domingo, 27 de fevereiro de 2011

Não há caos nem colapso

Por Germano Xavier

Para Moacyr Scliar, in memoriam.

O escritor, nem bem terminou de ler a matéria, prostrou-se pateticamente diante da folha em branco. No fundo ele ainda nem imaginava o que iria escrever, apenas desejava. Era um desejo misterioso, como quando nos arrefecemos diante de um susto apenas susto ou de um vulto apenas vulto. O escritor, pensativo, sem pensamentos. Uma pequena gota d'água desce pacientemente da borda do copo que armazena o líquido gelado que daqui a pouco tempo ele beberá aos goles intermitentes. Espanta-se o escritor com o texto que não vem. Ele sabe que não há ninguém em casa além dele próprio e do ser-do-texto. Ele, o escritor, também sabe que há uma vida a existir, suspeita que é também mãe, que pode parir esse filho que teima alimentar-se no útero da vida. Ele sabe ou, ao menos, suspeita. Suspeita que poderá vir a ser condenado por um crime hediondo, caso aborte o rebento. Franze a testa em gesto de repugnância diante de tão acovardado pensar. Transpira, os poros abertos. A temperatura interna aumenta. Lá fora o frio noturno, normalidade. Esboça um desenho surrealista no canto esquerdo superior do papel. Uma bailarina em cima de uma porção de brasas candentes, imaginem a cena. Ele, o escritor, está apelando. Percebe-se sem sorte. Testa a esferográfica de corpo plástico triangular que comprara pela manhã, quando saiu para esticar as pernas. A tinta seca, nova, a ponta virgem, não sai nada. Absolutamente nada é impresso a pelo menos oito minutos. No quarto, o escritor acende a sua esperança opaca, alquebrada, fraquejante. Percebe-se sem o talento de um Dalí, ou mesmo de um Matisse. Não usa cores fortes, tampouco deixa-se influenciar pela cultura popular, mas aprecia, mesmo assim, paisagens oníricas. Não se pode ser Picasso com uma esferográfica de corpo plástico triangular que inicia o despejar de sua carga, agora não mais virginal. Põe o bocal na boca. Com os dentes, fere-o. Pequenas mordidas de desassossego. Surgem deformidades incorrigíveis. O escritor pensa em seus traumas infantes, como quando era obrigado a rezar o terço todinho ao lado da mãe no justo momento em que seu time iniciava um contra-ataque maravilhoso contra um adversário internacional. Pensa na droga da sua vida, o escritor. Pensa na droga que é ele, a começar pelas unhas miúdas. Sempre quis ter unhas grandes, bem cuidadas. Jamais as possuiu. O escritor rói unhas, as suas. O escritor rói unhas da alma, busca, cava, aposta, alegra-se, manifesta desconfiança, depois cinismo, chora, despreza-se, imagina-se adoentado, duvida, sente horror, amaluca-se paulatinamente, intimida-se, suplica, sente saudade, acoberta-se de medo, usurpa, desespera-se diante do nada que é a folha em branco com um esboço surrealista no canto superior esquerdo, aturde-se diante da imprestabilidade que é a sua cabeça, a sua mente, a sua idéia, o seu escrever. O escritor torna-se maníaco de si mesmo. Quer se matar, não pode. Teria de assassinar o texto primeiro, mas o texto nem nasceu. O escritor olha para o birô em madeira negra, bem polida. Pensa no tiro, a arma guardada de seu saudoso avô. Uma carabina, quatro cartuchos novos, os miolos se estatelando nas paredes brancas do quarto. Bebe goles que preenchem a boca numa completude instante. Engole o gole. Logo o vazio, o oco, a não presença, o vago. Vê-se imóvel, sem qualquer função, inoperante, morto-vivo, vivo-morto. Põe de volta o bocal sobre a ponta de tungstênio. Um corvo rasga o céu estampando o silêncio com um tonitruante som. Ele olha para a janela do seu quarto, vê o céu azul-negro e umas centenas de luzes artificiais. Não vê estrelas. Guarda cuidadosamente a esferográfica, dobra silenciosamente o papel. Não há caos nem colapso. O escritor resigna-se. O escritor está calmo. O escritor puxa o lençol xadrez, pega o travesseiro no guarda-roupa. A hora é já alongada. Não há caos nem colapso. Desliga a luz, o escritor. Deita-se. Não ora. Avoluma-se algum som de silêncio. O escritor está dormindo, como um anjo.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Corre à larga um antes de um depois


Por Germano Xavier

"A escrita é a única forma perfeita do tempo."
(Jean Clézio)


Antes de escrever o poema, a solidão descambou para Maximillien através do vôo leve das moscas em dança de dezembro. Era o Natal a chegar. Nem muito frio nem calor em demasia. O mesmo esperar Papai Noel com o mesmo falso crédito que nela já nascera por lá dos seus oito anos de idade, quando viu seu pai colocando na sarjeta um par de sapatinhos vermelhos, sem nem mesmo se preocupar com qualquer tipo de disfarce. Lua linda no céu escuro e o poema apareceu para Maximillien como um retorno fotográfico aos grandes homens que a fizeram, como uma epifania caminhante, como um brinquedo retorcido entre ares de riso ou uma alegria simples estancada diante dos diantes. Quantidade de mercadoria que o tripulante de uma nave - humana, bom salientar - pode levar consigo sem pagar por elas. Essa caixa toráxica de se caber dores e amargores e risos. E risos. Antes de escrever o poema, Maximillien pensou no pai, sempre preocupado com as contas do mês vindouro, agora já um senhor de atenção monitorada, "imprevisível o humano no homem", pensou, como também pensou na mãe, no irmão, mesmo posta ao revés no sempre andar de sua infância, criança sem local, sem chão, qualquer um. E assim arrevesada, obscura e intrincada, com seu nome de difícil pronúncia, seguiu desopilando suas coisas abstrusas, suas idéias incompreensíveis, seus manejares desordenados. E pensou no cachorro, na mesa onde estava, no pote de manteiga derretida brilhando o amarelo cor de ouro dos ouros falsos, pensou no pacote de biscoito esperando uma fome, no almoço por ser feito, na provável janta que viria, nas alegorias do carnaval próximo - todos arremedos estéreis de se ir em frente. Antes que o poema ocorresse, Maximillien dedicou-se a um qualquer antídoto terminado em um outro qualquer gesto milagroso, para não suster-se como o pobre de espírito se sustem quando de uma enfermidade operante em dor, em moléstia. Ficou ali parada, a escutar o seu instante companheiro, a hora que vivia no ali, no agora-para-sempre. Imótua, os olhos pousados sobre uma hagiografia que destinava a um santo da mãe, pendurado na prateleira menor da cozinha, coisas da mãe religiosa, coisas que não ousava tirar do lugar. Ali, desapossada de si mesmo, vendo perder-se diante do opaco espelho feito na bandeja de prata endireitada e existida em sua direção longitudinal, uma Maximillien comutada, substituída por outra, não sendo o ser dela, irreconhecível a si, igual aos outros, ela em crescimento, descobrindo-se, flor nova, mulher parricida aventada no derrubar muros e bankers das sagradas tradições, pequena demais diante daquele algo que brotava de dentro, a rosa maior, o milhafre sacaneador de almas, saquedor de carnes, a derrisão última, o riso motejador, aquilo que troça, mofa, furo no umbigo, profundo rasgo de morte, de deitar o corpo enorme em ninações. Irrefutável precipício instaurado no dia mesmo, sem mistério de lua ou noite, sem lobisomens, sem vampiros, a queda fatal perante o desarmado desconhecido, que sempre vem quando insuspeito é o tempo, quando a criança de dentro aflora de medo e tomba queda nos abismos gregários do um. Anátema. Maldição. Sossegada estava e agora diletante não sabe o que faz, ou teima. Dissenso. Maximillien, ainda refletida imagem na argêntea peça, delineando as linhas de suas sinuosidades, para numa anomia aguda falsificar-se diante das tais desteceturas. A menina feliz já triste de não saber-se enorme e que sobre a humanidade paira um universo de nem. Amálgama. Autodemissionária, ela corre e atende à sua fraqueza e genuflexiona-se até o piso gélido que suporta o momento. Sem sustentar-se como conveniente, apóia-se autômata sobre o músculo que a exorta a seguir, fato mais que consabido, afeita a uma ordem do dia que quebra-se no enlevo do corte, insuflando-a de formas epigonais ao dia que não é mais o de hoje, fazendo-a fantoche, artífice em solidão completa, em primazia habilitante, num furor de repercussão catártica, traça corroendo o ser antes incorruptível, incipiente, escorregadio, impingido, perspectivando impiedosamente o acontecimento fortuito - e de rumo inalterável por qualquer força -, ou lógico, da ação mágica de escrever um poema, de urdir um simples poema, mero como um gole d'água dado à sede da boca, porém vital como um sopro de amor.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Pantaleões sob retrato


Por Germano Xavier


Aparentemente, e tão displicentemente,
morre o personagem simulado e morro eu.
Sem a rotina, desatinado, um corpo
de esforço fabrica um poema
não aplaudido.

A metade, o retrato partido ao meio,
o tema de um abismo,
uma música em bagatela mínima,
um império de células de produção
arregimentando sequências mortas
quando um mar de adiantos é a tenra verdade
dentro do grande público que é o peito.

Porque minha palavra existe
ao menos em mim e corro o risco
da chateação múltipla, o milagre-mor.
Porque se não fosse assim,
ou com pouca existência a pedra parada,
ou sem um tanto de desastre pessoal,
não romperia em ascese perfeita
a monotonia do meu bem e do meu mal.

Há de insultar minha parte mais nobre
em silêncio - a que justamente nada diz
ou pode. Há de ser lesada a água excessiva
que combato com penas e delícias,
porque tenho e não tenho o que penso:

um deserto sempre mostrado de outro jeito.

Todo corpo que construo nos sobretudos do dia
é um nunca visto feio e bonito, sorvido nos esqueços
que têm meus afundos e mercês.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Bolhas de Platispanto


Por Germano Xavier

ao Profº Kleyton Pereira,
que me fez ler Os Cavalinhos de Platiplanto, de J. J. Veiga.

dentro da bolha vamos
na estrutura do medo, prisioneiros
vamos levados a não querer ir...
mas por que querer desistir
agora
se não vamos tristes sobrevoando
o que não há nem será?
vamos esfregando as mãos, complacentes,
mendigando um rumor com motivo,
teimando uma idéia que pode não
vingar, mas vamos...
vamos como se tivéssemos de ir
simplesmente,
tendo em mente que nem sempre
chegar é o fim...

Do outro lado do rio



Por Germano Xavier

Atravessei o rio em plena manhã. O sol ardia minha pele, mas eu queria a distância de tudo aquilo que me fazia lembrar dos vazios da minha vida. Cheguei ao outro lado do rio e era como se todas as minhas mais intrínsecas aflições, ilusões e desapegos fossem incapazes de me aborrecer. Queria passear, tomar um sorvete de casquinha, ver coisas novas, novas caras... Bom, pensei que tudo ficaria melhor se eu estivesse acompanhado (nos últimos meses, minha solidão tem me decepcionado muito)... e foi assim que resolvi convidar uma colega de faculdade para me fazer companhia. Ela, espontaneamente, aceitou. Era uma pessoa maravilhosa. Bonita e divertida, certamente, ela, faria o meu dia ainda mais prazeroso. Não tinha escolha. Talvez fosse ela a pessoa que mais suportava o meu silêncio, a minha quietude. Olhamos alguns livros nas prateleiras, tomamos um desejado sorvete de casquinha, conversamos sobre o nosso futuro, andamos de mãos dadas como um casal de lero-leros decorosos e alegres. A amizade é mesmo um bem que não tem preço. O pior de tudo foi o momento da volta. Aquele rio de águas caudalosas e de uma tonalidade verde-azul, a ponte dos destinos vários, as luzes da cidade que me rejeitava, a sensação de felicidade interrompida e passageira... Por que temos de voltar, sempre? (...) Caminhando, já em territórios tristes, vi a alegria se despedir de mim, como se dissesse “até mais ver!”...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Biografia das espirais


Por Germano Xavier

nos encontraremos após
o convívio das almas, depois
das afinidades corpóreas,
lançados ao pertencimento
e ao desterro dos corações...

ao cruzarmos as linhas
no tablado, e ao transpormos
as constatações, após os inícios
e os fins ,indícios
hão de apontar, triunfalmente,
nossa chegada ao mesmo lugar.

Címbalos de dentro



Por Germano Xavier

guizos de boca úmida e estalada
decuplicam minha sanha:
o som que move a roldana é o som do passo
lasso. eu posso ser aquele que te recebes
no vão da avenida movimentada,
para uma morte unida.
o menino que te guiará
pelas montanhas em corrente,
ou para uma queda nua.
o jovem que te ensinará a marcar o tempo
que se examina pela hora que virá.
eu posso ser o que de longe não te espia,
e mesmo assim fará pintura de teu quadro escuro.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O palhaço



Por Germano Xavier

O palhaço tenta o seu passe,
a mágica violenta.
O fim das horas;
escarlate desejo.
Manifesto infame, impasse,
espetáculo de medo!

Acredita-se nos lugares últimos,
a velha face no velho espelho:
síntese de vários,
costume de escuro.

A primeira pessoa

Por Germano Xavier

Porque o amor é antes um pensamento.

A piteira da cigarrilha Menendez Amerino descolou da folha de fumo e era apenas a tarde do meu dia que estava por começar. Cigarrilhas são mais doces porque suas fumaças tóxicas não entram direto no peito, nem possuem filtros, nos aparecem sem máscaras. Cheguei em casa cansado, depois de andar muito pelo centro da cidade procurando um livro de um escritor argentino que muito admiro. Antes, olhei a caixa dos correios, mas nada encontrei para mim. Sempre espero por alguma carta salva-vidas, daquelas que vêm com um certo tipo de papel com cores bastantes insinuantes, amarelo com bordas vermelhas, por exemplo, e letras garrafais ao centro com os dizeres “Você ganhou! Você é o mais novo felizardo! Você acaba de ganhar uma...”, mas como sei que isto é deveras improvável de acontecer a esta altura da minha vida, eu bem trocaria a minha correspondência pelo prazer de ver, dentro da caixinha, a carta suicida deixada pela vizinha do 101, aquela bruxa. Mulher filha do cão, isso ela é. Criatura do demo!

Mas amanhã, quem sabe, uma missiva me chegue, como quem dá um abraço daqueles de urso quebra-costela, que estala até a última cervical, filmando-me pensamentos. Sim, muitos deles. Eu queria. Eu sou um sujeito esperançoso, mesmo que a esperança more bem lá no fundo de mim. Eu queria uma cartinha dizendo “meu amor, meu!”, com uma exclamação assim no fim, fechando a idéia. E depois um “me dá um abraço?”, para me fazer esquecer o quanto ando exausto ultimamente. Por que não consegui dormir, seria uma boa pergunta. Café com leite e um abismo se abrindo em minha frente tem sido a essência dos meus dias. Como contar ao mundo que sou só? Como não ficar triste com toda a minha condição de ser sozinho no globo terrestre? Tanta gente lá fora e eu aqui, amarrado nesta cadeira, preso nesta cama, ferido por minha inércia, magoado por mim mesmo e minha falta de ação.

Houve tempo que suportava mais a minha própria presença. Mas hoje não, não sou mais aquele rapazinho que via a vida desordenadamente e que parecia possuir uma carapaça duríssima a cobrir o corpo, e a alma, e que atravessava o campo de batalha sem nenhuma escoriação, completamente incólume. Ando tão “não sei...”, que parece que a última coisa que ainda me restou depois do dia já terminado e escorado na esquina da noite, feito uma prostituta da Lapa, foram os meus pensamentos. Pensamentos? Sim, eu diria, eles, inteiros dentro do meu crânio, como gomos de uma laranja azeda cortada em quatro partes, esperando os dentes para arrancá-los da casca, sem nenhuma titubeação. Carne e osso do pensar, da minha cabeça. Pensamentos que não me deixam dormir... - só podem não ser lá muito bons.

Eu estava agitado, ontem à noite. Estava com saudades, com vontade de você, de um colo indefinido, que só poderia ser o seu, mas que não sei... E por mais que alguém tentasse, ou se até mesmo eu me arremetesse em outras paragens, não seria o suficiente para satisfazer os meus desejos de um domingo à noite. Estou ansioso. Não paro de pensar. Fico te imaginando. Imaginando a todo instante. Minha nossa! Eu estou amando! Você não imagina o quanto estou te amando, o quanto amo você, cada dia mais e mais. Ontem, pus a velha vitrola para tocar, luz apagada, olhava para o espaço vazio na cama, queria saber do teu perfume em meus cabelos, nos meus lençóis. A maneira como teu corpo se acomoda na cama, se tu olharias em meus olhos, se conversaria pela madrugada toda, se afagaria meus cabelos. Se colocarias teus pés junto aos meus, se deixaria eu repousar minha perna direita sobre a tua esquerda. Se ficaria com os olhos pequetitos a me espreitar, se levemente adormeceria, se procuraria minha mão com a tua mão, como a procuraria, se enlaçaria dedo por dedo, ou se pegaria a mão inteira de uma só vez, se faria carinho na mão minha com o dedo teu...

Se dormiria totalmente vestida, se permitiria recostar minha cabeça em teu peito a afundar minha boca em teus mamilos, desenhar amores em tuas curvas, os sons que emanas enquanto serenas... Se dormes rapidamente, ou se fica estalado fitando o teto, se gosta do escuro total, se gosta da luz, se prefere a televisão ligada, o rádio, o fone, ou prefere som nenhum... Se gostarias de minha cama, se comentaria da sua altura, da sua fofura, das molas ensacadas, se pularias nela para testar, se sentirias descansado, tranquilo, em paz, ao dividir nosso espaço de repouso. Se deixarias eu mordiscar teu queixo, brincarias de cócegas, e acharia graça em algum momento bom, se contaria histórias, se se emocionarias com as minhas histórias sem pé nem cabeça, se teria prazer em falar-me, se abraçar-me-ia forte. Se pediria para que ficasse de costas e tu levemente encaixasse teu corpo ao meu, e sentisse minha nuca, meu perfume, e grudasse os corpos em nosso enlace feito das vastidões. Se gostarias do meu pijama, se acharia graça do xadrez, se preferirias o short, a calça surrada e a blusa qualquer, ou quem sabe o corpo nu. Se sentirias calor, se roubarias meu cobertor no meio da noite.

Eu me pergunto, aqui, agora, recebendo o vento produzido pelo ventilador. Eu me pergunto insandecidamente, o que é mesmo que estou fazendo aqui? Pergunto-me para te perguntar, sem querer respostas. Eu me interrogo, como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo o questionar, o estar sem respotas, caído na masmorra desta desgraça que é o não saber de nada e o saber de tudo. Sentirias frio e rolaria para perto do meu corpo quente? ... ou me procurarias no meio da noite, buscando um beijo, ou simplesmente um cheiro bom. Se colocarias as mãos em minha coxa, se não importaria com meu jeito de ocupar a cama toda. Se me recitaria versos de menina apaixonada, se sentiria meus arrepios, se ouviria meu pulsar de quem ama.

O riso em ser acordado com torradas de queijo e capuccino, o beijo matinal. Se te importaria de beijar-me os lábios pela manhã, sem antes ter escovado os dentes. Se me permitirias te observar, da cama, teus levantares, teus vestires. Se me permitirias ficar à porta do banheiro, enquanto você retira o excesso de madrugada dos teus olhos, e escova com o pente tuas madeixas... Se daria sorrisos tímidos, se me fitarias pelo espelho. Se deixaria eu sentar no chão do banheiro, enquanto tu tomas banho, e ouviria meus pensamentos do dia nascido. Se me chamarias ao banho, amarias sobre a água. Se gostarias disso tudo. Se te bastaria essa vida. Ah, garota, como eu sei que iria te amar. Minhas frases seriam meus sentires, e meus sentires seriam somente teus. O puro cataclisma estético provocador de sentidos e sensações. O algo mais que a mera forma. Como melhor do que pensar seria viver e vivenciar tudo isso do teu lado!

Seriam tais pensares que povoariam minha noite quando passaria a não suportar mais o peso das pálpebras. O pensamento é uma vara enfiada no meio do coração, intumescida com o veneno mais dilacerante, e foste tu, com o teu veneno, a me povoar em matanças. A colonizar, a desbravar, a fincar bandeiras, e permanecer, alva em meu suspirar! Então seria por tudo isso que dormiria tranquilamente hoje, pois tu me pensavas e eu pensavas a ti, e uma coberta de aconchegos me cairia sobre a alma. “De tudo ao meu amor serei atento”, que vontade. E mudaria, pois, os versos finais do poeta: "Que fosse imortal, posto que é chama. E que fosse infinito pois iria durar. Fecha aspas. Tu me farias feliz neste nada vão momento meu! Teriam mais cores meus dias, com tua chegada! Vivê-la, em cada vão momento! Fiel, encontrar-me-ia, a ti, no desejado amor sem fim, e que em nossos confins, imperasse sempre o nosso elo. Eu me saberia mais depois que você passasse a existir em minha vida. Te queria, compartilhar! Viajaria para o local dos teus pensamentos enquanto tu me escrevias esta cartinha que não tenho, e que não sei se um dia a teria. E me veria em todas a frações do teu imaginar.

Boa parte, senão tudo, seria do meu agir natural. Te desenharia em meus sonhos abertos, agora, contemplando a arte instaurada, me ofuscando com teus brilhares. Das simplicidades dos toques aos anseios das funduras, nosso amor seria antes de tudo um amor poético. E na poesia do nosso elar estaria o segredo dos nossos olhos. Seria incapaz de não amar você, menina. Cada hora nova, sinto tu em novo canto meu. Cada segundo novo, sinto nós, mais perto. Mais juntos. Mais laços. Mais marinheiros. Mais elo! Nós de nós.Tudo o que tu pensas e imaginas, é em mim vivo também. Amo o grafite com o qual te desenho. Sonho altamente com todos os detalhes. Sei que tal grafite veio de tuas essências.

Quanta saudade do que nunca vi, toquei, senti! Quanta saudade de você que só sei por meio desta carta que só tenho em pensamento. Estaríamos, ambos, malucos? Mas, me diz, até que ponto você existe? Sou eu o único doente de amor? Quanta saudade de você que só existe em minha imaginação. Onde já se viu, juízo, em apaixonar-se por uma irrealidade. Quanta saudade da mulher maravilhosa que eu sei que tu és. É aí que está o segredo? O saber de tua existência mais que possível? O suspeitar? A credulidade das coisas de nós? E agora, abro meus braços fortes, e daí tu me enlaças o peito, como a me saber também? E me sentes? Seríamos eu e tu? Teu corpo e tua alma se encaixaria às minhas fundições? Chave-fechadura, de uma porta sempre aberta, ensolarada, serena? Ou o que quiser. Você seria, realmente, um presente que a vida me daria? Razão deste coração acelerado, motivo dos meus sorrisos sinceros, profundidade dos meus gostares... Tu me terias? Eu seria teu? Entregue? Doação? Cuida bem! Vou cuidar de ti e de nós, amor. Tu serás minha, minha companheira de viver. Eu serei feliz! E intento te trazer um punhado de felicidade todos os dias. Cada vez mais. Mas que bom seria... se não foste tu, em meu sonho, quem eu tanto queria.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cada caroço um sorriso



Por Germano Xavier

III

quando se pensava que era já hora
do curió do mato sossegado piar
aí era que o vento dava duas dobras
na própria propriedade de existência
e anunciava do meio do pó doró
o moreninho do mato

o moleque estripuliava era era com tudo
uma vez foi foi matar lavandeira
passarinho do santo abençoado
dizia ele ia pro céu
ser lavador de nuvem

"tem de aguá bem aguado
pro mode ficá alvinha assim pra sempe"
pensava o menino

esse moleque era uma fonte

tinha era um umbuzeiro inteiro
plantado na cuca
cada mordida no fruto era uma arte
cada caroço um sorriso

doró gostava mesmo era soprar lagarta
"vê brabuleta de largata ameninar" dizia
e de matar "largatixa" com beca de pau
que ele mesmo fazia nas folgas de menino respeitoso
aos pais e arredondava as pedrinhas de catada
"qui largatixa é fi de largata disubidienti
fugiu de casa nun quis iscutá mãe e brabuleta sê
feiz foi ficá iscondeno no mei das foia suas arte de rastejo"

pra bicho que se esconde do seu viver
lá ia era tiro de beca de pau pra riba
que o menino ia era pro céu "sê aguadô de nuve"
e arreganhar ainda mais o sorriso de deus

A estruturação da realidade


Por Germano Xavier


A construção conceitual da expressão "Estruturação da realidade" fundamenta-se na ideia de que é ela o arcabouço instrumental-metodológico usado pelo indivíduo no desígnio de criar um "ambiente" propício ao desempenhar de tarefas-ações, sempre em busca de cumprimentos e realizações. "Estruturar a realidade" é relacionar-se com o outro, com o que é o objeto ou com o que não é concreto. É estudar a mecânica física e simbólica da dinâmica comportamental em um viés que permeie a elaboração de uma situação real, cognitiva e operacional. O indivíduo "estrutura a realidade" no intuito de "desproblematizar", de ir adiante, alcançar objetivos, superar obstáculos. Portanto, ao construir tal esfera de significação, ele, o indivíduo, dialoga com forças e necessidades, ora simples ora complexas, para depois agir sobre o meio e produzir a ordem desejada. Para isso acontecer sem maiores dificuldades e empecilhos, a "estruturação da realidade" atua no desbloqueio de tensões, ameaças bastante significativas para as possibilidades de fracasso. Em outras palavras, "estruturação da realidade" é o conjunto sistemático e estrutural de manifestações que, motivado ou não, prepara o indivíduo para inúmeras interações e jogos relacionais, funcionando como ferramenta de apreciação e efetivação de ações sobre determinados meios, prenunciando algo, sempre.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Eu e o velho asteróide



Por Germano Xavier

A cidade de São Salvador era o destino. Tinha acabado de pegar o ônibus das 20 horas. O Emtram ia com pouco mais da metade de sua capacidade preenchida e a plaqueta apontava como itinerário final um lugar chamado Paraguassu. Tudo muito rápido, veloz como o ano que começava. Muitas pessoas da minha cidade natal entraram comigo. Tudo parecia parecer muito familiar.

A mochila nas costas, direcionei-me à poltrona 33, janela. Eu que sempre gostei de ficar na janela, olhando para o mundo... "Como uma luva", pensei. Não demorou muito, Ávila, conhecida e filha de Iraquara também, sentou-se ao meu lado. Rememoramos infância, adolescência, cidades, amigos, experiências, suplicamos sonhos, falamos sobre livros, filmes e música, sobre amigos que partiram mais cedo que a gente para mundos ainda inatingíveis, sobre quase tudo ou quase todos...

Conversa vai, conversa vem... e a noite noturna, aquela em que os homens teimam em "desver" e acabam dormindo, apontou no céu azul-negro que eu via da janela. De repente, uma estrela cadente!!! Tentei agir. Pedi saúde para os meus pais, e aquela estrela - seria o asteróide B612, transportando O Pequeno Príncipe? - levou meu pedido para o desconhecido.

Duas da manhã, levantei a cabeça. Nenhum sinal de vida, apenas uma luzinha acesa na primeira poltrona. "Alguém lendo", imaginei. Um dia a leitura ainda vai salvar o homem. O ônibus sacolejava, parecia querer tombar nas curvas da Chapada. E eu gostando de me sentir vivo, ou melhor, morrível. Para mim, a beleza da vida está na impressão de que se pode morrer a qualquer instante. É por isso que vivemos, para morrermos lentamente em esquiva eterna e com dignidade.

Esperei Ávila dormir, depois acendi a luzinha de leitura. Comecei a ler uma matéria intitulada "Angústia, um sentimento positivo", numa revista sobre filosofia. A autora, Olga Hack, bem diferenciava os aspectos negativos e positivos do sentir-se angustiado, e eu me degustava com o bom texto. Num determinado momento, ela citava um grande pensador nas seguintes palavras: "Aristóteles dizia ser o "espanto" nossa condição de contemplação sobre nossa própria condição de existência em possibilidades.”

Parei após ler o excerto. A reflexão bateu com o momento que vivo atualmente, que é de contemplação daquilo que é ínfimo, desprezado, de "absurdar-me" perante o absurdo da complexidade das mais simples coisas, de viver, ou tentar viver, a essência de toda a poesia de Manoel de Barros, os “nadinhas” que são os “tudos” mais totais. E como fiquei melhor depois! Acredito que nada acontece por acaso nesse mundo, e que raras são as coisas que não podemos explicar. Uma delas é o Amor; outra, a própria Morte. Acontece que eu tinha acabado de comprar minha passagem de ida para Fantasia, aquela do Michael Ende - quem já leu "A História Sem Fim? -, onde eu mesmo me dirigia, sempre para o além... para o além de mim-homem. Quatro e dez da manhã quando olhei o relógio. Terminal Rodoviário de Salvador. Tinha abortado a viagem à Fantasia. "Novos velhos ares", pensei com meus botões...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A praça das ausências

Por Germano Xavier

Para "Japão", cidadão iraquarense, falecido hoje.
em frente a Casa Havaneza,
um homem magro aparentando
melindrosa sabedoria
enfia a mão
dentro do casaco. são mãos
em coberta de linho e
ao longe
soam verrinosos
os debruçares do sol
na praça pessoeira.

- a surpresa do que dali poderia surgir é
o belo prazer dos dançarinos
aldeões, que se esfregavam
tal Diógenes de Sínope
em cio de almas.

(nesses casos, há sempre uma criança
figurando entre as personae do
tal filme do olhar. e uma vem da ponta
extrema, na diagonal,
cruzando o corpo da square.)
sorri.

vê-se que o homem do início do poema
não está mais onde esteve antes. as pessoas
que estão em volta do menino
não desconfiam do paralisador
de infâncias,
a tal máquina extraviada.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A frágil alma das coisas


Por Germano Xavier


árvores copulam ventanias
os mistérios do Homem
são relógios
margeando nossos instantes
presentes
present’ausentes
em fugas
de tic-tac

fechamos os olhos
e pensamos ingênuos
na calma ilusão
serena e eterna
das coisas
sem coisas

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A difícil arte de reviver


Por Germano Xavier

Descartando o caso raro de Truman Capote, escritor e jornalista norte-americano autor do memorável A Sangue Frio, que dizia ser capaz de relembrar mais de 90% do conteúdo das entrevistas e conversas sem utilização de nenhum artifício senão a memória, conjugar perfeitamente o verbo rememorar não é tarefa fácil para ninguém, até mesmo para quem já está acostumado a lidar com a tradução de cenas e casos do cotidiano para a teledramaturgia brasileira e mundial. No melhor sentido defendido por Inmanuel Wallerstein, Manoel Carlos fez jus à máxima do sociólogo estadunidense "rememorar é um ato social do presente". Publicado em 2006, o livro chegou até minhas mãos através de meu professor-orientador no curso de jornalismo. Como meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) versou sobre a capacidade que o gênero cronístico tem de, aliando ficção e realidade, demarcar um período espaço-temporal de uma dada localidade ou região/povo, imaginei fazer dele apenas mais um objeto de análise e estudo, sem saber que acabaria se tornando uma leitura de agradável passagem e esclarecimento. Ao todo são 53 crônicas, divididas em 5 partes inomeadas, originalmente escritas quinzenalmente para a revista Veja Rio. De linguagem simples, quase nunca usando de termos desnecessários, Maneco - como é conhecido - traça um enorme perfil carioca, centrado principalmente nos acontecimentos dos arredores do bairro do Leblon, onde reside e viveu boa parte de sua vida. A impressão que fica após a leitura é a de que a alma do carioca fora desnudada, separada de qualquer impedimento que prejudique os atos da confissão e revelação. Através de observações feitas em conversas dominicais com amigos na praia, durante a caminhada matinal, em viagens ou no espaço da livraria Argumento, onde é exímio frequentador, o autor investiga, e com saber de causa, acerca (e principalmente) do comportamento feminino - aliás, talvez a temática mais trabalhada nos projetos que realizou -, dos rumos das paixões arrebatadoras e suas ramificações, os conflitos matrimoniais, os desentendimentos, as dúvidas diante do florescer de um amor, além de colorir com tintas de incerteza o mundo dos jovens e seus costumes. Ora se preocupando com o rumo do historiado ora rindo dos casos por ele mesmo contados, as reminiscências temporais povoam de forma bonita a obra, cujo conteúdo é quase sempre penetrado por um ou outro trecho de algum poema - o que faz da leitura ainda mais gratificante para os amantes da forma poética, como eu. 233 páginas de crônicas que formam um crônica-una. Por outro lado, alguns leitores poderão dizer: "são crônicas de um burguês para um burguês ler", e também não estarão de todo equivocados. Todavia, talvez isso não venha a calhar nesta hora. O livro só fez aumentar a minha curiosidade perante este gênero tão absurdamente brasileiro, traiçoeiro e dual que é a crônica. Outrora cosido por mãos geniais, como as de Rubem Braga e Antônio Maria, o escritor de 78 anos não faz feio em seus domínios. Manoel Carlos é o autor das novelas "Mulheres Apaixonadas" e "Páginas da vida", sobre as quais minha mãe certamente teceria melhores comentários do que eu, além das minisséries "Presença de Anita" e "Maysa, quando fala o coração", entre outras. Uma boa pedida é A arte de reviver. Leia!

O caso no H.M.S. Beagle


Por Germano Xavier

No último episódio de sua saga, o inconceituável Napoleão Joujaumontx resolveu, depois de cautelosa e inteligente idéia de construção pensamental, colocar em prática um de seus planos estratégicos infalíveis de captura.

Pinóquio, mais conhecido como “O Traidor”, fugindo das impiedosas mãos do maior dos maiores, o mitológico Imperador Napoleão Joujaumontx, acabou deixando no chão vestígios de sua passagem pelos recantos e cantos do setor norte do Condado de Spitzbergen, onde toda a celeuma começou.

O som refletido nos ares do Condado ainda podia ser ouvido em alto e bom tom, devido mormente à representatividade e força que aquele susto houvera lhe proporcionado...

- U qui foi aquilu, meu deus? ... U qui foi aquilu, meu deus?... U qui foi a...

Como que de chofre, Napoleão Joujaumontx parou um segundo caprichoso bem dentro de si, e depois sussurrou...

- É chegadu u momentu, seu Pinóquio di uma figa! É chegada a sua vêis! Tenhu qui agí logu!

Sem pensar mais um segundo, o indestrutível Napoleão Joujaumontx largou todo o peso que carregava e também todo o apetrecho capaz de produzir barulho. Tudo muito estudado para que não ocorresse falhas em sua investida. Foi assim que Napoleão Joujaumontx iniciou sua busca em nome de sua honra...

- Eu não mi chamu Napoleão Joujaumontx, nem manterei a ordi dus cavalêrus bravius di “La Mancha”, a qual meu irmãu Quixote féis parti, si um dia eu não ti pegá na boca da butija, seu gatu safadu! Eu só pricisu di tempu! Eu só pricisu di tempu e paciênça!

O homem que Deus guarda, o insolúvel e indissolúvel homem incrível, o quase Deus e a bala que matou John Lennon, o marido da Luana Piovani, o ser que pinta de rosa a situação preta, o homem que dá rasteira no vento, ele, o próprio Napoleão Joujaumontx, agora caminha seus primeiros passos e percebe que o sucesso é apenas uma questão de tempo...

- Milhó luta é u lutá du deseju, Pinóquio! U lutá du deseju!

Com passadas largas e resolutas, e ainda seguindo a estrada construída com as supostas pegadas de Pinóquio, Napoleão Joujaumontx conhece pela primeira vez o pequeno porto do Condado de Spitzbergen, território pertencente ao seu Império do Ártico.

Napoleão jamais houvera pisado no porto de Spitzbergen. O destruidor das demagogias não precisava gastar energias observando a chegada e a partida de navios e saveiros que abasteciam todo o Condado com mantimentos de última necessidade. Havia um esquema de administração muito bem estruturado e que dava um bom rumo aos negócios do Império.

Nesse ínterim, Napoleão Joujaumontx percebe que as pegadas vão ficando cada vez mais desfiguradas, até perderem, em determinada coordenada geográfica, as suas formas mais visíveis. Um tanto que desorientado, Napoleão Joujaumontx não perdeu tempo. Começou a perguntar aos seus empregados sobre o possível destino trilhado por um ser que foge de alguém. E todos lhe apontavam o setor de embarque e desembarque do porto de Spitzbergen...

- Intãu é lá qui você si iscondi, não é! Intãu destá qui você vai vê cum quantus paus si fais uma canoa, seu Pinóquio disgraçadu! Destá!

Napoleão Joujaumontx, desviando-se de inúmeros baús e arcas repletas de alimentos e armas, finalmente consegue chegar ao setor de embarque e desembarque do porto de seu Condado no Ártico. Sem muito esforço, seus olhos denunciaram a presença de apenas um navio no atracadouro. Não era grande nem pequeno. No casco frontal havia uma inscrição:
H.M.S. Beagle – Inglaterra.

- Aqueli gatu salafráriu só podi tê carregadu u meu chinelu pra dentu daqueli naviu. Vô logu mi prontificá e encararei até uma viagi não pogramada si fô pricisu. Mas qui eu dô uma liçãu naqueli Pinóquio, eu dô! Ah, si dô!

Quando estava já subindo a rampa que dava acesso ao interior do navio, o maior viajante de todas as eras, o Marco Polo dos tempos modernos e contemporâneos e pós-modernos também, ele mesmo, e quem poderia ser?, o soldado dos soldados, Napoleão Joujaumontx, teve a nítida impressão de ter visto dois fiapos do bigode de Pinóquio em movimento de reconhecimento sensorial concernente à presença do seu amo, ali, atrás do barril de vinho, próximo ao mastro central.

Napoleão não titubeou. Acelerou suas passadas de forma a imprimir a si uma velocidade de ginete em trote considerável, quando foi abordado por um velho de calvície presente e barba branca de cerca de um palmo de comprimento.

- Saudações, Sir! Quão magnânima e honrada presença! Veio fazer uma visita ao nosso barco ou pretende conhecer os sete mares conosco? Informo ao Ilustríssimo Senhor General que dentro de 5 minutos partiremos para a nossa jornada. O que me diz, Sir?

Napoleão Joujaumontx, ainda aturdido e mais preocupado em averiguar se era mesmo Pinóquio o dono daqueles fiapos e se aqueles fiapos eram mesmo do bigode de Pinóquio, respondeu perguntando...

- Hum? Cuma? Quandu? Ondi? Hoji?

E arqueando o corpo em total reverência ao Imperador dos Imperadores, o homem de barbas compridas e alvas estendeu o braço ao General dos Generais, no intuito de auxiliar a entrada definitiva de Napoleão Joujaumontx ao interior do simpático Beagle...

Em poucas palavras, o homem do navio começou sua apresentação...

- Pode me chamar de Charles Robert Darwin, cientista e curioso inglês, natural de Shrewsbury. Será um prazer tê-lo em nossa companhia, Sir!

...

Não perca o próximo capítulo da saga de Napoleão Joujaumontx.
Você não perde por esperar...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O resto não conta



Por Germano Xavier

III

Perdoai a eles, pois eles não sabem o que fazem. Desse perdão também quero gozar. Eis-me aqui novamente, tentando desfazer os preconceitos vários. Pessoal, quantas vezes eu vou ter de dizer que eu não estou querendo criar confusão!? Eu não sou louco! Eu sou apenas um sonhador que acredita em "Mundos". O resto não conta. Estou atravessando uma fase bastante fértil e calma em minha vida. Faz alguns dias que não tomo nenhum tipo de psicotrópico. Confesso que estou mais livre e menos triste. Uma leve sensação de liberdade. Argh! Rápido, preciso dos meus "ingredientes"! Ah!... e também de um livro de poesia! Augusto! Grande Baudelaire... Nessa maresia em que me configuro atualmente, vou mesmo ficar doente da cabeça. Onde já se viu... liberdade? Liberdade é ilusão, é cabeça vazia, é foice que dilacera, é labirinto de sombras, é guilhotina, é cadafalso, é catafalco, é calabouço.

Tenho de recuperar o tempo perdido! Preciso de doses extrafortes, mais concentradas. Liberdade na pós-modernidade? Liberdade é calabouço, cala a boca! Cale-se, seu idiota! Viver é uma provocação, e isso basta! Espelho de Narciso, Édipo Rei ou Hamlet, de onde surgem esses ventos tão frios? Não, não se exalte! As crianças... coitadas! Pássaros coloridos, onde o meu "preparado"? Deus, o que é liberdade? Eu ainda não sei o significado dessa palavra. Liberdade deve ser barriga d'água, mulher que cede, cavalo que vara, dinheiro nas ancas. Porca miséria, meus "redondinhos"!? Quanta ignorãncia, meu Deus! Continue! Viva! Apenas viva! O que eu quero é isso. Nada mais que isso. Não se preocupe comigo, eu estou aqui só de passagem mesmo! E quanto mais rápido for, melhor a aventura.

Sabe, eu sou um sonhador, e em um dos meus mundos os sonhos são como borboletas azuis. Por favor, entenda! O tempo é cada vez mais reduzido, mas ainda há esperança. A corda... pegue a corda! E corra! Corra para bem longe. E não deixe marcas pelo caminho, pois a recompensa há de ser só sua. Vamos! Abra os olhos! Eu sei que há "Mundos". Eu sei. Mas... o que é liberdade? Não, eu não posso parar. Minha cabeça parece que vai explodir. Meus... tóxicos (algemas?)! Eu teimo, insisto e não desisto. Cale-se, para sempre!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Uma febre convertida



III

Cádor,


Admito em glórias que, ao ler sua carta, vi retrato meu desde a primeira palavra. Quanta alegria ao vê-lo despido de suas certezas feitas à base das traças. Você procura em mim algo que ainda é seu. Procura entre minhas palavras e frases feitas, a cura para o seu desejar ser mundo e todos os livros que lê. Você me conhece e sabe o quanto me perturbo. Sou vela não acesa quando não me brutalizam, mas você tem esse tenebroso dom de me questionar e me colocar em comparações – comparações que já tive de lidar durante o tempo em que estivemos juntos. E era sempre essa porcaria literária ofuscando minha existência. Você e suas eternas evoluções filosóficas. Me aniquilam – me manipulam – me aterrorizam. Mas suporto-as porque eu mesma criei seus dragões. É tudo criação minha e me enobreço e me estico – de corpo inteiro – ao vê-lo mastigar minha vida e reproduzi-la em busca de sua criação. Lembro das vezes que agüentei – por amor ou por medo – suas leituras idiotas noite adentro. Lia de tudo e me questionava e me roubava idéias. E agora me fala que não conhece meu mundo particular. Dou risada. Dou risada alta pela casa. Você é torto e quase um cemitério feito de mim. Eram dias afastados e, quando retornava, me falava em saudade como um falante que não conhece a língua erudita que possui. Você perdia seu gênero quando se aproximava de mim – era mero e feliz. Não admite isso porque decidiu que meus vãos são prisões e você estava sem ar dentro de mim. Como histórias antigas, como sua Grécia que só faz sentido no papel, você abandonou sua casa. Agora se abre em torrentes de compaixão. Agora se desfaz em literatura americana tão copiosa quanto os livros que lemos juntos. E me fala em calendário. Você tem sido tão cego quanto eu finjo ser. Vivi de seu calendário por tempos que não sei verbalizar. Foram tempos e horas que não sei contar e não tento. Hoje vivo e isso sufoca você. Vivo de mim e de minha existência. Tenho coisas a fazer, mas me atormenta o lembrar. O sentir me atormenta. Sentir cada passo seu nesse universo em que vivemos. Você me atormenta e sabe ser senhor de mim. É senhor de mim, pois já respondo carta que acabo de ler e já estou a enviar a verdade que você precisa. Não o esqueci. Não vivo de outros abusos. Ninguém vive sobre mim. Não há réquiem – apenas os tons da lembrança que tenho de você – indo embora em sua fase de seguir doutrinas. Que livro você lia naquela época? Acho que era aquele apego ao Kerouac. Odiei esse apego e odiei ser rejeitada. Mas me refiz às escuras. Passamos anos sem nos falar e agora eu sou Pandora. Sou e não minto. Não entro em contrapeso. Não sei abolir o que sinto. Não sei fingir. Tentei não ser aflita em minhas cartas, mas você provoca ânsias de ódio e amor. Você provoca ondas circulares em meu oceano. E falo em metáfora sim. Falo do modo como aprendi. Você deixou seu legado em mim e levou consigo partes minhas que não o deixam dormir. Que não durma então. Que não viva. Que não respire sem que me ouça, sem que me seja, sem que me consuma. Sempre fui a oferenda límpida que você soube retratar. Me ofereceu aos deuses e agora me diminui por raiva – tão imensa que me faço renovada. Sei que não se importa com outros mundos. Sei de sua falta perante a humanidade. Sei porque sou o porto de onde você partiu. Aprendeu comigo a ser legível e a sofrer em silêncio. Agora quer voz. Agora quer que eu conte detalhes meus que você já absorveu. Admita a sua inércia e fale de amor. Fale de rebentações e largue essa sua face esculpida para esconder dores. Sofre e aprende. Ninguém toma um livro em mãos, faz leitura e parte como se o dia fosse apagar imagens. Você já não vive sem minha existência? Sou altruísta, embora pouco saiba das dores comuns. Sofro sob os lençóis e sob o sol que cobriu nosso rosto. Sempre fomos iguais e vê se não me rouba novamente a vontade de continuar. Seu medo – esse medo que você sente quando eu existo, é meu alicerce. Mulheres são assim. Sou Virgínia sem vírgulas e não sou previsível. Você me esgotou ao escrever isso. Me esgotou e senti a mais completa realidade de se odiar o que se quer ter. Tenho você e você é um ponto agudo sem o qual não sei viver. Odeio me apresentar assim, mas chove e tenho que sair. Sorrirei lembrando de suas necessidades. Tão previsível quanto a sua criadora. Sofre – sofre em pausas. Leia o nosso livro e seja o meu deus particular. Já chega o tempo de você me reencontrar. E não há ataque - somos defesa de tese única. Sua febre me converte em fúria – me converte em criatura que quer ser devota e imensa sob o seu ser. E você é e será sempre o meu calendário.

Migrando sempre.


P.S.: E vê se aprende a morrer e a viver de novo.


*****


Estimada minha,


Não canto você, Virgínia. Não é do meu querer levar a janta ao pé de tua alcova. E tudo o que escrevo é amor em primeira pessoa. Ou o ódio do amor. Quero, sim, o avesso dos atos. Sou avesso e, como Bartleby, prefiro não fazer o que imaginam que sou capaz de fazer nas horas que não são minhas. Então vem você e diz que tudo até aqui não passou de uma mera coincidência?! Como pode dizer tal infâmia? Fico estupefato ao ler tais disparates e te espero em poucos dias, sem grande demora. Quero deixar claro que o uso dos colírios faz-se de extrema necessidade em teu conjunto ocular, pois jamais fui donatário de certezas, o que para você não chega a ser clara luz. Se hoje tenho alguma coisa, ou melhor, se alguma coisa a mim pertence, essa coisa é a dúvida, o avesso da certeza, a visão do não saber, do desconhecido. E, eu peço, encarecidamente, sejais lâmpada e não a luz que faz penumbrar a atmosfera. Você é vaso? O que tens que tanto busco? Teu azeite pubiano é alimento? Quando e onde? Ando a pensar que você é mosca e que não faz nem onda em água morta nem dança em rama leve. Com que argumento falas do meu procurar? Teus queixumes de quinta categoria não vão me conquistar prantos e dengos melodramáticos, Virgínia! Sou mais forte do que sua consciência pouca se presta em suspeitar. Peso uma tonelada de vida, apesar de minha idade sem nenhuma poesia. A virtude do olhar está em não enxergar as dissonâncias. Aos pinotes, granjeio para mim a imortalidade que tanto prezo. Enquanto você se esforça para ser uma criatura normal. E escrevo porque sei que vou morrer. Escrevo porque não posso viver o dia de amanhã, a noite do futuro. Mas é bem verdade que você possui relíquias que preciso para completar a minha coleção de borboletas. E também desejo os teus suvenires. E desejo, sim, ser o mundo que aprendi lendo. Todavia, mais que isso, desejo o roteiro idealizado com um sempre espanto e disciplinado estro. Tenho mais de mil desejos, Virgínia. É bom que isso fique bem claro. E um deles é matar você. Matar de algum sentimento, com algum sentimento ou pesar. E qual é mesmo a minha doença se esta não for a mesma que acomete teu pequenino corpo? Ao contrário do que reforças, não ainda te conheço, mas hei de conhecer-te. Porque é longe o teu rosto ainda não te sei, e porque também é raso o teu mar de mulher ainda não me coloquei mar adentro. Não estás a agüentar o baque de minha dor? Não suportas o meu sofrer em vida? Minha morte lhe chega primeiro que a mim? Por que tanto vomitas a discórdia, amada? Sou tão grande assim para você? Apago tua vela com meu sopro? Não tenho olhos biônicos, querida, e só lendo tuas palavras é que tomo nota do teu esforço em se ser, sem desfaçatez ou mal maior. Confesso que espero você na estação mais segura, no quarteirão dos sem-paraíso. Contigo, minha morte é segura. Hei de te lembrar que não uso mais do meu escudo. Ando a recitar versos ao vento porque dele quero me alimentar, já que em ti sou famélico. Minha atitude, de hoje em diante, será intensamente filosófica. Gastarei as palavras precisas para te dizer de meu amor e ódio. Beijou tua sombra hoje? Fotografou-a? Diafaneidade é a palavra que resume teus escritos de corpo, Virgínia, infelizmente tenho de dizer isto. Tudo é tão volátil em teu canil de ratos! Estruturo versos e campeio o atol de tua melhor criança. Ainda há o que se aproveitar. E libo. Goles profundos... Aprenda uma coisa: a criação é o universo de Deus. Deus é o texto. O satanás é a palavra. Ainda estou a te singrar, tua baía, tua lombada banhada a ouro. Quero viajar viagens e você não vem. Sua própria besta te feriu. Soube criar teu rebento, mas não soube criar a si própria. Meus pêsames, mulher morta! Onde tua fênix? Asas podadas, ou nunca a viu? Apesar da música sem cheiro que ouço, a saudade é aperto no peito. Tenho vontade do teu amor. Sofro dor distante e perto. Morro por não escrever a poesia maior que é você. Meu único poema de amor! E cadê o dragão que não vejo? Não admito nada, você é que adora concluir cedo. Sou bando de estorninhos perdido. Cavalgo no cavalo do tempo minha revistaria não lida. E hoje como ontem e amanhã sou triste até a sua chegada em alvíssaras. A cama está arrumada, teu travesseiro cheiroso adorna o vão do colchão. Acendi aquele incenso de que tanto gostas. Comprei confeitos para depois do sexo. E aquele livro do moçambicano. Eu lia Whitman quando edifiquei uma flor de metal no jardim de tua ausência. E segui em traições...

Desesperado, Cádor.

Deus aberto

Por Germano Xavier

Para Maita Assy


de alguma forma
entendo o absoluto
como a prática de uma via
qual um contato
ou uma religião aberta
para além do símbolo
de algum modo
meu intuito por estar do outro lado
define um possível homem
e não podemos ser apenas
ao que tudo indica
humanos
somos antes as imedidas
incompatibilidades de um deus

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sombras adentro

Por Germano Xavier

Para Ira Buscacio,
pelo seu dia de meio século.


Ao som das matracas, os penitentes cortavam com sangue a noite. O ferro batido em rítmico acorde na madeira instaurava um vigoroso medo dos sons. Um som humilhante, injurioso. Havia um cavernoso vazio no firmamento, impudico. Um céu sem estrelas, vestido com os rumores das nuvens espessas. E um rumor de rio, maldito em espíritos lendosos. Um rio rastejando ao longe, dono de uma vida imperiosa, capaz de mudar ventos. E luas. Era ocasião de devotar o misterioso sacrifício do corpo em respeito aos que vivem, e também aos que morrem, todos enfim. Mormente ao que sangrou pela salvação dos irmãos e da própria vida, sem medir variantes de honestidade ou amor, o Deus criador e seu filho. Olhar aquele rio fervoroso fenecendo ao laço dos passos caminhados, deixar que uma sensação de despedida adentrasse a humana máscara, o estridente rumor dos seres noturnos, sempre impacientes e inadvertidos, baixa-mar quase pelágico. Era um céu propício, evidentemente. Páscoa, morada de um tempo que volteia sempre, fogo secular de símbolos, chicoteado pelo conjunto de mágoas e sofreres dos homens.

Apenas um norte a rumar, o rapaz foi sabendo. Jovem e magro, de alpercatas caseiras denunciando pobreza e coragem, foi com o peito aberto às experimentações de sombra. Triste o caminho, pés passeados ao jugo do balouçar melancólico dos capins, as pegadas descalças de quaisquer amarras impressas no pó solto e pesado da rota negra. Um pobre homem com fome plural, insulano a buscar no mínimo esperançar a visão do refúgio. Já não podia mais sentir as palpitações do rio, nem a sua cor. Estava longe agora, resolvido nas folhagens do atalho, indo na estrada real. Levava consigo um maltratado maneio de sentimentos, mas precisava. Para ele, o destino era ainda mais longo, apesar de a sensação de novidade que lhe tomava a mente permitir-lhe a mais corrente das horas.

Isso aconteceu comigo, numa noite difícil. Venci a rua, solitário. Uma chuva fina regava as luzes parcas que brotavam dos postes. A casa estava normal quando cheguei, com as lâmpadas apagadas e um leve clareado que invadia sem licença a janela basculante da cozinha - e isso já me era normal. Eu fazia questão de entrar vorazmente, fechar a porta de ferro por dentro sem antes apertar o interruptor de luz, para dar a idéia de que medo de nenhuma intensidade fazia residência em meu órgão maior. Meu coração era gelo protegido, incapaz de se derreter. Nesse momento, a mochila que trazia nas costas ocupava-se em conter um peso maior que o normal, como que se instantaneamente algo se fizera posto em seu receptáculo. Sentia as pernas pesarem mais que o peso de rotina, os olhos se demorarem na capacitação da retina para o ver sombreado.

- Sou mais eu – sussurrei. E escutei o silêncio como resposta.

Lá fora, o moço continuava. Pescador de coisas, ia colecionando sensações, gravando na pele a conveniência do estar. Sem dúvida que, por ali andar, já provava que muito de um freio psicológico possível houvera sido destronado dentro de si mesmo. Dedicou todo o tempo do seu dia para o preparo do acontecimento. Desde que o sol abriu os olhos. Era ainda menos de onze horas do dia e ele já havia separado a calça e a blusa alvas, cor oficial do rito. Para a paz? Nem tanto. Foi raro vê-lo com um semblante que aparentasse calma ou serenidade. Estava metido numa feira de instintos, reais ou irreais, mas que mexiam profundamente no equilíbrio de sua carne.

Na sala, depois de já ter assassinado a natureza da noite com o toque premeditado no interruptor, olhei de relance o saco aberto com pães deixados sobre a mesa. A janela quase totalmente aberta deixava um vento quase frio invadir o recinto. Mais perto cheguei e percebi uma pequena panela ainda guardando uma fina quentura em uma de suas extremidades. Tive naquele átimo o pressentimento de que eu estava só, de que ele tinha partido. A sensação de uma liberdade que, não sabendo eu, viria a me sufocar dali a poucos minutos, jogando-me na funesta engenharia dos suplícios, na inquieta mecânica dos devaneios. Foi quando iniciei a subida da escada em espiral.

Lá, com ele, a parte que mais se aproximava do chão, de sua calça branca, agora conhecia o marrom do solo sertanejo. Ele, um errante desbravador antes empoleirado pelo cabisbaixoso gesto do olhado juvenil, pervagava intenso em sua marcha incidental. Os penitentes, como demônios santificados, purificavam-se em dor. Latentes eram os gemidos fabricados no atirar das lâminas dilacerantes, das pontas carnívoras, dos tinos esquartejadores. Via que quanto mais se feriam, mais forte adoravam o Ser necessário. E, repentinamente, trocavam as solas apagadas dos pés pelos registros rubros do líquido interno que lentamente descia por suas costas, a pingar em maneira de renovação da alma.

Eu estou limpo, com um cheiro típico de alfazema, vestido com um conjunto mais leve de dormir. Ao subir a escada, senti meu peso total dobrar de valor. Eu estava começando a desconfiar de minha solidão, ali.

- Deus, eu creio em ti, mas aumentai a minha fé.

Não se ouvia diálogos em todo o trajeto, somente os estalidos dos ferros amarrados nos barbantes empapando molhadamente as cavidades produzidas na epiderme, e as orações num clamor ruidoso, lamentosas. Extirpação dos pecados, o discurso das intranqüilidades, o instante poético das fomes. O rapaz registrou numa câmera a hora em que as alimentadeiras de almas rogaram aos seus suas lamúrias, e o pobre estremeceu. Já no círculo final, a roda pronunciava em vozes vivas todo o júbilo sagrado. Uma comunhão de anjos lutando contra todos os compostos demoníacos do mundo. Deus chamado, o satanás deposto. As almas se exilavam num templo aberto, escondidas das miras periclitantes. Um homem com o dorso banhado em vermelho sacudiu a matraca num alvoroço, e pediu ao Pai:

- Planta aqui teu parecer, que a gente carece... que a gente carece...

Com o controle em uma das mãos, apaguei o senso do real quando olhei o espelho que brilhava estranhamente. Não era meu rosto, meu peito nem qualquer face que soubesse. Nada que me fizesse estar em completa perfeição. Fui levado magicamente para uma outra atmosfera, de ar impedido. Apenas o espelho estava iluminado, por uma luz duvidosa. Não bati em disparada, tampouco fiquei silente. Embaixo, veio o barulho da fechadura se abrindo, o trotar de uns pés macios, baques na escadaria impondo o torque do levantamento, a presença escura de alguma coisa.

E depois uma voz:

- Jamais feche a porta sem se achar inteiro. Eu estou aqui.

Apenas um norte a rumar, o rapaz soube. Olhou para trás, viu o caminho escuro. As vegetações das margens estavam em baile.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Calendário de nuvens


Eis a carta...


Triste Cádor,


Recebi sua carta enquanto ouvia sinfonias. Andei ocupada e atrapalhada e outros adjetivos que você bem conhece. Andei fora de mim. Fora desse Eu que tanto se fala. Sabe-se lá o que chega a ser esse tal Eu. São todos os sonhos do mundo ou um furto literário? Li esse trecho em uma revista enquanto esperava a Marília chegar. Ela chegou, pigarreou e me encheu com aquela problemática de suas aflições pós-maternidade. Acho que não cheguei a falar sobre a Marília com você. Ela é estreita – olhos estreitos, língua estreita – um cômodo sem mobília. Mas me acompanha desde que comecei a enfrentar aquela gente de nariz comprido que acha que merece prêmio por ler um manuscrito qualquer. Já me acostumei à Marília. Me acostumo às coisas e também às circunstâncias. Hoje enfrentarei mais uma de minhas circunstâncias. Apresentarei o projeto em que levei tempo picotando e retalhando autores. E todos irão me olhar como vitrine. Só me lembro do Chico Buarque e aquela música. Ela sempre me vem aos ouvidos. Gente passando pelas vitrines. Mas esqueçamos as vitrines, a mesa, a Marília. Sua carta é o centro – meu epicentro. Bom que me respondeu. E melhor – sempre usando o mesmo tom de decoração de casa antiga. A lembrança de você me toma o tempo. Não o tempo todo, mas quartos de tempo. Grandes quartos cheios de janelas. Melhor eu parar com minhas epifanias – pareço vendedora de enciclopédias. Você escreveu verdades e talvez eu tenha mentido. Também me incomodo. Me incomodo com livros cheios de páginas riscadas e amassadas. Me incomodo com perguntas e odeio médicos. E agora percebi que ser simples é meio que querer ser Deus. Ele é simples – nós não. Complicados em decadência e entre nossas vontades. Pensei também que talvez não seja necessário o veneno. Somos Casas de Venenos. Só não somos lentos. Sofremos do pensar excessivo e das leituras exaustivas. A Marília é lenta. Você é sombra de um quadro que já me desfiz, mas sombra não evapora. Você não evapora. E você é humano – somos todos. E você é triste – para a minha completa alegria. Somos iguais e saiba, o cálice será bem-vindo. Você conhece meus tons. Conhece e sabe o que pode receber de mim. Só recebo amor em gigantes goles. Nada em gotas, nada aos poucos.

Tendo epifanias,

Sua.

P.S.: E o que virá após o continuar?


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Ruborizado, escrevo-te...


E você que permanece calma em se esconder de mim. Por que não se revelar? É medo o teu pão diário, mulher? Você que não me diz se levantará a besta medieval e mirará o olho do grande dragão... que não me diz se sente fome do tempo azul... você que simplesmente não me diz nada... E eu a usar somente as roupas que me permitem o movimento livre dos braços, mormente o do braço direito. Minhas roupas são brancas, meus calçados são de pele. Maquiagem é coisa rara aqui em casa, prefiro dicionários. Eu como apenas do tempo-cruzeiro, navegador, marinheiro. E engordo fácil. Leio muito Melville e ele me diz das embarcações para o céu e para o inferno. Tudo com horas marcadas, locais das escalas, portos de desembarque e embarque, tudo. E o tempo caminha comigo para onde vou, e para onde não irei o tempo também caminha junto, contíguo a mim, casal com um mês de anel no dedo. E vivo meus dias na fúria de se querer Ítaca. Pousos são sempre quarteirões de sonho. Minha cantiga de escárnio que nunca fiz – farei?. Por favor, Virgínia, assuma seu posto de retratista barata, que não sabe enxergar sem as lentes de aumento, sem a grand’angular mecânica, que não consegue ver com o olho in natura. Olhar com o olho in natura foge às suas habilidades? Por que não me prova do teu mundinho particular? Não sabes singrar mares? Quer que eu te puxe pelos braços e diga qualquer coisa já quase vomitando em ti e que a hora é também já chegada e que não há mais tempo nem a merda e a desgraça do outono a perder? O teu calendário é gregoriano? Para que tantos brasões? O rato não roerá da mesma maneira suas pelúcias e te fará caquinho ou coisa menor que uma bola de gude? Assim vou acabar por acreditar que não consegues retornar de onde estás. Esquecestes o novelo no labirinto de Teseu? Você matou o espírito de Ariadne? É você Pandora, mulher? Diga-me, vamos! Abra a boca! Soluce algum pus de dentro desse vil organismo sem préstimo algum! Abre-te, Virgínia! Até tu, Brutus?! Sejais Sherezade e me conte do tudo que te faz nada, que eu preciso do teu néctar. Deuses alimentam-se da liberdade, somente eles. Receita de Narciso só te ampliará o desgosto. Por isso, seja mais coração e não surrupie mais da pouca literatura que te conhece. Sabe de uma coisa, eu não me importo com as dores pós-parto de ninguém! Eu já suspeito de longe de minha falta de humanidade, mas é que estou em busca do que é insólito em mim. Desejo minha podridão, minha infâmia, minha imundice. Foda-se o filho que nasce! Será mais um na turba. Mais um, só isso. E eu não pertenço a esta classe anônima. Não tenho sangue azul, mas tenho minha palavra. E nela me componho. Construo toda uma sonata, ou meu próprio e sorumbático réquiem. Sabe, Virgínia, estou farto de estreitezas. No dorso quero o largo do mundo, o denso do homem. Assim me tornarei o imortal ser que tanto almejo. Esqueça a Marília e me fale de você! Por favor, até quando serei obrigado a corroborar tal frasear? Jamais comprei enciclopédias de grosso calibre externo nesses vendedores ambulantes que não suspeitam nem do “a”, quiçá do “b”. Não! Não é o teu incomodar que me incomoda. É o teu acomodar-se. É ele que me tira o sono, que me priva dos finais de semana melindrosos, que me promove úlceras e pedras nos rins. Você acabará sendo a minha assassina. Matar-me-á sem dó, aos poucos, para sorrir do meu sangue endurecido no azulejo. Minha realidade desponta ofensiva. Sinto-me fraco ao tentar qualquer defesa. Perco paulatinamente meu poder de contra-ataque. E me rendo aos teus desmandos, aos teus acessos de previsibilidade, às tuas apoteóticas frases de efeito. Minha dúvida é se me safarei. Minha questão é saber se fui, se sou, se serei...

O futuro é nuvem, eu sou chuva, sempre caio.

Domingo em Iraquara


Por Germano Xavier

Hoje é sábado em minha cidade, véspera de um domingo como outro qualquer. E hoje beiro a morte, a minha morte. Por onde me encontrassem, facilmente as pessoas poderiam denunciar preocupações ou simplesmente perguntariam sobre o meu estado, se estaria eu passando por algum problema ou se algo teria acontecido comigo. Porque nos olhos dessas pessoas, meus conhecidos e meus desconhecidos, meu rosto aparentava cansaço, sofreguidão e uma tristeza de cachoeiras. Não haveria resposta em mim, e não teria como. Creio que morri um pouco hoje, neste sábado, véspera de um domingo como qualquer outro, um pouco de manhã, um pouco de tarde e, finalmente, um pouco de noite.

Morre-se mais ligeiramente (não sei se este é o termo mais conveniente) nos sábados e nos domingos aqui em Iraquara. Engraçado, também morro agora - um pouco, é certo -, no mesmo instante em que escrevo estas palavras. Morro, mas é um morrer para se viver, um morrer para se prosperar, um findar-se no digno intento de renascer-se. Pois já não tenho mais dúvida, preciso continuar morrendo. Precisarei. É uma questão de sobrevivência, de encontro, de fuga... Necessito da morte para viver, mas morrer em Iraquara, diariamente ou semanalmente - ou simplesmente duas ou três vezes por ano, quando retorno de férias - é sempre melhor, apesar de não ser nada fácil. Há um gosto gostoso em se morrer aqui.

Todavia, enquanto ela não me abraça pelo todo de sua envergadura (a morte), sigo a escrever, em reduzidas linhas, a minha própria morte. E você, que lê, persiste, sempre, a viver do meu ar, do meu sopro, inalando minha existência, que pode ser o espelho da sua ou não ter absolutamente nada a ver com ela, absorvendo com a alma sua também morte vital. Enquanto ela não vem, os meninos e as meninas iraquarenses, ainda sob os cuidados do ocioso fim de tarde do sábado, sem nenhum desses centros integrados de compras ou entretenimento bastante comuns em cidades grandes, esperam já ansiosos pelo domingo de se ir ao Morro do Pai Inácio, pelo feriado de se aguar o corpo nas intermináveis mini-cachoeiras do rio Mucugezinho, pelo final de semana de se fazer trilha pelo Vale do Paty, visitar a aldeia do Capão, limpar a alma na Pratinha ou se aventurar por debaixo do chão, em uma das centenas de grutas espalhadas nos arredores de Iraquara.

E é deveras no sábado que todo o planejamento se dá. Aí os meninos e as meninas iraquarenses ajudam o pai a pôr a churrasqueira portátil no porta-malas do automóvel, a pegar o saco de carvão - muito do qual, infelizmente, produzido com a queima da vegetação nativa da Chapada Diamantina -, a enrolar a esteira de palha do tio, a amarrar os espetos da vizinha, bola, bóia, carne, muita carne, brinquedos, toalhas, com alegria e disposição únicas. Porque foram dias de espera e nada pode dar errado agora. Tudo tem de estar em perfeita ordem, para que o fim de semana não descambe para a desolação total. Começando pelo tempo que, por ser a Chapada uma região geograficamente alta, acostumou-se a pegar desprevenido a quem olha o horizonte claro e limpo de longe do lugar onde se quer aportar, surdinamente levando aquela chuvinha constante e típica justamente para o local escolhido, quando na verdade se esperava um sol abrasador.

Com tudo arrumadinho, sol acordando cedo, lá se vai a família iraquarense, unida como em revoada de estorninhos, a povoar universalmente os infindáveis paraísos naturais gerados no centro da Bahia, preenchendo terras em seu nomadismo quase sagrado, colorindo os topos dos morros e das serras, invadindo a privacidade dos mocós e dos animais albinos donos do centro da terra - ah, Júlio Verne!¹ -, cortando as estradas sinuosas das antigas e rentáveis lavras de pedras preciosas, vai como quem tem consciência da glória que é ter tido a oportunidade de nascer e crescer sobre esta imensa manjedoura feita de pedra, arquitetura divina, rudimentar e misteriosamente imortal, dona das cicatrizes deixadas na memória da vida, e que nunca mais se despedem de nós, meros mortais - bom salientar.


Notas.
1 – Júlio Verne, escritor francês autor de Viagem ao centro da terra.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Famação


Por Germano Xavier

Quantos enganos cometemos? Assim como erros, acertos existiram? Diz-me a razão para tanto arrependimento? Aquelas palavras, aqueles momentos... Por que somos tão inconstantes? Será o medo de falhar? O progresso não dispensa os erros. Pisamos em falso, buscamos atalhos e os tropeços revelam-se companheiros, quando na mais tétrica das horas alguém vem e nos ensina as diretrizes do gozo. É no corpo das rosas que encontramos a razão para se ter o amor? É onde se porta a coragem dos homens? É onde preceitos se tornam conceitos? Não chegamos a lugar algum sem antes marcarmos o chão, mesmo com lágrimas ou suor. A distância que separa a raiz das pétalas é a mesma que diferencia o forte do fraco? Há quem suporte a dor da derrota, já outros, desconhecendo suas habilidades, obedecem às ordens do choro. É preciso mais que um discurso. É preciso achar o curso dos rios. Essa tal metamorfose humana não passa de mera subserviência, obrigação de mais alta falha. Por que teimamos em sermos iguais? Já não bastam os nossos próprios enganos? Mas golpes serão usados contra esse mal, armas serão lançadas ao rosto dos que aprisionam a liberdade. Será? Seria? Só assim surgirá, do mais ermo infinito, uma legião de bem aventurados capazes de remendar os feitiços dos homens. Talvez.

Crônica de carnes


Por Germano Xavier

Invado seu corpo como
quem penetra
o poço escuro na noite escura
do tempo escuro.
Lambo as paredes de tua estrutura
como no barro
a larva albina rasteja, destemperada.
Como quem
não enxerga a nebulosa de sombra
vou na luz aberta
por meus olhos sem destino.
Tua opacidade é o mal do bem.
Vou perfurando com mãos úmidas
de vergonha escancarada,
escavando-te, para você olhar para mim
e enxergar o jardim jamais visto.
Não vê flores nem hastes frágeis
na árvore madura,
nosso encontro é a orgia libelular das asas
do vento, e você já não é.
Eu te estupro a alma, recorro
ao gesto impuro para você inflar
tal bolha tal gás tal bomba tal jorro
e para que eu possa morrer,
criatura sua, no ar que escapa
da membrana do teu sopro.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

E se for você?


Por Germano Xavier

Para Daniela Delias,
que tomou para si este texto.


E se for você, menina? E se não for mais ninguém e ser somente você? Diz-me agora, e se for você? Vai, anda, por que esconde o lume de sua beleza tão lindamente cândida? E como eu adorei aquela fotografia que estava em cima do balcão na sala de estar de sua casa. Ou qualquer das luminárias. Era uma fotografia poética. O momento. Não vai adiantar você me dizer que tudo isto não passa de uma gentileza minha, ou que você prefere que os de fora gostem de você pelo que é por dentro. Isto é tão cafona, não? Pensar assim. Não vejo nada. Eu não quero entender perfeitamente absolutamente nada. Eu não conheço você por dentro, mas sei que você eu amaria. Porque o amor é antes um pensamento, não é? E quem sabe o que o destino nos reserva... você vai dizer que está fazendo isto porque adora adentrar mentes em desordem. Você se fingindo de afetadinha. Que quer saber de mim? Você já sabe de mim. Sou apenas aquele que insiste em falar de amor.

Você adora intensidade pelo jeito. Mas minha palavra causa melancolias. Não vá pensando que é assim tão simples. Meus dois últimos parágrafos não te deixariam sem ar. Você pergunta do nada se eu tenho uma musa. E eu do nada arrancando uma resposta de não sei onde e lhe dizendo que não. Você sorri, faz escárnio com os olhos e a boca posta de lado em um sorriso torto. Mas eu não saberia lhe dizer com total certeza sobre todas essas coisas. Não deixa de ser uma verdade minha ignorância para quaisquer outras coisas que não o além do amor. Essa mania de falar de sonhos, do que nunca se viveu. Quem não inventa, não? Seus olhos possuem aquela tristeza bonita que sempre achei lindo numa mulher. Vá me desculpando, mas eu gosto da frase que entra no meio das outras e sempre diz mais. Você acha engraçado de novo quando começo a falar dos seus olhos. Eu não sou humorista. Alguns fulanos já tentaram dar uma definição para os seus olhos, assim eu fico pensando. Um moço de nariz grande talvez falasse algo interessante. Ele diria: você tem olhos desamparados. É, você realmente tem olhos tristes.

Veja bem, estou poupando elogios a você. Porque acho que elogiar você não vai me tornar mais atraente. Mas, a verdade é que você é muito bonita. E que sonhos lindos! Faz-me ter vontade de morrer de amor. Já viu alguém morrer de amor? Eu quero ver alguém morrer de amor. Eu queria morrer de amor. Acho lindo. Que está esperando? Você não sabe morrer de amor? Que precisa um moço possuir para que você morra de amor por ele? Que saiba bem o que é ser uma amora numa terra de abacaxis? Você morre de amor? Você está me encantando. Que seja. Sempre foi assim, iluminada? Você não sabe? Creio sim. Mas eu sempre acreditei no amor, destino, no oito deitado. Como não acreditar, não? É que eu prefiro acreditar que a vida me fez para ser feliz. Mas nem sempre. Melhor assim. O seu coração me diz o mesmo. Meu coração é seu neste momento. Tum-Vi, Tum-Da. Olha só! Consegui colocar um sorriso no seu semblante. Então já posso dormir tranquilo. Olha, você ficou tímida. Se você ri, rio-me de felicidade também. Você é mesmo desse planeta tão maculado? Desse mundo de abacaxis? Os abacaxis estão cada vez mais podres, não?

Você é real, carne e osso. Carne, osso e palavra. E sonhos. Sonhas comigo? Se você continuar assim, postar-me-ei aos seus sonhos como anímicas quimeras reais, e tornar-me-ei o seu motivo-mor. Uma das palavras mais lindas do mundo para mim é ENCONTRO. Encontro. Quem é você? O que é você? Seus dentros são lindos demais. De onde vem essa vontade de você? Eu sou alguém que também sonha morrer de amor, assim como você. Mas você não sabia se era capaz de morrer de amor. Vem deste momento de ondas límpidas? Quer me ouvir por dentro? Adoraria? Soube agora? Pois é, aquela valsa sou eu por dentro. Mas quem é você? Não gosto de ninguém fraco perto de mim. Por que algo neste exato momento me diz que você é pólen? Porque você também quer permitir que o amor seja o todo? Você me colore. De que cor você é? De todas? De que cor me pinta? De branco? Por que branco? Assim pode ver todas as outras cores que há aí? Então serei da cor que reflete.

Por que sinto vontade de perseverar? E regar feito árvore da vida a palavra iniciada... ao desejo, tudo não é pouco? E você, bastar-me-ia? Eu não sei. Bastaria? Está me bastando. Porque me adentra feito o ar. Eu respiro você agora. Vivo de você. Meu alento é você. Se eu cruzar os braços em meu peito você consegue sentir como se a você fosse o endereçar? Que dor! Dor? Veio-me algo na mente como se... não sei. Parece que você estava em mim há tempos. E, tiraram você de mim. Daqui. Eu estou. Nunca pensei que sentiria algo semelhante. Porque você me está. É tudo muito novo para mim, a cada dorzinha, parece-me demais. Confesso que estou deslumbrado, encantado com isso. Você me está? Desde que você apareceu. Qual a sua graça? De onde nos conhecemos? Já pensei sobre isso. Não é de agora, disso tenho certeza. Só sei que agora quero sua presença constante e edificante. Eu moro em tua casa.

Então, não quero ver nossas memórias se perderem entre o movimento das horas. Vamos salvar nossas edificações, sejam elas saudades ou presenças. Vamos! Caminhemos juntos, pois. Qual a cor dos seus lábios? Dessa cor. Por que você apareceu na minha vida hoje? Você sabe como é que faz para morrer de amor? Você me atinge o coração, menina de mim. Então vamos. Vamos começar a morrer de amor. Estou com vontade de morrer de amor hoje. Amanhã também estarei. Não é maldade sua? É? Não? Quero crer que não. Guarde esta data. Que coisa! Que coisa! Que coisa mais digna é aprender a morrer de amor! Estar aberto. Isto é um convite? Pode ser o tempo que for. Eu tenho a eternidade aqui comigo. E se eu quisesse por uma vida inteira? Não gosto de efemeridades. Você me abraçaria por uma vida inteira? Perdão. Já está na hora? É que tenho um coração bem machucado. E tenho uma certa dificuldade em acreditar no 'por uma vida inteira'. Por isso que quero tanto morrer de amor. Talvez seja um livramento.

É triste, eu sei. Mas, eu quero. Quero acreditar no 'por uma vida inteira'. E quando dois acreditam no "por uma vida inteira", tem como a estrada dar para destino errado? Não? Eu queria abraçar você demoradamente agora e começar logo a morrer de amor. É, talvez seja isso mesmo. Não encontrei uma única moça que acreditasse no 'por uma vida inteira'. Então vem! Vamos logo morrer de amor! Eu sinto seu cheiro, menina. Como pode isso? Estou pensando. Sim. Tenho medo. Você é isso. O centro do poema. Do meu poema. Foi por você que vivi estes meus mal completados alguns tantos anos de minha vida? Vamos descobrir isso junto? Eu quero muito você aqui, de vez em quando, nem que seja muito de vez em quando. Nem que seja para morrer poucamente de amor. Você nem precisa trazer maçãs, nem perguntar se estou melhor. Você não precisa trazer nada, só você mesmo. "Só você mesmo" e se você for a razão da minha existência, o que faço? Morro de amor mesmo? Então, vou ficar o tempo que preciso for para morrer todo o amor necessário. E se for você!? Responda-me, E SE FOR VOCÊ!? Minha querida, isso não é simples... E se for eu, há de ser eu? Você me busca e me leva para seu peito. Eu fico em seu peito e ali mesmo começo a morrer de amor em seu leito. Simples assim.

Mas se eu for buscar você, não tem mais devolução. Saiba disso. Eu preciso saber mais de você. Mas, já está tarde. Eu tenho uma rotina bem intensa. E eu costumo não pensar muito em morrer de amor. Estou pensando o que eu farei com esse novo vício. Morrer assim. Não. Você vicia. Qual seu objetivo? Seu objetivo é desaprender sempre? Morrer uma vez e morrer uma segunda vez? Você vai mesmo suportar morrer sempre de amor? Eu não fumo. Não, eu não bebo. Por que você passou da metafísica para perguntas práticas? Que sucede? Você quer saber de mim? Das coisas práticas também? Tudo. Estou ao seu dispor. É difícil para mim. Tenho febres frequentemente. É que sou viciado em morrer de amor. Eu não sei se você me entende. Nunca fiquei tanto tempo assim sem morrer de amor. Enfim... eu quero que você seja o que você quiser. Apenas sinta. Eu quero ser as suas asas. Moça, deixa-me ser as suas asas? Você acredita que tenho vontade de morrer de amor por você? Ora, e não é isso que estamos sentindo agora? Deixa-me ser as suas asas?

Minha janela branca está destrancada e escancarada para você. Se eu dissesse que vou morrer de amor, você acharia ruim? Você teria medo? Medo. Então, quer mesmo encarar a minha alma louca? Permite-me tal bem-aventurança? Eu tenho coragens. Tem algo contra? Vai ser bom poder carregar você no colo quando eu já estiver morrendo de amor. E se você não estiver aqui amanhã quando eu estiver morrendo de amor? Ou depois. Estará? E se forem só sonhos? Vai ser bom estar no seu colo, menina. Que saudade! Prefiro o morrer de amor sensual. Tem preferências? Seus lábios são qualquer coisa de comestível, de devorável. Ai, você numa amurada... você acorda quando morre? Não se preocupe com isso. Preocupe-se consigo. Você ama alguém? Queria poder beijar seus olhos agora. Eu queria você neste exato momento aqui, comigo, para a gente começar a morrer de amor juntos, de mãos dadas. Eu quero os seus sonhos, os seus desejos, receios, seus sinais. E agora? Abraça-me. Vem! Eu dormirei com você hoje. Eu estou onde você se encontra. Eu morro tão bem. Vamos? Pense em tudo. Vai, pensa.

Soprando lagartas



Por Germano Xavier

II

eita doró corredor
ou é cassaco fugindo de espanto grande
ou é o moreno um artista

e se dizia que era bom de dom
e era dom de terra ele tinha
e era de água de fogo
e até dom de ar
esse menino era uma fonte
pois decifrando dom de ar devia ser
saber voar

pelas minhas contas
doró sabia voar
e eu já desconfiava disso
vendo aquela
carreira dentro do verde
a poeira depois se assentando
e nos trazendo a vista vazia sem doró
calmaria de passarinho no alto
essa altura estava láááááááááááá

o certo é que ninguém sabia onde
do menino
quando dava sumiço
desaparição dele e nele mesmo

depois foi que me contaram
era que doró soprava lagartas ainda nem crisálidas
e fazia borboletas pintoras de arco-íris
e quando o moreno sorvia tristeza
era pegar uma lagarta e soprar
depois ver o céu colorado um sorriso de deus

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Portal de cravos


Por Germano Xavier

Olhar lasso o cavaleiro espia
o rumar longo que se desfia
na secura desse firmamento
que reverbera máculas
e sangra dores
de um corpo exangue.

Já não somos mais crianças
e crianças não mentem
o breu dos barcos da Vida.
Suas naus, seus remos
são águas coloridas borboletas
e suas possibilidades
de vôo...

Veja quão semelhante são os mapas
de se viver mundo nuvem escura
estrelazinha raro brilho
convulsão de ser,
de ser apenas homem,
varão nas vagas se achando
perdido na imensidão das plagas
sem altos rumos, rotas menores,
símbolos sinceros,
poder de mimetismo humano...

justo semblante de homem!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Dos alargues de busca


Por Germano Xavier

minha sombra, sudário, deixada como marca
no velho lençol laranja altera meu olhar,
que de longe não vê as dobras nem a parca
altitude de onde pude cair. e meu quedar,

originário da chama do ir - e do levantar -,
explica a violência imaginária que fundei
(o horizonte revoltoso que fitei, e criei...)
ao toque do chão desavisado, no pisar.

do músculo retorcido, e da alma condoída
de andar sem corpo, ou contra a higidez
perene de s’estar, enforca-se o momento

coadunador da dor, do desejo, do sofrimento...
esvai-se de mim, sem cerimônia - funda altivez! -,
minha sombra escura, ora pesada ora puída.