quinta-feira, 31 de março de 2011

O cara da Ribeira


Por Germano Xavier

Para Paulo Melo, colega de jornalismo.



Acordei com um negro ao meu lado.

Achei um tanto que confusa essa mistura de cores, pois sou um moço de pele clara. Nada de preconceito, claro. Todavia, a alvura de minha epiderme tornava-se translúcida ao equiparar-me com o negrume da ocasião. Confesso ter imaginado que tivera eu adormecido em um bocado da costa oeste do continente africano. Mas, onde estava o meu passaporte?

Quem era aquele que, pintado de preto, tornava mais branco o regolito por onde eu caminhava? Da minha cama solitária, ouvi o batimento do seu coração. Um coração grande, feito da relva dos seus antepassados. Um coração do tamanho das pirâmides egípcias.

Seria ele algum faraó? Algum mouro invasor lhe encamisava o punho? Algum pós-moderno afrodescendente debilitado por cólera mundana? Não sei se... Definir é tiranizar a arte da imaginação, dizia algum palávroco humano. Não sei se poderia defini-lo, porém, caso fosse assim me ocorrido, contemplaria-o com o título de guerreiro. O mais guerreiro dos guerreiros Tuaregs, posto que viajante orientado e desbravador dos mais castigáveis "desertos sertanejos".

O contágio meu com todo o peso e valor identitário que levava em seus traços e feitios, conduziria-me a uma profunda reflexão psicoautodescobertacondutiva sobre o que conteria, "delevemente" atinando, os inúmeros grãos de feijão que o esfomeado rapaz ingeria por dia. Um grão, um torrão. Dois grãos, dois torrões. Poucos sabem do que eu estou falando, ou melhor, apenas um cômodo e um objeto conhecem, tão "olfatalmente" dizendo, das proezas de suas entranhas. De que cor era mesmo a latrina?

E essa história das passagens? Para que tanta preocupação se a "Flórida" fica tão perto! Tão perto dos nossos ouvidos. Até um barulhento e ineficaz ventilador seria capaz de levantá-lo do chão, diante de toda a sua leveza de espírito. Da Ribeira para o mundo, ou seria para o "The New York Times"? Pise o chão de tuas ladeiras, Negro Gato! Castro Alves o cantaria melhor que minha pessoa. Por isso fico aqui, a dizer-te algo profícuo: Negro Gato, viva a vida "deleve" ! Mas não deixe que ela te leve...

quarta-feira, 30 de março de 2011

Canções de sinos


Por Germano Xavier

III


Leio o amor e penso a morte.
Precisamente, a minha morte.
Como comove tal leitura!
Movo, seixos de mim,
até a outra estação...
E Maio não é agora.

Em espécie, inspira-me.
Aspira-me, áspera e dúbia comoção!

Eu morro em portas
mortas,
o amor aporta, nauta
de mim agora e sempre
no mar, indefinição.

terça-feira, 29 de março de 2011

Lembrações de Pastinho


Por Germano Xavier

Biografia provisória de Doró.


* Nos dias de bem antes...

- Doró morenín do mato nasce, como toda gente há de nascer, depois de dar muitas cambalhotas no ventre da mãe.
- travessurar só em Pastinho, um dos mundos do mundo, e o mundo dele.
- fica órfão das coisas de fora.
- aprende a chorar de alegria.
- aprende que todo quintal é um planeta.
- pela primeira vez, anda nu das roupas da alma.
- aprende a correr de cassaco grande.
- percebe que um dia ele iria crescer, e que isso era inevitável. nesse mesmo dia, nota que era bom de dom.
- decide pupilar a vida inteira.


* Nos dias de quase-ontem...

- fica órfão das rasuras.
- aprende a ser como o vento, soprador.
- conhece o poder da invisibilidade.
- conhece uma lagarta ainda nem crisálida, por quem se apaixona.
- realiza sua primeira experiência gozosa, fazendo a Grandeza escancarar um sorriso.
- mata, sem querer, um passarinho do santo e, como para recompensar o ato feio, resolve lavar nuvens.
- toma gosto pela arte da ameninação.
- aprende a becar.
- obedece à desobediência e, no mesmo instante, resolve ir à caça dos rebeldes sem causa.
- enxerga a visão dos machados dourados, prenúncio para a salvação.
- aprende a não contar vantagens por ser uma fonte, mas sim a desaguá-la nos outros.


* Nas proximidades bem próximas...

- sofre a dor do Desmijo.
- aprende piedades.
- toma gosto pelos milagres de Vozinha-Mãe, mas mesmo assim a barriga não pesa.
- aprende manejo de bola de pano.
- descobre inteligência.
- abandona as burrices.
- une-se às lonjuras.
- torna-se cutucador e chutador.
- aprende a esquecer.
- rompe suas ligações com o que não é poesia.
- conhece as passagens.
- compõe céus, branquezas, sorrisos e tantas outras estréias.
- contrói uma casa de esperanças.
- e véve.



VI

anuviado era o céu de Pastinho
lugar de idade pouca do moreninho
de facúndia boa na lembração
dos dias antigos e de chuva muita
lugar de Vozinha-Mãe fazedora de milagre
sabedora das datas de tiro e queda
bem nos idos de antanho fazia doró
caminhar até o sítio de Vozinha-Mãe
levando na bagagem do rosto
uma alegria triste de dentes
e aí já se esperava o levantar sôfrego
e claudicante de Vozinha-Mãe indo
no quesito do fogão de adobe queimado
que ardia o fogo com madeira de comida
sentado o do mato espiava a concha
nadando no caldo do feijão de mão
feito uma pisa levada amassando a bunda
do mancebo e aquelas mãos rugosas
trazendo para o lume o delírio do alimento
daí faltava pouco era misturar a farinha
com as pedrinhas carnudas
e fazer com o rodo das mãos o milagre
bolinha de feijão com farinha no ponto
que fortalecia o soprar das largatas
que fazia doró um vento só
de asa grande pra alcançar as nuve
e pra fugir de cassaco grande
e de espanto maior que seus dons de arte
eita que Vozinha-Mãe também era uma fonte
de verdade era era uma fontona
isso assim no dizer de Doró
isso assim no dizer de Pastinho
lugar de funduras
lugar de lonjuras

segunda-feira, 28 de março de 2011

Rua Eucaliptus, 423, casa 06


Por Germano Xavier

Não sei falar de Amor
como se deve.
Quando o Amor emana
de mim
é um torvelinho
de sensações,
mas jamais o Amor.

E desce do bonde,
caminha, sobe ladeira
sempre
sem rima,
sem métrica,
sem paramentos.

Um Amor torto é o que sai,
descalçado,
vagando pelas calçadas
sempre vazias
do meu coração,
que se parte
sempre quando partes
e vais.

Há uma vala em mim
que não se corresponde
facilmente. Um falto:
parcela vetora de solidões
e fogos.

Terás tu a gana
de ler este poema
de amor,
tão destituído
e frívolo
e tão pouco
de Amor?

domingo, 27 de março de 2011

Mulher-asfalto



Por Germano Xavier

Não foi um encontro marcado
mas, no fim de tudo,
como quem manda um aviso,
vi-me a olhar o teu rosto
quase apagado,
manchado de sangue,
que também manchava o asfalto
frio
desse mundo ligeiro.

Parei em um breve instante
de espanto;
todos olhavam
e todos queriam saber
o porquê da queda daquela mulher
perdida entre tantos
olhares aguçados, sequiosos, ávidos.

Ninguém sentia a dor da sua roupa
miserável sertaneja,
que de tanta seca
acabou
esquecendo a dor
nata,
calada.

sábado, 26 de março de 2011

Os corredores do H.M.S. Beagle


Por Germano Xavier

V

Após ter tido conhecimento de causa sobre a questão das colas que colam a si mesmas, após ter se indignado com sua geladeira nova que, segundo ele próprio, gela demais, revelado seu gosto por antiguidades sem serventia, após ter tentado o pneumotórax (aquele troço que só o Manuel Bandeira sabe o que é direito), após ter ido visitar um de seus impérios do Ártico (ali no Condado de Spitzbergen) e ter cheirado cheiros horríveis em proximidades latrinais, após ter pedido ajuda até ao Padin Pade Ciço (o que demonstra enorme desespero de alma), averiguado locais "privados" e esconderijos, após ter seguido misteriosas pegadas perto do porto de seu império do hemisfério norte, após ter adentrado no H.M.S. Beagle – isto mesmo, a embarcação do grande pesquisador Charles Robert Darwin -, depois de haver procurado por todo o seu aposento, dentro do veleiro, o grande vitorioso das guerras inexistentes, o herói épico dos romances sem cavalaria, Ele!, o homem que Deus guarda, O Próprio, sim!, aquele que não é o Adriano, atacante do Flamengo, mas que também é imperador, ele mesmo, Napoleão Joujaumontx, o faraó dos faraós, rei das inutilidades da mente, investe novamente suas forças para efetuar a captura do seu famigerado gato Pinóquio, conhecido atualmente pela alcunha de “O Traidor”, que no começo desta história fez o favor de roubar o chinelo arrebentado do seu senhor e seu amo, Napoleão Joujaumontx.

Quando todos pensavam que o infalível homem haveria de desistir de sua invernada contra as diabruras do seu gato ladrão, quando todos duvidavam da possibilidade de renovação da coragem por parte do general dos generais, lá estava ele, aqui está ele, mais vivo do que nunca, sorrindo-nos um sorriso amarelo com sua peculiar cara de ontem, provando-nos mais uma vez que continua sendo aquele ser de alma inquebrantável a quem devemos todas as loas do mundo.

Napoleão Joujaumontx, visivelmente transtornado depois de perder de vista os fiéis indícios da presença de Pinóquio nos corredores do H.M.S. Beagle, resolveu descansar um pouco e, para a sua surpresa, quando acordou, e ainda na cama, sentiu que o navio balançava menos que o de costume.

- Será qui êssi naviu tá mesmu paradu ou sô eu qui tô ficano lelé das mentalidadi? Tudin pur culpa daqueli salafráriu de bichanu! Ah, si eu pegu eli!

O magnânimo e indiscutível senhor das horas pôs-se a levantar de onde estava, e por meio de uma olhadela firmada em umas das escotilhas do H.M.S. Beagle, reparou que o navio estava atracado em algum porto de alguma grande cidade.

- Minha Nossa Sinhora du Patrucíniu di mô deus, ondi será qui eu tô!? Durmi dimais, minha virge santinha imaculada. I eis qui tô eu pirdidin aqui, nessa insalubridadi.

Depois de reposicionar ao corpo a sua belíssima vestimenta de imperador, Napoleão Joujaumontx deixou seu aposento e foi em direção à tábua de saída da barcarola. Decide atravessar a estreita peça de madeira onde alguns carregamentos estavam sendo despejados em terra firme, até para respirar melhor o ar das tantas incertezas que permeavam o seu raciocínio, mormente desde que Pinóquio houvera sequestrado irracionalmente o seu chinelo defeituoso. Quando terminou de passar para o outro lado, Napoleão Joujaumontx sentiu um cheiro de sardinha apodrecida ao molho de tomate, a tal da boca-torta, cheiro sempre presente na boca de Pinóquio quando este investia suas garras nas latas de sardinha da despensa do império caseiro napoleônico e lambuzava-se nelas, irrefreadamente, o que causava ao seu dono desafeições terrivelmente incontornáveis. E, roendo as unhas, pensou com os seus botões:

- Ah, Pinóquio, agora eu ti atrupelu! Nem qui a genti dê a volta nu planeta eu num vô dêxá tu iscapuli. Não adianta tu si iscundê, eu sei qui tu taqui.

Antes de começar sua disparada ao encontro do ladrão dos chinelos velhos e arrebentados, o grande imperador dos grandes impérios nada imperiais ainda viu o Sir. Charles Robert Darwin acionar um buzinaço de dentro da cabine do H.M.S. Beagle, indicando a todos os tripulantes e prováveis passageiros que era hora de retomar os rumos normais da viagem. Destino: Ilhas Galápagos, no gradioso oceano Pacífico.

O mais elegante de todos os elegantes, atingido por um sentimento de gratidão, bateu os pés, prontamente, e fez o gesto de continência na direção do capitão da embarcação, como se num apuro de despedida veementemente saudosista. Porém, no instante seguinte, recobrando as vistas para tudo que estava ocorrendo ao seu derredor, Napoleão Joujaumontx percebeu que não podia perder mais tempo e desandou a dar piques demasiado acelerados na direção do desconhecido.

- Ripa na chulipa e rumboraquibora! - disse, afetado.

O desvio de atenção durante a saída do navio do famoso Sir Dr. Charles Robert Darwin foi suficiente para fazer com que Pinóquio se afastasse com mais segurança das possibilidades de captura do nosso senhor imperador Napoleão Joujaumontx. Uma chuva fina caía na zona portuária da cidade, onde ele estava e, também, lugar de onde Pinóquio não deveria ainda ter conseguido se afastar.

- Quem tá na chuva é pá si moiá.

Assim pensando, caminhou até o fim do porto, deixando-se molhar pelos pingos grossos da chuva que caía do céu cinza daquela cidade estranha. Depois de mais de duas horas andando no que parecia ser a zona sul da localidade, Joujaumontx decide sentar-se num banco de uma praça com o intuito de descansar as pernas fatigadas de quem tem no sangue a ávida ganância pelas vitórias. E nosso queridíssimo imperador não suportou o peso das pálpebras e levemente cochilou.

Sobressaltado, despertou após ter tido um sonho possivelmente revelador no tocante ao destino que Pinóquio houvera traçado no interior da cidade. Pela primeira vez o fabuloso, o general das multidões sem grito, o vestido branco de Marylin Monroe, o príncipe que beijou a Bela Adormecida, o inquestionável Napoleão Joujaumontx teve consciência de seus poderes de ordens premonitórias e clarividentes. Um momento fenomenal e que jamais deveria ser esquecido das memórias de todas as gentes do mundo! Mais uma prova da genialidade escabrosa de nosso ídolo-mor. E sem refutar, partiu seguindo os indícios do sonho há pouco sonhado...


* O que será que o nosso herói sonhou no banco da praça da inusitada cidade? Terá forças Napoleão Joujaumontx para conseguir de volta o objeto surrupiado por seu gato Pinóquio? Só há um jeito de descobrir o final desta estapafúrdia historieta: esperar o próximo capítulo. Vocês não perdem por esperar! Continuemos, bucaneiros...

sexta-feira, 25 de março de 2011

Os meninos da seca


Por Germano Xavier

Barriga d'água, o menino cresce
de lado. A cabaceira nem dá o fruto
verde da dureza da vida.
E mais, nem correm nem fogem;
não há lugar para se esconder
do desatino, desse cruel destino.

Os meninos-velhos nem bem nascem
já estão quasemortos.
Os meninos quasevivos são pequeninos,
magros e andam despidos, desprotegidos.
Não suspeitam o futuro nem purgam
os excessos: não há excessos.
Mesmo assim brincam entre espinhos
e gravetos secos que perfuram
aquela toda-paisagem vazia.

Eu do meu lado nem penso pensar em você


Por Germano Xavier

para aquela que desdenha ao longe,
porque a vidente já havia me avisado


me aborreça, vá, portentosa em que? tu és

me estremeça, vá, faça alguma coisa e me atinja com gilete e não com folha de flamboyant. quem tu pensas que és? malvadinha de nada, arrecada estas caretas na feira do paraguai e insuspeita das imposturas impostoras ações. é tudo o que tens para destilar? o veneno teu. vou dizer: este teu olhar é de coruja mesmo, espanta muito. mas a chama sempre apaga, concorde dizendo um sim com a cabeça. quase 5 anos e só fui te observar mesmo foi agora - aquela coisa de olhar rápido, "vai ser assim" (eu dizia no começo, ali tipo Big Bang). e foi? e? e aí? quem morreu? morrer é comigo mesmo, mato adoidado mulher menino lupanária representante de cosméticos para a cara baby e teiús. o sol é para todos ah Harper Lee e a lua não? eu sou mais maluco do que você imagina. dois mais dois é dez e eu provo. roubei cd do Cazuza na loja de departamento e você não me aborreceu. dois seguranças tipo armário de jacarandá me puxaram pelo braço quando eu já estava perto da praça de alimentação em preparatórios de riso frente aos idiotas da lojinha. eu fui ver o que eles queriam e não chorei quando me encostaram contra o muro. "qual o teu nome, vagabundo?" eu falei meu nome é vagamundo e o teu? tão pequena você. sempre foi. mulherzinha mambembe. metida a jornalistinha de merda. papai leva e traz todo dia e você não sabe quem é a Alice. eu vou pedir que você troque de situação e vá se meter com gente de sua laia, porque fingir que ama não é para os sabem assobiar. coma teu pastel e engula sua desgraçada vidinha de ir com as outras, com os outros. rume para o inferno e esqueça que eu existi.

mas antes me condene, vá, cuide de ti.

me apequene, vá, vê se consegue ao menos isso! diz baixinho para as garotas tuas amiguinhas que eu sou um infortúnio e que não sirvo. tudim, tudin, não sei como escrevo, vai assim mesmo tudinm. não corro mais risco por você. eu já te bani e faz é tempo. no meu minidicionário só existe a coleção das palavras que começam com tchau adeus ou bye bye. se todas as histórias são de amor a personagem que protagoniza agoniza de tanta lamúria. ninguém enjoa do amor que é demônio, mas do teu eu me rio inteiro. cago de tanto rir. se teu corpo é indelével? não, não, eu prefiro a mulher que conheci. ela sim tem gosto. você é insólita. você é portanto, contanto, sem manto. meu amigo pintor vai fazer um desenho de você e vai me pedir liberdade de expressão. já imagino o tamanho que será o castigo. naturalmente que você nem verá, mas ficará como recordação. dois e dois é dez e eu provo. sou mais maluco que você e você, quem é você? se em todas as histórias estamos no escuro portanto, Collin, que faço com esta draga?

quarta-feira, 23 de março de 2011

Dois


Por Germano Xavier

Ela deixou cair dois cigarros da pequena tiracolo cor de calabresa mal passada. Eram seus últimos dois cigarros. A mínima certeza da saciedade em dois mínimos tragos. Era já o terceiro maço e o sol forte ainda titubeava no horizonte. Há muito o astro-rei houvera demanhado. Tinha acabado de sair da farmácia. Remédios. Fumante inveterada. Dois tarjas pretas. Tinha ido ao Dr. Temístocles no dia passado, aquele dos cabelos tingidos. Remédios estavam custando os olhos da cara ultimamente. Olhos esbugalhados, é claro.

Odiava ter de fazer contas. Foi para isso que se casou. Seu marido dava aulas de matemática em um colégio no centro da cidade. Nunca se interessou por cálculos, trigonometria, juros, porcentagem, geometria espacial. Um tédio tudo o que tinha ou usava cálculos.

Errou nos cálculos do seu prazer. Um dia a gente sempre erra, por mais pensar que não. Costumava fumar três maços de cigarro por dia. Aquilo significava que era possível fumar dois "tabaquinhos" e meio por hora e, mesmo assim, terminar o dia completamente saciada. O cálculo desprezava as horas em que ela passava dormindo. Mas não tinha feito isso. Tragou mais do que podia. E agora? Nesses casos, o que fazer quando sobram horas e faltam cigarros? Certamente, uma questão difícil de ser respondida. O que fazer quando o ópio da vida lhe escapa? Qual a saída?

Quando reparou que aqueles dois tubinhos brancos e nicotinados lhe eram os derradeiros, a mulher, que aparentava uma sofreguidão de décadas, sorriu um sorriso cor de quiabo. Levou as mãos à cabeça num gesto quase instantâneo. "Ai, meus pulmões desgraçados!", disse baixinho consigo mesma.

O sol agora é que resolvia descansar. A branda lua, prenúncio de escuridão. A cidade acendia seus fachos luminosos e artificiais. A noite se agigantava e ela não iria suportar toda aquela angústia e todo aquele vazio interior. Nenhum marido nem televisão, nem banho aromático, tampouco algum sonífero... nada seria capaz de substituir aquele seu vício antigo. Nem uma trepada louca perto da sacada do apartamento.

Noite total.

Noticiário local: sinônimo de um trago. Aquele, o último. Seu marido não fumava e ela não costumava deixar reservas. Sem estoque, o que fazer com essa vida virada?

A última tênue cortina de fumaça baforada, olhos tristes e desorientados. Onde estará daqui a alguns instantes?

Quinze minutos se passaram e nenhum cigarro a ser devorado. Nada, absolutamente nada nas mãos. Agora trinta. Começo do suplício. Trinta e cinco. Aguentará? Trinta e nove: o estopim, o divisor de águas. Ela está desgovernada, como um carro que despenca de um precipício. Suas mãos cegas procuram no vento negro da cegueira o combustível do seu caminho. Quarenta, palavras duras com o marido sonolento. Quarenta e um, a casa parece querer cair. Quarenta e dois, nenhum arrependimento pela matemática impraticada. Quarenta e três, pequenas facas de churrasco brilham seus aços de mortalha. Jugular seca. Não suportará!? Perderá a partida!? Quarenta e quatro minutos, o ar é curto, o tempo não pára. Quarenta e cinco, "Deus é mais!". Quarenta e seis, estiletes voam sobre sua cabeça baixa. Quarenta e sete, ela vai explodir.

Quarenta e nove, quase cinquenta, ouve-se um latido. É o Tato, seu cãozinho de estimação. Ele veio lamber suas pernas.

terça-feira, 22 de março de 2011

De como desdar o não devido


Por Germano Xavier

É que você devia aprender uma dança de salão, homem! Fica aí neste mundo de meu deus e acaba que o girassol se entorta de vergonha e morre dormindo virado para o outro lado. Vai aprender uma dança, tomar de conta de uma dama, girá-la sobre o eixo da alma e abraçá-la extremosamente. Que obra de viver sub-reptícia é essa? Entorna o copo dourado de champagne no vau da boca e diz amor praquela mulher, homem! O que é que você espera? Está achando que o bobo da corte vai vir lhe fazer companhia no fim do baile? Ora ora, meu cavalheiro! Você que tanto escuta os rumores do silêncio, não vai fazer sujeira agora, não é? O bobo da corte está é bêbado na devida hora mais precisa e pouco liga para você. O cão aparece nestes momentos. Aquele diabo vermelho com o tridente roubado de Netuno. Ai, como eu queria te ajudar! Como eu queria dizer tanta coisa sobre ela. Aquela mulher tem por você uma sinagoga inteira, homem! Aí nascem os cientistas dizendo que o amor tem fórmula e pode ser acondicionado num frasco de vidro rotundo como aqueles da antiga fábrica de bebidas do avô. Levanta, homem! Pede a mão dela numa valsa e se assegura da vida que você quase desperdiçou. Segura forte nas ancas dela e não larga. Não deixe ela cair! Por nada nesta vida deixe ela cair! Sinta a pele dela, o fio pesado do cabelo correto, dá aquele passo para a esquerda com um volteio em cento e oitenta que o último professor ensinou. Não esquece do rosto erguido, que é para a respeitadura dos outros. Depois joga ela em espiral sobre teus braços e a puxe num elástico de mãos. Pontapeie o ventre aberto dela no meio das pernas adornadas por aquele vestidinho medieval, vai! E quando aquela música começar, não deixa para depois não. Vira ela do avesso num trezentos e sessenta carnívoro e arrebata ela do salão. Mostra tua efusão humana e arregala os olhos de quem inveja. Não combina pena ou piedade com ela, mas deixa ela te matar. Não mede tempo, por favor. Não mede amor. Vocês nasceram um para o outro e nada pode derrubar vocês. Joga limpo com ela esse jogo que você não sabe jogar. Perde para ela sempre, porque você também vence assim. Mas é que você precisa aprender uma dança de salão, homem! Vai, perde tempo não! Começa agora, vai! Vai...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Um saculejo esquisito


Por Germano Xavier

o saculejo do sol era um castigo
bola de gude incandescente
rolimã na ladeira o freio no pé
o menino escutava aquilo tudo
facão dourado dividindo a terra
sulcando o barro no enterro do vazio
e o menino escutando aquilo tudo

desde mais infância era desse modo a vida
mijo de deus que não caía
"sem o engraçamento do Grande
cumu nóis véve? sem o verde
das fôia no mato cabeludo
sem pêxe nem ingodo pra mode pegar o dito cujo
e matá nossos caimento de ombro
e matá nossas sede de boca..."

um dião enorme assim se passava
mais de duas estações de livro
"um sofrê de mais de mei de ano"

"doró morenin do mato sem mato num véve!"
fato claro como esse só mesmo
a claridade no olhar daquele povo
debaixo da escuridão do céu pesado
a matutada toda sorrindo
feito gracejo de hiena abestada

porque era deus que ia mijar!
aleluias de améns, améns de aleluia para o Grande!

que era deus que estava mijando!
aleluias de améns, améns de aleluia!

sábado, 19 de março de 2011

Encontro de um par


Por Germano Xavier

A RELAÇÃO DA FILOSOFIA ANALÍTICA COM A TEOLOGIA MORAL, DE TERENCE KENNEDY.


A teologia moral, desde a Reforma, floresceu principalmente em países latinos e germânicos, onde predominava a perspectiva filosófica continental (tradição do pensamento filosófico vigente na Europa, excluindo-se os países anglo-saxãos). Um esforço inicial de renovação da teologia moral no século XX foi presenciado a partir do diálogo com correntes filosóficas bastante influentes, tais como a fenomenologia (essência dos fenômenos, das coisas), o existencialismo (relação: homem + existência concreta + ações) e o personalismo (elevação humana através da justiça).

A filosofia analítica, por sua vez, surge como uma corrente filosófica principiada em território anglo-saxão, diferenciando-se, portanto, da tradição continental. A partir da segunda metade do século XX, ela começa a ser entendida como parceira de fundamental préstimo nos debates e discursos proferidos pela teologia moral.

Em 1829, com a emancipação católica e o fim do período de perseguição, os católicos (principalmente os padres e seminaristas) puderam dar expressão cultural à sua fé. Era um esboço de um porvir onde a maior ânsia do homem era a liberdade, posto que um período negro da história estava a ser vivenciado. No ambiente cultural deste período, século XIX, era extremamente difícil entender a teologia como um campo de estudo e só a partir do movimento ecumênico e com a secularização de muitas instituições tradicionais é que os católicos passaram a ser tratados nas grandes universidades como quaisquer outros professores e pesquisadores.

Porém, não se deve afirmar que dentro da própria Inglaterra, berço da analise lógica, a aceitação à corrente analítica tenha sido facilmente aceita. Os padres que ensinavam em seminários percebiam na nova teoria do positivismo lógico mais uma corrente filosófica a reduzir as verdades da fé a sentenças sem sentido. Eis aqui um ponto culminante de todo o processo, haja vista que a visão de que o mundo e o homem eram regidos por preceitos éticos cósmicos, procedentes muitas vezes de uma unidade divina, começa a ser questionada. Joseph Owens pensava que a análise lógica havia escolhido um ponto de partida falso para a filosofia, pois ela negava implicitamente o contato do pensamento racional com o real através da experiência sensível, fator desencadeador de inumeráveis discussões.

A filosofia anglo-saxã sofreu muito preconceito, e hoje é entendida como um método ou como um meio de tratar problemas filosóficos, e não de produzir respostas aos imbróglios da filosofia, estruturando-se, para isto, principalmente a partir das contribuições de Bertrand Russel, George E. Moore, Ludwig Wittgenstein e outros. Conquanto, seu propósito principal é apenas terapêutico, isto é, curar nossos pensamentos, expressos na lógica e na linguagem, dos erros que normalmente os afligem.

O encontro da filosofia analítica com a teologia moral pode ser descrito em quatro fases:

1. Um ponto de inflexão na história da filosofia: A relação entre a filosofia analítica e a teologia moral foi estudada por Peter Geach e Elisabeth Anscombe, que formularem teses fundamentais para a apuração do conhecimento dos teólogos acerca dos métodos e concepções da filosofia analítica. Apesar de serem considerados teóricos analíticos, ambos destacaram a importância da filosofia moral para a constituição da identidade filosófica européia. O passado do saber, aqui, jamais foi desprezado por completo, servindo sempre como alicerce para o progresso dos estudos. Ao cruzarem os pensamentos das duas correntes, aparentemente contraditórias, sem enfatizar uma em detrimento da outra ou fazer julgamentos de ordem comparativa, Geach e Anscombe tiveram o reconhecimento de estudiosos de ambas as partes.

Eles mostraram que existe um modo católico de fazer filosofia, que é inteiramente compatível com as leis da razão, com as normas da filosofia e com as exigências de rigor da lógica e que é, de forma descompromissada, leal às teses da revelação divina e aos ensinamentos da Igreja Católica – outra vez o passado do saber auxiliando na geração do novo. Renovaram o pensamento católico e mostraram que a ortodoxia católica é parte fundamental do humanismo europeu integral. Elisabeth Anscombe, em seu artigo “Modern moral philosophy”, de 1958, afirmou que a ética britânica havia se enveredado por um caminho falso, pois faltava uma psicologia moral – elemento integrante do pensar analítico-filosófico - como base para a teoria e a prática das virtudes e que palavras como “dever” e “obrigação” haviam perdido completamente seus sentidos desde que elas foram arrancadas do contexto próprio em que Deus como legislador da ação humana fundamentava a obrigação moral. Ou seja, as regras regidas pela religiosidade e a figura onipresente e julgadora de Deus, já não continham as mudanças de pensamento e operatividade do mundo moderno - seria um sinal da tão sonhada liberdade humana?

Como exemplo a ser observado, a partir do pensamento utilitarista (qualificação dos prazeres) de Sidgwick, a execução de indivíduos considerados criminosos era permitida. O assassinato de uma pessoa reconhecidamente inocente, caso fossem encontradas boas razões para esta ação, seria tida como uma atitude natural. Anscombe viu que esta teoria conflitava-se com as fontes tradicionais da moralidade, a saber objeto, intenção e circunstância, de tal forma que não seria mais possível descrever nenhuma categoria do ato humano como intrinsecamente mal. O indivíduo deveria ter sua ação analisada e julgada profundamente antes de ser “levianamente” considerado culpado.

As considerações de Peter Sidgwick reforçavam as concepções de Germain Grisez sobre o assunto (Germain afirmava que o ser humano agia em prol de alcançar os “bens básicos” para a sua vivência). Sidgwick não só destruiu os erros da teoria moral, com seu caráter positivo e propositivo, como a partir de suas considerações fez renascer a ética das virtudes.

Aprofundando as idéias de Sidgwick, Alasdair MacIntyre mostrou a idéia de que a crise da ética surgiu a partir da dissolução da concepção teleológica de Aristóteles, segundo a qual a vida humana tem uma finalidade unitária.

Peter Geach destacou as condições espirituais de relacionamento com Deus, que em última instancia torna a vida moral possível. Seu livro The Virtues é exemplo de um tipo de obra buscando superar o confinamento da ética moderna, condenada à escolha entre kantianismo e utilitarismo.

2. A guerra cultural entre filosofia analítica e a teologia moral: Eric D’Arcy ficou conhecido pelo seu livro “Conscience and its right to freedom”, uma referência fundamental para a discussão sobre a liberdade religiosa no Vaticano II. Ele retomou o pensamento de que “o bem deve ser feito”, e levantou a questão sobre se os primeiros princípios morais eram mesmo “princípios universais ou preceitos primários”. D’Arcy reconheceu que os primeiros princípios da lei natural, tais como expostos por Santo Tomás, não poderiam atuar como a premissa maior para um silogismo. Por conseguinte, as normas individuais da moralidade, tais como foram pensadas tradicionalmente, não podem ser derivadas destes princípios primeiros. Darcy concluiu que estes princípios emergem da reflexão sobre as experiências, mas acrescenta que a lógica entre eles e as normas individuais não foram suficientemente explicitada pela tradição da Igreja. D’Arcy começa a tocar num ponto também conflituoso para a própria Filosofia analítica, sempre ocupada com a fundamentação da moralidade: “Onde se dava a relação entre a ética do mundo e a ética dos homens?”.

Sua tese é a de que a teoria moral católica dificilmente misturava-se à cultura anglo-saxã e muito menos à filosofia britânica, tal como se sabe historicamente. A renovação da teologia moral ocorreu principalmente nos termos predominantes na filosofia de origem franco-germânica, tais como as correntes de pensamento que derivam de Kant, Hegel e Kierkegaard até a fenomenologia, o existencialismo e depois o estruturalismo. Foi a descoberta deste método filosófico revolucionário, cuja tarefa principal é análise lógica do significado, que constituiu a assim chamada filosofia analítica.

Darcy percebeu três conseqüências negativas para a teologia moral: 1- Diferença quanto ao estilo - os filósofos continentais eram mais inclinados à edificação e tinham o gosto pela abstração em seus escritos. Já os anglo-saxãos eram mais diretos, concretos e pragmáticos; 2- Darcy lamenta que poucos pensadores houvessem refletido sobre a moral; 3- Embora os teólogos moralistas tivessem aprendido a usar a psicologia moderna e sociologia, o seu pensamento ainda se ressentia do desconhecimento de estruturas lógico-formais, no entanto promoveram mais avanço na lógica nos últimos cem anos do que em todo o tempo decorrido desde Aristóteles até então.

Ao passo que o tempo avança, e com ele a visualização de um nascedouro intelectual cada vez mais participante e bilateral, percebe-se uma forte ruptura paradigmática no entorno das ciências. O antes visto com certo desdém “diálogo estrutural” entre doutrinas, estratégias e/ou correntes de pensamento, começa a sofrer um revertério, permitindo ao homem, agora mais livre e equilibrado, antever a possibilidade de convívio entre duas ou mais esferas de conhecimento. É o momento onde a filosofia analítica ganha créditos quase que totais e começa a ser observada como um instrumento basal perante os teólogos moralistas.

• Fazendo-se rememorar épocas mais distantes, como o Humanismo e o Renascimento, entra a figura do homem em voga novamente, homem esse possuidor da força de avanço ou freio ante suas ações. Mantidos os valores primordiais, sejam de ordem coletiva ou individual, torna a ser vigente a introdução dualista-integral do modus operandi científico em diversos países. Como reflexo dessa nova prática, universidades e outras instituições legitimadoras e construtoras do saber, promoveram verdadeiro levante ideológico quando se dispuseram a discutir e levar à tona a análise como elemento construtor de um arcabouço ideário mais sólido e presente.

3. Tentativa de aproximação e assimilação: Nesta fase, o crescimento da importância da ação humana, não derivada e regida apenas por Deus começa a se consolidar. O efeito desta nova mentalidade pode ser visto no modo como os padres passaram a ser educados nos países de língua inglesa, a saber, na construção de teorias que permitiam uma ligação entre as duas esferas de saber e suas diferenças conceituais.

Um dos principais investigadores dessa questão foi Germain Grisez, que reinterpretou a doutrina da lei natural de Santo Tomás sobre a distinção entre o ser e o dever, resultando daí uma teoria de dois eixos: o primeiro é a afirmação de que existem bens primários básicos que motivam a ação humana e cuja realização é parte constitutiva da noção de completude da vida humana; o segundo aborda os modos de responsabilidade, elementos constitutivos da obrigação moral que rege os atos humanos em direção a esses bens. Grisez tendeu a defender a tese de que a doutrina de Santo Tomás apresentava-se de algum modo deficiente e que este não foi, de fato, capaz de fundamentar normas morais a partir dos princípios absolutos, pois lhe faltavam os instrumentos da análise lógica da linguagem.

A introdução da filosofia analítica na formação dos teólogos moralistas de todo o mundo deve-se a Bruno Schüller. Ele retomou a distinção entre ética deontológica e ética teleológica ao afirmar que na casuística, alguém descobre que uma norma tida como absoluta, que não permite nenhuma exceção, apresenta de fato exceções quando aplicada em determinadas situações ou quando determinadas conseqüências se tornam evidentes.

A filosofia analítica provou ser um potente antídoto contra erros na teoria moral e na argumentação prática, além de ser um instrumento poderoso e indispensável para a construção de teorias no interior da cultura anglo-saxã, e com um efeito devastador na remoção de erros e ambigüidades teóricas.

4. A emergência da teoria do realismo moral: A relação entre a filosofia analítica e a teologia moral começa a se consolidar no momento em que a primeira concede novas perspectivas de pensamento à última. Como exemplo maior, temos a discussão acerca da distinção entre ética e moralidade. Os analíticos juntamente com kantianos e utilitaristas têm a tendência de definir moralidade em termos de obrigação, de tal forma que a moralidade pode ser tomada como um momento da ética. Atos de supererrogação e a existência heróica de uma vida verdadeiramente virtuosa não devem contar mais como parte da moral, ou seja, uma moral acerca do bem. Bernard Williams é contra esta perspectiva, e acredita que a moralidade é inerente e está inserida integralmente em todos os aspectos de nossa humanidade. Esta mudança é parte da grande revolução no pensamento analítico, principalmente o reconhecimento por parte de analíticos de que o método da precisão lógica que eles utilizavam conduz não somente a uma purificação da metafísica, da antropologia ou da ética, mas pode levar também a novos e originais resultados no interior destas disciplinas. Trata-se da emergência do realismo real, que considera as entidades morais dotadas de carga ontológica e realidade tanto quanto outras entidades já estudadas tradicionalmente pela filosofia.

Outro campo que se abriu para a teologia moral foi o “tomismo analítico”. John Haldane afirma que o tomismo analítico não tem a intenção de se apropriar de Santo Tomás para assentar um conjunto particular de doutrinas. Procura desenvolver métodos e idéias da filosofia do século XX, dominante no mundo anglo-saxão, em conexão com o amplo espectro de idéias apresentadas e desenvolvidas após Santo Tomás. Porém surge uma questão delicada sobre essa filosofia: “Pretende o tomismo analítico ser uma abordagem metodológica de Santo Tomás ou uma reinterpretação do tomismo à luz das idéias mais recentes no âmbito da filosofia analítica?”.

Com todo este retrospecto e questionamentos, que se fizeram e se fazem necessários para a ampliação do conhecimento sobre as duas correntes filosóficas, não há dúvidas de que a filosofia analítica provocou uma revitalização vigorosa nas discussões sobre o método e a forma da teologia moral na Europa e posteriormente em todo o mundo. O que anseiam verdadeiramente os analíticos é talvez o surgimento de uma nova escola em teologia moral, capaz de reconhecer mais ainda a importância dos estudos em analise, lógica e “terapia do pensamento”, a fim de os permitirem entrar mais ativamente no cenário cognoscitivo e tradicional da Filosofia.

Da totalidade


Por Germano Xavier

Para que serve o "eu",
se não há "eu"
sem os outros?

sexta-feira, 18 de março de 2011

Tsis


Por Germano Xavier

Para o amigo Renê Salomão


Como diria o Max Nunes, este realmente seria um daqueles "tipos inesquecíveis". Sob o ponto de vista moral era, sem dúvidas, quase mais limpo que qualquer folha de papel em branco. De inteligência era tão redondo quanto as linhas de um velho fusquinha. Minucioso como um vendedor de imóveis talvez não fosse. Todavia, deveras seria ocupado como telefone de bicheiro.

O conheci embaixo de uma árvore, que já não existe mais. Não era um juazeiro, mas era uma árvore numa avenida de Juazeiro. Seria o primeiro dia de aula na faculdade de jornalismo. Percebi a sua chegada. Silenciosa chegada. Um de costas para o outro. O calor era muito. Ele levantou e veio até mim. Aproximou mais. Lembro que carregava uma garrafinha de água mineral em uma das mãos. Eu tinha acabado de ingerir duzentos mililitros de iogurte. Éramos dois sedentos. Com sede, certamente, de conhecimento. Senti que ele queria iniciar uma conversa comigo, e foi justamente isso que aconteceu.

"Boa tarde, tsi, tsi, tsi. Você também é calouro, tsi, tsi, tsi?"

Confesso que não entendi o código que ele usava sempre no final das suas falas. Imaginei que ele poderia ser um extraterrestre disfarçado de ser humano, e que estaria aqui para me levar para o planeta onde se falava a língua TSI. Perguntei, curioso com a situação:

"Como você se chama?"
"Bom, na verdade eu me chamo Renê".
...

A conversa começa a se desenrolar. Porém, eu ainda não conseguia decifrar o significado de um tsi nem de dois tsis, tampouco de três tsis. Disse que era de Salvador e também que estava procurando alguém para dividir as despesas de uma casa. O jeito dele de andar era meio que desconsertado, mas o rapaz (um possível extraterreno?), estava sempre feliz. Sorria e fazia os outros sorrirem. Imaginei que estivesse mentindo, e que o lugar de onde viera, na realidade, tivesse o nome de Sorriso.

"Tsi, tsi, tsi..."

A sala


Por Germano Xavier

Na sala de paredes brancas,
cujo silêncio é quebrado,
sempre, pelos vazios
da alma,

esta forma branda e pesada
que alavanca a matéria,
brota uma algazarra
de cores
que, por ora, meus olhos se nublam,
anoitecidos.

E por mais que eu me afaste,
posto dono de asas é a invenção,
acabo na planura da alcova
do meu medo,

do meu medo do poder
da imaginação.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A volta do Correio Chapada



Por Germano Xavier

No cenário nebuloso da comunicação baiana, vez ou outra surge alguma novidade interessante que merece todo o nosso apoio – falo tanto de nós, jornalistas por formação, quanto da sociedade em geral. Nesse caso, refiro-me ao renascimento do Correio Chapada, pequeno órgão comunicativo (no formato jornal impresso) sediado na cidade de Seabra-BA, de propriedade da Tecgraf Impresso LTDA. Fundado em 1989, pelo jornalista Renato Luiz Bandeira, o Correio Chapada foi recolocado na praça em sua edição já de número 133, após uma parada de mais de um ano. A proposta é a de que o projeto veicule notícias as mais variadas possíveis condizentes à Chapada Diamantina e todo o seu entorno, cobrindo o que de mais relevante possa acontecer. Em conversa por telefone, o administrador do periódico, João Carlos Gomes, que também é presidente do Sindicato dos Produtores Agrícolas de Seabra, reforçou a dificuldade em se manter vivas iniciativas desse porte na região e conclamou a todos que efetuassem parcerias com o jornal para que hiatos de inatividade semelhantes ao do último ano não venham mais a ocorrer. Num olhar mais analítico, fica perceptível que o material ainda apresenta muitas deficiências, todavia completamente superáveis com o decorrer do tempo. De qualquer modo, a manutenção do Correio Chapada significa uma saborosa vitória do povo chapadense. De minha parte, espero que muitas edições possam circular e, principalmente, que a população comece por perceber o quando a informação é um item de fundamental importância para o desenrolar das coisas da vida. Adelante!

terça-feira, 15 de março de 2011

Acasos



Por Germano Xavier

Nunca caminhei
minhas fantasias.
Os acasos
sempre foram maiores
que eu,
que nunca me fui
de verdade
nem por inteiro...

Não sei dos meus tantos
nem dos meus mínimos,
e os amigos de infância...

hoje, eles passam velozes,
cheios de pressa.
Para onde estarão indo?

Foi a mulher da mancebia
que se despediu
de nós,
sempre auto-sentimentais
demais, uns
despreparados.

Eu pareço o mesmo,
sempre,
com este rosto de pedra
arroxeada,
imóvel no tempo.
Mas os meus amigos, não.
Eles passam velozes,
cheios de pressa.

Aonde vão?

domingo, 13 de março de 2011

A capagem do gato


Por Germano Xavier

IV


Após ter sido seduzido pelos bigodes do seu escudeiro trapaceiro Pinóquio, que provavelmente estaria se escondendo do seu amo por detrás do barril de vinho do Porto que o H.M.S Beagle carregava em seu convés, o homem que dispensa comentários, o Lampião muito mais que pós-moderno, o bandeirante das novas eras, o D’Artagnan dos tempos de agora, a criatura mais que humana, o inimitável Napoleão Joujaumontx terminou embarcando para uma viagem com destino incerto e data de retorno ainda mais insuspeitável...

O naturalista britânico Charles Robert Darwin, líder do navio, saudou o maior dos maiores, dizendo:

- Sir Imperador, o H.M.S Beagle está inteiramente à sua disposição. Caso precise de alguma coisa, é só contatar algum dos meus homens ou procurar diretamente a mim. Temos todos os tipos de mantimentos que o senhor eventualmente possa precisar. Nada faltará, disso tenha certeza. Comerá do melhor alimento, beberá do melhor vinho e da melhor água, dormirá no melhor colchão e fumará do melhor charuto. Caso queira tomar um banho de sol, o melhor setor do navio é aquele à sua esquerda. Banho e sauna estão na terceira porta à sua direita. Desejo uma ótima viagem e um bom divertimento. Só para acrescentar, caso o senhor tenha interesse em alguma questão ligada à seleção natural das espécies ou evolução humana, pode também me procurar. Estarei sempre no timão. Com licença, Sir. Passar bem...

Ainda desconfiado de tudo e receoso de não encontrar vestígios de Pinóquio dentro do navio, o bucaneiro-mor Napoleão Joujaumontx ouviu o apito estrondar o som da partida...

- Meu padin, u qui é qui eu façu agora? Será mesmu qui u disgraçadu du Pinóquio istá aqui nessi naviu véi i qui fedi a bacaiau norueguêis? I essi brabudo véi tamém, até ondi eli podi mi ajudá nessa caçada? U Pinóquio só podi istá aqui mesmu, não tinha ôta saída pá eli.

O general de oito estrelas, Napoleão Joujaumontx, foi guardar os poucos pertences em seu mais novo aposento. Depois de tudo feito, resolveu adiantar a sua peleja. Meta: Encontrar o chinelo que Pinóquio houvera afanado no Condado de Spitzbergen. E teve uma sábia idéia, típica dos grandes pensadores...

- Vô fazê u siguinti. Vô na tática di procurá na direçãu du simplis pru complicadu, ô seje, du ispaçu piquenu pru ispaçu grandi. Sendu assim, devu começá minha busca daqui mesmu du quartu ondi istô. I é pá já!

E o quase Deus Napoleão Joujaumontx, o homem que faz acontecer de verdade, que faz e não fala e nem conta vantagem, começou a agir rápido. Rastejando pelo quarto, o Bradock mais forte que o Rambo investigou minuciosamente o seu quarto, mas nada achou de importante...

- Pô, merda mesmu! Aqui só tem baú véi, garrafa di rum, ganchu di açougui, tocu di vela, ispada inferrujada, pinicu di bronzi... Mais u certu di tudu issu é qui u cêrcu istá si fechanu, seu gatu da disgrama! Vai chegá uma hora qui tu não vai tê pá ondi escapituli. Vai chegá...

Após realizar a detecção e varreção vestigial em sua alcova, o bucaneiro-mor dos sete mares parte para o corredor escuro do H.M.S Beagle, onde, do nada, depara-se com um pegueno vulto que velozmente desaparece na altura da oitava porta à esquerda de onde se encontrava. O pai dos medrosos, o primogênito dos deuses do mar, o impermeável Napoleão Joujaumontx não titubeou e logo investiu suas pernas contra a sombra misteriosa...

- Apareça, si fô você, Pinóquio! Prometu qui eu ti darei a carta de alforria. Não vô ti maguá, pesti, não mesmu...

Certamente, tinha falado aquilo apenas como mais uma estratégia fenomenal de captura. A verdade é que o sangue do imperador Napoleão Joujaumontx ardia em brasa só em pensar no gato ladrão. Mataria-o apenas com o poder dos olhos, caso fosse possível tal artesanato.

Quando ia dobrando o umbral da porta, deu de cara com Darwin...

- Eureka, Sir! Eureka! É a idéia de evolução a partir de um ancestral comum, Sir, por meio da seleção natural! Não pode ser outra coisa! É justamente o que pensei! É isso, meu caro imperador Napoleão! É isso! Agora acredito que tenho em mãos minha tese quase perfeita e completa. Vou poder escrever meu livro On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Vou poder escrever, meu bom senhor! Agora preciso terminar de ler “Os Princípios da Geologia”, de Charles Lyell, escrever sobre uma conchas que vi na Patagônia e sobre uns mexilhões que coletei no Chile. Bom passeio, meu senhor! Até breve!

Fazendo o respeitoso sinal de continência, Charles Darwin saiu em disparada. E Napoleão Joujaumontx teve a nítida impressão de que aquela curta conversa foi suficiente para que ele perdesse o vulto de vista. E sentiu um arrependimento por ter dado atenção ao capitão do navio, uma sofreguidão pouca e que certamente iria passar num raso espaço de tempo...

- Você tem muinta sorti, Pinóquio! Mas issu vai acabá! Podi escrevê qui vai...

Transtornado, o general dos generais, o pano que cobriu Cristo, a camisa 10 do Clube de Regatas do Flamengo na década de 80, o número um do Czar também número um, a bola de Pelé que não entrou do meio do campo, o gol de mão de Diego Armando Maradona, o homem que sabe que sabe, levantou o queixo, abriu os olhos fixos no alvo ainda só desejo e pôs a mão direita sobre o peito, dizendo...

- Eu ti capu, disgraçadu!

...

Não perca o próximo capítulo da saga de Napoleão Joujaumontx.
Você não perde por esperar...

Fadados à civilização


Por Germano Xavier

IV
Eu teimo, insisto e não desisto. Minha voz não pode parar. Eu sei que há "Mundos", menos confusos, menos humanos. Só não quero imaginar que eu estou aqui perdendo meus preciosos segundos falando para um bando de surdos e idiotas. A maioria de vocês não sabe ouvir. E não venha me dizer que eu estou querendo criar confusão porque eu sou apenas um sonhador e estou aqui só de passagem.

Outro dia presenciei um estudante esfaqueando seu próprio colega, num gesto animalesco de alguém que ainda não conseguiu se encontrar na vida. Se estou nervoso? Eu estou calmo! Não é nada disso! Ultimamente, quase nada me afeta. Tenho dado bons lucros à farmácia do meu bairro. Meus "queridinhos"! O sangue que escorria do corpo daquele pobre rapaz era o sinal dessa impiedosa insensatez, que cobre todo o áspero chão desse lugar onde vocês dizem que vivem.

Estão fadados à civilização?

Minha cabeça dói, parece não suportar toda essa pressão, todo esse peso que machuca o corpo. Acho que é hora do meu barbitúrico aromatizado! Mas... eu não acredito! Esqueci onde guardei meus "redondinhos"! Deus, não me faça perder o juízo!

Não preciso de ajuda. Quem necessita de auxílio aqui é você! Eu sei muito bem me comportar! O que quero de você é apenas o entendimento. Não, eu não sou louco. É que fúria dessa espécie faz do Capitão Acab parecer um santo. Os cachalotes da modernidade são muito mais pesados que os do livro do Melville, ou deveriam ser. Pesam as toneladas da consciência da humanidade, a honra da raça, a ética das multidões e, principalmente, os governos de si mesmo. Tenho inveja dos Quicquegs dessas terras, serão eles os loucos? Eu preciso descansar!

Estamos fadados à civilização?

Não tente me incriminar por tudo o que faço. Tenho consciência plena de que o que faço é o mínimo que realmente poderia eu fazer. Até pareço um de vocês, moralistas de esquina. O meu "chazinho" das três!?

Não, não fique zangado por minha causa! Eu não valho o que vocês desejam! Eu só quero que vocês me entendam e que me ouçam, ao menos uma vez. Eu não quero briga nem discórdia. Eu sou apenas um sonhador que acredita em "Mundos"!

Ai! Estamos fadados à civilização!

sábado, 12 de março de 2011

Incensos e surtos



IV

Senhor das Palavras,


Hoje me sinto alegre. Alegre feito minhas florzinhas azuis. Não sei o motivo. Talvez por ter recebido sua carta. Odeio a palavra Missiva. Me desculpa a franqueza. Sou desajeitada em mentir. Não sei usar de outro artifício que não seja a verdade. Fiquei tão alegre que agradeci ao carteiro. Ele deve ter me achado uma tonta. Não sou de agradecer. Ele já me conhece – abro o portão olhando para os lados e recebo envelopes e me tranco. Mas me abri hoje. Sua carta, embora carregada de sua típica doença verborrágica, me fez feliz. Segundos, minutos e horas. Estou relendo. Você sofre de tantas dúvidas – um mar de dúvidas. Tão doce criatura que sofre sem motivo aparente. Não me satisfaço com sua dor. Se cheguei a dizer isso, deve ter sido um surto de maldade. Todos têm surtos e não fujo desse estereótipo. Surtei. Senti raiva por ter sido nomeada criatura que não enxerga. Eu enxergo. Vejo você olhando pela janela, apreciando céus inteiros e recitando poemas seus. Bela visão tenho. Você, seus ombros e mãos e corpo inteiro. Bom de se olhar. Bom de ser visto. Você tem uma bela existência. Essência turva de vinhos que ando a beber. Ontem percebi que ando a pensar como você. Doença infectocontagiosa. Penso nos mares, refúgios e nesses vocábulos difíceis que só fazem sentido vindos de sua boca. Sim. Amo. Amo e confundo. Amo e causo transtorno. Amo e ouço resposta sua – com a raiva de quem espera. Imagino que, ao me ver, partirá o vaso onde você guarda conhecimento. Mas a luta não foi de entrega. Não há paz e Seu Equador está submisso. Não venci. Apenas me faço ser o que sou. Coisinha do tempo de andar de bicicleta. Não morre, não entope a veia e esquece que sou Platão-Mulher. Há invernos e há tempos. Não sangra e não se deixa esparramar. Aquece a raiva e a plena certeza. Somos partes e uso seus disfarces. Amo maior em doses fatais. Uma mulher como um homem. É isso que Virgínia se torna ao som das folhas que caem. Não posso ser página em branco. Você escreveu sobre mim. E que haja travesseiros e que haja leitura. Porque já sou rosto e resto de você. E acenda incensos. Sigo aromas e sigo o Walt e a canção do Quintana. Sigo suas cartas. Sou o amor.

“- Eu te amo, há longo tempo
Fiz uma extensa caminhada apenas
Para te olhar, tocar-te,
Pois não podia morrer
Sem te olhar uma vez antes,
Com o meu temor de perder-te depois.”

(Walt Whitman)


À Janela, Virgínia.


*****

Querida Virgínia,


Digo saudades ao recomeçar minhas palavras. E é saudade já tão feita que não adianta mais o meu lutar contra tão grande mal que me afeta. Há males que vêm para o bem, é óbvio. E males eu quebro catando trevos de quatro folhas no jardim de casa. Jardins sempre escondem segredos, gnomos de proteção, seres de mistério. Como vai a vida aí na capital, Virgínia? E o teu filho? O teu trabalho? Espero que tudo esteja indo da maneira como você imaginou. Se você estiver feliz, saiba que também estarei. Eu também peço desculpas pela dureza de minhas frases na última correspondência. Fique certa de que tudo não passou de rancor e de momento. Tudo passa. O clima aqui está ameno, não tem feito aquele calor que costumava acompanhar o nascer e o morrer dos dias quando aqui você ainda estava. Chegou um parque na cidade, e as pessoas gastam seus dinheiros no domingo só para não suspeitarem da noite. Noites matam, parece-me. E quem quer morrer, não é mesmo... São luzes artificiais e que causam tontura. Você sabe, prefiro ficar em casa e continuar lendo os livros. Livros são, para mim, como a urgência e a espera. São necessários. Eu me refaço lendo. Minha querida, ando sonhando muito ultimamente. Sonhos de Sofia, sonhos de Eros e até sonhos de dicionário. Eu não minto o meu amor por dicionários. Lembra daquele poeminha do Neruda?


“Diccionario, no eres
tumba, sepulcro, féretro,
túmulo, mausoleo,
sino preservación,
fuego escondido,
plantación de rubíes,
perpetuidad viviente
de la esencia,
granero del idioma.


“Oda al diccionario”, poema lindo demais... Tem som de mar, gosto de brisa. Tem alma do teu significado. Palavra que quero saber. E quem melhor que o Neftali para cantar deuses e deusas! Lembra que eu li este poema para você no alto da colina? A gente chupando o azedo do umbu debaixo do pé... Bom demais aqueles tempos de roçados e verdes. Volta de novo? Tempos são sempre passados? Uma vez voltou, mas foi coisa tão diáfana. Nem valeu. Quiçá, eu sigo esperando o teu retorno. E não é teu filho que me tirará o sorriso. Você já é mulher e mãe. Eu, um mendigo qualquer, mendigando o amor. São coisas da vida. E a vida acontece, não é por acaso, nada. Como não é por acaso o leitmotiv dessa missiva. Quero dizer que você faz falta, apesar de tudo. E que eu gostei do teu gosto em escolher e me presentear com tão belo e singelo e forte e profundo poema. O Walt queria, antes de tudo, cantar o “eu” dele, você sabia? Ele abre o “Flores de Relva” assim, adotando o Pessoa, pai que era, sem eras. Mas, diz-me de você! Como andam os projetos, as aulas? Ainda freqüentando o analista? Eu deixei de tomar os remédios que me receitaram no último divã. Perdi algumas idiossincrasias que você conheceu. Ando viciado em sopa. Nada muito natural, mas sopa. Daquelas prêt-à-porter, encontradas em supermercados. Gosto só do sabor “Galinha”. Sopas me fazem suspeitar o esforço que é viver. Fazem-me suar a testa branca e pequena do meu rosto. Estou feliz muito devido o teu sincero escancarar de idéias. Tua felinidade é a onça que procuro. E adoro teus olhos velhos e vulpinos. Astutos eles são. Olhos de se ensinar caminhos. E, por favor, não peça mais desculpas. Faremos um pacto a partir de agora. Nunca mais pediremos desculpas um ao outro! Combinado? Ou nos matamos ou nos vivemos! Sem dó nem dor. Recebi tua carta ainda era início de crepúsculo. Eu estava a podar umas mudas de margarida que ando cultivando. Você iria gostar e penso no teu sorriso lépido quando as rego. Teus dentes brancos, margaridas brancas que germinam. E eu penso no amor, e penso nas margaridas roxas. Ele morre, o amor? Até quando vai? Minha angústia maior é a tua demora. Eu até não deixo que a idéia de não poder ter você comigo me tome os músculos do coração. Modelei uma campânula de barro cozido para pôr como proteção. O frio é esperto e pode entrar por baixo. Congelar tudo. Fiz lareira também. É chama o dia inteiro, chamo você, clamo, reclamo, amo. O domingo vazio que não sei preencher. Ocupar de que, diz-me! Sem você aqui não há paraíso, nem Dante. Não consigo prosseguir com meu italiano com sotaque. Eu até comprei bolinhas de gude para quando o Antônio chegar. Quero brincar com ele e dizer que também sei fazer forminhas de barro, tijolos de construção. Castelos de cartas e acertar o caco de telha no céu jogando amarelinha. Sair pulando, feliz e com luzidios olhos, de uma perna só. Imaginar que sou forte e que sei vencer as adversidades. A estética de uma missiva varia consoante a finalidade, Virgínia. Fina finalidade de dizer o que quero. Hoje quero apenas paz. Hoje quero apenas caos, porque sou. Escrevo porque ando longe dos vivos. Não consigo mais conversar com os vivos, e você morreu em mim. Fez casa em mim, morada. Abrigo teu teto e teu chão, abrigo-me. Os vivos estão mudando. E eu que sempre quis ser eu mesmo. Dói tal dor. Ah, para não esquecer, vou mandar fazer um vestido de poesia para quando você chegar. Um vestido de poesia para você vestir...

Teu verso, meu verso. Inversos.
Por inteiro...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cícero, o contador de histórias



Por Germano Xavier

Eu sempre saía de casa após ter feito a refeição do meio-dia, ali pelas tardes amenas da minha Iraquara de lembranças, com a intenção de encontrar aquela família, meu quase irmão Lucas companheiro de muitas brincadeiras, meus parentes de coração, é certo... Porém, dentre aquelas pessoas, havia uma que se destacava das demais. Nos seus setenta anos de idade, ele ainda esbanjava um vigor de criança. Olhar perdido pelos caminhos da vida, jeito simples, a camisa quase sempre desabotoada, aqueles cabelos alvos de se viver anos, sério e brincalhão ao mesmo tempo. Tempo que ele tirava de letra, sempre driblando os obstáculos mais difíceis. Era quase diário aquele encontro, eu sozinho, depois meu irmão também, cada vez mais assíduos os dois juntos, porque éramos (somos) daquela família.

Coisa de trezentos metros, cinco ou seis postes atravessados, a esquina da antiga amendoeira da casa de seu Haroldo sendo dobrada, e logo estávamos diante do portão. Não raras as vezes, encontrávamos todos juntos na garagem. O Lucas, a Maria, a Deuzir, o Vado, o Neto e ele, o Cícero. Cícero, o contador de histórias.

Sempre sereno, Cícero era uma pessoa a ser ouvida, com os olhos analíticos da alma. Facilmente ficávamos uma manhã inteira, uma tarde inteira ou uma noite inteira ouvindo os seus causos. Nunca me esqueço de uma noite, sentado no banquinho em plena Avenida Sílvio Almeida, ali bem perto do velho posto de gasolina, quando Cícero começou a nos contar histórias de quando ele vestia as ordens da polícia.

Histórias que mesclavam drama e comédia no mesmo ato, corridas contra bandidos e forasteiros nos campos e nas caatingas que recobrem a topografia iraquarense. Falava com uma modéstia sabida, sem exagerar muito, num gesticular esvaziado de detalhamento - talvez fizesse isso para não entregar a graça da trama ao primeiro arroubo imaginativo, nos encantando numa intensidade assustadora -, vendendo sua imagem de bravura com a sutil inteligência desses matutos interioranos que aprendem os segredos de viver sem precisar dos manuais e das cartilhas vendidas em livrarias e academias dos centros. Falava de tudo, sem nunca misturar nada. Foram muitas risadas e suspenses elevados para as horas últimas da noite e, por vezes, até as iniciais da madrugada, sempre alimentando nossas almas, naqueles dias frientos da cidadezinha.

Foi uma historieta que muito me marcou a de quando Cícero, em tom de seriedade, revelou-nos os costumeiros métodos e as táticas que o serviço policial, tanto de Iraquara quando da cidade vizinha Seabra-BA, utilizavam para fazer com que os suspeitos revelassem ainda mais detalhes sobre os crimes praticados. Uma verdadeira tortura era feita, e a gente também sofria escutando tudo aquilo. Choques, agulhas enfiadas calmamente por debaixo das unhas, sovas, provocações de vários estilos entravam para a lista de maldades.

Mas o tempo foi passando, a vida nos carregando para outros lugares, impedindo-nos de dividir mais tempo e aprender coisas para a vida com o grande Cícero. O tempo de cada um, agora crianças já adultas, levadas pelo vento das responsabilidades modernas...

E eis que numa manhã o sol, que era claro e de sorriso úmido, emudeceu. Foi quando recebi um telefonema de minha mãe dizendo que ele, o nosso maior contador de histórias, havia nos deixado para sempre. Eu, mergulhado em provas para corrigir, naquela sala, naquela escola, tão protegido de qualquer infâmia, tão longe daquela morte, confesso que não acreditei.

Como pode uma pessoa que sempre esteve e sempre estará em nossos corações, ir assim para sempre? Tomado por um câncer, Cícero ainda lutaria com todas as forças por sua permanência física entre nós. Tentou, lutou, conseguiu... Mas ele fora chamado, definitivamente, por alguém muito mais importante e, assim, teve de fazer sua última viagem, a viagem que todos nós faremos um dia, com pressa ou sem, para novas descobertas.

Cícero, que jamais morrerá dentro daqueles que tiveram a honra e a sorte de dividir a sabedoria do homem, do cidadão iraquarense, retrato de uma velhice feita de imensidões e sofrimentos, resolveu partir. Tomou banho, penteou os cabelos, como de praxe deixou a camisa entreaberta, permitindo ao vento arrefecer seus pulmões castigados pelo cigarro assassino. Pegou sua bicicleta, a mesma que usava para buscar o leite do dia no roçado do tempo, e saiu pedalando calmamente em sua simplicidade magnífica, pedalando, sobrelevado pelas nuvens brancas do céu...

Pedalando as horas que não o tinham mais, deixando para trás um poço de recordações inesquecíveis, um passado-presente interminável, repleto de saudades...

Uma homenagem a você, Cícero, homem que, com suas palavras e seus gestos humildes, muito me ensinou. Continue a pedalar sua bicicleta mágica, nos horizontes dos mundos invisíveis...

A poesia diária


Por Germano Xavier

Uma pessoa vive a sua poesia toda vez que acorda até a hora em que vai dormir. Digo isso por acreditar na poesia diária de todos, que é produzida à luz da vivência humana mais distraída. Cada pessoa vive a sua casa, o seu apartamento, o seu travesseiro, a quentura ou a frieza de seus lençóis, a sujeira do seu piso, a morbidez de suas noites, a angústia de certos momentos, a alegria de conquistas, a febre das paixões...

Cada vez que passamos o pente em nossos cabelos, toda vez que vestimos novas roupagens, que nos maquiamos, que saímos de casa para o trabalho, cada vez que conversamos com alguém – e os exemplos são inumeráveis - estamos redigindo nossa própria poesia. E essa poesia, simples e até faceira, é que faz o mundo girar. A maior razão para o constante mutar-girante do mundo é a certeza de que sempre haverá uma espécie de destruição e de linchamento existencial. Destarte, a vida deveria ser menos granulável.

A poesia de que falo é a marca da exuberância desta nossa passagem. Tudo se move e se distorce, e aí entra a participação da poesia que somos capazes de produzir no dia. O acabamento estético que se dá ao mundo demanda de um determinado esforço poético. A melhor arte, se é que podemos classificá-la assim, encontra-se nas apoteóticas passarelas humanas. As condições mais fortes para suportarmos a escuridão da pós-modernidade é a própria existência dessa manifestação tão irregular e dicotômica, mesmo que transparente e invisível.

Se pensarmos um mundo distante de tais expressões, forjaremos um espaço onde se entoa os cantos menos harmoniosos, muito destoantes e ruidosos. A esperança que se tem no futuro confunde-se com a improbabilidade e inconstâncias das certezas. A melhor administração que se pode fazer projeta uma esfera de ordem de manutenção das capacidades do indivíduo. A civilização e a universal instância do ser gera, a cada passo, uma dependência extraordinária condizente à imprevisibilidade dos acontecimentos e das ações. Por tudo isso é que nos importa, e muito, poetar – e bem – por todos os dias.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Portaria 304, vende-se carne humana



Por Germano Xavier

"Aberto 24 horas por dia, inclusive nos fins de semana e feriados", dizia o letreiro já castigado pelas intempéries. Eis ali, sediado na rua Joaquim Nabuco, um modernoso e até revolucionário estabelecimento comercial:

AÇOUGUE HUMANO

Logo que foi inaugurado, as pessoas estranharam um pouco, mas depois de algum tempo toda a cidade se familiarizou com a novidade citadina. Um dia resolvi conhecer o dito frigorífico, que estampava em sua fachada a seguinte mensagem:

"CARNE HUMANA DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA. PREÇOS COMPATÍVEIS COM O MERCADO BOVINO. FAZEMOS QUALQUER TIPO DE NEGÓCIO. CARNE FRESCA E HIGIENIZADA" .

Fiquei um tanto que receoso em minha primeira impressão. Todavia, resolvi levar um pedaço para experimentar em casa. Como não tinha muito dinheiro na hora, levei trezentos gramas da parte inferior da panturrilha de um afrodescendente. Era o que dava para comprar. Lembro que foi realmente uma ninharia e imaginei ter feito um ótimo investimento. Mandei a balconista embalar, e serelepemente retornei a minha casa. Contei tudo para minha mãe e ela logo interessou-se em preparar a fatia para a fritura, que parecia muito suculenta e apetitosa. Depois, sentei-me à mesa, ansioso pelo desconhecido sabor daquela protéica guloseima.

Era chegado o momento da degustação. Peguei do talher e do prato. Quis provar sem nenhum tipo de acompanhamento - afinal, aquela tenra carne negra era o prato principal. Cortei um bom tostão e levei-o à boca. Mastiguei compassadamente e logo fui surpreendido por todo aquele desgosto. Minha língua não conseguia discernir a originalidade do sabor.

Canções de sinos



Por Germano Xavier

I

O meu coração é pequeno demais
para caber-te,
e o teu rio grande. Mas,
olha-me,
com menos orgulho
e rebeldia.

O sino, ouves?
E eu serei teu som
em ordem, caso queiras
teu mar...
teu marinheiro.

Olha-me sem alma,
que sou imperfeito!
Olha-me, minha amada,
com esse amor.
E ama-me.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Anúncios de primavera


Por Germano Xavier

Uma homenagem a todas as mulheres do mundo.


“Mulher bonita, mais que bonita: impressionante. Talvez nem fosse bonita, mas bastava olhá-la para nunca esquecê-la”. Certamente o Heitor me perdoaria por fazerem minhas estas palavras. Em certos casos ou ocasiões, o perdão é a melhor resposta. Sim, tenho certeza que o Heitor me perdoaria. A verdade sempre há de ser absolvida. Mas, o que é mesmo “Verdade”? E o que é mesmo o indulto, perante as diversas faces da Simbologia? Ah, como me perco...

Sei, mas duvido... Esta marca em teu rosto, a fazer-te madura espécie. Eu sei, mas duvido que esta marca que fere as campinas de tua infância lhe fora incrustada pela fumaça de teu cigarro. Não houvera incêndio. Não houvera cigarro na boca e a faísca que tocaria o carpete vermelho; outras seriam as chamas, outras seriam as conflagrações. Sei que não as cirurgias; não era hora de reparar disfarces. Realmente, as combustões oriundas daquele semblante rasteiramente ferido a tornavam uma mulher verdadeiramente bonita.

Aí surgiria o Heitor, de cara fechada, dizendo: “Complete a frase, pobre escritor!”... Sei, mas duvido... E quem sou eu para desrespeitá-lo. Logo eu escreveria: “Mais que bonita: impressionante”. É esse o ofício de um pobre escritor e homem, copiar os verbos dos outros. Todavia, para não ficar tão desfalcado de originalidade, escreveria, talvez: “Mais que bonita: deslumbrante”. Ou, quem sabe, “inebriante”. Ou, melhor assim, “apaixonante”. Não haveria dúvida, mas o que eram aquelas dúvidas em mim? Eu haveria de saber, mas se soubesse não haveria dúvida em mim... e não havendo dúvidas, perceptivelmente, eu de nada saberia. Talvez nem... o que seriam “Dúvidas”?

O que seria das “Lembranças do grande peixe fosforescente”, se não fosse a fome por palavras que alguns animais desenvolvem? O que seria dos correios das manhãs, se não fossem esses esfomeados? Nestas horas não me sinto tão dispensável assim. E como é bom sentir-se vivo, mesmo que viver, ultimamente, não seja tão prazeroso. Existiria vida sem as palavras? Para mim, certamente que não. Ah, como me perco...

Não foi assim que quereria minha primeira página. Fosse menos metamorfoseada em nuvens, e eu seria mais entendido. Fosse menos tumulto, e eu seria menos incerteza. Fosse menos poesia, e eu seria mais prosa. No entanto, já foi. Outros diriam “já é”. A comunicação, dessa maneira, também seria feita. Prefiro o meu “já foi”, pois assim lembro-me mais da palavra “Passado”. E é para isso que existem as marcas: para nos elevarmos a um novo estágio de vida, fazendo-nos esquecer de termos de outrora.

O rosto projetado para frente, um tipo européia, com seus cabelos esvoaçantes, longos, loiros, acastanhados, ruivos, pupilas palradoras que olham o mundo sem nunca deixar de ser singular – sua pátria era ela mesma (assim ela diria). Sei, mas duvido... Duvido que eu, com meus vinte e um anos de insignificantes palanfrórios, seria a criatura mais aconselhável para descrevê-la. Porém, quando penso que já me enveredei por inúmeras cavernas, encho-me de coragem para desbravar um pouco de todo esse mistério escondido sob aquela suavidade. Eu deveria ser um tipo descobridor dos sete mares, dos sete sóis, das sete luas.

Não recordo de quando a conheci. Talvez não tivesse eu olhado para o lado, visto meu complicado universo interno. Lembro das portas se abrindo, o seu passar pela sala de aula, seu caminhar tornado em cigarras cantantes, seus perfis a estibordo e a bombordo; toda a magnitude de um gigantesco cachalote branco em tão fina e delicada carne.

Mais tarde conversaríamos sobre arte, leitura, amores, amor, um pouco sobre política... pouco tempo depois tornaria minha mais sedosa pétala, pétala rosa branca. Saberia que podia avistar o longe vôo se estivesse do meu poema. Mas como afugentar tua presença? Aquele longo olhar instinto e cria... Qualquer um se perderia em tão imenso oceano. Seria ela a sereia de Ulisses?

Por sinal, o que são as estrelas? Ela teria sua luz própria e, com ela tão luzidia, tocaria assim minha alma, fazendo surgir a chuva em mim, os vendavais, os dias do meu mundo; fomentaria por suas singelas mãos de cristal a essência da vida. E essa mesma vida far-me-ia acostumar com toda a sua docilidade e delicadeza.

Como sempre acontece comigo, tinha o título, mas não tinha a história. Ela teria a história de que tanto precisava, ou melhor, ela seria a própria história. Quão grande presente recebi ao te conhecer! Quão iluminado presente!

Sua arte, sua beleza, só vinham quando mergulhava nua em si mesma. Branca, enorme peixe fosforescente, iluminava com surpreendentes centelhas o mundo submerso no qual vivia. Bem se quis trigueira, se alva ou se feminina. Onde as velas? O amor? O amor na proximidade distante e cega de um amor-amigo conquistado.

Algum sapo assim coaxaria, vendo o melhor do Mar de sua lagoa. Tão vasto mar, Marazul Mulher. Pode-se medir a vastidão percorrida pelas asas de uma falena azul? Ser alado que atua em tua esfinge, quando o olhar se esconde da alvorada mágica do poço.

O que seria das tardes, sem tuas tardes? O que diriam as manhãs, imaginando a possível e discreta anunciação? O que seria dos juazeiros, sem a clara rosa das petrolinas? O que das minhas indagações? O que?

Tudo seria coto, roto, morto...

A vida assim lhe quis.

A vida assim lhe fez.

Tantas cenas desconexas, perdidas no tempo que teimava em passar, bem devagar, como quem espreita as ânsias no afã inconbatível de se tornar delírio. Um delírio. Devia ser este o único sentimento que se pudesse cultivar após passar alguns instantes ao lado dela. A mulher e o seu vôo. E o vôo dos homens.

Diferente. Teus cantos pontiagudos num rosto de marzipã, capaz de espantar qualquer tristeza, qualquer desânimo aflorado em outros rostos. Seria impossível se ater ao silêncio da solidão ao se estar de encontro com a totalidade de expressão que a acobertava de certos defeitos. Devia haver defeitos em tão perfeita maquinaria. Difícil era percebê-los. Agora, voava alto, cada vez mais, e mais alto... e se distanciava, como quem foge de um pesadelo. Sei, mas duvido que ela saiba. Quanto mais longe e último o seu planar, mais viril o meu rebento inspirador.

Quais os seus mistérios mais escusos? O segredo de sua origem se contrastava com a liberdade que os seus cabelos premeditavam, no balanço de sua dança, ao sabor dos banquetes mais naturais. Seriam os mais respeitosos anúncios de primavera, numa revoada de sentimentalismo eufórico sob a tez macia e imaculada daquela mulher bonita, mais que bonita: “cativante”.

Estaria eu mentindo, na vontade resoluta de se querer pronunciar as frases que jamais foram ditas? Quem possui a patente de uma boa e sadia amizade? Por que não poderia dirigir-me a tão reluzente ser, como quem busca a fonte da vida, com a finalidade solitária de alcançar as mãos da felicidade? E o que seriam das mentiras, posto que verdade não há? Por um átimo, imaginei que as palavras e todos os outros símbolos escondessem em suas entranhas toda a vivacidade e vicissitude de uma mentira. Talvez, se procurássemos bem, acabaríamos encontrando, não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da Vida; isso já se ouvia falar nos logradouros das Minas Gerais. Fosse essa a nossa missão aqui no mundo, e a poesia seria tudo, menos um retrato falso de corisco humano.

Onde os esconderijos das clarices? Onde suas fórmulas? Onde seus lampejos e suas lamparinas incandescentes? O mar, certamente o mar te furtaria as espumas do teu ser, levaria para a maior das profundidades e lá, sob o olhar de Netuno, transformar-te-ia na mais bela das falenas azuis, que, como um projétil, arrebentaria a densidade das águas, tomaria o céu feito o sopro do vendaval mais insano e desapareceria em meio aos girassóis...


Este texto foi uma espécie de diálogo que fiz com a crônica "O grande peixe fosforescente", de Carlos Heitor Cony, publicada no jornal Folha de São Paulo. Escrito originalmente para Ayala Lopes, quando do seu aniversário em 27 de setembro de 2005. Todavia, dedico este texto a todas as mulheres do mundo... e dizer que o mundo seria caótico sem vocês... Feliz dia Internacional das Mulheres! Todo dia, certamente, é dia da mulher..

terça-feira, 8 de março de 2011

O Anti-Teseu contra o TCC-Minotauro


Por Germano Xavier

Esta é a história de uma história que acontece. Não é história sobre o que aconteceu, mas sim uma narrativa sobre o presente presente mesmo ou sobre o futuro tão perto como incerto. Talvez seja esta historieta mais um conto mitológico encerrado na cadeia de vivências do ser humano ou, quem sabe, uma lenda sobre alguém que apenas pensou ter existido.

Segundo a mitologia baiana, Teseu era e sempre será o filho caçula de Carlos Egeu, rei de Iraquaratenas (Pote de Mel, em Tupi), e de Irlan Etra, filha do sábio João Piteu, rei de Canaranatrezena, onde morou na casa da avó por longos e inesquecíveis doze meses. Carlos Egeu, descendente de Eliseu Erictônio, reinava em Iraquaratenas e tinha, também, mais um possível herdeiro para o seu trono, o primogênito Gustavo de Iraquaratenas. Tinha, Teseu, desejos e sonhos que não cabiam na sua mochila, sempre rasa para a densidade de suas inquietações.

Nasceu menino, cresceu vigoroso e forte como um herói. Aos dezesseis anos seu vigor físico não era tão impressionante a ponto de assombrar ogros ou faunos malvados, porém capaz de erguer a enorme pedra antes movida por Carlos Egeu, recuperando a espada e as sandálias do pai, para logo depois dirigir-se à Iraquaratenas. Teseu passou por várias outras batalhas, perdendo umas e vencendo outras.

A história de Teseu começa na Chapada da Grécia Diamantina no ano de 1984, e não termina lá. Não termina na gigantesca cadeia montanhosa que serve de paredão para os lavradores de diamantes e garimpeiros dos mais diversos e cintilantes materiais preciosos. Não termina porque não começa lá, mas porque começa agora.

Teseu, hoje, tem 23 anos, usa óculos para descansar as vistas, não sabe voar, gostava de soltar pipas quando criança, não usa escudos e não sabe do seu destino. E quem suspeita destinos? Narciso não suspeitou sua morte, nem Frida o seu dragão. E acabaram morrendo, vítimas da dor maior de não saber. E o jovem Teseu não sabe que sabe e, por isso, é feliz e triste ao mesmo tempo. É feliz porque o Pessoa também não queria saber de nada, nem o Sócrates, e esses espelhos são para ele alívios na alma. É triste porque se ele não suspeita o seu destino, pode delongar mais alguns dias em nádegas esquentadas nas duras cadeiras da faculdade de Jornalismo que cursa. E alongar sua morte é simplesmente tudo aquilo que Teseu não deseja.

Todavia, no fundo, bem no fundo mesmo, onde não há como guardar luz alguma, Teseu pode até desconfiar que sabe do seu fim, do seu objetivo, de sua missão. Mas a incerteza ainda é tão grande que ele prefere dizer que não reconhece nenhum estímulo de caráter ideológico e inspirativo como sendo de todo válido e verdadeiro.

Talvez, também, esta miserável história não signifique nada para ninguém ou, por um motivo ou outro, termine sendo o reflexo de muitos estudantes que, como o Teseu, ainda se encontra perdido no Labirinto do TCC-Minotauro.

A história de Teseu e das aventuras fantástico-extraordinárias vividas por esse herói constitui algumas das mais desinteressantes páginas da Mitologia baiana, por ser uma história já muito conhecida nos ares e arredores acadêmicos de todo o mundo. Porém, até o insuperável Hércules disse ser ele um dos maiores exemplos de bravura.

Teseu, porém, não imitou os seus companheiros. Convencido de estar diante de um leão de verdade, um leão vivo, arrancou a clava que carregava consigo e marchou decidido em direção à fera. Não custava arriscar a luta, e a luta maior estava para ser iniciada.

Começou, então, para ele, uma fase de grandes aventuras. A primeira teve por cenário Irecê-Ática, que estava infestada por terríveis bandidos chefiados por homens de grande força e maior crueldade.

A cada ano, no território de Juazeiro-Creta, era certo a chegada de cerca de 50 rapazes e moças, escolhidos mediante um sorteio chamado vestibular, para alimentarem o famélico TCC-Minotauro – furioso animal, metade homem, metade touro – que vivia encerrado no Labirinto.

Esse labirinto, um dos caprichos do rei MINOS-UNEB, era um estranho templo com poucos e curtos corredores, escadas, caminhos e encruzilhadas, onde uma pessoa se perdia quanto mais os sementres iam passando, e de muito diícil encontrar a saída depois de transpor a sua entrada. Era aí que ficava encerrado o terrível TCC-Minotauro, que espumava e bramia, jamais se fartando da carne humana das idéias.

Havia mais de três anos que Teseu vinha se preparando para enfrentar o monstro, oferecendo sacrifícios aos deuses e indo consultar, por vezes, o oráculo de Delfos-Andréa ou de Delfos-Carla. Antes mais encorajado, principalmente nos dois primeiros semestres de treinamento, Teseu fez-se incluir entre os jovens que deveriam partir na próxima remessa de “carne para o TCC-Minotauro”. Ao chegar a Juazeiro-Creta, adquiriu a certeza de que sairia vitorioso, pois a profecia dos oráculos começou a ocorrer como sempre pensara.

E foi Teseu em busca de seu objetivo, ainda receoso e temendo mal maior. Empunhando poucas armas, Teseu apresentou à sua consciência seu esboço de tese. O esboço de tese de Teseu.

Vejamos:

Teseu quis construir uma análise de discurso que fosse capaz de apreender simbolicamente os elementos de caráter factual em alguma obra que utilizasse da poesia como canal maior de comunicação. A priori, numa curta e falha ação seletiva, Teseu tivera escolhido analisar o livro “Barulhos”, do poeta maranhense Ferreira Gullar. Escolha esta que, certamente, não dará cabo em continuar, posto que acha batido o autor, tantas vezes já discutido por ser um dos maiores construtores e difusores da poesia de caráter social no país.

Teseu tinha dado o seguinte título ao ensaio metodológico acerca de sua possível tese: A Análise de Discurso e a Apreensão Simbólica de Elementos de Caráter Factual na obra “Barulhos”, de Ferreira Gullar: Memória de um Tempo.

A análise de discurso fundamentaria a base do estudo, pois através da matéria simbólica, que sofre uma variação de sociedade para sociedade, terminaria formando um arcabouço sólido tanto para a geração de representações sociais quanto para a edificação coletiva da realidade, tendo em vista o recurso das atribuições de significados.

Teseu partiria do pressuposto de que o sujeito, para continuar participante no todo do organismo social, precisaria de uma ferramenta de sustentação, que é justamente a linguagem, far-se-ia de extrema necessidade a assimilação de redes de sinais, possibilitando o transformar do ator social, nesse caso o leitor, mais ativo e problematizador, o que o levaria em direção a uma maior interação com a sociedade. Por isso, seria de importância fundamental o estudo da semiologia, por achá-la necessária ao esclarecimento da construção social da realidade.

Em decorrência disso, o sujeito, em seus variados grupos sociais, através de universos de características simbólicas, agregações de cunho moral, acepções éticas de costume, canais culturais e políticos, acabaria por fazer com que todos esses fatores ordenassem, diante da totalidade do corpo social, a produção de uma realidade acordada com segmentações simbólicas e com a carga de todo o saber conquistado.

Não obstante, a linda Ariadne, filha do poderoso Minos-UNEB, apaixonou-se por Teseu e combinou com ele um meio de encontrar a saída do terrível labirinto. Um meio bastante simples: apenas um novelo de lã.

Ariadne ficaria à entrada do palácio, segurando o novelo que Teseu iria desenrolando a medida que fosse avançando pelo labirinto. Para voltar ao ponto de partida, teria, apenas, que ir seguindo o fio que Ariadne seguraria firmemente. Estava resolvido, pois, um dos mais graves problemas do mitológico ser e, resoluto, Teseu avançou.

Cheio de coragem penetrou nos sombrios corredores do soturno labirinto. A fera, mal pressentiu a chegada do moço. Avançou, furiosa, fazendo tremer todo o palácio com a sua cólera. Calmo e sereno, Teseu esperou a sua arremetida. E então, de um só golpe, decepou-lhe a cabeça.

Vitorioso, Teseu partiu de Juazeiro-Creta, levando em sua companhia a doce e linda Ariadne, regressando a Iraquaratenas, onde o aguardava a notícia da vitória de todos os outros companheiros de batalha.
(...)

“Escavações realizadas na ilha de Juazeiro-Creta, no início do século, revelaram a existência de um grande palácio provido de imensos corredores que lembravam um labirinto. Por outro lado, afirmam os especialistas que existem elementos que permitem dizer que os reis de Juazeiro-Creta usavam, em certas festas e cerimônias religiosas, máscaras representando cabeças de touros.”