terça-feira, 28 de junho de 2011

Pastores em transe


Por Germano Xavier

Cada vez tuas coxas.
Cada hora teus espelhos.
Cada estampa, árvores
de raízes curtas: eu.

Percepção de se escurecer,
sombras e sombras e sombras...
navalha nua.
Mulher espírito em cama minha;

transa pastoral.

Cada vez tuas moças.
Cada esquina tuas costas.
Cada vaga teu preenchimento:
massa de modelar.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A casa sonolenta


Por Germano Xavier

Tenho este livro. Ou melhor, este livrinho me tem. Não o comprei. Ele apareceu num dia azul de malinações dentro do baú do meu finado avô, João Pimenta, aqui na despensa da casa onde moro. Empoeirado, com as orelhas crescidas, uma edição de 1993 de que tenho o maior ciúme. A narrativa conta a história de uma casa onde seus moradores viviam dormindo, até que um dia, por causa de uma pulga, uma reviravolta toma conta do ambiente e a casa, que antes era sem vida e triste, acaba por se tornar um recanto de muita vida e alegria. Os autores são Don e Audrey Wood.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Uma vida


Por Germano Xavier

é momento de messe
dias grandes e de júbilo
em que o homem se renova
nova forma de ver, sentir
(que é tudo diferente?),
rente aos olhos da espera

os campos verdes nascem belos
são os frutos das mãos calosas
no fundo são mãos de seda
donas do segredo, da fonte
e também do medo

o sol se deita os homens lassos
bebem o crepúsculo
som de noite no campo
o passo-preto entoa o derradeiro
hino do dia difícil
que parece não acabar

Sempre na ida


Por Germano Xavier

XII

“Pai, perdoai-vos, pois eles não sabem o que fazem.” Eles não sabem mais o que fazer com a civilização, com esta mecânica fajuta e deplorável que está sempre à procura de alguma vítima, alguém despreparado, alguém inocente. (...) “Porra, o que será que aconteceu?!”, interrogou exclamando a moça que estava ao meu lado, na frente do shopping center. Virei a cabeça e dei de cara com um rapaz que se aproximava velozmente de mim. Confesso que aquilo não me despertou nenhum sentimento de surpresa, tamanha é a carga de violência estampada em nosso cotidiano. Fato que nos despudoriza. Vocês já desconfiam, eu já disse que não me importo com essa realidade, com esse mundo cada vez mais ligeiro e artificial. Tive vontade de tomar um daqueles chazinhos que tanto me fazem bem, mas fiquei só na vontade. Estamos fadados à civilização! Estamos fadados à realidade! Maldição! Maldição! Três vezes maldição! Quis baixar a cabeça, mas não deu tempo. O mesmo rapaz surgiu feito um leão feroz diante do rival que lhe quer tirar o domínio do seu território, agora segurando o menino pelo pescoço. “Cadê o som do meu carro?”, “Cadê o som do meu carro?”, “vamos!”, “desembucha logo, rapazinho!”, dizia o moço raivosamente e com a tez do rosto bastante corada. “Não, moço, eu sei de nada não!”, “o que foi que eu fiz?”, “eu não peguei nada, não” – retrucava o encurralado menino, que a essa altura também já estava acompanhado por um segurança daqueles que parecem mais (desculpem a comparação) um gorila, de tão forte. Ah, meus “redondinhos”! Tenho saudade dos meus fantasmas noturnos. Alguma coisa me dizia que, quando se é criança, a gente precisa de ajuda (é cada vez mais complicado fazer uma leitura desse “mundo”) e de amparo. Se não for assim, a tendência é a pior possível. Vocês são mesmo uns imorais! Não são éticos, não são dignos! Mas é para isso que estou aqui, simplesmente para mostrar o caminho verdadeiro. Acreditem! Eu sei! Eu sei que há “mundos” cheios de esperanças e de paz, onde todos conhecem o sentido da palavra LIBERDADE. Vocês deviam parar de se preocupar comigo. Eu não valho a mínima parte do seu trabalho. Mas não pensem que eu sou um louco. Eu sou apenas um sonhador que acredita em “mundos” e que está aqui só de passagem. Eu não vejo a hora de voltar para a minha casa. As coisas aqui parecem que não mudam, começando pela sua cabeça. Ah, o final! Vocês devem estar querendo saber que rumo essa história tomou. Perdoem-me, não há final. Não existem previsões de melhora condizente a isso. O que eu quero é que vocês me entendam! Eu sei de tudo que te fere, eu sei. O tempo é passageiro como nós, meu amigo! A aventura, não se esqueça da aventura! O futuro está aí, na fumaça que sai do seu cigarro. Continuem! Não podemos parar! Vivam! Sirva-se de seus pseudofrutos, mas não deixem de viver! O coração ainda pulsa, e isso é um bom sinal! Os faróis ainda alcançam os navios mais longínquos destes mares. Salve a conduta dos homens, desses homens. Continuem procurando o “som dos seus dirigíveis”, continuem!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Saída à francesa


Por Germano Xavier

Acabou de unhar teus internos queridos...
Saiu, feito um fantasma,
de si mesmo.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Cama mulher


Por Germano Xavier

A Vida: uma mulher.
Seus olhos, minhas tristezas.
Seu olhar, minha agonia.
Seu beijo, minha fraqueza.

A Vida: uma mulher.
Um mistério, uma incompreensão.
Metal afiado, cego.
Caminho alongado, longa felicidade.

A mulher cama magia.
Macia.
Lança, fúria e corte.
Profunda modelação.
Cama mata, mulher.

Instante e cria selvagem.
Meu retrato fugidio.
Porte de meus sonhos humanos
de homem.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Calçamento


Por Germano Xavier

É prematuro o sorriso da felicidade.

Os portões
fechados das ruas entreabertas de sombras...

Cortei
um naco de sombra ao meio,
e meu ato fez surgir uma revoada
de pássaros
- fantasmas que foram pousar longe,

no outro escuro da Vida, na mais

inalcansável colina,
onde toda a luz adormece,
pelos séculos...

domingo, 19 de junho de 2011

Os sentidos de Adão e Eva


Por Germano Xavier

o horizonte distante e a pressa em chegar, sentar, acender verdades sob a árvore, fez de Eva a resposta aos mundos dos sentidos. Adão se sujeitava a colher frutos dos produtos que não se juntam, oferecendo-se poema inteiro. mulher de café e antistamínico, borbulhava em roupas que mal cabiam a alma, sequer o coração acelerava sob o seio que emoldurava o corpo. o homem, formalizado, recordando-se a propósito, estimaria a falta de certeza. sem anteparos nem escolhos, continuava em admirações. presa de si e sustentada por anos e erros do passado, falava sozinha porque jamais entenderiam sua eficácia em transformar parábola em vocábulo simples. com as bochechas rosadas, o primogênito do pai aprendia que pecar era gostoso e que o melhor fruto é o fruto que não desnatura. o homem amava o pai, amava o próprio homem e amava a mulher do homem. se era tarde, era tarde e se fosse cedo, hora de dormir e comer mais sonhos sem as teses entrecortadas de Freud. nenhum psicanalista saberia da anatomia do amor nem da alma como a única criatura dos dois, que nasceu assim para ser assim. o que teria de tão espetacular e analístico em sonhar com escadas migratórias e pães açucarados? sonhos são castiçais, candelabros individuais. por que complicar se tudo já era disperso ( uma bola de neve no cerrado)? talvez por ser a vida uma caixinha de surpresa, ou um clube de carteado, com formigas e cigarros e bocas. ela pensava que o mundo se escondia embaixo de sua cama e sempre o mesmo inseto criaria casa, casca e certeza em seu abajour. a mulher arrepende-se, por ter ficado embaixo da cama durante toda a guerra e por perder o melhor da festa. o homem não sabia o quanto tudo aquilo soava verdadeiro. Eva tinha quarto, cama e abajour. um amor por segundo e o movimento dos sentidos era eterno. sua emancipação era carregar as chaves de casa. melhor é a língua tanta da língua, nossa tanta torre de babel. era sua a casa em que morava e também o inseto e a luminária azul - coisa de quem vive de antigos convites não aceitos. marca de batom, clara marca de si no pescoço do amor do minuto seguinte. ela não eternizava a vida. eternizava o beijo de sonho e Freud não saberia amar os seios de Eva como ela amava seus pensamentos noturnos. Adão, no final, que era só um iniciar, criou a teoria do amor. e a teoria resumia-se a um só item: amar com amor. tinha amor por si e - navegava em si - a nova egoísta dos segundos que vivia. o segundo era o amor. e o primeiro também.

Daqueles ele é


Por Germano Xavier

XV

imbricado feito pele de peixe de rio
o menino desembestava suas atividades de solilóquio
malsucedia os atavios de vida empacava
dizeres de lorota e percalina e findava os dias
esfogueteando o seu contrário jeito de ser

"queria era era sê antípoda" palavreado ornado
mas que parecia se adicionar respeitos
leitura feita em livro de geografia usado
maltratado por mãos que ora vivem
se sepultar teorias adoradoras da práxis
parou pensou pensou mais um tantinho
e concluiu num arroubo de luz
"an-tí-po-da anti-poda sou desses"
era verídico Doró no mais das horas
não se interessava em aparar ramos desbastar
que ele o morenín era era deslimitado
por natureza desejoso por ver tudo
se alevantar de impulso ou de luta
saltar ganhar mundos e aforas
por isso mesmo naquela ensimesmadura
não fazia questão de se professar aos outros
em sentimentos de cisternas enormes
salpicava no rosto uma vermelhura de feliz
quando no seu vizinho brotava um orvalho no olho
isso somente de se contar uma história
imagine se ele Doró se arresolvesse de pronunciar
um dos tantos discursos experienciosos que nele habitava
aí a Grandeza nem precisaria mais mijar
que os homens mesmos se prontificavam de serem os regadores
e o mundo desde Pastinho até o mundão mesmo
se assentaria convencido de que a chuva ou a seca
só se é quando se permite que seja

"sou desses" pensou

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O mundador de mundos


Por Germano Xavier

XIV

e deu de ser construidor de geografias?
e arrumou de ser regador também de palavreados
apanhados em literaturas, o menino moreno?
curió osado esse que nem lembra que indivíduo
ferroso pode não ser aquele que sustenta uma baita
inchação de bucho mole! oxe sô e oxe

marnué que é ô disgramadin osado
o disgramadin osado, o do mato!
vai ver que agora anda de serviço
misterioso e medonho com essas providências
fantasiosas de letras, que vivem disfarçadas
e em máscaras de algum baile duvidoso
numa resmada de papel variado e multicor
tá ele num desejoso de estreitar o beijo
das cores do mundo por ele mundado?
ou de modo que não assim Doró
pegou foi mazela de confundimento de cuca
que dá em gente que véve feito galináceo
em chocação preso em si por uma quentura sem pólo
o que será que se foi, meu padin?
o que será que se foi!

Doró aquele mesmo o mundador de mundos
parece assim por parecer às vezes que já
escolheu sua escolha mais de nobreza e estampa
ele quer é continuar sendo é ele mesmo ou seja
o que ele sempre não e jamais deixou de se saber ser
um fazedor de coisas
um coisador de fazeres

"um fazedô de mundos multicolores ou
um coisadô de fazeres viventes", disse assim
para o primeiro que lhe acercou de olhos naquele
instante disse assim para um samanbaio!

oxe, sô! e oxe!
disgramadin...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Branca agitação


Por Germano Xavier

pássaros,
na margem
do rio,
alvoroçados.

cai a treva.

sobre a terra, estreitas luzes
mancham o silêncio
de incandescência.

sufocados,
os pássaros
na margem
do rio,
alvoroçados,
não cantam, meu deus!,
eles estão chorando.

Torrinha, um capítulo à parte


Por Germano Xavier

Quer viver uma aventura típica de filme norte-americano? Já imaginou você na pele de um Indiana Jones ou qualquer outro caçador de tesouros? Então saiba que a ficção não é tão irreal e impossível quanto se imagina que seja. Distante pouco mais de 15 quilômetros da sede Iraquara, indo em direção ao município de Seabra-BA, entramos a pisar em terreno conhecido como Torrinha.

Segundo contam, um holandês que atendia pelo nome José de Fulô, nascido no dia 02 de fevereiro de 1792 e falecido em 03 de abril de 1882, havia escolhido o nome ainda no início do século XIX. A área é basicamente um pequeno conglomerado de terrenos e casas de simples arquiteturas, por vezes demasiado arcaicas, edificadas no barro cru e com telhas artesanais produzidas pelos próprios moradores. É também aqui onde encontramos a Gruta da Torrinha que, dentre as mais de 100 grutas já catalogadas por instituições e pesquisadores dos mais diversos países, sem dúvida é a mais rica em espeleotemas e a mais misteriosa.

Foi ainda em minha adolescência, numa excursão organizada pela escola Educandário José de Arimatéia, que pela primeira vez tive a oportunidade de conhecer o lugar que é, em grande parte, propriedade de José Fernandes de Carvalho, conhecido por Zequinha. A região é riquíssima para a atividade de extração de água através de poços artesanais, devido aos inumeráveis mananciais que por ali passam por seu subsolo. A Gruta propriamente dita está localizada a pouco mais de um quilômetro à beira da estrada principal.

Já investido em anos, por lá me detive em outras ocasiões, porém recordo que esta primeira visita me trouxe imagens que até hoje não desgrudam de minhas retinas memoriais, como a grande “boca” da gruta, escura e tenebrosa, os guias se preparando para mais uma “corrida”, cada um responsável por doze visitantes a desbravar, à luz bruxuleante de candeeiros à gás, os mais recônditos interiores da terra, o canto dos pássaros, a cor vermelha da terra, entre tantas outras.

Eu olhava os rostos dos meus colegas de classe, e todos não conseguiam deixar de transparecer a expectativa e a apreensão depositada naquele instante. Apesar de a maioria ter nascido e crescido em Iraquara, passeios como aquele ainda eram difíceis de acontecer, principalmente por conta da pouca idade de todos. Mas, certamente, todos estavam com as suas almas transbordantes de felicidade.

O motorista da escola estacionou a van, as professoras acertaram as últimas pendências com os guias, e lá fomos nós, em dois grupos separados por cinco minutos, tempo de segurança para que lá dentro da caverna não haja interferência entre as conversas produzidas por um ou mais grupos.

Chegando à “porta” única da Gruta – diferentemente da Gruta Lapa Doce, que tem também uma saída -, logo fomos tomados por uma sensação de frio singular. É o gelo das eras, do escuro, das profundezas. “Na entrada da caverna, fazem-se ver várias inscrições rupestres grafadas em línguas desconhecidas; figuras de bisões que em nada são inferiores aos atuais; abelhas habitam a entrada da caverna e ali fabricam seu mel; crânios com características humanas, que parecem pertencer aos nossos antropóides que aqui viveram entre cinqüenta e cinco e quarenta e cinco milhões de anos, já descorados pela passagem do tempo.¹” Pequenas placas na entrada nos davam pequenos alertas acerca do caráter sagrado da localidade.

Entramos, e a cada passo que dávamos o teto parecia que caía lentamente sobre nós, obrigando-nos a caminhar agachados em fila indiana por um bom tempo, até chegarmos a um salão onde um dos três roteiros disponíveis era escolhido. A programação previa a andança pelo curso mais longo, com aproximadamente três quilômetros de extensão, o que foi motivo de mais alegria e adrenalina. Este caminho foi o último a ser descoberto, apenas levado ao conhecimento do público depois que uma pesquisadora francesa descobriu uma passagem que dá para o itinerário maior da caverna. Por seu feito, a fenda fora batizada de Passagem da Francesa, e é justamente a parte mais assustadora e que mais desperta curiosidade, por ser estreita e de difícil acesso.

Depois de adentrarmos, fascínio foi ver as Agulhas de Gipsita espalhadas pelo chão, brilhando sua luz cristal, a Flor de Aragonita – mineral ortorrômbico mais carbonato de cálcio - como uma majestade no final do caminho, as Bolhas Calcitas, o Salão dos Vulcões, as Cortinas, o Salão dos Golfinhos, o “rosto” de Cristo, as imagens de santos, as estalagmites e as estalactites - raríssimas formações espeleológicas, algumas unicamente encontradas ali.

Fantástico foi escutar o som do silêncio quando o guia apagou o candeeiro no meio do percurso e nos permitiu a visão do escuro absoluto. Inesquecível sentir que somos apenas uma ínfima parte perante o mágico esplendor da natureza. Indeléveis recordações de quando voltávamos para casa com a nítida impressão de ter conhecido o infinito desconhecido.


Notas.
1 – Excerto retirado do livro O império das serranias, de Ângelo de Mattos Pereira.

Conceito?


Por Germano Xavier

- Amiguinho meu, tu me ensinas a voar um vôo nunca existido?
- Não, eu não posso. Um dia tudo já existiu.

Indo ao dicionário Aurelião, encontraremos o seguinte significado para o termo grego "Mímesis (Mimese)": imitação ou representação do real na arte literária, ou seja, a recriação da realidade". Roger Samuel trabalha dentro dessa perspectiva de exemplificação quando malina nas gavetas de suas teorias e de suas pestes. Por ser um conceito filosófico, portanto demasiado amplo, esta "imitação" a qual indica tal autor alcança um horizonte de discussão quase que ilimitado. Para Platão, mímesis é uma espécie de imitação da realidade (Idéia) em terceiro grau, um pouco distante do plano do pensamento original. Se no platonismo a mímesis ocupa um espaço recatado, sem grandes importâncias nem faculdades, em Aristóteles o termo vai ocupar um lugar de destaque, revelando-se como o processo pelo qual o fazer poético encerra variados símbolos e significados. A mímesis não é um exercício metalinguístico - como é óbvio que não deixa de ser, jamais -, porém ela mais se aproxima da metáfora, como energia vital e força propulsora integrante do núcleo poético. Sem tanto me alongar querer, mímesis está mais para um exercício de revelação externa ou interna de algo, tendo como ponto de apoio uma determinada realidade já existente, sofrendo influência do nosso inconsciente e, também, das circunstâncias diversas as quais estamos diariamente e temporalmente entrando em contato.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Braçadas



Por Germano Xavier

Para Rafael Medeiros,
amigo-irmão que está aprendendo a voar...


Quando Deus apaga nossos olhos
passamos a enxergar com as mãos.
Quando Ele nos serra as mãos
apalpamos a vida com o coração.

Quando Deus esconde nossa voz
falamos através do silêncio.
Quando Ele desgosta os gostos
temperamos tudo com o tempo.

Quando Deus nos retira os sons
ouvimos através dos cheiros.
Quando Ele nos poda o andar
está querendo que alcemos voo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Sobre empurros e alturas


Por Germano Xavier

XIII

palavra viva é medo resolvido dura
esfera de se criar fantasia solta
e de onde veio o meu nome é o céu
castanho e de onde veio a decisão
curta de ser grande e de cócoras o tempo
fazer-se criar-se nos matagais e grãos
e a messe colher o dom escasso de vista
ser campina e vôo ser-me a história

melhor lembrar que a vida é em rodopios
de bola de pano? chuva que molha o chão
esperança que mata a fome indo a arte
o monumento maior de ir em desenredo vale?
mais? o mundo quanto? custa à morte a vaidade
quando? a verdadeira festa elevatória música?

a gente joga e não espera a gente brinca
de barriga varrendo o chão e os telhados
a gente fujamos voa é preciso saber
que não se escolhe o pouso o front
que se vai e se deixa ir ventado em empurros
a ida a volta precisamos? estamos sempre indo
com certeza para os cantos e para as alturas

Doró não lamenta o sonho na guimba desperdiçado
Doró alcança estica os artelhos compridos
de acordado e quisto em tudo e se chega

Doró toca os demais os abismos e se alma
mais que ver ele sulca guerreia de dentro
para fora os mundos seus carinhando-se

que se é frio se amorna em umidades
em humanidades em humildades o principal
diz dizendo a voz do coração e ensina compassado
que a vergonha é estrangeira desnatura e quebra
deixa de esconder as manchas nossas verdades

mundar deixa ele o recado de mundar de mundar
de ser em capricho para outros o pão
para si mais de um mundo em borboletas
de se imaginar feituras nossas animais

e nascer nunquinha deixar esquecer e nascer
e sujar-se em nascer-se
e enlamear-se em nascer-se
renascer-se...

quinta-feira, 9 de junho de 2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sobre a classe



atrás da roupa impera uma amperagem de signos mais e teu corpo como um poema universal atravessa a esfera do que vejo e todo o mistério de sonhar vigora agora. volcano vulcão atear o fogo a gusa a brasa a chama a quente flama de nós unicórnios neste bosque estranho. de amar DE AMAR dE aMaR. eu tenho vivido contigo aquilo que um dia a empresa arrebatou dos prados, aquilo que o cavalo cobriu de poeira no trote apoiado sem medo sem dúvida sem meio sem resumo porque atrás da roupa impera uma amperagem de signos mais confortáveis que o branco algodão mais que a alabastrina luz mais cintilante que a califórnia dos fáceis ouros meu conceito de tesouro perdido é você obra de ficção sem ciência sem razão feita em emoção

posso te amar mulher posso romper a barreira e sucumbir fronteira e sem eira nem beira e te amar mulher escrever uma vida inteira sem nunca admitir falsidade porque somos a música costureira da roca

espere calma paciência a noite é tão intensa e nesta sala imensa o vazio irá o vazio irá saúde atrás da roupa impera toda tua vida gira na minha que gira na nossa que gira nossa dual e una amperagem

que pira


*****


Simples fio que nos une corpo meu e corpo seu únicos em nosso sangue e amo docemente o que me faz calar e calafrios e minha boca, sua, beija o dorso e a sombra do seu ele dentro de mim. Quando comecei a amar assim? Furtiva dúvida que me rompe a noite e toco as mãos de você homem que sabe que sou mulher que se aninha em suas vastas considerações poéticas. Sou nada. Flor perdida. Combustão e oxigênio de você que me cria entre linhas e me atrai como pára-raios e sobe montes e desce colinas e rompe minhas poucas vidas porque são vidas crias de sua imensa vida de tantos anos e de meus amores de pobre estilo. Ando na direção de todo vento. Você é todo vento e me carrega em forças e destila veneno puro em minha boca que um dia, sendo sua, já fora sua e será sempre o verbo que alimenta o menino que adormece em meus braços. Sou nome e qualquer e flor de estação inteira. Amo como tremo ao som da sua voz.

Em ordem inversa...

Sexo entre nós é um manto. Você me acoberta e geme em meu ouvido dizendo que sou sua e palavras grandes existem e você arrebenta represas e me fode. Será que me faço virgem ou desfaço o aço do homem que me aflige? Amo você de constelação infinita. Como toda constelação infinita. Como toda forma que seu corpo encontra em mim. Será que posso verbalizar minha vontade? É árdua minha vontade. Quero em boca, em pernas, em minhas coxas, em minha sexualidade fonte que deságua. Você sente o meu amor? Você sente o meu amor? Você ouve meu medo e recebo você. Seja meu filho contrário e ama a vontade que sinto de você.

“Baby, you really got a hold on me”
(Beatles)

Sei que não sou clássica, mas carrego flores. Levo flores e incensos. Levo minha vida pra dentro da sua vida.

domingo, 5 de junho de 2011

Navegar tuas águas


XVI

“Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

Rayuela - Cap. 7
Júlio Cortázar, 2ª parte.


Nada é tão presente quanto o nosso passado, Virgínia. Hoje tomei para mim uma antiga foto tua, aquela que você me enviou ainda pequena era nossa história. Olhei pesadamente para tua imagem, pausadamente como um livro lento. E como sempre, veio aquela energia total que me abraça a alma, me confundindo. A aventura de navegar tuas águas é a certeza que tenho da vida. Faz tanto tempo que o sol deixou de iluminar minha varanda, de dar vida a ela, movê-la. Há tanto tempo a lua é tão pobre de brilho debaixo do firmamento. Mas todo o esquecimento advindo das coisas que usualmente me faz lembrar daquele tempo último, toda a memória oriunda da hora que já não é, posto cordão arrebentado e silêncio medonho, tudo ainda me corresponde uma ânsia, uma angústia e até uma solidão franca. Eu não queria que você soubesse que durante todo este tempo em que distante a chama bruniu, teimou, meu coração esteve passando por crises e doenças. Outrora tive a sensação mais vaga do preenchimento, perdi o passaporte que me dava direito a fazer volteios, caí na dura arma do querer demais. É tão sufocante a sensação de não conter nada, de não comprimir absolutamente nada dentro do corpo, da caixa humana... Olhando você tão doce, tão perene, na fotografia já por demais gasta pela fome dos meus olhos, nasce a involuntária forma mais bonita da emoção. Por onde você andou durante todos estes dias, que não me avisou das esperas?

Meu imaginário cotidiano é feito de monotonia, livros, palavras vazias, elaborações de sofrimento. Canta dentro de mim um pássaro azul, sem voz, sem canto, sem música. E todo dia a aurora é noite, e a noite uma sombra escura. Por onde você andou durante todos estes dias, que não me avisou das cadeias? Foi à hora de eu escrever os mais infelizes contos de amor, os mais sangrentos poemas de saudade, as mais penosas prosas de alegria. Quando tudo que desejei, quando tudo o que quis, em alta voltagem, em alta resolução, era a tua boca lânguida, o teu lábio obtuso, a tua língua de víbora. Quando tudo que sonhei, quando tudo que criei não foi senão a força magnética necessária para capturar em definitivo o segredo da higiene amorosa que você me imputa.

Exorcizei demônios, afastei da mente a perversão e o desvario, cobri com algodão o branco do meu caminho torto. Tudo no intuito de não me sentir roído, para não acabar peixe em terra, buscando o necessário ar, o necessário ar... Por onde você esteve durante a ópera dos estorninhos?

Como estão as coisas? Como estamos, Virgínia? O que somos? O que vamos? O que tanto me acomete de verdade e de mentira? São estas verdades e mentiras nossa dissolução lenta, nossos corrosivos desmembramentos? Para que tanto futuro se o presente ainda não aconteceu? Para que tanto presente se somos apenas passado? Somos apenas passado, Virgínia?

A teus pés depositei a lápide do memoriar eterno. Obturei o osso sujo que me doía uma busca e vi nascer esta dor tão triste de sentir esperança. Volta e vem, de tarde a chuva, de dia na alvorada de minhas aflições. Volta e vem, para o resto desentortar, para a gente se amar, tão ineditamente amar: um amor primeiro.

Como estão as cortinas? Como estamos, Virgínia? O que somos senão o direito que temos de viver? O que vamos ver daqui para frente? O que tanto me remete a ti quando não sossego a mente? Serão estas marcas o corolário de todos os nossos mistérios? Para que tanto futuro se o presente não aconteceu? Para que tanto presente se somos apenas passado? Somos apenas passado, Virgínia? O que ainda somos, se somos?

Eu toco a tua boca no papel, donde germinam flores e peixes, águas e luas. Eu toco a tua boca no papel, trêmulo, eu toco, toco...

Meu coração está rouco, mas bate forte por ti.

*****

Cádor,

Você falou em passado e eu falo em presente que é agora. Este momento em que olho o relógio e olho o céu. Não diferencio. Estou bem e minha casa não mudou, tampouco mudei. Aliás, mudei. De voz, de paz, de trânsito. Agora sigo a fé mais que antes e a fotografia que você guarda não irá lhe dizer o que precisa saber. O que somos, somos e eu já havia dito. Foi diferente desde o primeiro dia. Porque somos uma aliteração. Nos repetimos. Temos medo e o tempo, eu acredito, tem sido bom. A não ser quando chove e faz frio e lembro. Lembrar me atrapalha mais que pedra no caminho. Não consigo evitar lembrar. Lembro, olho, ouço aquela música e até a sua voz vem com o vento.

Não é um milagre. É verdade. A gente começa acreditando tanto em algo e o resto, você já sabe. Não há retorno. Uma vez dentro de um redemoinho, nada mais volta ao lugar. Depois de você não sei se sou ou se aparento ser. Mulher de um homem que faz tantas perguntas e renuncia fraquezas. O que espera que eu diga? Espera que eu recite Neruda e jure amor eterno. Estamos em tempos de caos e guerra que não é branda. Guerras nem sempre portam armas, baby. E isso é familiar. Sei que é. Sempre baby e I Love you pra sufocar bastante e vazio é um adjetivo que não me classifica. Porque sinto a ausência, ânsia, angústia. Sinto até dor de cabeça. Vontade de chorar até me tornar água e ficar bem ridícula como amantes se sentem quando amam.

Ridículos palhaços solitários. E o pássaro azul que canta em você é doce. E poético. Em mim, amor de minha vida, há um trombone que me azucrina. Me ordena e me enlouquece. Você sabe. Não tenho o costume de organizar pensamentos. Sou louca. E você também é porque ama um passado e fala em tempo último e distância e dá tantas voltas pra dizer que precisa e quer a mulher. Eu não tenho dúvidas. Tenho sentimentos tolos, adultos e engraçados. Aliás, tenho sentimentos bons. Acredito que tudo o que sentimos seja infantil e por isso não nos esquecemos. Alguém disse que elefantes não esquecem e eu digo que crianças não esquecem.

Nos conhecemos crianças. Você era tolo imaturo lindo de tudo. Dono de seu mundo. Entrei de cara na sua letargia de ler e viver com a cabeça enfiada em livros. Aceitei suas reviravoltas porque é assim. Amor não tem desconto. Ele machuca, faz bem, faz mal e segue. E não há tempo certo. Você fala tanto em passado e já me sinto um antiquário. Não sou do passado. Somos contínuos. Não houve pausa. Você pode ter silenciado por um tempo. Eu também. Ainda obedeço às regras de falar quando me pedem. E visto a sua agonia e transformo em outra coisa. Uma energia boa. Uma página feliz de um livro. Acontece isso comigo. Transformo coisas.

As cortinas não me escondem mais. Agora dou espaço ao céu e ao escuro da noite e a preguiça da tarde que me lembram você. E odeio você de tanto amor. Não sei bem se ainda se diz amor da minha vida ou isso é coisa de quem anda moribundo pensando em fim do mundo. Ou seria apenas uma forma de enfatizar que sou a maturidade de tudo que antes era revelia? Você exorciza demônios e eu tenho um demônio bem ao meu lado. Você não é o tão perfeito deus. Sangue duvidoso que me faz livre e se aglomera em mim como tijolinhos que fazem casa e prédios. Somos uma cidade inteira, Cádor. Não se machuque pensando em esquecimento ou passado.

Não sei do que você fala. Não prometo esperas. Não tenho o coração rouco. Ele bate porque me mantém viva e espero e faço a vida. Você parou ou eu parei? Não quero respostas. Às vezes pergunto só por perguntar. Já sei a resposta. E ela é um e outro que brincaram de ser por um dia ou dois e, dentro da confusão, perdemos o controle. Essa confusão é o querer, precisar, sentir vontade até morrer. E procurar em estranhos o que temos. Mas não há outra saída. É seguir. Infligir. Enfrentar. Aceitar. E nada de trocadilho. É amor cego tranqüilo doente bendito um tom aberto de toda canção. Você fala em sua língua e eu falo a minha. E de uma simples flor feiosa e triste, somos fortes e gira o sol e pode ver. Sua varanda tem o mesmo sol que a minha janela recebe.

Falar de passado é derrota. Eu falo no presente e se você procura resposta, procure em livros. Há em mim língua e boca e um beijo e um abraço quando nos encontrarmos. E eu ainda choro quando lembro. Depois abro um sorriso e acredito. Pessimismo é para os esquecidos. Somos o que existe. Não há retorno. Já estamos há tanto. E estou aqui onde sempre estive. Amo você e caminho nas ruas sentindo que agora é tempo. E somos um desastre. Mas temos paz. Por um minuto, temos paz. Depois, recomeçamos tempestuosos. Não é fácil. Se fosse fácil frágil e encantador, não seríamos nós, Cádor. E não sei poemas ou frases bem contornadas. Sei do que é bruto e tão ameaçador quanto um beijo que silencia o grito.

“A nossa história é a minha história que é a tua história que devora e canibais amedrontados somos feitos de história. O retrato que tens sou eu portando sorriso de infância e hoje a mulher que envolve o vazio da saudade sou eu ainda e continuo infantil ingênua indecente como só as crianças podem ser indecentes de tão inocentes que chegam a fazer milagres. E descubro que a história brinca conosco como se fossemos nuvens na altitude de todo o céu que cobre o tempo que nos distancia e nos aproxima. E o abraço que traço entre o teu braço de homem me faz existir e não há pergunta que se estenda como tapete deixando certeza porque não somos a certeza. Como disseste uma vez, mitos somos e não perdoamos. Não perguntamos. Somos o sol que se esconde e se mostra raiva e somos a flor escondida no jardim porque queremos ser diferentes. Não serei mulher se me deixar detalhar por suas dúvidas que me cortam. Não há tempo que se desfaça de nós. Mitos muito confusos e desnorteados sozinhos e pálidos por falta de dia por falta de beijo e seio e o teu sagrado ato de empalar-me e silenciar-me em declarar amor como se grita por janelas e me entornas como a mais amarga das bebidas. Amar dói, amor.”

(Letícia Palmeira in, o tom do tempo)

sábado, 4 de junho de 2011

A quem odeio, com muito amor


Por Germano Xavier

Alina Pontes, duas filhas meninas e um filho homem, divorciada, professora aposentada e dona de uma alma escura como piche, é uma mulher incomunicável. Ao longo de seus trinta e seis anos de idade, Alina cultivou equívocos e dissecou pecados. Hoje, no dia em que resolveu que iria morrer, acordou e o sol era já inteiro sobre sua cabeça. A metade do dia, que na vida dela tinha vinte e quatro horas, atravessada em sono. Despreocupadamente, ainda no encalço de um andar trôpego e vacilante, dirigiu-se ao sanitário de azulejos brancos. De pijama azul-turquesa, a mãe da Lúcia, da Beatriz e do Jorge, escovou os dentes amarelos, por causa dos hábitos alimentares não muito exemplares, reparou o rosto já em rugas iniciado, sardento, e o lavou.

Alina casou-se cedo, aos dezoito anos. Aos vinte engravidou e nasceu o Jorge, seu primogênito. Hoje Alina ostenta uma cintura larga e um vocabulário minguado. Parou de estudar porque o marido a queria no cuidado dos rebentos. Na curta idade que tem, usa de ferramentas parcas para entrecruzar sua voz numa ou noutra conversa familiar de domingo.

Certa vez, o Arnaldo, o homem que havia passado a última noite ao lado de Alina, fez uma peça de origami para ela, e no mesmo dia a entregou. Era um cisne feito com um quadrado perfeito de sulfite branco. Uma belezura oriental, sabe. Coisinhas fofas para pessoas carinhosas, caridosas. Quase uma jogada. Na verdade, não tinha sido ele o construtor daquela pequenina obra. Havia sido a Juliana, uma colega nova que conheceu na faculdade de Letras. Ela, uma moça de um par de seios bem generosos e de aparência macia, sem fim nem começo, assim ligeiro, despertou o interesse do macho. Além de trabalhar com papel, a rapariga que, não raras as vezes sentava ao seu lado esquerdo, junto à porta, também fazia trabalhos em biscuit, uma massinha de tonalidade creme que leva glicerina, maisena e água. Tinha oferecido uma oficina particular naquele dia e o Arnaldo não pensou duas vezes. Queria agradar Alina, mas não era no fundo. Os homens, por mais que se esforcem, sempre estão querendo agradar as mulheres. Mais observou as mãos de seda da Juliana que todas as dobraduras no papel.

Pronto. Foi um belo pretexto para iniciar uma conversa com ela. Estavam no ônibus, que sempre os levava e os trazia de volta para as suas respectivas casas. Havia dez minutos que ele a esperava. Foi quando ela surgiu com aquele sorriso de morango que, de todas as criaturas femininas que ocupavam aquelas poltronas, só ela possuía. Talvez fosse por essa razão que ele gostava tanto de conversar com ela. Alina, ainda enxergando o mundo sem viço, pensou se iria morrer de barriga vazia ou cheia. Era época de desaparição, ela sabia. Como sabia que todas os seus ornatos de pescoço agora eram joías mortuárias. Alina só sentia, mulher que era.

“Toma, é pra você!”

“Para mim?!”

“É. Fiz com muito carinho.”

“Ai, obrigada! Você aprendeu rápido, heim?!”

“Guarde-o, não perca. Você mesma me disse que dá sorte.”

“Tá bem. Vou colocá-lo em cima do meu criado-mudo.”

O Arnaldo acreditou. Nessas horas, todo homem acredita em sorrisos de morango. Juliana, delicadamente, pôs o cisne de sulfite branco em sua bolsa. O ônibus entrara em movimento. Da janela, a lua daquela noite não passava de uma lua, bem longe. Vítima de uma modernidade maligna, Alina ainda leu um conto escuro de um francês antigo e quis plasmar seu planeta inteiro. Internava-se em si mesma como faz a avestruz selvagem na terra que tem. Estava sem terreno, Alina. Varrida pela angústia, continuou a ler do livro amargo. Ela suspeitava do outro mundo que havia. Arnaldo era só um dos tempos. E sabia que, certamente, ele tinha coisas mais importantes para estar se preocupando. Ela disse:

“E aí, quais são as boas?”

“As boas?”

“Sim.”

“Ah, não sei.”

“Nadinha?”

“Hummm...”

Ele logo afastou a cortina vermelha e olhou novamente para o céu cheio de estrelas. Alina, em sua casa, suando frio mas delicadamente, entra na cozinha. Novos e seguros rumos para uma vida inteira de lamentação. Alina não gostava de ser apenas aquela em quem havia se transformado. Odiava ser só mama e ser só leite de criança. Odiava ser só roupa e ser só fralda. Odiava ser e ser já não queria. Caminho abalado e caminho interrompido. Interromper-se-ia. Era segunda-feira.

“Estás vendo? A lua, todos os pequenos astros, este céu...”

“Que é que tem tudo?”

“É tudo um jogo. Todos jogam, inclusive os homens.”

“Do que você está falando?”

“De que tudo, nesse exato instante e em todos os momentos de nossas vidas, não é mais que um quebra-cabeça.”

“Não. Pára com isso! De novo com essas conversas para o meu lado! Me faça o favor!”

Desconversou. É o que sempre faz um homem quando começa a sentir que está começando a ficar chato. Alina, do outro lado do muro, revisou uma intervenção. Julgou seus trinta e seis anos de idade como imprestáveis e vergonhosos. Tinha vergonha agora. Sempre teve, mas agora mais. A viagem do desbunde ela não havia feito. O tempo havia passado e ela sem reparar que todo o seu sonho estava falido. Sensibilíssima e tardia, Alina chorou um pouco. Arnaldo existia.

“Esquece... como foi o teu final de semana?”

“Foi maravilhoso. Eu não disse que ia comer uma pizza neste feriado! Pois então, dito e feito. Sei que estou mais gorda. Tenho de entrar em uma academia. Mas valeu a pena, estava uma delícia. Foi num rodízio, lá na orla.”

“Eu odeio pizza.”

“Por quê?”

“Não suporto. Sou ruim de boca.”

“E de que você gosta?”

“Do básico. Feijão com arroz.”

“Que pena!”

“Que pena, por quê?”

“Sei lá, de não gostar de pizza.”

“Não entendo.”

“Não entende o quê?”

“Não estou pedindo para sentir pena de mim. Eu apenas não curto pizza.”

“Ah, sei lá... esquece!”

“Tudo bem, vou deixar passar.”

“Hoje acordei triste.”

“Triste?! Com todo esse sol que baixou nessa terrinha!”

“É, triste. Muito triste. De ontem para cá não parei de pensar no meu ex-namorado. Éramos felizes. Sabe como é, não estou conseguindo suportar a minha solidão. Não me suporto. Não me dou.”

“Eu sei. Também já passei por isso.”

“É um mal universal, e só de pensar que milhões de pessoas já sofreram o mesmo tanto que estou sofrendo já me descansa. Mas está sendo difícil lidar com isso.”

“O meu relacionamento terminou faz seis meses.”

“O meu foi agora. Na quarta-feira fará duas semanas. Foi um desastre. Chorei muito, eu e minha mãe. O meu pai não liga muito para isso. Deve ter achado bom. Pensei que não ia sobreviver. Doeu muito.”

“Na época, pensei em suicídio. Aqui na cidade tem uma ponte, um rio... sabe como é, um cenário perfeito. Foi uma discussão besta pelo telefone. Não consegui acreditar no desfecho tão sem graça, diferente do início. Acho que todos os relacionamentos amorosos começam assim, mas aos poucos se desgastam, enferrujam e acabam morrendo. Comigo foi assim.”

“Mas eu o amava. Falava isso a ele todos os dias. eu não tinha vontade de viver com outra pessoa, queria somente ele, amava somente ele. pensava em casamento. Todos lá em casa pensavam em casamento. Foi duro. Não sei se vou suportar.”

“O meu foi parecido. Estávamos pensando nas alianças. Estávamos juntos, depois de muitos desencontros. Fazia cinco anos.”

“É horrível. Não estou me suportando. É simplesmente horrível. Ficar sozinho não dá. Mas, eu não entendo! Eu o amava, ele sabia disso. Eu o amava com todo o meu amor.”

“Querida, às vezes precisa-se de algo mais, de um complemento.”

“Mas eu nunca deixei faltar nada em nosso romance. Sempre o enchia de beijos, de carícias, de abraços. Não conseguia ficar sem ele um só instante. Eu o amava de verdade. Foi o meu primeiro namorado.”

“Agora tenho medo de namoros sérios, ou que se dizem sérios.”

“Não entendo. Às vezes você parece ser louco. Está falando uma coisa e, de repente, começa a blefar.”

“O bom mesmo é quando você encontra uma menina de cabeça boa, que não fica pegando no seu pé. Existem delas nas capitais, muitas dessas. Tive o prazer de namorar uma desse tipo. O nome dela era Cristina. Morava num bairro de grã-finos e não ligava para o meu jeito taciturno de ser. Adoro essas meninas. Elas não se importam com o que os outros falam ou vão pensar quando estamos do lado delas, de mãos dadas. Só se importam com elas e conosco. Fazem tudo por nós. Chegam a dizer “eu te amo” quando a comemos insaciavelmente e lhes damos prazer. Sabe, nunca disse “eu te amo” para uma garota. Aliás, minto. Demorei quase quatro anos, mas a ela eu tinha dito. Foi quase que uma obrigação. Mulheres nos obrigam a dizer que as amamos. É verdade, somos, depois de um certo tempo, obrigados a dizer “eu te amo”.

“Não vejo isso. Você é louco ou está ficando amalucado. Vocês parecem ser todos iguais mesmo. São todos iguais! Não se diferem em nada.”

“Acho que quem está ficando louca aqui é você. Acabou de me dizer que o amava de verdade, que fazia tudo pelo ragazzo. E agora vem com estas chorumelas... Então, agora rejeitas os machos?!”

“Não, eu não quis dizer isso. Você está me forçando a agir em confusão.”

“E , então?”

“Esquece. Tenho de parar de falar nele, de parar de pensar nele. Se eu continuar assim, não sei o que vai ser de mim. Sobre aquele “algo mais” que você me disse... me explica melhor!”

“Acho que não é o caso.”

“Por favor!”

“Um dia você mesmo vai descobrir. Como eu disse, é tudo um jogo.”

“Não enche, rapaz!”

“Você vai acabar descobrindo, sozinha.”

“Mas, eu quase nunca descubro algo sozinha.”

“Então, aprenda a despetalar!”

“Começou, você e suas viagens. Não gosto desse teu jeito obscuro de falar, sempre nas entrelinhas.”

“Não precisa ter pressa.”

“Já chega! Chega desse joguinho de merda.”

E, de chofre, levantou-se da poltrona e, sem se despedir, foi embora. Talvez estivesse chateada com ele, ou talvez não. Em casa, a justa imagem da isenção no recorte, Alina pegou de uma faca e, sem dó, enfiou em si mesma, na altura da aorta. Morreu aos trinta e seis anos de uma morte necessária. Só isso. Engendrada, nem jornal nem nada quis saber de sua dor. Mas o necessário havia sido feito, ele tinha dado o cisne de sulfite branco a ela. E também sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por revelar o que estava faltando naquele sorriso de morango. Disso ele tinha certeza.

Tudo inaudível


XV

Cádor,

Era você por trás de tudo. Uma névoa no dia e era fevereiro e depois março e logo era o abraço e logo era o corpo sendo penetrado e logo o orgasmo e logo o susto e depois a vontade. Homem de membros fortes, me reanima em fantasias e me é sexo e não disperso me castiga e penetra a fonte crua e nua de minhas sensações. Tremor. Homem de vime, homem de pêlos e membro edifício. Salto em edifício de homem que me é sexo e suga minha água que é vinda do sexo que faço com o homem que me transtorna. Você me faz abrir clareiras e vinga à face turva, orgasmo de quem só enxerga ninfa e penetra a vagina que é fêmea de homem forte solto em pernas e pulso e peso sobre minha fragilidade. Seu corpo se curva em meu corpo e palavra não é mais som. Tudo inaudível. Penetra a fêmea égua e entre nós, escapulário e nossa fé. Beijamos a boca da voz que dizia medo e nos afogamos no desejo. Sejamos santos. Somos espanto e nossa nudez é santa. Devora a fêmea que é a prova da verdade do tempo. Você vence. Eu venço. Você vence. Eu venço. Contorce corpo e beija a boca do verbo descoberto de meus seios em sua boca que tem versos.

Sua Virgínia.


**********

Amor,

Vejo agora através das janelas do tempo, que tanto nos presenteou com os mais eternos temporais de sentimento, o passar das horas mais macias e maviosas. Quando sinto a brisa a me tocar a carne do meu coração, acredito na chegada de primaveras cobertas pela singular beleza de tuas rosas e de teus lírios. Neste exato instante, recordo-me das nossas conversas quase engenhosas, já que imensas foram e sempre serão nossas imaginações, nossos planos, nossos sonhos... benditas serão as tardes a nos espreitar, a nos acolher o fogo que se acendia em nossos lábios, em nossos encontros e afetos. Benditos, também, eternamente serão os ventos que nos carregará para a mais longínqua das ausências terrestres. Lembro e tudo é como se não estivéssemos nesse mundo, como se não habitássemos aquela hora, como se não fôssemos aqueles seres deixando escorrer os mais secretos suores humanos. E como me são prazerosos esses suores... suores feitos das expectativas, das nossas cruas ansiedades, dos desejos, dos vôos e de vôos. A espera será o que mais me castigará. As madrugadas anunciarão as minhas dores e os meus dissabores, porque tudo que mais quero é saber do nosso eterno e terno tempo. Acordarei pensando em você. Dormirei pensando em você. E você será a minha mais certa ausência, a minha mais real desventura e tristeza, para depois o cataclisma de alegria e rubor. Hoje, a refletir sobre o passado, fico a sentir o tamanho da força que tivemos. Sim, somos duas criaturas fortes, unidas paredes de sangue e vida. E que o passo do tempo nada mude e, assim como um dia a beleza fica muda, não cederei de modo fácil à toda fragilidade que acontece exposta. E essa certeza, ela não mata, porque morro por pensar que não fui capaz de utilizar toda a minha fortaleza, por desperdiçar as minhas vontades em uma biblioteca de medos quando de nosso reconhecimento. Contarei ao tempo que ele é um triste perdedor, e farei do meu querer a lança que espeta de fúria o bojo de uma qualquer insegurança de olhos. Quero você feminina menina mulher. Sonho.

Somos um só.

Cádor

Fus de soidade


Por Germano Xavier

XII

disse um fu! com desprezo o moreno
disse um ai! cabeçudo de soidade

Doró esperneava enlameado das lamas
das cinzuras das desalegrias dos supostos
e tudo isso os de mal nas esquinas fácil
mas não deixa de ser bem almado
aquele que apeia o próprio fado não
nunquinha não deixa de ser aboiador
de regatos milagreiro e o mais simples
o mais de tudo que se queira crer
avuador leve o estar algodoando
os outros no justar da gente colheita

arante roçante o sulco na terra o
barro febril aberto plantador os sonhos
essas nossas aleivosias de interno abisso
lá longe aqui perto tudo e nada
o ser verbo azul esse demais o mar
é mesmo azul de vidro ele quebra
em ondas vontadeando a umidade eterna

disse um hale! guerreiro menino-fonte
não estranha terra estrangeira engole ela
cozinha ela ajeita no prato das sabenças
e te ergues dando garfadas sendo ela
você inteiro tua casa teu passaporte tua ida

Pastinho mais perto um dia a morte
um dia chega a hora de partir infinito
dividido cortantante partir da terra a fenda

dia de não poder dizer um fu! com desprezo
o moreno do mato garganta seca a hora disso

dia de dizer um ai! cabeçudo de soidade
lembrador passa tudo na gente essa hora vivi?

Poemas de amor


Por Germano Xavier

Meus poemas de amor não falam de Amor.
O Amor que escorre de mim
é antes a mágica fria,
a ótica das formas esquálidas
que vezes mentem;
outras, perfuram a carne
das lembranças, dos passados.

Não quero meu poema de amor
choroso, vagando por becos fétidos.
(Amor, a que fragrância te assemelhas?)
Inda ver quero meu poema de amor
esfaqueando almas sequiosas por brilho,
dilatando as regras amorais,
ceifando, sugando, matando.

Meu Amor cabe na palma da minha mão,
mas pode acabar com o mundo inteiro,
porque o mundo, sim,
o mundo é pequeno e frágil.

Meu Amor é rebelde; certa vez
fugiu de mim quando,
na noite estrelada e negra,
eu meninamente dormia.
E aberta a janela deixou...

(Tenho medo de perdê-lo)
Num dia chuvoso ele voltou
e fiquei tranquilo.

Meus poemas de amor mais parecem caligrafias.
São feitos das vidas,
dos frios,
das flores raras
e são muito meus;
nem assim menos teus.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Meninos, chapadas e nuvens


Por Germano Xavier

O menino carrega a lenha
em sua bicicleta.
A ladeira de barro é vencida;
mais um dia pragueja.
...

As casas apagam
os homens dormem
pequeninos.

Corpo estranho


XIV

Para você...


Eu preciso escrever. Preciso fazer isso de verdade, nem que seja só para mim. Só para eu ler. Páginas de diário ao vento. Penso em você como presença do sol. Mesmo chovendo, há sol. Amo você da forma mais humana que se possa amar. Defeitos expostos e seu sexo exposto e vejo perfeição até em sua inércia. Hoje faz pouco mais de uma semana e eu sabia - o tempo iria dizer o que realmente havia acontecido. Desde que sai de casa e tomei o caminho para encontrar você, pensei em todos os detalhes. Durante a viagem, não avisei sequer onde estava e você sabia que eu estava chegando. Quando liguei já era quase hora e quando cheguei, você me apareceu sorrindo tímido e gelado e era mesmo o urso polar que eu havia desenhado. Em minha ansiedade, me tranquilizei em cigarros e você odiou. Eu sabia que você odiaria. Eu também sentiria o mesmo. Mas não pude evitar. Era eu, Virgínia sozinha caminhando para ver alguém que talvez eu já conhecesse ou não. Era uma aposta do tempo. Eu e o tempo. Sem personagem para me esconder, agi como sou. Largada e preguiçosa. Complicada e simples. Frágil e trêmula. Como usei em um de meus textos, sou uma bola de neve ao sol. Amei você desde o primeiro texto que li. Seus poemas carregados de linguagem esquisita para mim, eram meu refúgio. Eu entendia seus poemas e os odiava. Porque falavam de um amor que estava em mim desde tanto tempo. E quando o vi - lá parado me pedindo um abraço, fui eu sorrindo e achando engraçado. Era engraçado ter me entregue a um homem que não sabia ser real ou apenas poesia bem escrita. E fomos juntos para o tempo que se consumia a cada segundo. E eu analisei seu gesto desde o início. Sua forma de andar, seus livros, sua cômoda cheia de coisas e também as formigas que caminhavam entre nós. Vi tudo e você era gigante no meio do quarto e do apartamento. Nossa primeira conversa, assim que larguei minha mala no chão e me sentei ao seu lado foi sincera. Eu não usei disfarce ou maquiagem para dissimular. E nos beijamos. Meio tortos, mas beijamos. Eu descobri seu gosto e você soube de mim. Depois do banho, conversamos mais e então os corpos tiveram o que há muito queriam. Você me rasgou como quem abre um envelope. Se enfiou em mim e suou em meu rosto e queria sempre olhar nosso sexo um com o outro. Fomos animais. Desde o início. Sou mulher e usada pelos dias. Eu conhecia movimento de homens, mas o que você fazia sobre meu corpo, não era humano. Era animalesco. Era o nosso sexo que estava escondido. Você sabia manipular - soube. Usou de seu corpo e fez tudo o que quis, eu acho. Eu amei sua bagunça. Sou mulher e criança, você sabe. Conheço línguas e livros e nunca havia sido penetrada com tanta força e raiva. Eu vi também que você se inaugurava em mim. Estava fazendo poesia ou conto. Sempre tentava se inaugurar. Seus olhos eram tímidos e a boca era silenciosa e os braços me moldavam e machucavam. Você deve ter procurado em mim resquícios de outros homens ou semelhanças com outras mulheres. Eu fiz isso. Eu analisei sua semelhança. E não havia semelhança. Era um monstro me devorando com amor de criatura que não sabe as profundezas da água. E você viu que sou feita de água. Por isso me entorto e fico gelada ou quente demais. E nós brigamos como antigos e você me fez chorar como antigos e eu fiz você se arder como antigos. Estávamos em um duelo para amar mais e explorar mais um e o outro. Não havia como isso não acontecer. Vivemos analisando paredes, borboletas e fraquezas. Nós sabíamos que éramos inimigos amando um ao outro. E a cada dia seu beijo me arrancava mais pedaços e eu tentei ser o que sou. Beijei você como beijaria a mim mesma e contorci meu corpo em orgasmos que eram violentos de amor e vontade. Eu queria você o tempo todo. Ficava úmida só de ouvir sua voz. Mas aí comecei a fingir não querer porque já havia me deitado com você tantas vezes e meu corpo pequeno não acompanhava a força. Mas eu quis e me machuquei. E era a melhor dor que se pode ter. Não sei que força machista levou você a me querer tanto e tão ferozmente. Você quis me comer, devorar e nos sufocamos. Não por estarmos enjoando um do outro, mas porque havia algo acontecendo. Não era simples e nós sabíamos que, desde o início, não era simples. Estávamos engolindo um ao outro e em essência de incensos. E o quarto era o mundo. E passamos dias sem perceber. E era sempre na hora de dormir que a diferença surgia. Assistimos filme juntos - eu dormi. E você tomou conta de mim e saía e eu sentia saudade. E doía só de olhar para você. Seu corpo imenso me agredindo e eu aprendendo que amor também machucava. E você sentiu o mesmo. Aquela sensação que temos quando terminamos de escrever um texto bom. Sabíamos que era diferente. Seria só uma semana de culto e veneração, mas não foi bem assim. Nunca pensei que seria assim. Você teve uma mulher para você - fui inteira e voltei em metade. Porque você me arrancou pedaços e eu trouxe parte sua também. Tenho ainda seu gosto em minha boca. Minhas mãos sentem sua forma. Quantas vezes amei você com minhas mãos e olhei você me ver diferente. Vi que você se assustou também. Algo estava nos modificando. Não seríamos mais os mesmos. Não somos. Voltei pra casa e para minhas obrigações. Cuido do meu corpo que anseia pelo seu. Me tornei sua mesmo. O tempo fez isso conosco. Minha literatura parafernália anda perplexa com a minha nova voz. Você me fez mudar. E sei que mudei você também. Você teve medo. Era eu que estava ali e não a sombra ou a imagem. Eu viva em você. E cuidamos um do outro e brincamos de amor e agora é verdade. Sempre foi de verdade. Eu falei pra você que só faria diferença com o tempo. Tudo teria que voltar ao normal para sabermos o efeito. E foi devastador. Não adianta dizer que minha mudança não está ligada a você. Está sim. Não sei amar versos diferentes. Não adianta dizer que não fui louca indo até você porque fui maluca mesmo. Encontrei o senhor de mim. O homem que me devastou e chorou quando leu um texto meu. E agora somos metades. E sei que fui diferente pra você. Talvez não um corpo inédito ou sexo diferente. Fui apenas quem sou e sei que sou diferente. Isso ninguém rouba de mim. E você também é singular. O tempo pode adiantar os dias e fazer tudo parecer pequeno e tudo que escrevi pode se tornar antigo, mas não iremos sumir. Porque foi violento, como você um vez disse. Você é estranho, silencioso, não escreve diretamente pra mim - não responde e-mails. Sou estranha também. Não gosto de sair. Não sou temperada pelo sol. Por isso somos unidos. Por isso não iremos sumir. Fomos alimento e ainda somos.

"Vocês sabem,
amar demais nos torna
seres frágeis,
quebradiços."


Virgínia Borges


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Eterno amor

Amo forte. Destarte, quero a ti agradecer por incutir em mim toda a grandiosidade da dúvida. Porque sou cada dia mais seu, e depois de tanto blefar jogando cartas impostoras, arranjo-me destinado ao fim que realmente quis. Pois que nunca quis uma mulher como quero você. E você apostou em mim. E sei, por essa forma e por assim relembrar meus pássaros azedos, o quanto fui cadeia e prisioneiro do passado. Falo de mim e minhas mãos têm a fotografia de um hospital de marcas e cicatrizes. Ao cabo que tudo se renova, agora, com você por perto, num tempo bom e inesquecível, sei do sufocamento a que me detive durante o suportar das mais íngremes distâncias. Mas você veio, me ensinou a pronúncia correta de palavras difíceis e o fato de estar longe de seus suspiros e suores secretos tornou-me homem adulto e sequioso pela sagacidade do melhor dos sentimentos. Quero dizer que te amo, Virgínia. Assim louco, tão muitamente que nem sei aferir origens e motivos. Quero dizer que te amo e que o meu amor não se conhece pelos pampas da deslealdade. Amo o amor verdadeiro, o amor que fomos e somos, aquele tido como proibido e impossível. Amo, pois, com a devida certeza de não estar escrevendo ao vazio da solidão, e o meu sorriso é o mesmo credor a quem deposito tua chegada serena e silenciosa. Silenciosamente vulcânica, explodindo de baixo para cima. O meu amor a ti, e somente a ti, pertence. És tu a proprietária do meu coração. Um coração que hoje é cordilheira de ares resolutos e lutadores, posto que decidi a quem jurar minhas forças. A profundeza de teus lampejos de lascividade e amor contorcem o meu mais puro e algoz sentimento: o de desejar-te para todo o sempre. Mulher que apedreja as minhas mais imprecisas fontes de tristeza. Mulher que no quarto escuro aparece nua em carne de auroras oníricas. Força estranha de meus devaneios mais imaginados e quistos. Fulguras em meu peito como a deusa que palpita a fonte da vida no mais alto dos lugares. Quando serás realidade diária e não delírio? És quem me queima feito o fogo da brasa incandescente e ligeira. Eu sou feliz por tua causa, Virgínia. Sou feliz e triste porque só posso me ser em total tormenta se estiver eu ao teu lado. Porque você deve saber que a estação que nasce e traz à tona as flores de uma primavera branda é a mesma que enraíza-me na maior de todas as angústias e na mais cabal das tristezas: a certeza de amar algo tão distante dos meus olhos. Contemplando este florescer de rosas vivas e coloridas, fico a imaginar os momentos lindos que vivemos juntos. Sob o céu, nossos encontros de incontáveis horas. Lembro-me de quando nos beijamos sobre o testamento de uma lua cheia no meio do ano e foi tudo tão lindo, tão lindo. Inesquecível, como o pássaro que pousou sobre o teu ombro e cantou a mais romântica cantiga de amor para a brisa que nos rodeava. Como passaria eu, aqueles dias de abrigo, frações de segundo mais demorosas sem ter você ao meu lado? Me diz, como poderia eu?! Como seria eu capaz de reunir forças para erguer-me sem senti-la ao meu sustento de braços? Como seria o amor? Como o mundo? Como, eu? Você foi a pétala inebriante das eternas fragrâncias perfumosas do amor, que tanto seduzia a mim para o espetáculo da vida. Foi você o fogo enclausurado em meu peito jovem, minhas primeiras palavras justapostas em forma de poesia, minha inspiração e aspiração em noite de sonhos não conquistados. E saboreei contigo o doce da relva verde em átimos que haveriam de ser cinza sem o teu cheiro. E quão doce foi o sabor do teu lábio, quão doce! E é justamente esta certeira afirmação de se estar momentaneamente longe das palpitações mais febris do meu organismo amante que fura o brio das serenatas e das madrugadas escondidas e misteriosas. Sem você, canto o canto mais apagado dos que se destinam ao mais nobre dos cantores: o amor. Despeço-me dizendo o que se tem a dizer das lamentações de um choro doentio: sem você nada sou e sou o que nada sinto ser na plenitude dos acontecimentos diários e mananciosos. Espero-te para um jantar de corpos enroscados pela face arfante das paixões humanas e doentias, porque sei que estamos apenas no começo de um tempo eterno. E você sabe que espero sempre o carteiro que entrega vida na tarde gaguejante de calor. Não deixo palavra sua morrer, Virgínia. E não viemos ao mundo a passeio. Não acontecemos por acaso e somos mais forte que qualquer míssil rasteiro que sorrateiramente aparece na tentativa de nos enfraquecer. Por você eu engravido o presente, Virgínia. Derrubo o abismo que existe entre o pensamento e o ato, porque nós fazemos acontecer. Artificializar já foi o maior dom de um artista, a qualidade mais desejável. Mas somos também a realidade que somos, arfante e mortal. E nosso sexo é o registro cambiante da veracidade de nossa linguagem. Você é mais valiosa que minha própria vida e sabe que te devoro. Umedeço meus lábios vermelhos da cor de todo o meu sofrimento para roubar-te o favo do doce mel que tem tua boca. Por final de situação, digo que morro se em pouco tempo não sentir o abraço quente de tua presença, se não possui-la como quem porta um diamante.

Você é o meu diário.

Teu Cádor, e uma flor.

Brasis



Por Germano Xavier

A relação existente entre o excerto do livro Raízes do Brasil, intitulado de "Novos Tempos", cujo autor é Sérgio Buarque de Holanda, e o documentário "Casa-Grande e Senzala", sobre a obra de Gilberto Freyre, faz-se essencialmente visível na tentativa de ambos em explicar o processo de formação do povo brasileiro através de diversas teorias, explanações, conceitos e interpretações. A obra de Gilberto Freyre discorre tendo em vista o mito das três raças - Branco, Índio e o Negro -, partindo do pressuposto de que a junção dessas três raças constituiu o alicerce fundamental para a "construção de uma identidade brasileira, realçando as parcelas de contribuição condizentes a cada uma, através de seus costumes, crenças, línguas, entre outros aspectos". No texto de Sérgio Buarque é notável o enfoque dado aos conflitos e perturbações dos povos que aqui viviam no período colonial. Há também uma preocupação na questão da chegada dos imigrantes (portugueses, em sua maioria), que ocasionou mudanças no modo de agir e pensar dos nativos, retratando também as transformações ambientais. Segundo o autor, os velhos padrões da colônia se viram ameaçados com a migração forçada da família real, no ano de 1808; tal fato fez com que o país deixasse o anonimato para começar a ser pensado como uma ordem nacional propriamente dita. Toda essa modificação, drástica e rápida, veio contribuir para a germinação de um "caos", de uma desordem que atingiu mais especificamente os modos de vida rural. Em "Novos Tempos", Sérgio Buarque mostra o apego da sociedade atual moderna ao recinto doméstico, uma relutância em aceitar a super-individualidade. O autor questiona a importância da leitura para o cidadão (indivíduo). O texto deixa claro a existência de uma preocupação exacerbada com a gramática, com o Direito Formal, com a retórica e com a palavra, elementos que eram utilizados na fomentação de uma nova "realidade", mais artificial e livresca; fator esse que colocava a intelectualidade num patamar de sujeito diferenciador e segregante, já que o livro e a sua rotineira leitura funcionavam como um instrumento de elevação e de dignificação para aqueles que o cultivavam. A posição social ou a mobilidade social, de acordo com o pernambucano Gilberto Freyre, não estava vinculada diretamente com a aquisição de conhecimento, ou com a leitura de livros, mas sim à cor, ao poder, à hereditariedade e até à quantidade de escravos que um senhor tinha. O livro e a leitura, assim como a cor e o poder eram fatores de repressão social. O documentário conta a formação do povo brasileiro, enfatizando o fato da colonização explorativa dos portugueses, o contato com os povos indígenas e os negros trazidos de diversas localidades do continente africano. Esse povo - o brasileiro - acaba tendo uma singularidade, uma caracterização intrínseca, apesar da complexidade do seu surgimento; surge um povo com hábitos e costumes próprios. A verdade é que Sérgio Buarque tenta, através do nosso passado, enxergar o futuro. O Brasil, diz o autor, tem muitas características ibéricas, e que é justamente daí que é construída a sua cultura. E então?

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Dejanira em acontecimentos


XIII

Poesia. Poesia e doses de metalinguagem. Quero bobagem e dormir tarde. Quero beijar beijos densos e remendar pequenos espaços, fininhos trechos de admiração. Quero o vulcão extinto de encontro a meu seio de fazer de conta que acredito em outra voz que não seja poesia. Quero jogar lixo fora e dentro de minha vontade aleatória de existir suprimindo a loucura. Loucura faz bem, mas transtorna. Então observa e cria sua nova linguagem. Enguia em traje lunar faz língua falar e arde enquanto a cena imprime seu bom gosto. Tem poesia dentro da noite fria e poesia fora de controle. Quero a ausência da perturbação. Quero a ausência de controle. E querendo, sem revolta, viajo desescondida na poesia que nasce feliz e, como outros, taciturnamente enraivecida. Poesia é grito cuidadoso que não acorda vizinhos. Poesia é falar baixinho e saber que qualquer som expira e somos analisados noite e dia por nossos próprios olhos. Míopes que enxergam homens na lua, mas não conseguem ver que trens escapam e ficamos na estação esperando a Poesia se pôr. Será feliz o míope que vive em nós?

Virgínia.

**********

Querida,

nossa cegueira é dor. E estratégias não combinam com o amar que é de verdade. A sabedoria não está na fuga, mas no suportar. E improvável seria a ausência das minhas lembranças. Hoje vejo mais e como posso esquecer, tentar desfazer o que já foi feito, materializado pelo tempo e por todas as visões que nos bebiam? Como atuar assim, palco sem texto? Meus olhos, Virgínia, que hoje desconfiam, já se pronunciaram de maneira mais lírica. Não preciso repetir. Você me ensinou a crescer sempre, e eu aprendo quando tu falas. Os poemas já tiveram o amor, e o amor as palavras. O olhar que a você atirei foi laço, túnica de Dejanira: meu desejo de eternidade. Meu olhar se perdeu em obtusos ângulos, fechados em minha espécie escura, difusa e dicotômica, e hoje só alcança a tua luz. Seu feitiço fez de mim um homem sem interesses vários. Eu só sonho você. Meu sonho tem nome, rosto, sexo e sentido. Tuas laranjeiras me são florestas. Eu, uma folha seca, ainda verde. O que acontece? Por que assim? Hoje, não te enxergo mais com antes. Antes agora é presente e será futuro. Sei que devo estar agindo de forma desnaturada, mas é justamente isso que me faz viver.

Um estendido Cádor.

Anforal


Por Germano Xavier

Grãos de lua em minh'alma.
Pétalas de sombra
cobrem meus recantos
de pássaro, crescem lâmpadas
escuridão cintilante de ser
e de estar
contido
em redomas, campânulas
cor de violeta
quando borboletas ainda crisálidas.
Sibilam árvores. Ventos,
na tentativa de raízes arrancar.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Cantares de preservo


Por Germano Xavier

I


guardei o que não se guarda,
lâmpadas de deserto, películas sem cor,
eternas canções de águas rasas

e alguns amores tantos - outros nem -,
valises inabitáveis e uma baça dor...
e sendo assim, eu, nu e em face levantada,
no fechado navio de machucados peço

que nunca se apercebam de mim,
mesmo se em transe estiver o meu estado,

eu, este pobre molhado,
que só guardou o que jamais seria fim...

Arrebatação


XII

Desliguei o telefone, tomei ares e me quebro só de imaginar que hoje pode ter se aberto uma porta que sabíamos que, um dia, iria se abrir. Mas sou fantasiosa e não perco meus degraus. Não perco amor só por estar longe e por ter notado - "sim, ele vê uma verdade que não sou". Não sou serpente que lança feitiços, o tempo não me fez assim. Você quer me conhecer melhor, irá me conhecer e virá à minha cidade me ver - marcaremos horas e lugares. Te arranjo até grana, faço tudo, faço tudo para ter o meu poeta comigo. Você vai me olhar e ver que sou assim... como vou descrever... e saberá se me quer, se sou ou se serei apenas uma lembrança para dias de cadeira de balanço. Cádor, é assim que o chamarei porque esse é o seu nome. Cádor é o meu mundo. Acabei de ler sua carta e nunca me fizeram tão viva como você faz com suas palavras. Você me acorda todos os dias, falando claro em meus ouvidos - e acordo esfomeada. E procuro você e já vejo sua mensagem. Uma poesia matando dias iguais. Mas nada é igual na verdade. Nada parece se repetir. Ontem você me deu suas horas, sua voz e poemas de meu poeta favorito. Você me adorna com seu ritmo e acelera minha morte de amor por ser sua metade que anda pela vida. Sou o que represento. Você é a voz que me canta em realidade e força de homem. Você é o homem - feroz e cheio de mim. Sou sua. Pode me arrebentar e esperar e me furtar de meu mundo. Comerá de mim tudo o que posso ser por você. E amo você, Cádor. Amo não de invenção, mas amo como mulher que respira Cádor e abre as pernas e se deixa penetrar por você. Somos parte de algo que já existia mesmo antes de nos conhecermos. E beijo a sua boca agora e me aninho em seus braços e ouço a voz mais bela. Estou com você - "rabiscando o sol que a chuva apagou" e "esperando o meu passar".

Sua fêmea, Virgínia.

gosto do meu corpo quando estou com o teu
(e.e.cummings)

gosto do meu corpo quando estou com o teu
corpo. é algo completamente novo.
Músculos melhores e mais vigor.
gosto do teu corpo. gosto do que faz,
gosto dos seus modos. gosto de sentir a espinha
dorsal do teu corpo e seus ossos, e o tremer
constante-tranquilo que
outra vez e outra e outra ainda
beijarei, gosto de beijar-te aqui e ali,
gosto, de afagar lentamente a indecorosa penugem
da tua pele elétrica, e isso que vem
sobre a carne despida … E grandes olhos amor em migalhas,

e gosto talvez do calafrio
que me passa de ti absolutamente novo
(Tradução de J.T.Parreira)

Um poema do cummings. Me traz você a cada leitura.

**********

Virgínia,

Desejo que teu colo me preserve dos mais cruéis instantes que terei de atravessar. Sei que ainda é cedo, mas as proeminências da vida mostrar-te-ão o quão realmente quis você, o quão generoso e amante lhe fui, o quão sincero. Porque quis o bosque florido em épocas secas, e você me deu. Porque quis eu as asas coloridas das mais belas borboletas, e você me presenteou sua ternura. Porque sonhei dormir à sombra de uma árvore e ver ao longe uma revoada de garças triunfantes, e você encostou o teu rosto ao meu, fazendo do silêncio a expressão mais bela do teu afeto. Quis minha lágrima a escorrer em teu seio, e você trouxe a mais fina flor de todos os jardins. A estrela mais luzidia que fulgurava na mais remota constelação confundia-se ao imaginar tão borbulhante o teu brio. Lancei âncoras de sentimentalidades no mais azul dos oceanos, e você se tornou o canto apaixonante da jovem sereia. Você foi tudo que um coração vivo bombeia. Foi você o endereço mais certo para as minhas inspirações. Contigo degustei o passar das horas mais ligeiras, a quentura dos lampejos feminis mais bárbaros, a incerteza de se querer estar vivo. Devo agradecer por estar tão distante das demais almas femininas, tão irresolutas e indignas do amor. Devo dar graças por ter me revelado as diferentes faces do amor. Por tudo, devo-te. Somente uma coisa machuca-me. É esta certeza de se estar tão distante, esta agonia de não poder senti-la - como se fosse a única capacitada a tão rara arrebatação. Fico a esperar-te de novo, deitado sobre a mesma relva do passado, e que nada mais é que a saudade de sua trágica singularidade. Porque o que há entre nossas almas é um picadeiro, uma companhia inteira de acrobatas e trapezistas desafiando a altura mais imprópria para o derradeiro salto mortal, o do amor que mata lentamente.

Até mais ver.
Cádor

Diálogo para fim de papo


Por Germano Xavier

Braga é o homem do acontecido e inicia o discurso:

- Quanta saudade, Helena!
- Imaginei que estes hematomas te impediriam de enxergar a realidade inconsciente que você produziu.
- Como assim, inconsciente? Eu estava sob o efeito do álcool, não havia um gole sequer de consciência naquele meu gesto.
- Rá, rá, rá! Ah, não?!
- O que tem de engraçado nisso, Helena?
- É que os sinais de uma consciência, plena e madura, não florescem nos instantes mais precisos, não acha?
- Qual a razão para tanta ironia?
- Você sabe...
- Fale! Continue!
-Continuar o quê?
- Diga porquê eu não lhe devo matar.
- Se você me odeia, mate-me.
- Eu te odeio porque te amo. O ódio é o amor em excesso, sabia?!
- Rá, rá, rá... não me faça rir, por favor.
- Amar também é ser fiel a quem nos trai, eu te perdoo, juro.
- Nelson Rodrigues deve estar se pocando de rir... quem está com o punhal não é você, por que você não me mata logo?!
- E quem disse que este punhal é pra você?
- Se não é pra mim, é pra quem?
- Lentamente este punhal irá retalhar um coração despedaçado.
- O que é isso?
- Adeus, Helena.
- Não, não, não... filho da puta, você não merece isso... se matar por mim... desgraçado, covarde!

Me dá essa desgraça, eu vou também...