sábado, 11 de agosto de 2012

Cartas de Além-Mar (Parte I)


Eu moraria em seus olhos

Vela

Eu moraria em seus olhos. Olhos-pesos-de-papel deitados sobre os meus em uma carta-poema de delicada caligrafia. Não pela impossibilidade de existir feito coisa que se junta a outras coisas em casas-amálgamas de paredes, retratos e paraísos perdidos. Mas pela saudade de um lugar que me habitasse. Lugar-casa, lugar-coisa, lugar-peso, lugar qualquer de légua percorrida com os pés descalços sobre a bruta pedra dos dias. Eu moraria em seu passo largo e em seu riso contido - também me habitam distâncias e discretas alegrias. Eu sucumbiria às fomes de dentro, às sedes desmedidas. Ofertaria fogueiras e aquela sua dança de línguas aos deuses do outono e seus caprichos. Aliás, eu morreria em seu corpo e sua língua. E nasceria no que em nós resistisse palavra e restasse evidência. Não que prescinda da arte a pele. Não que prescinda da vida o gozo que ampara e dilacera. É que em versos reinvento o seu corpo. E só então deslizo suave entre os escombros.

Vento

eu moraria. eu morar ia, eu amaria e amar iria caso fosse possível atravessar a ponte aquática do destino. distância atenta ao andar dos passos do coração, vergel cruzado pelo verde de se querer, aleia albina essa toda em torno de transcender o ser. uma pintura cravada na tela do amor é uma celebração inteira. fogos seriam acesos nas madrugadas frias e o júbilo das estrelas encontraria no escuro o abrigo dos brilhos. eu estaria aberto sobre a fenda dos sentimentos e uma cor de presente o mundo teria na lançada curva da estrada. eu moraria no marcéu que é teu. eu moraria na dor marítima do teu gemido. moraria no encontro de duas marés. eu moraria. e você estaria sempre no pedestal da calçada mais alta na rua enladeirada mais densa de sabores. cinzento o firmamento velho se contorceria em lágrimas e uma chuva de vivas lamberia o ácido de tua pátina amorosa. bronze, prata e ouro. o amor em lumes em ti. eu.




P.S. Eu e a grandiosa poetisa do sul, Daniela Delias, a quem venho lendo nos últimos dias e sendo atingido belamente pela potência de seus versos, resolvemos iniciar aqui uma correspondência poética a quatro mãos, no intuito de construção de um portfólio de imagens poético-literárias onde os leitores pudessem ser atingidos de alguma forma pelas palavras e seus mil e um sentidos de ser. Os temas serão os mais variados possíveis e não há nenhuma espécie de periodicidade prevista. Os textos serão publicados neste blog, O Equador das Coisas, e também no blog Do Lado de Cá, onde Daniela escreve. Desejamos uma boa leitura a todos!

7 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem: Deviantart.

Iara disse...

Que belo, que belo, que belo!
De um Germano que germina palavra, de uma Daniela que potencializa versos.
Reverencio, agradeço e quero dos dois, a quatro mãos, quarenta vozes e infinitas falas minhas depois de cartas e de poemas e de escritas e de pedras... Isso é.

Controvento-desinventora disse...

Boa química literária!

Daniela Delias disse...

G., não tenho palavras para expressar a minha alegria por essa parceria. A tua escrita é de raríssima beleza. Incrível como Vela e Vento falaram por si. Obrigada pela oportunidade! Tem coisa mais bonita que a poesia?

Beijo no coração, com muito carinho e admiração,

Dani

Vilma Pires disse...

Que maravilha, essa leitura me faz viajar por mundos imaginários!!!

MA FERREIRA disse...

A Dani é uma querida, talentosa, meiga e linda....Parabéns pela parceria Germano!

A vela e o Vento....amei...!

Parabéns os dois talentosos...
objetivo atingido!!

bj...

Caroline Godtbil disse...

Enriquecemos com essa parceria. Benvinda seja e, a julgar pelo que veio de permeio nesse primeiro "Eu moraria em seus olhos", há prenúncio de delícias. A palavra (e seus mil e um sentidos) se amplia a partir desse encontro entre vocês.
Sigo junto.
Beijo.