sábado, 26 de novembro de 2011

Chuva


 Por Germano Xavier

“Você está chovendo hoje”, foi o que ouvi na faculdade de jornalismo. Eu perguntei o que aquilo significava e fiquei sabendo que era coisa boa. Sim, talvez, poderia até ser, mas a água que jorra em mim é mais uma água salgada que doce. Não consigo parar com toda esta angústia, toda esta sensação que o tempo apenas vai, passa e não espera. Que faço diante de tudo isso? A chuva em mim não é torrencial, é uma chuva passageira, espero...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Flicts


 Por Germano Xavier

Flicts foi o primeiro livro publicado de Ziraldo, datado do ano de 1969. Livrinho fantástico, feito de imagens, formas, cores e palavras, que conta a estória de “elevação” de uma cor muito singular: a Flicts. Comprei o livro no sebo Rebuliço, em Petrolina, numa tarde de calor e a leitura do mesmo logo me tomou pelos dedos e vistas. Depois de lido e relido, usado em aulas de leitura em escolas por onde passei, o livro agora segue viagem para a pequena Sofia Gama, em soterópolis, que adora brincar de brincadeiras que tenham um carteiro no meio. Que Flicts lhe seja a nave sem volta nesta fantástica aventura que é a literatura, Sofia! Agora é só esperar o carteiro com o teu envelope-presente...

Gigo e as formigas



 Por Germano Xavier

Parecia até que Jesus Cristo tinha acabado de chegar em Juazeiro, aqui, bem longe ou perto, no norte baiano. Um formigueiro de formigas tontas! Meu Deus, que evento! Sensacional! O evento do ano, quiçá da década! Inesquecível esquecer do foguetório dizendo “venham ser também formigas tontas! Venham ver as novidades aqui no formigueiro de formigas tontas!” Eu passei e vi as formigas tontas, todas tontas, meu Deus! Será que foi Jesus mesmo quem desembarcou aqui? Será, meu Deus? O que será que será, meu Pai? “O que era aquilo?”, perguntei. “Nada não, foi só a inauguração de mais um supermercado.” Pai, perdoe as formigas!

Tudo, outra vez!


 Por Germano Xavier

Ainda sobre o “pitaco” inicial, é bom que a poesia não fique apenas na primeira impressão. Ainda é cedo. Quem viver, verá! É que ontem eu olhei para Maiane, colega de Letras, e perguntei irônico se ela já não sabia de tudo o que a outra professora estava vomitando lá no meio da sala. Demorou uma demora curta e logo surgiu um sorriso de pimenta. “Já sim, já sim, parece que ouvi esse discurso três vezes ano passado”, falou. Ela faz Pedagogia na universidade onde também curso Jornalismo. Pior que é Prática V e ainda teremos mais três outras Práticas pela frente. Será mal de quem cursa duas faculdades? Quem viver, verá!

Modesto à parte


 Por Germano Xavier

Eu pensei ter perdido a poesia há um certo tempo, tempo de morangos azedos, e errei foi feio o alvo. A dita cuja me veio de novo, agora sorrindo um sorriso de sapato alto. Um mule. Blusa roxa, corte vertical preto. Lantejoulas. Cabelo loiro na altura do queixo. Pingente de borboleta. Presa? Não! Voável! Relógio, pulseira. Mão esquerda e mão direita, respectivamente. Óculos, batom e, principalmente, Bakhtin. Dois anéis em dois artelhos da mão esquerda e Saussure deixado de lado. Eu pensando cá... será mesmo? Esquece, sou poesia de novo. E tem novo: Isva Modesto. Professora de Linguística II.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Poema de batida


 Por Germano Xavier

Bate tum-tum
no coração...
Bate torto,
e o som
coagula
um eco estrondoso de fim.

domingo, 20 de novembro de 2011

Moedas


 Por Germano Xavier

Vou escrever um poema de um fim.
Acabou aqui.
Minha vida é minha e minha morte é minha.
Acabou aqui.

sábado, 19 de novembro de 2011

Traduzido


 Por Germano Xavier

A tradução é um ato impossível. Schopenhauer estava certo quando disse que “todas as traduções são necessariamente imperfeitas”. Os homens, nós homens, estão, diariamente, tentando fazer alguma espécie de tradução, sem suspeitar de que estão apenas correspondendo palavras e idéias, e não unindo os sentimentos na direção da vida em liberdade. Eu fico aqui pensando com os meus botões se é mesmo possível interpretar sensações ou fugir da naturalidade com que elas nos chegam. Não seria melhor abrir o peito duro e permitir a entrada do vendaval da poesia da vida, sem mentir algum discurso inacabado ou manipulado a nós mesmos e por nós mesmos?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Nada muito sobre filmes (Parte XXII)

*

Por Germano Xavier


NO CORAÇÃO DO MAR

NO CORAÇÃO DO MAR (2015), do diretor Ron Howard, está em cartaz nos cinemas. Como se trata de mais uma produção cinematográfica envolvendo o clássico da literatura MOBY DICK, uma das narrativas literárias mais especiais de toda a minha vida, não poderia deixar de assisti-lo. O filme não parte da obra em si, escrita por Herman Melville, mas da história real do navio baleeiro Essex, que saiu do porto de Nantucket em busca de óleo de baleia ali no inverno de 1820 e que serviu de inspiração para o livro do renomado escritor norte-americano. O filme consegue transmitir o imaginário do livro e pode até surpreender aos mais desavisados. Merece, sim, o ingresso. Aos apaixonados por narrativas marítimas, a la Melville, Conrad e Hugo, minha total recomendação. Aos que não estão dispostos a ler as 600 páginas do livro, o filme pode servir de caldo. "Esguicho, Capitão! É ela! A baleia! A baleia branca!"

GUERRA MUNDIAL Z

GUERRA MUNDIAL Z (2013), do diretor Marc Forster, até que começa bem e vai e vai e vai... naquela coisa-toda de zumbis, colapso total, apocalipse, patriotismo etc e tal. Mas aí, da metade para o fim da fita, o filme vem e vem e vem, num retrocesso de vagar as mais tenras expectativas... Conclusão rápida: é só mais um filme nesta perspectiva.

O ZERO NÃO É VAZIO

O documentário O ZERO NÃO É VAZIO (2005), dirigido por Andrea Menezes e Marcelo Masagão, é por demais sensorial, extremamente poético, sestrosamente silencioso. O lugar da escrita em cada um de nós pode ser considerado o tema dominante, mas a película vai além. Um documento visual sobre o escrito enquanto pele, sobre a palavra e suas potências de reforma, sobre o símbolo e a irreal realidade, sobre a física dos atritos e o carbono dos nossos traços fundadores. Dica de uma meninaCarol, num entrelaço de moça Helena, bem-que-nem poderia ser diferente... Recomendo a todos os mortais!

LOUCA OBSESSÃO

Se você é como eu, que gosta de um filme que consegue mesclar drama e suspense, não pode deixar de ver LOUCA OBSESSÃO (1992), do diretor Rob Reiner. A película é baseada no livro "Misery", de Stephen King, e oferece fortíssimas emoções a quem ousar assisti-lo. A primeira vez que entrei em contato com este filme foi numa aula da disciplina Literatura e Cinema, quando ainda cursava Letras na UPE/Petrolina, aula esta ministrada pela professora Clau G. de Lima. Alguns anos depois, pude revê-lo meses atrás. Ainda surpreende do mesmo jeito. Filme (in)tenso. Recomendo a todos os mortais!

REZA A LENDA

O filme REZA A LENDA (2016), dirigido por Homero Olivetto, tinha tudo para dar certo. Infelizmente - infelizmente mesmo! -, não deu. Fraquíssimo do início ao fim, com atuações levianas, estereótipos já batidíssimos e um roteiro sem pé nem cabeça nem cotovelo nem nada. A alcunha de "MAD MAX Tupiniquim" não serve nem aqui nem na china. De 0 a 10? Um 2,5, só pelo fato de fugir do gênero comédia, praga-mor de nosso cinema.

O CUBO

Eu devo ter levado umas três semanas para terminar de assistir ao filme CUBO (1997), do diretor Vincenzo Natali. Assisti aos retalhos pelo simples fato de o filme ser muito ruim - tudo não é uma questão de gosto? Como faço de tudo para terminar o que começo, foi o jeito ir até o final. Dizem as más línguas que este filme serviu de inspiração para a série JOGOS MORTAIS. Algumas discussões podem até brotar diante da trama... Porém, enquanto filme, não vale o tempo empenhado.

GABRIELA

O filme GABRIELA (1983), de Bruno Barreto, baseado em livro homônimo de Jorge Amado, remonta-nos ao sul da Bahia, ali pelos idos de 1925. Gabriela (Sônia Braga), retirante de beleza e sensualidade estonteantes, causa um verdadeiro furor nos redutos por onde transitam os coronéis do cacau. O filme distorce bastante o livro, explora o "erotismo" presente nas personagens e pode facilmente não encantar os olhos mais exigentes. Todavia, não é de perfeição extrema que se fazem os clássicos. A película, com todas as suas falhas e sangrias e clichês, não deixa de ser uma boa pedida para quem deseja adentrar na filmografia nacional. Recomendo a todos os mortais!

400 CONTRA 1

400 CONTRA 1, dirigido por Caco Souza, narra a história da fundação do Comando Vermelho, uma das organizações criminosas mais emblemáticas do Brasil. O filme se passa entre as décadas de 70 e 80 e foca a trajetória dos primeiros líderes de um movimento que criaria todo um conjunto de normas de conduta entre presidiários, invocando a solidariedade e a união por parte dos presos. O cenário principal é o presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. O filme é baseado em livro escrito por William da Silva Lima, um dos mentores do CV. Um filme simples, mas que cumpre o que promete. Vale a pena dar uma conferida, bucaneiros. Recomendo a todos os mortais!

O CAMINHO DE SANTIAGO

O documentário O CAMINHO DE SANTIAGO (2010), dirigido por Paulo Coelho, mostra o escritor em uma espécie de revisitação, anos depois, ao famoso trajeto de Santiago de Compostela que, segundo reza a lenda, serviu de base para todo o seu desabrochar espiritual, inspirando-lhe livros e mais livros. Sem querer entrar em detalhes sobre o autor de O ALQUIMISTA e parceiro musical do ilustre Raul Seixas, a película vale uma olhadela por nos revelar algumas facetas interessantes acerca da tão estimada trilha dos peregrinos do mundo-todo. Também, não passa muito disso.


* Imagem: http://www.bing.com/images/search?q=cinema&view=detailv2&&id=2EE53894EE40F2D1741AF4A409D70F08173A36B6&selectedIndex=88&ccid=3P1gcyfO&simid=608044035711436927&thid=OIP.Mdcfd607327ce2a4cc0c86942a8109fe8o0&ajaxhist=0

Num dia em que o sol não veio muito

*

Por Mailda Dias Braz

para o Germano que conheci


num dia em que o sol não veio muito
(ele prefere nuvens e sombras)
e que o mar estava calmo
(ele prefere o silêncio)
numa sexta-feira treze
(ele prefere o mistério)
nasce um menino feito de sonhos
poesia e inquietações

seus silêncios e suas
expedições para si
e para o mundo das palavras
logo o fazem peculiar
(entre árvores, ele chove)

um sujeito quedo
(conheceu paraísos infernais
e infernos paradisíacos)
poeta em viagem
(sem rumo) em busca
de palavra-significados
(ele prefere sentir)
em constante versejar
para estar
e viver a palavra-sabor-poesia

ele rabisca papéis
e as palavras escrevem o seu destino
com tintas de amor
na palma da mão do mundo
ele é chuva serena

poeta e poema
ele é palavra em dor
(prefere ir a não chorar a volta)

ele faz sentidos
e cria religiões
o segredo de seu olhar
é olhar mais fundo
ele é verde-musgo
é musgo
ele é caos
um astro em contramão
um poeta


Imagem: http://www.deviantart.com/art/Black-Sun-570406528

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sobre moinhos de se fazer o tempo

*

Por Germano Xavier


"Pensei, quando não tirana, é ciranda a vida. Ciranda."
(em Os mortos não comem açúcar, p.34)


OS MORTOS NÃO COMEM AÇÚCAR, de Alexandre Furtado, é um lançamento da Editora Confraria do Vento para o presente ano de 2016. Furtado, professor e amante da literatura, inova no livro. São 14 contos (os 14 não gerariam uma novela?) que, ao final, narram uma única história. Assim é, pois assim parece ser. Impressão. Iniciado pelo conto Tão logo a noite acabe, ao som de Para um amor no Recife, de Paulinho da Viola, o livro finda com um Aos céus um pedido, que flui é mesmo ao silêncio de todas as estações.

O primeiro conto, supracitado no parágrafo anterior, recobra-se em um pacote com roupas íntimas e a lembrança viva eterna de um amor aniquilado no antes por incompatibilidades no que tange ao pensamento político por parte de duas famílias, uma peça-colégio que reconta faíscas memoriais. Imagens que flutuam nas águas das sedes. Em Assim, quando menos se espera, um beijo sem querer, o inesperado, no bar, no fim da noite. E as ruas recifenses. Travessias. Em O melhor das meninas ou todas as horas de minha vida, o encontro na Casa Dez, bordel onde todas as máscaras pareciam cair. Cantos de Ossanha. Em É jogo, a década de 70, Copa do Mundo, as relações humanas mais triviais. Nossos festivais de carne. Nossos carnavais.

Em todo o restante, e desde a página primeira, lascívia, sexualidade, vinil do Cartola, visgos do amor, almas quentes, sambas, praia, o povo, uma moralidade distendida, a década de 70, a vida comum, o tempo que passa passageiro, a saudade impressa no corpo, a febre e o clima, o antigo Recife, as curvas atenuantes nas dobras das pontes da Veneza brasileira a bordo dos ônibus elétricos, o abuso sexual, Manuel, o audaz, as querências por melhores passos vitais, uma classe média, uma ditadura, uma dor de viver e de sentir como um punhal cortante, que mata por dentro, que esfacela, que esquarteja, e o amor demais, o amor-pecado das putas que segredam o enredo dos desamores ainda mais putos, olhares e versos de um Chico Buarque.

A putaria rolando solta em verbos moralistas dialogados, um compêndio de questões imagéticas abrangentes, vindas por baixo e por cima, a versar sobre infâncias rememoradas e/ou inventadas, sobre escorpiões que nos envolvem e nos atacam na porta de casa, no portal da vida nada exemplar de cada um, livro de conversas e cirandas, acordes de Talismã do Geraldinho, de afeto pela cidade de um tempo inteiro, pela capital insana dos sempres, gigante e provinciana, acerca da vida, que “é um exercício de solidão” e não é, segundo o poeta Ésio Rafael, uma obra que pontilha a vida comum e sem perspectivas maiores de pessoas também comuns dotadas de risos e lágrimas, vidas Caetanas, do Veloso.

Uma experimentação literária que descabidamente pode enganar o leitor desavisado, contos-partículas que formam uma só história imperiosa, umas só-tantas estórias por que não também severinas?, retratos de um mangue fértil que são os nossos corações, os nossos pulsos de todo instante, e a banca dos distintos..., as grandes belezas miúdas do cotidiano, que de tamanhas nos engolem e nos carregam impiedosamente para dentro das tramas, das páginas, nos transformam em letras, em lero-lero, em ruas, em rios, cenários, amores, um opúsculo com referências pontuais à literatura e à música brasileira de ótima qualidade, uma Olinda de prazeres, os ardores transviados, as revelações da vida em vida, as revelações dos caráteres de nós todos, o reflexo de um progresso dos anos 60 e de uma decadência da década de 80, um 70 no meio, perdido nas intempéries das auras de um grande SER coletivo, repleto de bem-quereres, de mal-quereres.

Destaco dois contos: TRISTAM SHANDY C’EST MOI ou O BEIJO DE LÍNGUA e UMA HISTÓRIA ASSIM É OUTRA. OS MORTOS NÃO COMEM AÇÚCAR é um livro cheio de sentidos, aguçador por natureza, construído por mãos que tatearam as realidades e as belezas possíveis, mesmo invisíveis aos olhos dos que meramente passam, certamente insuspeitando de suas devidas importâncias para a construção do mundo. Furtado não se furta, deixa-se. Empresta-se. Doa-se. O leitor se delicia com 14 pequenos voos extraordinários que, de tão incertos e inseguros, extravasam todo um correio confidencial de nossas emoções, eis o resultado.



* Imagens: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2016/05/21/alexandre-furtado-lanca-livro-de-contos-no-roda-cultural-236748.php e http://www.domingocompoesia.com.br/2015/10/entrevista-com-alexandre-furtado.html

sábado, 12 de novembro de 2011

Germano na Macondo


É com grande satisfação que informo aos leitores e amigos do blog O EQUADOR DAS COISAS que a edição número 3 da revista literária MACONDO traz em suas páginas um poema de minha autoria.

Acesse o site e baixe em PDF ou leia em formato "normal" digitalizado.

Ótima leitura!
Continuemos, bucaneiros!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Nada muito sobre filmes (Parte XXIII)

*
Por Germano Xavier


DOMINGUINHOS

O documentário DOMINGUINHOS (2014), dirigido por Mariana Aydar, Eduardo Nazarian e Joaquim Castro, elabora uma narrativa panorâmica do artista pernambucano Dominguinhos, nascido na cidade de Garanhuns no ano de 1941 e falecido em 2013. O ilustre sanfoneiro de Luis Gonzaga também logrou imenso sucesso como cantor e compositor, deixando para o cancioneiro da MPB músicas imortais. A película consegue emocionar sem insistir em rebarbas clichês, tanto no que se refere ao formato do vídeo quanto ao conteúdo exposto. Recomendo a todos os mortais!


O REGRESSO

O REGRESSO (2016), do diretor Alejandro G. Iñarritu, é sim um bom filme, de roteiro bem pontuado, narrativa de impacto e muito bem produzido. Porém, não é a melhor atuação do DiCaprio nem o melhor filme do diretor, como andam dizendo por aí. A tensão atravessa todo o longa, mas o final é morno. Esperava bem mais. Oscar? DiCaprio nem precisa disso, sejamos francos.


BOI NEON

BOI NEON (2016), dirigido por Gabriel Mascaro, conta a história de Iremar, jovem interiorano que lida com gado desde muito cedo, mais precisamente no trato deles em dias de vaquejada, como cocheiro, mas que sonha em ser estilista e trabalhar com moda. O cenário escolhido não poderia ser outro: o agreste pernambucano, pólo têxtil dos maiores do Brasil e local de inegável tradição vaqueira - cenas gravadas em Caruaru-PE e Santa Cruz do Capibaribe-PE são facilmente identificáveis. BOI NEON beira o "filme de arte", com cenas longas, ruptura de paradigmas relacionados a gêneros e clímax desfigurado. Nem o exagerado apelo das cenas de sexo e de nudez conseguem tirar a boniteza-estranheza do filme. Vale o ingresso e não espere um desfecho, adianto. O sonho, bucaneiros, vez ou outra não ganha corpo. O que há, quase sempre, é somente a realidade. Recomendo a todos os mortais!


NOVE CRÔNICAS PARA UM CORAÇÃO AOS BERROS

NOVE CRÔNICAS PARA UM CORAÇÃO AOS BERROS (2013), do diretor Gustavo Galvão, é um drama brasileiro que traz como mote aquele momento de nossas vidas em que pensamos em decidir o rumo dos nossos passos futuros. São nove historietas que se entrelaçam pelo gatilho do caótico instante da mudança, do reacerto vital. Da garota de programa que se cansa da labuta diária à figura do corretor de imóveis falido que almeja o bote final, uma derradeira cartada contra suas mortes cotidianas. Eu achei que faltou criatividade. A narrativa se alonga em arrastos e o filme morre cedo em monotonias e escuros no roteiro. E vocês, bucaneiros, o que me dizem sobre?


ELLIS

ELLIS (2015), de JR, com Robert De Niro no elenco, passeia pelo hospital da Ellis Island Immigrant Hospital, local que serviu de porta de entrada para milhares de pessoas que sonhavam adentrar os Estados Unidos clandestinamente. Nesta mesma ilha, localiza-se a famosa Estátua da Liberdade. De Niro percorre os aposentos do velho hospital revisitando as memórias de algumas das pessoas que por lá passavam, representadas no filme por imagens coladas nas paredes do hospital. O curta explora por demais as vozes da fotografia. O silêncio, na película, vocifera. Recomendo a todos os mortais!


UM ESTRANHO NO NINHO

Em tempos sombrios de mentes alienadas por incontáveis estuários midiático-institucionais lobotômicos, nada mais animador que rever um fantástico filme para nos abalar as entranhas, cujo protagonista representa um personagem-líder de poesia viva no sangue. Em UM ESTRANHO NO NINHO (1976), de Milos Forman, Jack Nicholson vive sob a persona de Randle Patrick McMurphy, que simula insanidade mental para fugir dos compromissos do "mundo real". Depois de alguns conflitos para com as regras sociais, é levado para um hospital psiquiátrico. Lá dentro, promove revoluções em seus colegas internos, ironizando o procedimento ao qual é levado a fazer ao longo de sua permanência no local. Mais um clássico dos anos 70 que não podemos passar sem. Para aprender sobre liberdades. Recomendo a todos os mortais!


AMY

Uma menina linda com dotes vocais impressionantes, um sucesso construído com o tempo, porém quase-imediato, um corpo alimentado por entorpecentes os mais variados, um mundo com-sem significados baseado na celebrização e na espetacularização além-do-humano. O documentário AMY (2015), de Asif Kapadia, revela um pouco do que foram os 27 anos de Amy Winehouse. Restou-me a certeza (há alguma?) de que mataram Amy aos poucos, todos, sem exceção, família, carreira, namorados, mídia, fama, certeza (repito, há alguma?) de que inclusive ela mesma acelerou este processo. Certo também de que uma voz tão singular não se apaga facilmente. A voz (as vozes) de Amy e sua paixão pela música de qualidade se expandem no tempo e no espaço. Recomendo a todos os mortais!


* Imagens: http://www.deviantart.com/art/Cinema-Paradiso-457441127

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Um poema de cinema



 Por Germano Xavier

depois de todo aquele drama,
a atriz coadjuvante
abre os braços em liberdade,
no grande retângulo de paisagens aprisionadas.

Sem perceber, ao meu lado



 Por Germano Xavier

o garotinho, doze anos não sei,
na verdade um grande garoto,
maior que todos de sua rua,
e disso ele sabia...

tinha os olhos de alguma ave de rapina,
sempre ágeis, perfurando
a presa, esse mundo,
que também possui os iniciantes.

são tantos os acasos que,
por acaso, numa tardinha
elaborada, rascunhei seu tipo
futuro:
mais um marceneiro das palavras.

Pequena crônica residual sobre a vizinhança

*

Por Germano Xavier


Ele deve ter entre trinta e trinta e cinco anos. Ela, apesar de aparentar ser mais velha, deve ter mais ou menos a mesma idade. O casal tem dois filhos entre oito e onze anos. Moram numa casa boa num bairro bom da cidade. Parecem razoavelmente harmonizados. O único problema é o amor. Explico: todas as manhãs acordo com o grito dele chamando-a de amor. Mas não é num vocativo carinhoso como os casais costumam chamar. Ele grita: Amor! Amor! (amor isso, amor aquilo), com tanta raiva e agressividade que soa a qualquer ouvido como se ele a tivesse xingando, a ponto de estrangulá-la. Não é uma briga, apenas em conversas do dia-a-dia. Desde a primeira vez que ouvi registrei essa incoerência na palavra-entonação. Nunca imaginei que uma palavra pudesse carregar tanta carga emocional apenas na forma como a falamos. Aquele amor mais parece ódio. Nunca olhei o rosto dele enquanto pronunciava isso, mas tenho certeza de que sua face também não expressa o amor. A intensidade da aversão em sua voz é tanta que dá um certo medo ouvi-lo chamando-a de amor com tanta fúria reprimida - o detalhe é que ele não a xinga, nunca, chama-a apenas de amor. Como um vocativo carinhoso pode ser uma agressão? Algum dia entenderei? E isso acontece com mais frequência do que meus ouvidos aguentariam sem protestar. É de arrepiar. Ele grita amor e é ódio que ouvimos. E assim, ele imprime em uma palavra doce todo o amargor de seus dias.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/hope-45579848

Pintando o corpo



 Por Germano Xavier

é prematuro o sorriso da felicidade.
os portões
fechados das ruas entreabertas de sombras...

cortei
um naco de sombra ao meio,
e meu ato fez surgir uma revoada
de pássaros

- fantasmas que foram pousar longe,
no outro escuro da vida, na mais
inalcançável colina,
onde toda a luz adormece,
pelos séculos...

O sapo



 Por Germano Xavier

eu não posso caminhar
assim
sem ver
sem ser
o pulo
o sapo

principalmente
sem ser o sapo

Epigrama sobre coisa nenhuma



 Por Germano Xavier

papas na língua,
cobra criada.
salta da boca
a fera indomada.
e o homem, ingênuo,
espanta-se do nada...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Aos seres de liberdades vivas



 Por Germano Xavier

tudo isso em meu sonho incólume,
de trejeitos peçonhentos e irreais.
tudo isso que se enraíza
e que, após um longo período
sugando a seiva da terra,
voa as asas do pertencimento,
e do querer mais puro.
tudo o que fumega o progresso
e a inconstância das colheitas.
tudo o que aos flancos desejei
sem acionar sequer a mão sedenta,
e todas as glórias trabalhadas
durante o exercício da vida.
são esses seres de liberdades vivas,
por vezes indiferentes à mim,
que me ensinam os truques
da arte de passarinhar.

domingo, 6 de novembro de 2011

Da pesquisa ao ensino: múltiplas abordagens pedagógicas para o ensino de gêneros (um fichamento)

*

Por Germano Xavier


BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Da pesquisa ao ensino: múltiplas abordagens pedagógicas para o ensino de gêneros. In: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 213-227.


INTRODUÇÃO

“A pesquisa sobre a aprendizagem e aquisição de gêneros tem disponibilizado aos professores metodologias úteis para a aprendizagem situada e para a promoção da metacognição que conecta o conhecimento novo ao já adquirido (p.213).”


2. MÚLTIPLAS ABORDAGENS PEDAGÓGICAS DE GÊNERO

“Amy Devitt (2009) defende que, embora as pedagogias de gênero “partilhem uma compreensão dos gêneros como social, cultural e linguisticamente encaixados (...) diferentes pedagogias de gêneros resultam (...) da ênfase em diferentes preocupações teóricas (p.214).”

“Ann Johns (2002) identifica três diferentes abordagens pedagógicas de gêneros, baseando-se nas tradições teóricas anteriormente identificadas por Sunny Hyon (p.214).”

“1) A abordagem da Escola de Sidney, que é um currículo sequencial cuidadosamente desenvolvido a partir da linguística sistêmico-funcional (p.215).”

“2) O inglês para fins específicos (ESP), que embasa uma abordagem para o ensino de gêneros específicos (frequentemente, gêneros disciplinares) e para o treinamento nas características formais e funcionais desses textos (p.215).”

“3) A nova retórica (p.215).”

“A essa taxonomia poderíamos acrescentar uma quarta abordagem – o modelo educacional ou a abordagem didática brasileira (p.215).”

“Enquanto as abordagens da Escola de Sidney e do ESP se movem do contexto para o texto, e a nova retórica, da análise textual para o contexto, o modelo brasileiro começa com uma produção inicial do gênero baseada no conhecimento prévio e na experiência dos escritores, depois passa para a análise do gênero nos contextos retórico e social, culminando com a (re)produção do gênero, tendo assim como foco a consciência do gênero, a análise das convenções e a atenção ao contexto social (p.216)”.


3. PEDAGOGIAS IMPLÍCITAS DE GÊNEROS

“Os estudantes escritores partem de um amplo esquema sobre o discurso acadêmico, baseado em seus escritos e tarefas escolares anteriores, e esse esquema é modificado quando se deparam com uma nova tarefa de escrita ou com um gênero específico de uma disciplina (p.217).”

“Freedman defende o ensino de gêneros através da imersão dos estudantes na escrita de gêneros (p.218).”


4. PEDAGOGIAS EXPLÍCITAS DE GÊNERO

“Mary Macken-Horarik (2002) descreve a abordagem da LSF como uma “pedagogia explícita” na qual “o professor introduz os estudantes às demandas linguísticas dos gêneros que são importantes para a participação na aprendizagem escolar e na comunidade maior (p.218).”

“[...] Désirée Motta-Roth (2009) aplica uma abordagem da LSF a contextos educacionais brasileiros, propondo uma pedagogia que enfatize a relação recíproca entre texto e contexto (p.219).”

“A abordagem de gêneros de Swales teve um significativo impacto sobre o ensino em EAP e ESP (p.222).”


5. PEDAGOGIAS INTERATIVAS DE GÊNEROS

“Embora se refiram a abordagens de gêneros para diferentes públicos (estudantes da educação básica versus estudantes universitários), o modelo dos ERG e o modelo brasileiro promovem métodos múltiplos e sobrepostos que desenvolvem habilidades cognitivas relacionadas com a consciência de gênero, ensinam a aquisição de estratégias linguísticas ou textuais e mostram como o conhecimento cognitivo e textual de gêneros é moldado pelo contexto sociocultural (p.227).”


Imagem: http://www.unoeste.br/facopp/noticias_visualizar.php?id=1109

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Tegumentos


 Por Germano Xavier

o vento estrangeiro entra
pelas brechas da cortina azul,
caminha colorindo as brancas
paredes de pedra e seus irmãos,
os vendavais, fazem dançar
o fruto na madureza.

há no ar que invade a linha adaptável
de se escorregar no tempo, como uma certidão
para se dobrar desafios. mas o que é verdade
não é o vento, muito menos sua entrada.

nestas horas, há somente a pele
em desaviso, na ação da surpresa inequívoca
a fertilizar a vida nos poros como quem germina
um terreno de guerreios descontinuados.

Tarde, noite


 Por Germano Xavier

O silêncio deitado,
sobre a cama, escuta.
Qualquer coisa que se diga,
qualquer indagação,
não arrecada forças o bastante
para atravessar a sala muda,

o corredor mudo.

Meu amigo que dorme, repartido
no chão sem-chão, morto?
Um tempo adormecido...
Sentem sono, as horas?
Meu amigo que dorme, quietamente,
inquieta-me dois pares de espanto.

Estico o braço.
Busco o relógio na mão direita.
(Terá respostas?)
Aqui dentro, os pássaros não chegam.
Lá fora a tarde, muda,
pousa diante de um alçapão.

Volumes para além de um amor



 Por Germano Xavier

Ó, Diadorim! Onde te escondes?

Na noite, apareça como a lua,
o dia na face
de um girassol
que navega nestes ventos azuis
...

Tu que és maior que o amor,
sentimento de imensidão e fogo!

Queima-me em carne, Diadorim,
na travada batalha dos meus dias!

É preciso merecer-te, por dentro
das águas negras transparentes
do interior da significância humana
Condição eterna de jovem ser.

Sejais tu minha solidão distante,
com o encanto de uma rosa livre,
para que o ferido amor jamais se acabe
na amarga eternidade de um instante.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Tombo



 Por Germano Xavier

vem descendo,
lúcida, entregue ao tom do batom, ela vem
sem som, no abafo dos zunires, vem
improvavelmente, dura na queda,
e de quebra, bate a cara contra o muro,
e já nem sei se ela vem.

mas vem, sem cara de dor,
infalivelmente, dominada
pelo peso do corpo lhe esmagando
as trompas, dopada, vem em flor,
com fulgor – é certeza, ela vem.

no térreo se esborracha, senhores a acodem.
é preciso alguém chamar – um guarda grita.
ela retruca, espatifada, ainda com ouvidos:
- não, não! é preciso alguém amar!

Sonho



 Por Germano Xavier

Das coisas, que a vulgaridade
se interrompa em arabescos.
A imprecisão branca das paredes
do discurso toca
o vago, a nada-matéria.
O silêncio me existe.
Eu só escuto as janelas,
entreabertas e nuas,
a pintar os pássaros
que pousam ainda verdes
nos umbrais da aurora.
E para viver, de nada mais
necessito.

Soneto trincado



 Por Germano Xavier

Pego-me pensando em como seria
o homem de sonho despojado.
Em seu império como um rei acuado,
a vida, assim, que motivo teria?

Num arbusto, em espinhos, pasmo estaria
ao ver o amor no cais ser atracado.
Quem nunca quis ter sido amado?!
E por que em noite foste tu tão tardia?

Quis apenas um sonho ter perdido,
não ter de viver no presente frustrado
e ao infinito mar ter me rendido...

Quem dera não ter eu agonizado,
e no teu colo preso estar detido,
e de sonhos não me sentir abandonado.

Soneto do poema bonitinho


Por Germano Xavier 

Para Jason Mathias Pimenta

Eu mesmo quis fazer um poema bem feitinho,
que já na primeira estrofe, assim feito
um passarinho, voasse um vôo perfeito
e fosse, mesmo sem jeito, um menininho

de pé descalço e cara rasa olhando o céu,
malinando um seu dizer, como um seu achar
de verso. Um homenzinho proezo a burilar
no seu cantinho uma sextilha pra cordel.

Que no seu meinho já não dissesse do seu fim
nem espantasse o iniciado, porque o bom andado
da história não são segredos revelados, mas, sim,

contente perambular pelo percurso do achado.
E que no fim, sem medo, esse mesmo rapazinho
pudesse, baixinho, dizer: “meu poema é bonitinho”.