quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Somos existenciais existências e um pedido


XXII


Para Sartre, com amor.

Eu disse no passado no trancar de portas giratórias. Disse que um dia escreveria um poema nascido e imerso como a noite e estrelas que mudam e a lua que reascende olhares. Eu disse que faria. Eu disse que seria de verdade. Histórias comuns não nascem de mim e mentiras comuns envelhecem. Nós não envelhecemos. Ao som, no escuro, fizemos poema e poema fere as mãos. Por mais suaves - ferem. Você me fere e corrige orações com corretivo escolar. Pastas e letras suas e você escapa de mim e sorri como criança. Ama como um monstro puro e acorda em espanto porque sou eu, hortência e não uma flor qualquer. Não me vingo. Atinjo e deixo você ser segredo. Saio da estante. A Emília ganha vida. Sou Clarice buscando ajuda. Tenho amor e tenho barcos, planos e a Índia ao nosso lado e você me tortura, mas eu disse que escreveria um poema. Saio do encanto e a verdade é sempre mais. A literatura brincou de nos achar. Agora somos o veneno da madrugada e os melhores contos que não escrevemos juntos. Meu poema foi escrito.

São os detalhes que nos fazem sentir pavor. Aprendi Teoria do Conto, li poemas inéditos e dormi ao lado de deus.

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Senta aqui do meu lado, senta. Que nossa individualidade deve ser respeitada. O teu ser diz que me quer, o meu desce a ladeira num carrinho de rolimãs. Desce só para te ver mais de perto. Senta aqui do meu lado, senta. E sinta o que sinto, nossa inumanidade é tão humana! Eu existo com você e depois a gente calcula todas aquelas contas. Depois a gente se desgoverna porque eu quero ser teu governo e você também quer morar em mim. A gente deixa para medir as essências no fim, quando a lavoura já estiver maltratada pelo estio dos anos. Senta aqui do meu lado, senta. E me diz uma coisa bonita para eu dormir sossegado no chão mesmo. A minha pré-definição é você, por isso sou tão sem saber de mim. E diz que minha responsabilidade agora é a de construir passarinhos e a de aguar nuvens, diz. Mas senta aqui do meu lado, senta. Porque não vai adiantar nada você aí, tão-perto-tão-longe deste longo braço enfiado no fundo do paraíso infernal.

Sobre instintos que se cozinham, alimentos e temperos.

2 comentários:

Dani Gama disse...

Existem escritores que falam tanto de nós mesmos que por vezes nos pegamos em meio a pensamentos que questionam: será que ele já sabia de mim? mas como poderia saber se quando escreveu eu nem existia? as vezes me encontro em alguns poetas, em algumas musicas, me encontro num céu estrelado (daqueles que a gente só consegue ver bem no interior, na roça, na fazenda...), me encontro numa peça de teatro, ora comédia, ora romântica, ora drama? (não, drama, acho que não!)...sigo e ainda me vejo sentada alí bem ao lado de uma cena que me remete a infância, me remete ao futuro através dos sonhos bons, e comigo vou levando pessoas, vou levando lágrimas, suspiros e sorrisos. É verdade, Clarice sai do Correio Feminino algumas vezes aqui. Cora sai lá de Goiás tambem. E nós conversamos, nos entendemos e nos desentendemos. Clarice é teimosa e firme, mas eu tambem sou as vezes. Ah! por pouco deixo de falar de Sofia Amundsen...essa literalmente vive comigo, pula da estante e volta a noite para o seu mundo. Deixa por aqui toda sua curiosidade e sabedoria...dorme, sonha, cria, ri e acorda novamente...pula da estante e vem. É! sozinho a gente nunca está. A literatura nos mantém acompanhados de nós mesmos.

Beijo no coração, Poeta.

Cris Campos disse...

A individualidade deve ser respeitada mas parece que só somos inteiros quando nos misturamos por completo, mesmo quando fere, mesmo quando os pormenores assustam, coisa de quem só sabe ser quando não é! Gr. Bj.!