quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Quando há nuvens no firmamento


Por Germano Xavier

Hei de comprazer os loucos
e suas loucuras - quanto sal em mim,
ruídos, para ser dissolvido! -
que afloram vastos caminhos.
Vale à rosa a dor do espinho?

Procuremos a unidade
em nossos vários,
a persona, única,
singular.

O meu mundo já não tem o elã
de outrora, está menos diáfano,
menos etéreo, menos mundo.
Mas nem por isso morto,
devastado; não hei de planger
e, amargamente,
olvidar das esperanças.

Figurarei de olhos abertos
à espera - e a espera,
nasce sol depois do noturno? -
de que sejamos carne e osso,
vivo ou morto?,
insulso?,
é culpado quem sente pena?,
o que é mesmo...
O que é que é,
nunca tendo sido,
jamais nascido?

Vai ver esperança seja mesmo
a da morte derradeira.
Vai ver o filho não é
o espelho do pai.
Vai ver não há Pai,
nem dúvidas amargas
que nos tornam faltos
ou termos médios
ou crisálidas.

Se no Homem não reside a promessa,
o que nele restará de original?

A vista cega?
As mãos que iludem?
Píricas chamas apagadas?

Ah, eu hei de comprazer os loucos
e todas as suas loucuras
e delírios,
pois não há razão
perdida
para um coração que se abre.

Correrá rios, badalos,
e sentimentos de pássaro,
pois somos a propriedade
única
da variedade,
com espaços para beber da Arte,
libar do mundo,
querer do outro,
fugir do escuro.

Assim, estando loucos
(e há lucidez nata?),
voar céus sem metas,
pescar estrelas sublimes,
atracar portos sombrios
e se alimentar da Vida,
que por vezes nos fere
e nos derruba
e nos arrasta
para a distância mais fria.

Quando há nuvens no firmamento
e o celestial se mostra azul,
quando se enxerga o bem que tem
o circular vôo dos urubus,
pode ser que a hora venha
abraçar teu canto morno,
pode ser que a hora venha
afastar teu véu, negrume.

Eu hei de abarcar o teu indício
insano, limpar tristeza
de ser humano...
para só depois repousar.

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Hipsta.161 by *vbagiatis"
Deviantart