segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Passarada


XVIII

Eu sei e bem já é o pássaro voando no alto do prédio quer um pouco de ar ele sabe que precisa como preciso de algo pra continuar e não ceder e não ser aquilo que não quero principalmente pra eu mesmo o alto sempre assusta o que de baixo olha e vê e vê o que ele vê a dança descumprida e o avesso da dança é a valsa será que é ou o homem aprendeu a viver de migalha e é pombo que não leva carta de amor carta de morte carta sentenciosa uma carta que diga alguma coisa para alguém como quero que a minha carta diga eu não precisaria de tantas farpas e de tantas palavras e te tanto sol no meu rosto para te desejar mulher mais que tudo eu precisaria beber a louca droga de ser o que sou pássaro sou você céu país de azul cabelos cor de rosa mulher cor de mim cor de me beijos atordoantes e tão oncológicos e dementes seremos nós eu quero que construamos a nossa própria Casa Verde e que nossa psiquiatria seja feita com doses de amor sexualmente insano e que droga é não ter você na palma da minha mão sereno prédio onde me esgoto onde me espoco e me viro e me acendo luz lâmpada clarão tão brando tão branco tição e meu escorrego e minha fuga estou diante do abismo por tanta saudade e a saudade é um prédio onde pianos caem do segundo andar e você me olhava tão poucamente da última vez que me arruinou que eu não pude olhar tão muitamente porque de lágrimas vive o homem e não só do pão que o diabo amassa e sova e assa o fogo do inferno é este que queima atrás de mim e eu não tenho o sândalo só o enxofre quente e não mente mais pra mim porque quem mente é o mais imbecil dos verdadeiros você se lembra daquele pássaro voando que queríamos ser nós dois juntos e um só par de asas e um só risco de queda e uma só batida e um só vento o vento nos levando para longe lá pro fim do mundo e nossas asas brancas alvas tão alabastrinas asas de um só ser duplo atiradas ao deus-dará eu ainda estou se quer saber sob o domínio do derradeiro vento e do último tombo estou diante do medo de não conseguir ser aquilo aquele ser que sempre quis ser diante de você por isso estou diante do muro e diante de frente de fronte do mundo a te esperar e pra encarar esta foice que vem descendo na altura do meu pescoço é preciso que eu tenha asas aquelas alvas asas e você eu conceituo como sendo a mulher da minha vida e apenas isso e isso não dispensa um beijo nosso de 72 horas sob um pé d’água infeliz de tão enchente enchendo a gente de poros abertos e de suor eu estou eu sou doente me tenho doente e passo moléstia sou contagioso o meu mal é o amor que é demais o meu mal é só te querer pra uma vida intensa inteira sem eira nem beira e te cantar um poema de cantor de esquina torta e um pássaro está por cima de mim ele quer me levar é o pássaro do Edgar que pena ele não sabe que tenho dentro do meu corpo uma arma de matar é o meu coração que vai varar aquele peito escuro de plumas e vai assassinar o pio o agouro o corvo de saber ser nem ter você diaba anja máquina de me comer e de me fazer endurecer a alma para o olhar alheio eu sei e bem já é o pé que vou dar na hora que eu te receber pelo correio do amor dizendo você foi o felizardo você acaba de ganhar a mulher mais mulher de toda a estrambótica e catastrófica Terra e logo assim vou desamarrar o laço e meu presente vou guardar pra sempre na estante do meu órgão-mor acondicionado por um tempo aquele tempo que o pássaro buscou ao voar o prédio aquele tempo que o psiquiatra receitou vai ver não dói a dor que dói na gente no outro eu quero ser aquele ser apenas pra você dizer em noite estrelada meu bem, meu bem, como eu quero!



**********


Ao costurar das horas...


Sua carta veio sem pontuação. Você deve ter percebido. E eu me perdi em tantas metáforas. Eu ando cansada dessas figuras de linguagem porque eu quero a língua. A sua língua e não me importa os defeitos. Eu estive pensando que talvez seja isso. Eu raciocino e você não. Muito embora sempre diga que sou obtusa, quando ando pelo mundo e me desmancho em copos vazios, você sabe que sempre fora assim. Eu não mudei tanto. Tampouco você. E passei horas limpando a casa. Estava acumulando coisas novamente e decidi me desfazer de restos. Desfiz-me de minha cara desonesta quando aceito suas atitudes. Nós mentimos. Você mente. De outra forma, não seríamos humanos. E você mente desde o começo e eu o amo desde o começo. Posso me considerar idiota, mas não. Sinto-me forte porque eu finjo que acredito e compartilho de suas mentiras tão bem. Eu amo até suas mentiras. Essas histórias mal contadas, tempos em que você se distancia e retorna com tanta erudição. Imagino você deitado, olhando o teto, submerso em algum livro, devorando-se por não ter escrito algo e cometendo pecados eruditos. Você é tão imenso que até seus pecados são perfeitos. Sua rude beleza, seu olhar de inveja, sua maldade. Eu amo este ser. Vil e inconformado. O ser que descreve suas mulheres como se fossem sempre amores e eu, uma solitária e perdida alma que observa da platéia. Eu vejo a sua vida acontecer. Seus livros serem escritos e, desde o primeiro silêncio, desde o primeiro encontro da agulha ao tecido, eu soube que seria você a tentar destruir o que há em mim e ninguém sabe prever. Talvez eu seja um pouco das migalhas que você merece. Porque, você sabe, não existe apenas escritor e o ser que mente. Existe o homem. Uma perfeita união de lucidez e doença mental. Essa doença que nos mata. Este amor que nos aprisiona. Não vou repetir o nítido de tudo que sinto. Nutrido está o amor. E bendito está entre nossas deformidades emotivas. Digo, por fim, que você é a mentira bem contada, o amor heróico, o único, repugnante, o corvo que assassina e o pão que alimenta a fome de meu sexo que é sagrado e o deixo para você. Até os demônios merecem clemência. Eu me deixo como se deixa um livro escondido em uma livraria. Sou de fácil acesso e não preciso repetir. Suas rimas se tornam confusões em mim.


Amo você, Cádor.

Sempre fora você a me absorver indecentemente.

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Deviantart"