sábado, 31 de dezembro de 2011

O último texto do ano


Assim eu quereria meu último texto do ano, que fosse menos palavra e mais humanidade minha para com os outros – meus leitores, meus amigos, meus conhecidos -, que fosse menos semelhante a todos os outros escritos que escrevi e dissesse algo que realmente as pessoas estivessem necessitando ler, ouvir, escutar, incorporar. Sim, assim eu quereria o meu derradeiro texto do ano, que fosse menos código e mais sentido, menos maquinal e mais sangrado, que bulisse com algo pétreo das almas dos moradores do mundo e que fizesse acordar nossos passarinhos internos de voar, de seguir, de acreditar. Eu teimo, assim eu quereria o meu definitivo texto deste ano que está terminando justo no agora, hoje, depois de amanhã, talvez, que fosse, ele, menos bobo e que fosse mais poesia, porque é de poesia que estamos carecendo. Estou falando de Todos!

É clichê, muito rodado, muito mais velho do que imaginamos, mas a maioria ainda envia votos de “Feliz Ano Novo!” para as pessoas mais queridas de suas vidas. Tradição é tradição, e não é lá muito fácil mudá-la da noite para o dia. Muito se deseja nesta época do ano, onde tudo parece fechar um ciclo dentro de suas próprias existências, onde tudo parece se amalgamar em um só pacote de recortes e recordações, impelindo o ser vivente à efetuação de um balanço de final de rota, de cota. Assim como os pedidos, que parecem não parar de se multiplicar nestes últimos dias, as promessas, sejam elas as mais triviais ou as mais esdrúxulas possíveis, também sofrem grandes avanços e estocadas em matéria de popularização em meio aos costumes de nós, homens e mulheres do planeta Terra.

O que fizemos de Nós neste ano que termina? O que ficou de tudo? Em que deu o nosso eterno buscar? Quem responde? O passado bate à porta nos incutindo um ressentimento pesaroso, mesmo quando sabemos que não deixamos muita coisa para depois, mesmo sendo diretos e menos arrogantes. O passado, nestes dias de finalizações festivas, parece punir a todos com um sentimento de remorso ou culpa pelo que nos faltou ser elaborado ou vivido no antanho. O passado, preso em seu próprio labirinto de reminiscências e fatos, furta as cores mais felizes e já no primeiro dia do ano nos força a correr mais ainda, a não medar tanto nossas falhas de outrora, a observar mais os passos que estarão para serem dados no ventre do primeiro mês deste monstro ainda misterioso: o Ano Novo.

O que seremos de Nós no ano que aponta o horizonte do recomeço das pautas das civilizações? Mais trabalho, mais conquistas, mais desterros, mais pecados, mais dúvidas, mais aventuras, mais encontros e desencontros. E o que seremos de menos? O futuro, tal qual uma manjedoura, importa do olvidado um baque medular que faz estremecer a carne mais dura. É o dia de nascer de novo chegando! O primeiro dia do ano parece esconder a mais sutil chance que temos de decidir por novas escolhas ou seguir acreditando no que apenas conseguiu dar certo em algum dado momento do ano que agora envelheceu. O futuro nos livra da culpa imediatamente após o passado nos roubar gordas fatias de orgulho, e vai, vai, vem, vem vindo... Bem-vindo, Sr. Ano Novo! Mas... o que faremos do futuro com mais 365 dias pela frente? São muitos dias pela frente, não?. Não sabemos, ninguém saberá. Só resta ir amanhecendo a cada nova hora.

Foi o poeta mineiro-do-mundo Carlos Drummond de Andrade quem me disse que fazer votos de fim de ano e início de ano ainda vale um pouco a pena, pois apesar de tudo lidamos com o poder da palavra. Amanhecer talvez seja mesmo o segredo da felicidade, i.e., ir amanhecendo. Porém, saber amanhecer requer muito aprendizado e dedicação. Talvez nenhum ser humano tenha sido capaz de absorver a sabedoria dos amanheceres plenos. Muito difícil, muito difícil, pois é coisa de Tempo. E Tempo, você deve suspeitar desde o princípio, Tempo é bicho escroto. E em minha pouca liberdade gerada de meus esforços contínuos, busco a fonte de minhas resoluções (fica a dica): o pensamento.

E nele pensando, digo: assim eu quereria o meu primeiro texto do ano, que fosse mais aberto aos corações fechados e neles adentrasse sem receio e eles implodissem como uma bomba-relógio, que fosse menos matéria e mais natural, menos palco e ator e mais público, capaz de entrelaçar luzes antes consideradas perenemente dispersas. Deste modo, eu insisto, eu quereria o meu texto inaugural no ano que morre-nasce e se renova, que fosse mais umbilical e menos artifício, que dissesse aquilo que eu nunca fui capaz de dizer por mera incapacidade ou negativo alumbramento ou frondosa alienação, que ele me libertasse de amarras e ferrugens e pudesse refletir uma mensagem de esperança, primeiro em mim mesmo, depois no outro que eu fabricarei baseado em mim.

Andemos!, andemos!, andemos por estas ruas pipocando fogos de colorir céu, andemos! Andemos, pois, na órbita de nossos planetas interiores, andemos, estocando em reflexão um pouco mais de energia para o perigo de viver que é constante. Jamais saberemos do que somos deveras capazes de inventar, fazer, colocar em produção, dar luz. Por conseguinte, um pouco de prudência também não fará mal a ninguém. É justamente desta forma que quereria o meu primeiro texto deste novo ano que nos moderniza, que se apresentasse, ele (o texto) completamente em branco, para que possamos ter mais espaço para cometer mais e mais erros transformadores. Assim, nestes esconsos tons, eu quereria o meu Feliz Ano Novo. E você?

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Aula de vôo


crianças em cadeiras
balançando as pernas sem tocar o chão
revelam que flutuar é divertido

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Um tom


pelo braço enevoado avançam dedos
de ânsia
roçam as unhas em lavra e traste
(ecoa um tom)
casas abrem portas e o som
das cordas
gemem emparelhadas

a vida, ritmo sem acorde, toca
a música impune do Tempo
que soa e se desgasta
sem o gasto passo da silente marcha


Segundo poema da série Preto-e-Branco: Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um olhar sobre o livro Clube de Carteado


Ana Lúcia Sorrentino fala sobre meu primeiro livro, o Clube de Carteado (2006).

O que faz o poeta ser poeta? A necessidade de poetar. Ter natureza de poeta. Ver o mundo com olhos de poeta e sentir a vida com coração de poeta. Embora em 2006, aos 22 anos, Germano Viana Xavier afirmasse ser seu sonho um dia escrever um poema, em Clube de Carteado, do mesmo ano, sua escrita deixa claro: é poeta. No precisar traduzir em palavras tudo que vê, tudo que percebe, tudo que sente. Na maturidade precoce. No perceber-se velho, apesar da pouca idade. Uma velhice que vem do muito pensar, do muito questionar, do muito sentir. Com a mesma incoerência com que é poeta sem saber-se poeta, Germano diz não saber o que é o amor, e não saber falar do amor, mas tem no amor componente fundamental de sua poesia. Germano ama. Ama a vida, as palavras, a poesia, ama o Amor. E dele é capaz de falar lindamente, com uma só palavra – amor - e alguns sinais de pontuação, como faz em Poetrix. E como diz tudo dessa forma!

E – novamente a dualidade - embora afirme (e isso, cá entre nós, pois são conversas de bastidores) não ligar muito para a natureza, Germano ama a natureza. Talvez esse poeta nem tenha consciência do quanto há de natureza em seus escritos. Se tivesse nascido em Sampa, com certeza a literatura que produz seria outra. Mas nasceu em Iraquara, cidade da qual se orgulha (?) e que imprimiu em sua poesia essa marca, a presença constante da natureza. É assim que, percorrendo as páginas de Clube de Carteado, nos deparamos com a noite, a lua, nuvens, o mar, a água, peixinhos, cavalos, borboletas, andorinhas, trovões, pedras... e crianças. E uma compaixão, uma compaixão que vaza de Germano e chora no papel palavras tristes de um desalento prematuro.

Por tudo, é de se imaginar que o autor tenha tido uma infância feliz. Mas, pelo extenso vocabulário e pela destreza com que lida com as palavras, sendo tão jovem, é possível se especular que seus brinquedos preferidos, ainda na infância, provavelmente tenham sido as letras, as palavras e as infinitas possibilidades que elas lhe apresentavam. Adulto, vai brincar seriamente com elas, como faz em Drama, em que, apesar de falar de dores humanas, usa o recurso lúdico de só usar palavras iniciadas pela letra D. Ou como quando inventa suas próprias palavras, como a linda senhestrelas, que de tão bonita bem que merecia ser adicionada ao dicionário.

Amante de outros poetas, por ter o hábito de dialogar, em seus textos, com os autores que lê, Germano nos proporciona agradáveis encontros fortuitos com escritores de peso, o que acaba sendo um prazer adicional.

Questionador, há momentos em que suas poesias são perguntas:

Para que serve o eu
se não há “eu”
sem os outros?

E é então que, já prenunciando o que viriam a ser seus escritos mais maduros, encontramos não só poesia, mas também um germe de filosofia.

Enfim, lendo Dos Frutos me flagro enternecida com a auto-reflexão:

Para mim, poeta é fruto
verde:
amadurece...

Germano afirma ser Clube de Carteado uma arma contra as arbitrariedades e desrumos do homem no mundo. Mas também afirma que escrevê-lo foi como cometer um crime. Como leitora, posso dizer que, com certeza, tal crime já teve absolvição. Porque sua leitura, em muitos momentos, coloca, sim, um sorriso no rosto do leitor e em muitos outros cutuca doloridamente suas feridas. Se era dessa certeza de que precisava para sentir que valeu a pena, o que tenho a dizer é: valeu, Germano. Sinta-se compensado.

Ana Lucia Sorrentino
28/12/2011

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Três livros para crianças


Li, recentemente, três livros infantis realmente muito empolgantes e até, em um dos casos, emocionante. São eles: “Chapeuzinho Amarelo”, de autoria de Chico Buarque e ilustrado por Ziraldo, “Adivinha quanto eu te amo”, de autoria de Sam McBratney e ilustrado por Anita Jeram e “A festa no céu”, conto do folclore brasileiro reescrito e ilustrado pela escritora Angela Lago. O primeiro é uma reinvenção do famoso conto de fadas clássico “Chapeuzinho Vermelho”, que sofreu impacto fortíssimo na esfera de sua popularização a partir da adaptação feita pelos irmãos Grimm. O músico e escritor Chico Buarque cria uma personagem que alterna o medo parcimônico de si mesma para com as coisas criadas pela sua imaginação com a descoberta de que o medo é uma coisa que só pode ser vencida a partir do instante em que se encara a essência desse mesmo medo. Chapeuzinho Amarelo morria de medo do lobo até o dia em que o conheceu. Dali em diante, frente a frente com o monstro que povoou sua mente por muito tempo, ela faz do lobo o que ela quer, literalmente. “Adivinha quanto eu te amo” é a história, das três, que mais burila com o emocional do interlocutor. Num diálogo rápido entre o Coelho Pai e o Coelho Filho, o amor entre os dois se transforma no centro das atenções durante o transcorrer das páginas. O Coelho Filho quer provar ao pai que o ama mais que ele o ama, por intermédio de comparações inusitadas, mas por fim dá-se um interessante desfecho que, claro, não vou contar aqui. Por último, “A festa no céu” narra a história de uma corajosa tartaruga que resolve criar uma alternativa para ir à uma festa no céu, lugar onde só os bichos que possuíam asas podiam chegar. Escondida dentro de um violão, que foi levado lá para cima pelo vôo do urubu-rei, a tartaruga consegue chegar à festa, com muita astúcia, mas é descoberta pela mesma ave que a carregava na volta para a terra, e algo muito interessante é revelado. Enfim, para quem gosta de ler e que também não rejeita um bom livro infantil como tira-gosto, estão aí três boas pedidas para o fim do ano. São também três indicações preciosas para presentear aquela criança especial que vive em algum canto deste mundo de situações inimagináveis...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Preto-e-Branco: Poesia


Inicio hoje mais um departamento aqui no blogue O Equador das Coisas, a seção Preto-e-Branco: Poesia. A idéia é juntar as potências poéticas de uma imagem com a força semântica das palavras. Simples assim: a partir de uma imagem em preto-e-branco, escreverei um poema. A autoria das imagens será sempre da fotógrafa baiana Daniela Gama. A intenção, no futuro, é transformar este projeto num livro. Sendo assim, tenham todos uma boa leitura imagético-palávrica!


Um dito no Equador


pendula no Tempo
marcado no branco do vento
o negro da sombra caída
o espírito acerbo que socava
a planície morta da hora
o aventado impropério dito
no equador das coisas
sem tumba sem poço
sem fosso nem nome

A história do sorvete


No intervalo de leitura de um e outro livro, geralmente com narrativas de grande fôlego, gosto de ler livretos infantis ou histórias que eu deveria ter lido em outras épocas, mas que por um ou outro motivo não tive como efetuar a devida leitura. E seguindo esta rotina, o mais recente livrinho infantil que li foi “Kimi e a História do Sorvete”. O livro conta as aventuras de Kimi, uma menininha de apenas 7 anos, e de Kauê, seu irmão de 14 anos. Os dois resolvem usar a imaginação para poder viajar no tempo e conhecer a história do surgimento e do aperfeiçoamento desta guloseima universal e muito saborosa, que é o sorvete. Os dois, apenas com o poder de suas mentes, desembocam numa China muito antiga, depois visitam Alexandre, O Grande, na Macedônia, conhecem o viajante Marco Polo e no fim são apresentados a Frank Epperson, o inventor do picolé. Em cada lugar, Kimi e Kauê descobrem como o sorvete evoluiu com o passar do tempo. Para a criançada, jovens e para os adultos que, como eu, não desprezam o poder de toda e qualquer palavra, um livreto escrito por Patrícia Engel Secco, com ilustrações de Daniel Kondo. Boa leitura!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O que você vai dar de presente neste Natal?


Uma boneca de olhos azuis que repete frases mecânicas em inglês para o seu sobrinho também ultramoderno? Uma caixa de chocolates de diferentes países para o marido chocólatra e alcoólatra? Uma passagem para o mais novo país da moda no Leste da Europa? A velha e boa blusa 100% algodão para o irmão mais velho que não esteve nem aí para você durante todo ano que está findando? Ou você não está podendo fazer escolhas tão apuradas assim neste fim de ano? Faltou organização com as finanças? Faltou sorte com os novos investimentos? Faltou poupar mais? Faltou trabalhar e se dedicar mais? Faltou ter mais paciência e não agir tão impulsivamente? Faltou olhar mais para si? Ou faltou faltar alguma coisa para que você pudesse perceber que tudo está dentro da normalidade e na ordem do dia? A democracia é isso (ou não?), temos tudo nas mãos, uma gama infindável de escolhas, um mundo inteiro parece se mover aos nossos mínimos comandos, e ao mesmo tempo temos a impressão de que nada temos e de que nada somos, posto que tudo está em falta, principalmente nas gôndolas do Ser. Todavia, não faltam superlojas e supermercados nas supercidades, não faltam super-homens nos campos da mídia a nos avisar que basta um cartão de crédito dentro de nossas carteiras para termos superpoderes e superdestinos. Estaríamos vivenciando o supercapitalismo, onde todo mundo é rei e bobo da corte ao mesmo tempo? Creio que não há dúvidas. Todo mundo entre aspas, convenhamos. Porque quem é rei de verdade nunca perde a majestade, não é verdade? Nessa humanidade, vamos lá, 10% são reis de verdade, o restante não passa de um bando de bobos da corte, fazendo o que os reis investidores de Wall Street ou manda-chuvas de Brasília & Cia ou celebridades do Fantástico Mundo da Fama mandam e desmandam em nossos corações e mentes. O sino pequenino já vem batendo e apontando um novo ano em nossa frente, mas antes das luzes das inúmeras e reluzentes árvores natalinas serem acesas em sua totalidade, eu quero insistir neste questionamento: O que você vai dar de presente de Natal no Natal? Como todo bom velho ditado que vai sendo transportado pelo tempo geração após geração, dizem que quem dá também gosta de receber (não pense bobagens, por favor, o assunto é sério), estou errado? Apesar de parecer, até porque não gostamos de pensar em nossos mais reles atos, esta não é uma simples questão. Presentear não é uma atitude destituída de sentido ou algo sem significado. Pelo contrário, presentear é ceder algo em acréscimo a outrem, ou pelo menos deveria ser visto dessa forma. O presenteado, por sua vez, quando ganha o presente, ressignifica-o, dentro de suas possibilidades de compreensão e elaboração sígnico-real, num gesto quase que automático, num evento de abertura e nunca de fechamento ao novo. O outro que recebe, destarte, passa a acessar um conjunto de possibilidades que antes, sem o objeto ganhado, o carinho recebido ou o afeto compartilhado, não seria capaz de sentir e viver naquele justo instante. Portanto, se você não conseguia ver o seu bonito gesto com tamanha amplitude, peço mais atenção da próxima vez em que você for escolher um presente, seja ele qual for e para quem for e em que época do ano estiver. A gente cansa de pedir coisas, reclamar por outras, e termina por não oferecer ao mundo nada para que o tão sonhado “mundo melhor e mais justo” de que tanto almejamos realmente possa ultrapassar a barreira das utopias. Dia desses, conversando com uma amiga, perguntei o que era que ainda podia ser feito para que pudéssemos mudar o mundo, mesmo que poucamente, ou simplesmente o que poderíamos fazer para que nossas ações não passassem em branco durante a vida, sem nada ter deixado de bom para o próprio mundo, e eis que ela me respondeu com algo muito simples e lógico, e não menos inteligentíssimo: “Fazendo com que os pais eduquem e criem os filhos para serem pessoas generosas, menos egoístas, mais amáveis, mais "humanas"... aí sim o mundo poderá ser menos cruel. Deixar filhos melhores para o mundo ao invés de pedir um mundo melhor para os filhos...”, foi a resposta. Curta, grossa, direta, praticável, possível. Talvez seja este o caminho para o tão distante “mundo melhor e mais justo” de nossos sonhos. Ou, quiçá, um dos caminhos para tal. Deixar filhos mais dignos e sabedores das essenciais práticas humanas talvez seja mesmo uma fórmula infalível para derrotar tanta desigualdade e mau-caratismo que muito assola e contamina o nosso planeta. Aí eu pergunto a você novamente, querido leitor, que presente é este capaz de atingir o brio de um ser humano e provocar nele reformas interiores tão profundas que até o que tende a vazar de si após seu usufruto pode revolucionar o próximo? Muitos podem citar, e sabiamente até, o amor, o carinho, a gratidão, o respeito, o apoio, a perseverança, a humildade, entre tantos outros sentimentos que, querendo ou não, são primordiais para o bom encaminhar de uma pessoa perante o desenrolar da vida. Mas, e no campo do material, que objeto teria este mesmo papel? Não fique triste se você não sabe a resposta ou não conseguiu pensar em nada plausível, a realidade brasileira (não seria mundial?) ainda impede a visão clara de tal fato. É do livro que estou a falar. Não há objeto mais completo que um bom livro, assim como não há atitude mais transgressora que uma boa leitura (corrijam-me se eu estiver errado, por favor). Eu sei, você pode não gostar tanto assim de ler, eu entendo, mas não custa nada insistir um pouco nisso. Quem sabe depois de um ou dois livros realmente especiais você não se torne um leitor voraz de palavras e mundos também inesgotáveis e acabe mudando de idéia... Um bom livro impede o operância na gente da pior das pobrezas, a da alma. Um bom livro oculta inverdades e desenforma certezas. Um bom livro ensina a andar, a falar, a agir. Um bom livro cura uma doença. Um bom livro faz um morto ressuscitar. Não acredita? Eu entendo. Eu posso estar sendo meio romântico demais, mas pense bem, depois de saciadas nossas fomes físicas, é o estômago de nossas almas que necessita de alimento. E isso, um bom livro pode resolver facilmente. Então, você já decidiu que presente vai dar àquela pessoa especial neste Natal? Não? Tudo bem, ainda dá tempo de fazer sua escolha.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

Motivações infames para o ir


observamos o cotidiano
produzimos o cotidiano
não respeitamos o cotidiano

qual a tua experiência no Tempo, homem?
pode haver mais realidade no homem
do que na própria realidade
qual realidade?

formas breves nos compõem
de fragmentos nos alimentamos
a unidade do todo é apenas um deserto
o único dicionário dita verbetes do inexistente
e nenhum acordo desregra o que burla

em pedaços estamos
passo a passo giramos
para onde não somos
para quando não irmos

para o plano
dos fundos

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Eu estive em Palmeiras

Resolvi escrever sobre lugares importantes em minha trajetória de vida, mais precisamente sobre minha passagem nesses locais, que geralmente eram/são cidades, tentando investigar um pouco do que em mim ficou incrustado no que tange às absorções adquiridas por meio das mais diversas experiências de convívio e também de aproximação-afastamento pessoal-interpessoal após minhas chegadas, andanças e partidas nos/dos referidos territórios. E para começo de conversa, parto do meu objeto primeiro de análise: a cidade de Palmeiras, Chapada Diamantina, Bahia, Brasil.


Apesar de eu ter nascido em Iraquara, também Bahia e Chapada Diamantina, no meio do ano de 1984, fui ainda muito pequeno para Palmeiras, cidade que fica situada na Chapada Diamantina Meridional (Centro-Sul baiano) e que possui cerca de dez mil habitantes. Por necessidades de diversas ordens, meu pai montou lá um consultório odontológico e levou toda a família – mãe, meu irmão mais velho e eu, além de meu tio Jackson, no auge de seu adolescer, e tempos depois duas secretárias do lar para auxiliar nas necessidades caseiras. Meu pai trabalhava para a prefeitura da cidade e também atendia na cidade de Lençóis, juntamente com Dr. Freire, com quem ia em seu Dodge Polara num determinado dia da semana.

Dessa época, não me recordo de absolutamente nada, absolutamente nada mesmo, pois eu era realmente muito infante. Segundo pesquisas de institutos importantes, o ser humano só começa a guardar imagens memoriais a partir dos seis anos de idade, e eu ainda não tinha essa idade quando em Palmeiras residi por aproximadamente dois anos, portanto não posso mensurar muita coisa vivida naqueles idos... Desse tempo, só guardo algumas poucas fotos que venceram a barreira das horas que teimam em amarelar os papéis e que porventura ainda sobrevivem em minhas gavetas imiscuídas a outras fotografias mais recentes. Todavia, diz meu pai que a atmosfera de Palmeiras, em meados dos anos 80 do século XX, era a de uma típica cidade pacata do interior, com picos de frio em determinadas épocas do ano, climinha agradável marcante da região chapadense, não muito diferente do que ainda se apresenta nos dias atuais.

Via-se enormes dragas “lavadoras” de areia dos fundos das águas espalhadas pelas margens de diversos rios do local, propriedades de algumas empresas especializadas em mineração-garimpagem ou de gente influente nesse meio, da mesma forma que se ouvia falar, vez ou outra, de que fulano ou sicrano houvera arrematado uma pepita de diamante por aquelas bandas e sumido sem deixar vestígios e nenhuma explicação... O “grande comércio”, se é que assim podemos chamar, ficava nas mãos de poucas famílias, a citar os Rocha, e a outra parcela ficava restrita a produtores rurais de pequeno porte que traziam suas mercadorias para serem comercializadas nas feiras-livres. Geralmente eram produtos de setores ligados à agropecuária ou de ordem artesanal, animais provenientes de criações próprias e alimentos facilmente encontrados na região. O setor de serviços também era importante para fazer girar a terra dos palmeirenses.

Como todo bom integrante da região que ficou conhecida como das Lavras Diamantinas, Palmeiras foi, em tempos de antanho, um importante arraial que tinha como fonte de riqueza a exploração do diamante, que cresceu e se refinou, mas que com a escassez das preciosas pedras, logo entrou em decadência, apesar de ter sido lento este processo em seus domínios. O Capão, hoje ponto turístico de grande importância para a localidade, devido ao grande fluxo de estrangeiros e brasileiros peregrinos que todos os anos desembarcam por lá, não passava de uma vila ainda pouco explorada e pouco conhecida, até mesmo pelos próprios nativos. As pessoas tinham de se deslocar em automóveis de passageiros para chegar tanto ao Capão quanto aos outros lugarejos pertencentes ao território de Palmeiras, e o modelo de carro mais utilizado para a realização de tal trabalho naquela época era o Ford Rural – até hoje encontramos pelas ruas palmeirenses alguns exemplares deste exótico veículo -, tarefa de desempenho realmente muito difícil.

Minhas primeiras lembranças “vivas” de Palmeiras já datam de tempos mais próximos, quando frequentemente íamos para suas paragens fazer compras em alguns supermercados da cidade, que ofereciam preços mais convidativos ou, também, para simplesmente almoçar, como que num passeio de fim de semana frequentemente praticado pelas gentes da Chapada, que aproveitam a enorme oferta de rios e balneários para desfrutar os seus respectivos recessos. Era marcante o desenrolar da mecânica da feira-livre, a presença de muitos jumentos que carregavam as mercadorias de seus donos para o centro popular de comércio, aquilo tudo me reclamava muita atenção. Assim como suas ruas estreitas, a arquitetura de algumas casas, o cheiro de história que seus habitantes exalavam.

Depois, já na adolescência, recordo-me de ter ido prestigiar por duas ou três vezes o Carnaval de Palmeiras, festa das mais tradicionais do interior baiano. Era todo mundo atravessando o pequeno trajeto, que ia de uma praça a outra, embalados por pequenos “trios elétricos”, para só depois desembocar na praça onde o palco principal estava instalado e onde os principais shows musicais se dariam. Talvez andando no meio daquela muvuca intensa foi que presenciei pela primeira vez o uso de certos entorpecentes pelos foliões. “Loló”, lança-perfume, cigarros de maconha eram facilmente vistos sendo consumidos por alguns jovens. Como meu espírito nunca foi o de cair na algazarra, ia mesmo para compor com meus olhos as sensações de toda aquela atmosfera, no silêncio que guarda. Meu jeito de “brincar” aquela festa era a do observador que deposita em si a lembrança dos mínimos detalhes.

Meu tio, o mesmo que morou lá conosco, até hoje brinca quando passa de frente à entrada de Palmeiras, dizendo: “Visite Palmeiras, antes que acabe...” Nada muito grosseiro nem tão despretensioso assim, talvez reflexo do que ele viu com seus próprios olhos ao longo dos anos que lá passou. Hoje revisito Palmeiras vez ou outra – em 2011 fui lá duas vezes – e aproveito para visualizar antigas reminiscências que trago comigo em meus dentros, que começam a partir do momento que me atiro ao declive bastante sinuoso da serrinha cortada pela estrada que dá para seus braços misteriosos sempre abertos aos que lá resolvem aportar...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Afirmações


Pessoas matam pessoas, eis uma afirmação. Tudo certo, tudo errado. Confesso a você que me matou ontem que sou este ser quase desprezível e imprestável perante o belo e dinâmico e funcional mundo atual. Lagarta que sou, o vôo me parece, ainda, apenas um longínquo desejo. Acordo e vou aos lugares e você que me matou ontem sabe bem os lugares que visito. Quando iniciei um projeto de vida com você que me matou ontem, quis mostrar a você que sou um ser desprezível ou quase perante o belo e dinâmico e funcional mundo atual. Engraçado como o pensamento toma ares de verdade e consegue alcançar patamares de altura tão elevados. Sem esperar, tinha já eu confabulado preâmbulos também atabalhoados e, por vezes, modulares diante da sua mágica figura que me matou ontem. No meu inventário, marquei com um xis a palavra qualquer. Uma palavra que parece ser mais forte que o próprio amor. Mas você me matou ontem e você também sabe que seres desprezíveis ou quase-isso não morrem assim do nada, sem razão menor para que seja. Esquece-se que sou uma fênix e que minhas flamas não se avulsam assim. Digo a você que me matou ontem que, caso queira matar-me de verdade, basta algumas palavras e te desejarei um belo resto de vida.

Mot Just.

Li Emerson e os transcendentalistas. Aquele exemplário de palavras tecidas no texto não são vulgares. Ele sou eu que não sou fraco. Faço o que quero e sou eu. Creio ser sincero e não minto quando sou eu e você, você. E a sorte do homem é quando precisa.

- Desse amor minguado não quero. Canso de coisinhas. Não sou criança. Escrevo e vivo. Eu sei que tem fal... tinha coisas. Coisas íntimas. Não me venha com desculpas. Eu não mando em você. A maior prova foi... sei. Não divido palco. Eu não vou perguntar nada. Eu sei. Não sou burra, embora aparente... se acredito em? sim, mas mentiu. E isso quebra minha crença. Tudo seu é menos. Nunca explode? Nunca fica com raiva? Que merda de amor é esse? É sempre assim? Sai da conversa. E a culpa é sempre minha. Sempre o mesmo teatro. A culpa é da minha neurose. Raiva, pura e simples. E por que aquela porra te man...? fico feito tonta vendo mulher nos seus pó... isso não posso deixar de dizer. “Você escreve com a alma”. Você tem poesia nas mãos. Só semi-analfabetas. Significa: Ciúmes de uma mulher que Am... imagino morando com e pregado... eu tenho direito. Dei tudo o que tinha. Você venceu porque amei você de verdade. Amo. E deixo com você o amor. Vou lembrar...

- Obrigado por tudo. Eu te amo.

A foto do ano


A Virgínia apareceu depois de um fim de semana de sumiço. Apareceu e me trouxe novidades. Pensei que ela ia me dizer que tinha acertado quinze números na loteria e tinha ficado milionária e que ia comprar uma casa na Toscana e que ia me levar com ela. Mas não foi nada disso e foi algo melhor. É que eu estou ficando conhecido. E como diria Autran Dourado, reconhecimento bom é aquele que a gente sente nas outras pessoas, sem forçar a barra. Foi um dia produtivo. Li muita coisa. Escrevi dois contos e três poemas. Li a terceira parte do livro do Gabo e Degaldina está amando o velho. Ela acaba de fazer quinze anos de idade, o mesmo número dos possíveis números da loteria. O velho tem noventa e um anos. Faça a conta. Noventa e um menos quinze é uma vida de anos. Mas sou daqueles que não acreditam na idade do amor. O amor é o próprio tempo e, como todos sabem, o tempo engole tudo. Meu time do coração perdeu mais uma no campeonato e agora a coisa ficou feia. Melhor nem comentar. Deixa rolar. Ainda deu tempo de dar uma volta pela cidade com a Anita (minha moto) e deixei de tirar uma foto lá na orla, próximo ao palco da festa do dia anterior que, talvez, seria a foto a foto do ano no mundo e talvez com ela eu conseguisse ficar milionário e comprar uma casa na Toscana e levar a Virgínia comigo. Mas ia ser muita injustiça e eu seria um desgraçado se conseguisse alguma coisa com a desgraça dos outros. Não estava com a máquina e pensei em meu agora debilitado espírito jornalístico. Dois meninos que quase não vi direito, de tão miúdos, pretos, um nu e um com um saco branco escondendo suas vergonhas ainda não vergonhas, agachados, do tamanho da calçada em maior relevo, juntos, comendo alguma coisa de resto de festa juntos e uma pequena poça de água parada, os dois ali, pequenos “cachorrinhos” e a imagem da extravagância humana em contraste, o gozo pós-prazer feito do coto dos que podem e da reaplicação pelos que não podem. Eu tinha visto o “bicho” do poeta Bandeira, ou melhor, os “bichos”, e desperdicei a chance de registrar aquilo para o mundo. De qualquer forma, a imagem está guardada em mim e me fez pensar em algumas coisas. Não consegui continuar o passeio e segui para casa. Fui escrever.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Perguntas ao Pó (Nº 4)


A entrevistada de hoje é a professora e fotógrafa Daniela Gama, que fotografa em D.G.
A fotografia acima é de sua autoria, intitulada "Menino grande".


O EQUADOR DAS COISAS
- Quem é você?

DANIELA GAMA - Uma menina grande. Mãe, mulher, educadora, filha, irmã, amiga, geógrafa e fotógrafa. Com sonhos e esperança nesse mundo e nas pessoas que me fazem sentir criança ainda, por muitas vezes. Com responsabilidades e missões diversas que me mostram e me “sacodem” diariamente, atentando para a menina que cresceu. Dona de uma personalidade forte, me considero decidida por sempre persistir naquilo que busco e acredito. Dona de um coração frágil e de uma alma leve, sigo me decepcionando, me surpreendendo, amando, acreditando e sendo otimista com a vida, com as pessoas e, acima de tudo, comigo mesma.

OEC - E Deus, quem é?

DG - Minha Luz Maior. O criador de tudo. Aquele que me faz acreditar sempre que as coisas vão dar certo. E as coisas sempre dão certo. Aquele que me faz crer num mundo melhor, em pessoas melhores, em mim mesma melhorando a cada nova oportunidade que tenho sempre que um novo dia amanhece.

OEC - O que é ser baiana?

DG - É ter uma alegria correndo nas veias e um sorriso na alma. É ter um tempero no jeito de viver que se difere do estilo de vida de qualquer outro estado. É respirar a cada canto o sincretismo e o próprio ritmo gostoso que tem o dia-a-dia na cidade do São Salvador da Bahia.

OEC - O que você veio fazer neste mundo?

DG - Desde criança aprendi a rezar. Minha mãe relembra, vez ou outra, o meu jeito engraçado, aprendendo a rezar o Pai Nosso com dois anos de idade. Logo que fiquei um pouco maior e conheci a oração de São Francisco de Assis eu fiquei inebriada por aquelas palavras. Pensava em como deveria ser bom alguém poder ser daquela forma. E ela (a oração) se tornou minha leitura e meu pedido a Deus, todas as noites. Hoje, com 32 anos, posso dizer que acredito mesmo que Deus está sempre atendendo a esse meu pedido diário. Gosto de levar alegria, otimismo, de levar paz através do que Deus faz em mim e me permite fazer pelo outro. Hoje eu continuo pedindo todos os dias, quando vou deitar: Deus, permita-me ser instrumento da Vossa paz na vida das pessoas. Acho que é a melhor coisa que posso fazer por mim mesma.

OEC - O que é ser educadora?

DG - Ser educadora é ser um pouco como mãe. Eu falo isso às vezes aos meus alunos. Para mim, particularmente, é se preocupar com o futuro daqueles adolescentes, que são o futuro próximo do mundo. É ter a consciência de que a missão que escolhemos é grandiosa e difícil e, ainda assim, aceitá-la da forma que é, levando essa grandiosidade como um incentivo maior em ajudar tantos alunos, a cada ano, a descobrirem por si só o gosto bom e inigualável do aprender. Educar é como ser mãe porque é preciso muito amor pela profissão para ser um educador de verdade.

OEC - Por que a arte de fotografar lhe é tão prazerosa?

DG - Porque é o tipo de arte que existe em mim e que me permite expressar o que sinto. A fotografia entrou em minha vida numa fase difícil. Gosto de dizer que essa descoberta impediu-me de cair num poço fundo. É fotografando que eu relaxo a mente, desacelero um pouco o coração, dou leveza a alma e pinto meus dias, ora com cores fortes, ora suaves, ora monocromática. Através da fotografia conheci pessoas incríveis espalhadas pelo mundo, fiz amizades que quero levar pra vida toda, coloco para fora a dor que me sufoca e a felicidade que precisa explodir. É de um prazer sem tamanho ver a felicidade no rosto das pessoas fotografadas ao olharem para si mesmas ali, imortalizadas pela imagem que ficou. É mágico. Como na literatura ninguém escreve igual, na fotografia também as imagens não se repetem. Não consigo imaginar minha vida sem fotografar. Não me lembro dela antes dessa mágica forma de arte que grita ou fala baixinho, por mim, a cada nova captura da lente da minha câmera. É maravilhosa a descoberta em nós, da existência das diversas formas de olhar e ser olhado, que só a fotografia permite viver.

OEC - Uma imagem vale mais que mil palavras?

DG - Vale. Uma imagem vale muito e, por vezes, pode valer um tudo. Tanto as imagens impressas ou gravadas pela câmera, como aquelas que só os olhos viram e a mente armazenou para sempre. Porém, mais do que uma imagem, ou duas, ou três... vale ainda mais um ato, uma ação.

OEC - O que andas lendo atualmente e do que se trata?

DG - Adquiri recentemente e estou lendo “Saída de Iaô: cinco ensaios sobre a religião dos orixás”, de organização e tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura, publicado por Axis Mundi Editora, em 2002. Trata-se de um livro de ensaios e fotografias onde Verger examina questões fundamentais do candomblé e da cultura religiosa afro-brasileira em geral. Pierre Verger, o fotógrafo e etnógrafo francês, conhecido no mundo, morou a maior parte de sua vida na Bahia, dedicando-se ao estudo documental das tradições afro-brasileiras. Foi vislumbrando as fotografias de Verger, em sua Galeria e Fundação, no centro histórico de Salvador, cerca de três anos atrás, que comecei a me apaixonar pela fotografia. Ler e Ver as obras de arte fotográficas dele é sempre fonte de grande inspiração e prazer.

OEC - Geografia, por quê?

DG - Porque é na Geografia que o homem tem a oportunidade de se colocar frente a frente com o que ele faz de si mesmo e do ambiente em que vive. Essa interação, esse poder de modificar, de descobrir, de interagir, é o que tem de mais fascinante da Geografia. A gente vive a geografia todos os dias, por todo lugar onde vamos. Não dá para estar sem ela porque ela é parte de nós enquanto seres humanos.

OEC - Fale-nos algo sobre o blog O Equador das Coisas...

DG - O Equador das Coisas tem sido meu canto de leitura diário desde o primeiro dia em que adentrei pelos cômodos aconchegantes dessa casa. Muitas vezes o que leio fala de mim. É o que sinto quando vou desvendando palavra por palavra que vão trazendo as inquietudes para dentro de mim mesma, me remetendo ao passado, ao presente, vislumbrando o futuro que nem sei se irá chegar. Sinto-me parte dali, onde leio e me encontro. É como uma mágica que só a arte consegue realizar. Sou mais feliz nesses meus momentos comigo mesma, no Equador.

Sem suportar


Hoje foi o vigésimo quarto dia do meu vigésimo quarto ano de vida nessa vida. Falo “nessa vida”, de modo tão distante, porque sei que não podemos ser só uma etapa. Há outras aventuras, coisas da alma. Não sou espírita, ou coisa parecida. Que fique bem claro. Hoje concluí a leitura paciente que fiz do livro das “putas” do Gabo, li um conto da Lygia e comecei a ler “1968 – O ano que não terminou”, do Zuenir. Mais um livro que ganhei da minha Virgínia. O das “putas” pode ter sido um livro feito apenas para vender, coisas de mercado, haja vista os monumentos que o Gabo já escreveu, mas é uma história bonita. Quando terminei de ler a última frase, fiquei com a impressão de que eu sou mesmo velho, que meu amor é como o daquele velho e é profundamente o contrário também. Mas o velho não era velho e o amor não tem idade. Um livro que certamente irei reler muitas e muitas vezes. Hoje também foi dia de maquinar algumas idéias acerca do projeto do livro-reportagem que irei escrever como trabalho de conclusão de curso na faculdade de jornalismo. Sentei com o Marcos e ele primou por luzes no fim do túnel. Cada dia estou mais decidido a fazer o projeto que pensei. Vai ficar muito bom, espero. Hoje também foi o dia de descobrir mais uma vez o que eu já tinha descoberto: tudo na vida tem duas faces, duas caras, dois semblantes. Basta apenas um ponto de vista e logo temos duas faces, duas caras, dois semblantes. Basta apenas um ponto de vista e logo temos duas faces para uma mesma moeda... Tem um assunto que me deixa preocupado, que tem me deixado preocupado, mas prefiro não falar. Não há de ser nada. Quando o relógio apontou vinte e três horas, veio-me uma carga de sono pesadíssima por sobre meus ombros e não suportei. Fui deitar.

O fim


que o fim se dê
numa manhã chuvosa
com o sol preguiçoso a estalar feixes de luz
ao meio do dia
para o decreto do início da noite imensa

que nada seja tão eterno
quanto a pegada da hora imorredoura
na densa travessia do avanço
e que a marca que ficasse no vivido lado
fosse a da paisagem vista
por quem não pode mais recuar

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

1000 textos n’O Equador das Coisas!


Saudações, caros bucaneiros e leitores!

São incompletos 5 anos de existência, e o EQUADOR DAS COISAS já comemora seus 1000 primeiros textos publicados no ciberespaço. A história deste blog começou durante uma aula da disciplina Programas e Ferramentas II no curso de Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) que eu até então fazia, em meados de 2007. A professora Jussara Moreira, depois de explanar um pouco do seu conhecimento acerca da linguagem HTML para produção de sites pessoais e outros projetos de cunho cibernético, levou-nos a conhecer uma ferramenta que, para mim, ainda era uma incógnita: o Blog (ou blogue, como preferir). Lembro que ela havia indicado alguns sites onde poderíamos escolher a plataforma que mais agradasse nosso gosto e, ainda sem nenhum conhecimento de causa, entrei na ferramenta que o portal UOL disponibilizava à época. De pronto, achei tudo muito simples e funcional. Uma espécie de caderno virtual, de diário, de pasta, um portfólio, "mas que coisa boa!", pensei. E assim se deu o meu primeiro contato expressivo com esta ferramenta informática. Houve a luz, diria o outro. E sem muito pestanejar, fui logo criando o meu próprio espaço na blogosfera. PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO foi o título que dei ao meu primeiro esforço bloguístico e foi parido em 09 de julho de 2007. Lá, e aos poucos, fui colocando alguns velhos textos que eu tinha guardados e também escrevendo coisas novas. Como nestes idos ainda não possuía computador em casa, reservava alguns momentos quando me encontrava no laboratório de informática da faculdade para postá-los. No PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO, a série de textos do “Sonhador Gervixa” foi, talvez, o maior destaque. Com cerca de 20 capítulos publicados, foi através deste personagem, um sujeito que se dizia não ser deste planeta devido a sua extravagante repulsa por todas as más ações humanas, que os primeiros leitores – geralmente meus próprios colegas de Jornalismo e outros poucos amigos - foram se acercando de minha produção textual, conquistando assim paulatinamente o que posso chamar de credibilidade e por que não dizer fidelidade no meio. Depois de algum tempo, burilando na internet, achei de investigar a plataforma BLOGGER. Percebi que nesta havia mais instrumentos de editoração e diagramação, além de que as interfaces eram muito mais convidativas que as do UOL. Destarte, abandonei o PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO e criei em 12 de novembro de 2007 meu segundo blog, agora intitulado A AUTO-ESTRADA DO SUL, por influência direta da leitura do livro de contos "Todos os fogos, o fogo", do escritor belga-argentino Julio Cortázar que andava a realizar naqueles dias. Transferi, ao passar dos dias, todos os textos que havia publicado no PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO para o novíssimo e empolgante – pelo menos para mim - A AUTO-ESTRADA DO SUL e, de modo bastante paciente, fui colocando mais um montante de produções textuais de minha autoria, assim como algumas colaborações que recebia de amigos, sempre com a preocupação de devidamente analisar se os mesmos se alocavam bem aos propósitos do blog. Com minha entrada no universo “BLOGSPOT”, percebi que o mergulho constante no blog - um saudável vício, penso - estava despontando em mim como um local de construção de saber e de possibilidades de diálogo acerca das incontáveis formas de conhecimento nunca antes imaginadas, cuja responsabilidade para com o que ali estaria exposto aumentava em progressão geométrica, o que muito me agradava. Alguns meses transcorridos optei por mudar apenas a titulação do blog, que agora passaria a receber o nome do meu primeiro livro de poemas, publicado no ano de 2006 pela Editora Franciscana, com sede na cidade pernambucana de Petrolina. Era o nascimento do blog CLUBE DE CARTEADO, nomenclatura que permaneceu até bem pouco tempo, mas que por problemas de ordem estrutural tive de deixá-lo para trás. O CLUBE DE CARTEADO foi quem guardou a maior parte dos textos que eu havia escrito ao longo dos anos, desde poemas e contos, passando por crônicas e resenhas de todos os tipos, até projetos de pesquisa mais apurados e artigos científicos, sendo também, tenho quase certeza, o primeiro blog a ter (ou a querer ter) a figura de um ombudsman – experiência que infelizmente não vingou. No total, foram exatos 821 textos/postagens publicados em seu espaço, registrando no período de pouco mais de um ano cerca de 30 mil visitas reais e algumas centenas de comentários e participações várias. Depois de visualizado o problema em sua configuração, a construção de um blog totalmente novo foi a alternativa mais viável para dar seguimento a minha relação com esta significante parcela do mundo virtual. Foi aí que O EQUADOR DAS COISAS veio à superfície do ciberespaço. Com ajuda de pessoas mais entendidas neste universo da informática, selecionei um template que trouxesse um pouco da carga dramática que o título requeria, e logo foi feito a transferência de todos os textos que estavam no CLUBE DE CARTEADO para o arquivo do novo blog. O primeiro texto originalmente escrito para O EQUADOR DAS COISAS data de 23 de julho de 2009. Daí por diante, outros inúmeros textos foram publicados até o presente dia – só para constar, já passamos da considerável marca das mil publicações/postagens. Fazendo os cálculos, a média ultrapassa 1 texto publicado por dia. Como se números fossem importantes, não é mesmo?! Tantos números assim soam como um discurso contraditório até para mim, que sou daqueles que têm mais medo de um sujeito que escreveu um livro em toda uma vida àquele que escreve meia dúzia de títulos em cinco anos – se formos vasculhar, exemplos não faltam. Recentemente o EQUADOR DAS COISAS passou por uma reforma, tanto na estética quanto em seu conteúdo. Agora o template é em estilo mosaico, bem mais atual e ao mesmo tempo diferente, onde na página principal só aparecem as imagens vinculadas aos textos, cabendo ao leitor clicar em cima do título das postagens para poder lê-los. O arquivo do blog agora conta apenas com as 18 postagens mais recentes. A decisão foi tomada por me achar no direito de resguardar mais o que escrevo, haja vista que exposição exagerada também não cai lá muito bem. E como você vê, amigo leitor, hoje já está tudo diferente do que era antes. Tudo muda o tempo todo, não? Hoje, dia 12 de dezembro de 2011, o blog é completamente outro e quem o acessar tirará logo suas conclusões. Aí você me pergunta quando vou parar com tudo isso, e eu respondo que nunca. Cada vez que penso em desistir do blog, mais certo fico de que sem esta ferramenta, exemplo de expressão libertária e democrática, mesmo que virtualizada, fica mais pesada e difícil a balada das horas do meu dia. A vocês, leitores e leitoras, meu muito obrigado por ajudar na edificação e na concretagem deste real espaço de troca de experiências e saberes. Vocês são peças fundantes em toda esta ladainha. Recebam um abraço-amigo-imenso deste Germano que vos fala agora, exímio aprendedor de coisas. E para não dizer que não falei das flores, sim... continuemos, bucaneiros! – até porque o mar, o mar!, o mar quase nunca está para peixes...

Alice no país da escuridão


Ela apareceu no rol do primeiro andar. Era uma velha casa em uma velha rua. Não haveria nada para se dizer, nada para se pensar, nada para se escrever, absolutamente nada, até o surgimento daquela criatura. Nada demandava esforço ou preocupação. Nenhuma aleivosia e nenhum sufoco. Mas passou a existir uma figura, e é a partir dela que construo esta personagem. Sim, a personagem. Uma criatura feminina. Vestia o contraste das pequeninas bolas brancas com o azul-turquesa no seu vestido. Também uma finíssima sapatilha de pano preto. O cabelo era curto, metade branco, metade preto e estava de todo unido por uma fita vermelha. Caminhou até a sacada do apartamento, apresentando um caminhar lento e trôpego. Da porta que dá para a sala de visitas para onde estava agora não se tinha mais que quatro metros. Distância que ela cumpriu em um minuto, pelo menos. Encostava suas mãos nas paredes como se fossem guias. Talvez as paredes fossem suas mais vivas amizades. A velha rua parecia se movimentar freneticamente, enquanto a senhora, que deveria ter perto de seus oitenta anos de idade, expressava tão gritantemente a quietude quase secular de seu silêncio. O trejeito único de seu semblante faria qualquer ser sensível meditar sobre a morte e a vida. O sol ardia o meu rosto e tudo era uma só manifestação de estio. Depois fiquei sabendo que se chamava Alice. Agora ela andava de um lado para outro, segurando na grade frontal o seu tombamento presente. Dava passos numa sôfrega e angustiante lentidão. Sua tez flácida e alva e seus olhos quase fechados por causa da luz pareciam esperar alguma elevação superior, de ordem divina e de caráter último. Franzia a testa numa tentativa de observar as pessoas que passavam nas calçadas. Porém, percebia-se uma incapacidade de proporção colossal em toda aquela vontade. Imaginava-se presa, amarrada pelas algemas da vida. E eu fiquei a observá-la por um breve instante. Foi quando Alice pôs-se a caminhar em direção à sala, onde sentou numa cadeira de balanço a espreitar as horas imprestáveis e infames do mundo. As horas imprestáveis e infames do mundo. Talvez estivesse entre a vida e a morte, e aquele balançar triste na cadeira forrada fosse mesmo os signos totais da indecisão e da dúvida.

29 de outubro de 2005

Um dia divertido


Meu dia foi divertido. Nasci quando acordei e morri quando dormi. É sempre assim, uma vida inteira num só dia. Meu cabelo está enorme e eu já não estou aguentando mais. Comprei mais dois livros, agora livros chatos para ajudar a matar o meu TCC-Minotauro. A Virgínia ligou e perguntou coisas e acabamos por sedimentar mais a dura pilastra que construímos. Hoje fez que ia chover, mas não choveu. Petrolina é a terra do alarme falso. Quando parece que vai, não vai. Esperei uma ligação do meu pai, e só fiquei na espera. Arquitetei mais planos para meu projeto e estou indo bem, pelo menos nas idéias. Amanhã começo a escrevê-lo. A noite foi de abraços bons e de reencontros na faculdade de Letras. A “professora nossa do bem” sempre com uma aula interessante, até o último minuto das vinte e uma horas. Ainda vi a merda do Flamengo perder mais uma e uma estrela solitária no céu. Continuo lendo e hoje descobri coisas sobre Platão e J.D. Salinger. Adormeci com o coração manso. Minha vida é assim, sempre uma morte para nascer de novo.

Dor de cabeça


Um pouco de dor ainda na cabeça. E muitas idéias ainda na cabeça. A cada hora tinha um lampejo e pensava em começar um livro. Mas não ia longe e logo amornava a idéia que antes era fogo. Comprei quatro livros no sebo. Paguei a bagatela de quatorze reais e cinquenta centavos por “Apologia de Sócrates – Banquete”, “Fedon”, “Fedro” e “A República”. Todos com a escrita atribuída a Platão. Foi um ótimo negócio, não tenho dúvidas. Ainda sobrou algum trocado. Com ele, pretendo comprar um pouco de tempo e elevar as horas do meu dia. Talvez assim eu consiga ler tudo que quero ler antes de morrer. O dia foi produtivo e não foi. A Virgínia não apareceu. Eu fico triste quando isso acontece. Fico fraco e ela sabe. Ainda tomei um copo de vinho na casa da Emily, conversas sobre fantasmas e mediunidade, livros revisitados e uma vela acesa. Ainda passei na orla na volta e para casa segui. Fui escrever.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Algo com Gabo


Levantei por volta das seis horas da manhã, tomei dois potes de iogurte e fui continuar a leitura de um livro que a Virgínia me deu. É um livro curto, que sou capaz de devorar em uma tarde só. Mas as obrigações que tenho a cumprir nos últimos anos não estão me permitindo uma tarde nem uma noite propícia para uma leitura seguida, sem freios. Nunca mais consegui ler um livro numa sentada só, como fiz com a história da Capitu, do Assis, na mesa da cozinha na casa dos meus pais em Iraquara. Estou lendo de maneira fragmentada, mas ainda compulsiva. Sou doente por livros e quem me conhece parece desconfiar. O livro que estou lendo fala do amor, de um amor diferente e de um amor igual. O título é “Memórias de minhas putas tristes”, do Gabo. Sim, uma memória no singular, como toda a história, apesar da idéia velha da pluralidade amorosa. Para mim, idéias não envelhecem. E devem ser reconstruídas, sempre. Como a própria idéia, a idéia do amor também é imortal. Mas o homem sim, o homem morre. Morre de várias mortes. Morre em vida e na própria morte, seja do corpo ou da alma. Mas a idéia do amor não falece, como o amor. Estou lendo calmamente, devagar, como quem degusta um bom vinho tinto. Sentindo o deslizar das personagens sobre as lâminas do sentimento-mor. Gabo mata o amor no homem e recobra-o com outro amor, força geradora da vida. O motor que faz a vida, mesmo quando quase impraticável. Mas essa é uma análise romântica e imatura ainda. Preciso terminar de ler o livro para, quem sabe, não me sentir tão decrépito assim... ou não.

Setembro de 2008.

Aqueles dias


há dias que sim
mas hoje...
hoje não quis ser quem fui

Ao relento


Hoje deixei a álgebra e os cálculos em paz. A matemática de minha vida tem sido dura comigo em alguns sentidos. Em outros, consideravelmente mais dispensáveis, leve e acolhedora. Não desejei fazer conta de palavras. Deixei tudo nas mãos do tempo que passa mudando tudo. Vi que preciso repetir isso mais vezes. Tentar explicar ou pedir explicação pode causar incômodo ou mudar a rotina dos ventos. Eu tinha ouvido conselho sobre isso. E, como sabem, mudar é bom, mas nem sempre. Firmar teu pé no chão de alguma coisa e ir no profundo daquilo é um sinal de força. Radicalismos à parte, ir nas funduras das coisas é sempre mais gostoso. Já perdi muito tempo nesta vida tentando comentar meus crimes mais perfeitos. Hoje, com vinte e quatro anos e dezesseis dias de vida aqui na Terra, sou outro. Ainda repleto de falhas e fraquezas, mas outro. Para que serviria eu medir a onda do rio? E a tinta da mão? Ou a finura dos biscoitos? Melhor deixar o rio transbordar de qualquer coisa, sempre. E viver melhor do jeito que se sabe. E viver melhor do jeito que se sabe. Nunca me apeguei aos números, e não será agora que irei render-me a eles. Prefiro mil vezes a poesia torta de meus dedos. Ah, e como prefiro...

Reflexões com uma amiga


Ó, Deus dos céus! Como se só fossem flores os cordões deste teu mundo imenso mundo! Por que não tenho a felicidade dos outros, tão fácil? Hoje uma colega me ligou. Quis avisar-me de tua chegada à cidade de Petrolina e também propor a mim uma ida ao cinema. A tua voz me chegava aos ouvidos um tanto dissonante. Estava um pouco gripada, mas aquela voz tinha felicidade. Eu mais escutei, aliás, como sempre faço. O teu jeito inconfundível de se ater aos acontecimentos não deixava dúvida de sua real presença feminina. Fora uma conversa bastante rápida, como tende os futuros diálogos dessa reles humanidade. A rua deserta era meu único e fatídico horizonte. Qual a razão para tanta pressa? Por que se tornou tão caro uma boa conversa, nos bancos das praças ou mesmo ao telefone? Não que essa não tenha sido uma boa conversa, ao contrário, pois sempre que alguém lembra de minha pessoa, utilizando-se de qualquer artifício, sinto palpitar uma pequenina e serelepe fagulha de felicidade em meu peito. É como se as paredes do meu quarto se enchessem de pétalas das mais variadas cores. Todavia, sinto flamejar uma generalizada diminuição dos afetos humanos. E só em pensar nisso, acabo por me enveredar ainda mais em minha inseparável tristeza. O problema tomou proporções colossais e eu não sei se há uma poção mágica para erradicar todo esse mal, que sem dúvida alguma arrasará o que existe, ou com o que restou, de amor no mundo. Os jornais falam de política, de corrupção... as imagens retratando o retorno da última nave espacial a visitar o universo... e a nossa faculdade de amar o próximo, onde fica nos enfoques da vida? Desculpe pelas minhas reflexões meio que inoportunas, mas eu tinha de escrever.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Triste é não ir


O diabo abre a voz quando o dia nem acorda e esnoba um pensamento. Não existe paixão nesta vida, ninguém pode, ninguém deve. Não há possibilidade, não se pode tecer esperanças. Iludido é o homem que crê no amor, ainda que fraco. Sério isso? E as palavras do diabo são flores evasivas, não são flores melíferas. Nenhuma abelha, nenhum pólen. Sem saber o diabo que o mel demoliu a palavra. Acordo cedo, leio, como, bebo. Minha escrita vem depois de tudo, após sentir o clima do dia. Não redijo mediunidades ou lampejos sem céu pertencido, ainda que só tocados de leve. Acredito no tempo da palavra e em tudo que o diabo se intromete. Não, eu não quero muito. Quero o pouco que me transforma, que me transporta. Quero o céu que é meu, meu pedaço. E acredito na mão que, sem cerimônias, ama o outro... Ela tem uma amiga quase irmã que defende a teoria do encontro. Para ela, a felicidade é apenas o mudar. Mudar com calma, mas mudar. Falei que a hora é a maior dor, que o tempo é longe e tão perto do sofrer do peito. Disse ela que tudo um dia muda e a felicidade sonhada acontece. Aí pensei ser esnobe a ilusão de não crer que a vida é feita do apaixonar-se. E vi que não estava certo o velho que passa. Triste é não ir.

Medo de mim


Eu tenho medo de mim. Tenho medo porque não sei tudo sobre mim. Desconfio que muito de mim ainda não aconteceu, que muito de mim ainda vive dentro de mim, em sono. E cada dia é um novo susto, um novo espanto, um novo ser. Quando penso que tenho já pouco a aprender sobre as pessoas, sobre o mundo, vem alguém mais louco que eu e me diz ineditismos. Quase todo um dia investindo em leitura e estudo não me diz nada sobre quem sou realmente. Mas a noite sempre vem clara de ensinamentos... A mulher que amo bebe comigo o líquido azul. E eu sei que aquela voz não é somente uma voz. É alguma coisa acordando em mim.

Mulheres filosóficas e bukowskyanas


falando de mulheres (adoramos barbarizar)
os homens falam de si (Freud, Nietzsche, Rilke e Paul Rée...),
enquanto que Lou Salomé se overdoseia em brevidades

O dia de hoje


O dia de hoje, dia vinte e cinco do mês de julho do ano de número dois mil e oito do calendário gregoriano, foi marcado pelo fim de mais uma tentativa. Não que eu esteja triste, pelo contrário, encontro-me muitíssimo feliz, principalmente por haver tentado. Eu gosto de tentar. Ninguém jamais poderá me acusar de covarde por não haver tentado viver tudo aquilo em que eu acreditei ser o melhor para mim. Quando acredito, vou até o limite. Mas é que eu tentei na esperança única de dar certo, de ajudar o outro, com o mesmo sentimento de quem ajuda o mundo a ser mais humano e menos pesado. Por motivos simples, porém conflituosos, a tentativa passou de conquista e confirmação para um esboço apenas. Sem mágoas no coração, de nenhum dos lados, a vida segue seu caminho. Do meu lado, continuo o mesmo aspirante a realizador de sonhos que sempre fui. Não obstante, o sol apareceu radioso e vivaz. Parece ser o fim também daquele friozinho que cobria nossas pegadas ultimamente. Destaco também a boa aula do professor Edimar sobre a relação existente entre o poder e os diversos tipos midiáticos. Ele realmente conseguiu mudar pré-conceitos e paradigmas outrora criados por mim. Mas, do que somos feitos senão de metamorfoses constantes?! Eu mudo, tu mudas, ele muda, nós mudamos... e, assim, a vida segue seu caminho...

Longa noite adentro


há dias que não,
mas hoje fui
amor total

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Ao vencedor


Ao vencedor, um tempo inteiro de noite com direito a um desmoronamento psicótico sem retorno. Ao vencedor, o postiço e inverídico adágio do velho amor que não machuca. Ao vencedor, a magistral essência daquilo que te engole inteiro como um bicho famélico, colérico e já sem esperança pelo bem. Ao vencedor, o espartano avanço da tropa que esfacela a alma já esparsa de sentimentos. Ao vencedor, toda uma logosfera austera imputada ao vermelho mais sanguíneo, mais sanguinário. Ao vencedor, todo um deslinde esmiuçado ao fervor de um esquartejamento de carnes fervoroso, úmido, que esculpe um novo homem em pedaços partidos. Ao vencedor, o cerceamento inextrincável no corpo todo de um redil guardando as ovelhas desgarradas de um só pastor. Ao vencedor, a intervenção das armas no peito aberto e marcado pelos mísseis sentidos. Ao vencedor, toda a labialidade do arauto que traz no pergaminho a mensagem das horas finais. Ao vencedor, o morango amargo que alegoriza qualquer desfecho sem final. Ao vencedor, as honrarias da desgraça da condição humana de se sentir fraco diante da solidão. Ao vencedor, o desatrelamento salutar de si para si mesmo como forma de beijar a totalidade vital. Ao vencedor, o bem e o mal. Ao vencedor, a agonia de ser. Ao vencedor, a nódoa na manga da pele que envelhece. Ao vencedor, a justiça dos anos dos naufrágios, das catástrofes interiores, das guerras sem veneno. Ao vencedor, a paulatina e angustiante despaz do corpo. Ao vencedor, as saudades do cheiro que você sugou como quem estivesse sem o ar da necessidade. Ao vencedor, o gatilho que apunhala, a foice que abocanha, a guilhotina que tece a lógica do caos. Ao vencedor, o choro sem vergonha. Ao vencedor, o escatológico ambiente de lamber o prato. Ao vencedor, um mundo inteiro de inverdades. Ao vencedor, a atitude de flanar sem rumo, o espelho do desgoverno, o afluir tempestuoso, o desbunde sem valor, a margem marginal. Ao vencedor, nenhuma cara, nenhuma vaga normalidade, nenhum agasalho contra a madrugada que mata de inércia e falta de história, nenhum, nenhuma. Ao vencedor, a certeza de que você não é nada, nada, nada, absolutamente nada. Ao vencedor, a dúvida de que você pode tudo, tudo, tudo, absolutamente tudo. Ao vencedor, a certeza do único jeito no ombro pintado de uma mulher. Ao vencedor, as batatas humanitistas da doída filosofia de sonhar, de sonhar, de apenas sonhar...

Partes e partículas


“Uma parte da minha vida eu vivo, outra parte me contam.”
(Ferreira Gullar)


Para amanhã, guardo expectativas. Porque o hoje já se foi e o que tenho de certeza são meus dois dias a mais que meus vinte e quatro anos de idade. Não sou novo, não nasci ontem. Tenho vinte e quatro anos de idade e mais dois dias. Se eu quiser, posso já me considerar um velho. Ter vinte e quatro anos de idade e mais dois dias é já ser velho, pelo menos para mim, é já ter uma longa vida vivida. Mas isso só se eu quiser. Por enquanto, não quero. Melhor deixar como está. Não vai mudar muita coisa se eu já me der o título de idoso. Não conseguirei nem uma cadeira prioritária num destes ônibus da coletividade. Se para idosos-idosos a coisa já está feia, imagine para mim, um pseudo-decrépito-autointitulado-sem-cabeça-alva. Sigo, dessa forma, minha odisséia. Não existe vida mais bonita que a minha. Leia-se “bonita” como “propícia às histórias livrescas e fenomenais, baseadas em eventos catastróficos-ínfimos de natureza casual-ou-não”. E se você disser que não existe vida mais “bonita” que a sua, eu vou acreditar e aceitar, porque a vida de cada um é a vida mais “bonita” que existe. E a minha é a vida mais “bonita” que existe, e você deve aceitar sem titubeações. E um dia eu ainda descubro o porquê dos escritores quase sempre estarem certos... pela manhã, agi como um ser deletério. Fui nocivo ao meu passado. Destruí coisas que achei banais e preservei outras. Eu concordo quando dizem que “a memória é o esquecimento”. Concordo e não concordo, convenhamos. Mas até o concordar é passageiro no bonde que passa. E para que se preocupar, não é mesmo? Temos tanta coisa e coisa pouca para selecionar. O bom sempre anda mais escondido. Hoje, aniversário da cidade baiana onde estudo, feriado, aproveitei para manter a leitura em dia. Pensei estar doente de verdade, acreditando que eu vivia. Li jornais e revistas. Tudo sem ordem. Quase sempre leio assim. Estou lendo uma coletânea de crônicas do Ferreira Gullar. Mas fui à biblioteca do centro pregar um cartaz do Cineencontro e aproveitei para pegar dois livros: “Lavoura Arcaica”, do Raduan Nassar, para reler, e “Os dragões não conhecem o paraíso”, do Caio Fernando Abreu, para terminar a leitura que tinha iniciado antes do início do recesso. São dois autores que me inspiram bons momentos. Mas eu me sentia doente, pensando que eu estava vivo e que a vida valia a pena. Foi quando deparei com a palavra do Antônio Abujamra, no caderno Illustrada do jornal Folha de São Paulo, dando o seu choque de realidade para um grupo de atores comandado por ele numa recente apresentação teatral: “Tem uma loucura muito grande na cabeça deles de achar que a vida não é mesmo uma causa perdida. Tiveram de aprender que é, sim. Felicidade é uma idéia velha. Ser feliz, só no palco; na vida, não dá. A vida é uma causa trágica”. Aí eu parei, olhei as horas no relógio e disse “meu dia termina aqui”. São vinte e uma horas mais cinquenta e quatro minutos. Preciso de minha sanidade novamente. E vou buscar. Amanhã é um dia com mais de vinte e seis horas para viver a minha vida “bonita”. Todavia, por ora, fecho a conta do meu dia de número oito mil e setecentos e sessenta e oito, já contando com os anos bissextos e tudo...

2008

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Nômade


tuas costas são cestas
e nelas hão de ser postas
todo o peso das sextas
e dos entonelados domingos

existe um dominó de cartas
empilhadas empunhadas entornadas
na sorte dos jogos de viver

e
um dia acertamos de repente
o chão do mundo e eis
que outro dia erramos o protesto
pelas fuligens animalescas
naqueloutro olhamos em trote de morte
o momento de marchar em transe
pelos corredores hediondos do que se amontoa

mas
no final nossas costas empostadas
de memória
importam mais do que tudo aquilo
que a gente ainda não viu
tal qual uma espada carrosselada no Tempo

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Caminho estreito


o caminho é estreito
e não há musas nas margens
em auxílio. pedras, ramos, paragens escuras...

morfologias do pensamento mais íngreme
turvam o caminho que é estreito

apreender o rumo escreve um respeito
pela nudez do Tempo
mas a topografia feita de estreitamentos
do caminho comenta uma duna nos olhos
e tudo pode ser também impedimento:

o terreno do andar
a fascinação das tentativas
o mapeamento em tomadas
o imediato sempre buscado

qual a vanguarda em desafiar?
técnica, permanência, a influência
das noções
o marco da iniciação simbólica
pode ser o estranhar
do particular abisso

Angústias polares


Minha angústia de quinta foi a mesma de quarta, apenas amplificada. Continuei a refletir sobre a minha inumanidade e na humanidade dos homens – se é que tal virtude já existiu. Pensei se ainda há em mim um resto que seja de infância e não cheguei a nenhuma conclusão. Hoje, longe do quintal fantástico da casa onde cresci e vivi plenos a plenos pulmões até perto de meus quinze anos de idade, surgem certezas, num primeiro momento, desanimadoras. É quando eu me pergunto onde ficou aquele corredor interno onde eu chutava bolinhas feitas com papel amassado enrolado em meias velhas e furadas de um lado para o outro com o meu irmão; quando me pergunto onde guardei todos aqueles caminhos bem sinalizados das estradinhas que eu mesmo fazia com giz ou caco de telha quebrada para logo depois começar a carcomer a pele de meu joelho de tanta alegria e cheio de sonhos e fantasias em voltas de carrinho, procurador de coisas para inventar entre os ferros retorcidos e as geringonças quebradas no quarto das bagunças; quando me interrogo sobre os muros que tanto quis pular e pulei; quando tudo vem e o baque é tão grande que a gente precisa segurar firme no corrimão para não tombar pelos degraus da nova escada... pergunto-me se me fizeram o animal que hoje sou, ou se eu já era assim pré-determinado ou pós. É que a gente sempre corre contra o tempo, mas ele sempre nos espeta a pílula da metamorfose. E, no processo, que atravesso um período alguma coisa parecida com o que costumam chamar de transformação... Eu tenho medo porque li Kafka e sei das consequências de uma mutação não desejada. Porque uma coisa que quero nessa vida é não incomodar as outras pessoas, ou incomodar pouco. E quando aqui me recolho para mais uma reflexão, a cadeia da contradição se alastra em mim, porque eu gosto de ler, escrever, do silêncio, de não ir, de não falar, de observar, e de outras coisas que só sabem ser agentes perturbadores. Minha forma de ser e de agir na maioria das vezes não passa sem ser percebida. E pronto, turbilhão vivo! É o momento de exorcizar os demônios e tentar seguir em frente, porque obtive nítidas confirmações acerca de minha animalidade gentil. O certo é que hoje, depois de muito pensar e especular, minha vida passou sem ser percebida, ao menos para mim.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

H2Horas


H2Horas é o nome de um livro-antologia criado pelo site de literatura Cronópios em parceria com o Coletivo Dulcinéia Catadora no ano de 2010, e seu maior diferencial é o fato de ser todo composto de forma artesanal e com material de origem reciclada. O coletivo Dulcinéia Catadora integra a rede latino-americana de projetos-irmãos Eloísa Cartonera (Argentina), Sarita Cartonera (Peru), YiYi-Jambo (Paraguai), Yerba Mala (Bolívia), Animita (Chile) e La Cartonera (México). A proposta para o projeto H2Horas foi o de unir pequenos trechos de textos de escritores que já possuíam textos publicados no site com a arte auto-sustentável do Coletivo paulista. O resultado é um exemplar interessante, com poesia extravasando de todos os lados. O trabalho ainda vem com um DVD, que revela todo o processo de feitura além de apresentar a recitação em vídeo-arte de todos os trechos poético-prosaicos. Exemplares são raros. O meu guardo com esmero. Vale a pena conferir!

Meu diário de ontem


Hoje aprendi que a mentira não existe. Aprendi que o mundo é feito de verdades infalíveis e de verdades falíveis. Hoje tenho vinte e cinco anos e um dia de vida. E não tenho nada e tenho quase tudo, porque sempre falta alguma coisa. E, na maioria das vezes, a coisa que falta é sempre a mais importante. Por isso a vida parece estar sempre do nosso lado contrário, indo sem nos levar. A verdade é que a verdade só existe se uma outra verdade é cooptada ou desmerecida por uma verdade mais nova. É o que costumam chamar de Conhecimento. Conhecimento é a morte de uma verdade e o nascimento de uma verdade-feto. E verdades-fetos morrem antes de nascer: é o que chamamos de Progresso. Conhecimento só pode ser novo, não pode ser livro antigo. Hoje eu perguntei se a mentira não existe porque eu queria saber se a realidade não pode ser construída por uma fantasia. Disseram-me que blá-blá-blá é igual a blá-blá-blá. Na verdade, uma das minhas, porque tenho verdades também, quase sempre finjo aceitar ou entender, para não perder a minha cara de doente. Mas, depois do golpe, ataco em revide, sem medo. E vou mentindo minhas verdades, porque mentir é criar uma verdade. E, querendo ou não, verdade é sempre uma verdade. Verdade não é mentira, é verdade. E eu acabo dando uma nova chance às mentiras que não são verdades nas bocas dos assassinos de mentiras. Mas é duro aceitar certas coisas, ainda mais quando se acredita em outros mundos mais bonitos e melhores que este mundo “real”. Eu acredito em tudo, e não acredito em nada. Sou assim, mas tenho dúvidas se sou.