quinta-feira, 2 de junho de 2011

Dejanira em acontecimentos


XIII

Poesia. Poesia e doses de metalinguagem. Quero bobagem e dormir tarde. Quero beijar beijos densos e remendar pequenos espaços, fininhos trechos de admiração. Quero o vulcão extinto de encontro a meu seio de fazer de conta que acredito em outra voz que não seja poesia. Quero jogar lixo fora e dentro de minha vontade aleatória de existir suprimindo a loucura. Loucura faz bem, mas transtorna. Então observa e cria sua nova linguagem. Enguia em traje lunar faz língua falar e arde enquanto a cena imprime seu bom gosto. Tem poesia dentro da noite fria e poesia fora de controle. Quero a ausência da perturbação. Quero a ausência de controle. E querendo, sem revolta, viajo desescondida na poesia que nasce feliz e, como outros, taciturnamente enraivecida. Poesia é grito cuidadoso que não acorda vizinhos. Poesia é falar baixinho e saber que qualquer som expira e somos analisados noite e dia por nossos próprios olhos. Míopes que enxergam homens na lua, mas não conseguem ver que trens escapam e ficamos na estação esperando a Poesia se pôr. Será feliz o míope que vive em nós?

Virgínia.

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Querida,

nossa cegueira é dor. E estratégias não combinam com o amar que é de verdade. A sabedoria não está na fuga, mas no suportar. E improvável seria a ausência das minhas lembranças. Hoje vejo mais e como posso esquecer, tentar desfazer o que já foi feito, materializado pelo tempo e por todas as visões que nos bebiam? Como atuar assim, palco sem texto? Meus olhos, Virgínia, que hoje desconfiam, já se pronunciaram de maneira mais lírica. Não preciso repetir. Você me ensinou a crescer sempre, e eu aprendo quando tu falas. Os poemas já tiveram o amor, e o amor as palavras. O olhar que a você atirei foi laço, túnica de Dejanira: meu desejo de eternidade. Meu olhar se perdeu em obtusos ângulos, fechados em minha espécie escura, difusa e dicotômica, e hoje só alcança a tua luz. Seu feitiço fez de mim um homem sem interesses vários. Eu só sonho você. Meu sonho tem nome, rosto, sexo e sentido. Tuas laranjeiras me são florestas. Eu, uma folha seca, ainda verde. O que acontece? Por que assim? Hoje, não te enxergo mais com antes. Antes agora é presente e será futuro. Sei que devo estar agindo de forma desnaturada, mas é justamente isso que me faz viver.

Um estendido Cádor.

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