quarta-feira, 30 de abril de 2014

Todo risco



Por Germano Xavier 

Ao poeta baiano Damário DaCruz,
in memoriam.


Existimos, inescapavelmente,
sem-e-com esta necessidade branca dos aondes,
existimos no abandono dos bancos
nesta chuva molhada sobre os chãos sem contas.

Existimos, interminavelmente,
como na sagrada e parca queda de uma folha seca,
ou na extremidade da ausência no colorido dos passados.

Como existimos no equilíbrio dos pratos
e nos pêndulos convidando para a dança.
A vida passa antes mesmo que um poema
cruze, em tempestade íntima, um risco entre tantos.

Existimos na textura que erigimos uma estátua,
parados na mudez de pedra esculpida de um silêncio.

Desde o templo implacável que inundamos as esfinges,
que laceramos o tecido alvo das cavalgaduras,
antecipando as sombras dos rumores afogados
em tímpanos que não sabem mais ouvir.

A existência burlada, qual nada,
inda coze os grãos de água em teimosos corpos
que desabismam desorvalhos.

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