domingo, 5 de junho de 2011

Navegar tuas águas


XVI

“Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

Rayuela - Cap. 7
Júlio Cortázar, 2ª parte.


Nada é tão presente quanto o nosso passado, Virgínia. Hoje tomei para mim uma antiga foto tua, aquela que você me enviou ainda pequena era nossa história. Olhei pesadamente para tua imagem, pausadamente como um livro lento. E como sempre, veio aquela energia total que me abraça a alma, me confundindo. A aventura de navegar tuas águas é a certeza que tenho da vida. Faz tanto tempo que o sol deixou de iluminar minha varanda, de dar vida a ela, movê-la. Há tanto tempo a lua é tão pobre de brilho debaixo do firmamento. Mas todo o esquecimento advindo das coisas que usualmente me faz lembrar daquele tempo último, toda a memória oriunda da hora que já não é, posto cordão arrebentado e silêncio medonho, tudo ainda me corresponde uma ânsia, uma angústia e até uma solidão franca. Eu não queria que você soubesse que durante todo este tempo em que distante a chama bruniu, teimou, meu coração esteve passando por crises e doenças. Outrora tive a sensação mais vaga do preenchimento, perdi o passaporte que me dava direito a fazer volteios, caí na dura arma do querer demais. É tão sufocante a sensação de não conter nada, de não comprimir absolutamente nada dentro do corpo, da caixa humana... Olhando você tão doce, tão perene, na fotografia já por demais gasta pela fome dos meus olhos, nasce a involuntária forma mais bonita da emoção. Por onde você andou durante todos estes dias, que não me avisou das esperas?

Meu imaginário cotidiano é feito de monotonia, livros, palavras vazias, elaborações de sofrimento. Canta dentro de mim um pássaro azul, sem voz, sem canto, sem música. E todo dia a aurora é noite, e a noite uma sombra escura. Por onde você andou durante todos estes dias, que não me avisou das cadeias? Foi à hora de eu escrever os mais infelizes contos de amor, os mais sangrentos poemas de saudade, as mais penosas prosas de alegria. Quando tudo que desejei, quando tudo o que quis, em alta voltagem, em alta resolução, era a tua boca lânguida, o teu lábio obtuso, a tua língua de víbora. Quando tudo que sonhei, quando tudo que criei não foi senão a força magnética necessária para capturar em definitivo o segredo da higiene amorosa que você me imputa.

Exorcizei demônios, afastei da mente a perversão e o desvario, cobri com algodão o branco do meu caminho torto. Tudo no intuito de não me sentir roído, para não acabar peixe em terra, buscando o necessário ar, o necessário ar... Por onde você esteve durante a ópera dos estorninhos?

Como estão as coisas? Como estamos, Virgínia? O que somos? O que vamos? O que tanto me acomete de verdade e de mentira? São estas verdades e mentiras nossa dissolução lenta, nossos corrosivos desmembramentos? Para que tanto futuro se o presente ainda não aconteceu? Para que tanto presente se somos apenas passado? Somos apenas passado, Virgínia?

A teus pés depositei a lápide do memoriar eterno. Obturei o osso sujo que me doía uma busca e vi nascer esta dor tão triste de sentir esperança. Volta e vem, de tarde a chuva, de dia na alvorada de minhas aflições. Volta e vem, para o resto desentortar, para a gente se amar, tão ineditamente amar: um amor primeiro.

Como estão as cortinas? Como estamos, Virgínia? O que somos senão o direito que temos de viver? O que vamos ver daqui para frente? O que tanto me remete a ti quando não sossego a mente? Serão estas marcas o corolário de todos os nossos mistérios? Para que tanto futuro se o presente não aconteceu? Para que tanto presente se somos apenas passado? Somos apenas passado, Virgínia? O que ainda somos, se somos?

Eu toco a tua boca no papel, donde germinam flores e peixes, águas e luas. Eu toco a tua boca no papel, trêmulo, eu toco, toco...

Meu coração está rouco, mas bate forte por ti.

*****

Cádor,

Você falou em passado e eu falo em presente que é agora. Este momento em que olho o relógio e olho o céu. Não diferencio. Estou bem e minha casa não mudou, tampouco mudei. Aliás, mudei. De voz, de paz, de trânsito. Agora sigo a fé mais que antes e a fotografia que você guarda não irá lhe dizer o que precisa saber. O que somos, somos e eu já havia dito. Foi diferente desde o primeiro dia. Porque somos uma aliteração. Nos repetimos. Temos medo e o tempo, eu acredito, tem sido bom. A não ser quando chove e faz frio e lembro. Lembrar me atrapalha mais que pedra no caminho. Não consigo evitar lembrar. Lembro, olho, ouço aquela música e até a sua voz vem com o vento.

Não é um milagre. É verdade. A gente começa acreditando tanto em algo e o resto, você já sabe. Não há retorno. Uma vez dentro de um redemoinho, nada mais volta ao lugar. Depois de você não sei se sou ou se aparento ser. Mulher de um homem que faz tantas perguntas e renuncia fraquezas. O que espera que eu diga? Espera que eu recite Neruda e jure amor eterno. Estamos em tempos de caos e guerra que não é branda. Guerras nem sempre portam armas, baby. E isso é familiar. Sei que é. Sempre baby e I Love you pra sufocar bastante e vazio é um adjetivo que não me classifica. Porque sinto a ausência, ânsia, angústia. Sinto até dor de cabeça. Vontade de chorar até me tornar água e ficar bem ridícula como amantes se sentem quando amam.

Ridículos palhaços solitários. E o pássaro azul que canta em você é doce. E poético. Em mim, amor de minha vida, há um trombone que me azucrina. Me ordena e me enlouquece. Você sabe. Não tenho o costume de organizar pensamentos. Sou louca. E você também é porque ama um passado e fala em tempo último e distância e dá tantas voltas pra dizer que precisa e quer a mulher. Eu não tenho dúvidas. Tenho sentimentos tolos, adultos e engraçados. Aliás, tenho sentimentos bons. Acredito que tudo o que sentimos seja infantil e por isso não nos esquecemos. Alguém disse que elefantes não esquecem e eu digo que crianças não esquecem.

Nos conhecemos crianças. Você era tolo imaturo lindo de tudo. Dono de seu mundo. Entrei de cara na sua letargia de ler e viver com a cabeça enfiada em livros. Aceitei suas reviravoltas porque é assim. Amor não tem desconto. Ele machuca, faz bem, faz mal e segue. E não há tempo certo. Você fala tanto em passado e já me sinto um antiquário. Não sou do passado. Somos contínuos. Não houve pausa. Você pode ter silenciado por um tempo. Eu também. Ainda obedeço às regras de falar quando me pedem. E visto a sua agonia e transformo em outra coisa. Uma energia boa. Uma página feliz de um livro. Acontece isso comigo. Transformo coisas.

As cortinas não me escondem mais. Agora dou espaço ao céu e ao escuro da noite e a preguiça da tarde que me lembram você. E odeio você de tanto amor. Não sei bem se ainda se diz amor da minha vida ou isso é coisa de quem anda moribundo pensando em fim do mundo. Ou seria apenas uma forma de enfatizar que sou a maturidade de tudo que antes era revelia? Você exorciza demônios e eu tenho um demônio bem ao meu lado. Você não é o tão perfeito deus. Sangue duvidoso que me faz livre e se aglomera em mim como tijolinhos que fazem casa e prédios. Somos uma cidade inteira, Cádor. Não se machuque pensando em esquecimento ou passado.

Não sei do que você fala. Não prometo esperas. Não tenho o coração rouco. Ele bate porque me mantém viva e espero e faço a vida. Você parou ou eu parei? Não quero respostas. Às vezes pergunto só por perguntar. Já sei a resposta. E ela é um e outro que brincaram de ser por um dia ou dois e, dentro da confusão, perdemos o controle. Essa confusão é o querer, precisar, sentir vontade até morrer. E procurar em estranhos o que temos. Mas não há outra saída. É seguir. Infligir. Enfrentar. Aceitar. E nada de trocadilho. É amor cego tranqüilo doente bendito um tom aberto de toda canção. Você fala em sua língua e eu falo a minha. E de uma simples flor feiosa e triste, somos fortes e gira o sol e pode ver. Sua varanda tem o mesmo sol que a minha janela recebe.

Falar de passado é derrota. Eu falo no presente e se você procura resposta, procure em livros. Há em mim língua e boca e um beijo e um abraço quando nos encontrarmos. E eu ainda choro quando lembro. Depois abro um sorriso e acredito. Pessimismo é para os esquecidos. Somos o que existe. Não há retorno. Já estamos há tanto. E estou aqui onde sempre estive. Amo você e caminho nas ruas sentindo que agora é tempo. E somos um desastre. Mas temos paz. Por um minuto, temos paz. Depois, recomeçamos tempestuosos. Não é fácil. Se fosse fácil frágil e encantador, não seríamos nós, Cádor. E não sei poemas ou frases bem contornadas. Sei do que é bruto e tão ameaçador quanto um beijo que silencia o grito.

“A nossa história é a minha história que é a tua história que devora e canibais amedrontados somos feitos de história. O retrato que tens sou eu portando sorriso de infância e hoje a mulher que envolve o vazio da saudade sou eu ainda e continuo infantil ingênua indecente como só as crianças podem ser indecentes de tão inocentes que chegam a fazer milagres. E descubro que a história brinca conosco como se fossemos nuvens na altitude de todo o céu que cobre o tempo que nos distancia e nos aproxima. E o abraço que traço entre o teu braço de homem me faz existir e não há pergunta que se estenda como tapete deixando certeza porque não somos a certeza. Como disseste uma vez, mitos somos e não perdoamos. Não perguntamos. Somos o sol que se esconde e se mostra raiva e somos a flor escondida no jardim porque queremos ser diferentes. Não serei mulher se me deixar detalhar por suas dúvidas que me cortam. Não há tempo que se desfaça de nós. Mitos muito confusos e desnorteados sozinhos e pálidos por falta de dia por falta de beijo e seio e o teu sagrado ato de empalar-me e silenciar-me em declarar amor como se grita por janelas e me entornas como a mais amarga das bebidas. Amar dói, amor.”

(Letícia Palmeira in, o tom do tempo)

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