sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Senzala


Por Germano Xavier

Foi no escuro, às escondidas,
que o navio tumbeiro chegou
trazendo os elos e as correntes,
enferrujadas e sanguinárias.

Desceram à costa sorrindo,
brancos imundos de corpo e alma,
vendendo a prisão, o cárcere;
a força braçal, nos dentes, nos olhos...

E chorava a tribo, a raça.
O descendente ouvia,
a mulher, a mãe a chorar
pela cor que derretia.

Nos trapos, animais sendo domados;
assim eram vistos: mero lixo.
Mas Deus protegeria, vingaria
na prece do padre ao embarcar?

E suas tumbas, seus cemitérios,
logo ali se revelavam,
ao vento frio no mar da noite,
ao cálice grotesco do alto-mar.

"Ó mar salgado", já se dizia;
a viagem ao fim do mundo,
o estandarte vermelho da morte
face ao breu do porão negreiro.

Desembarcavam fedidos, quasemortos,
quasevivos, com medo da luz.
A luz do novo dia doía,
era faca amolada de corte profundo.

E ele sem nada poder fazer;
mercadoria, produto mercantil,
fabrico humano, fantoche Real
sem coração, sem vida, sem nada...
E chorava a tribo, a raça.
Os oceanos ouviam,
o continente pintava
a cor que renasceria.

Nenhum comentário: