quem me queima feito o fogo da brasa incandescente e ligeira. Eu sou feliz por tua causa, Virgínia. Sou feliz e triste porque só posso me ser em total tormenta se estiver eu ao teu lado. Porque você deve saber que a estação que nasce e traz à tona as flores de uma primavera branda é a mesma que enraíza-me na maior de todas as angústias e na mais cabal das tristezas: a certeza de amar algo tão distante dos meus olhos. Contemplando este florescer de rosas vivas e coloridas, fico a imaginar os momentos lindos que vivemos juntos. Sob o céu, nossos encontros de incontáveis horas. Lembro-me de quando nos beijamos sobre o testamento de uma lua cheia no meio do ano e foi tudo tão lindo, tão lindo. Inesquecível, como o pássaro que pousou sobre o teu ombro e cantou a mais romântica cantiga de amor para a brisa que nos rodeava. Como passaria eu, aqueles dias de abrigo, frações de segundo mais demorosas sem ter você ao meu lado? Me diz, como poderia eu?! Como seria eu capaz de reunir forças para erguer-me sem senti-la ao meu sustento de braços? Como seria o amor? Como o mundo? Como, eu? Você foi a pétala inebriante das eternas fragrâncias perfumosas do amor, que tanto seduzia a mim para o espetáculo da vida. Foi você o fogo enclausurado em meu peito jovem, minhas primeiras palavras justapostas em forma de poesia, minha inspiração e aspiração em noite de sonhos não conquistados. E saboreei contigo o doce da relva verde em átimos que haveriam de ser cinza sem o teu cheiro. E quão doce foi o sabor do teu lábio, quão doce! E é justamente esta certeira afirmação de se estar momentaneamente longe das palpitações mais febris do meu organismo amante que fura o brio das serenatas e das madrugadas escondidas e misteriosas. Sem você, canto o canto mais apagado dos que se destinam ao mais nobre dos cantores: o amor. Despeço-me dizendo o que se tem a dizer das lamentações de um choro doentio: sem você nada sou e sou o que nada sinto ser na plenitude dos acontecimentos diários e mananciosos. Espero-te para um jantar de corpos enroscados pela face arfante das paixões humanas e doentias, porque sei que estamos apenas no começo de um tempo eterno. E você sabe que espero sempre o carteiro que entrega vida na tarde gaguejante de calor. Não deixo palavra sua morrer, Virgínia. E não viemos ao mundo a passeio. Não acontecemos por acaso e somos mais forte que qualquer míssil rasteiro que sorrateiramente aparece na tentativa de nos enfraquecer. Por você eu engravido o presente, Virgínia. Derrubo o abismo que existe entre o pensamento e o ato, porque nós fazemos acontecer. Artificializar já foi o maior dom de um artista, a qualidade mais desejável. Mas somos também a realidade que somos, arfante e mortal. E nosso sexo é o registro cambiante da veracidade de nossa linguagem. Você é mais valiosa que minha própria vida e sabe que te devoro. Umedeço meus lábios vermelhos da cor de todo o meu sofrimento para roubar-te o favo do doce mel que tem tua boca. Por final de situação, digo que morro se em pouco tempo não sentir o abraço quente de tua presença, se não possui-la como quem porta um diamante.

Você é o meu diário.

Teu Cádor, e uma flor.

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