quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Cartas de Além-Mar (Parte II)

Fotografia: Jaime Sampaio


O raso

raso. passo alto sem tocar superfície. saudade é uma verdade doída. amor nem pensar. café seco com instinto na manhã decorrida ativa o nada que não suportamos. eu viajo pensando na esquina onde dobram as pernas. estar sentado é estar pronto para alguma coisa também que não ou que sim. raso, insisto. assim, sem nem. um universo tão distante. uma força. uma forma. evoco essa prosperidade dos tempos idos em mim. eu costumava achar diamantes sem me esforçar tanto. achava-os, empós um mundo em punhado puro. cascalhada era a minha sina. e hoje? não é mais fundo tudo? jaçados seixos pontificam a trilha de se ir. para onde quando nada? para quando quando sempre? refugo. pareço partida. vejo diamantes na água que bebo. me diamanto. a água traz um reflexo. há alguma coisa nela que adocica. acendo e incendeio. há um fogo molhado. arreio minha cavalgadura e teimo. teimo.


O fundo

dentro aquela solidão de garrafa jogada ao mar. fora o cordonê e as miçangas. você sabe: é setembro, há poucas nuvens e ainda carrego pedras. não sei se fundo é o mesmo que bruto, se bruta a gema que resiste e arranha. mas ontem também era partida e pensei grutas, distâncias absurdas, metais escondidos, homens e garimpos, passados e entranhas. tudo tão cinza, e eu águas de dentro, água-marinha, azuis de topázio, céus de safira. as pedras, elas insistem. sei porque também teimo jazidas, descaminho superfícies, ardo em seu chão de cascalhos e diamantes. insista. você sabe: é setembro, há poucas nuvens, carregam-me as pedras. dentro os seus olhos e aquela solidão de garrafa jogada ao mar. fora outra saudade, essa doída verdade, o cordonê e as miçangas. das sementes que você mandou fiz um colar de contas.



P.S. Eu e a grandiosa poetisa do sul, Daniela Delias, a quem venho lendo nos últimos dias e sendo atingido belamente pela potência de seus versos, resolvemos iniciar aqui uma correspondência poética a quatro mãos, no intuito de construção de um portfólio de imagens poético-literárias onde os leitores pudessem ser atingidos de alguma forma pelas palavras e seus mil e um sentidos de ser. Os temas serão os mais variados possíveis e não há nenhuma espécie de periodicidade prevista. Os textos serão publicados neste blog, O Equador das Coisas, e também no blog Do Lado de Cá, onde Daniela escreve. Desejamos uma boa leitura a todos!

2 comentários:

Daniela Delias disse...

Grata pela parceria, Germano.

Urbano Gonçalo disse...

Oi Germano!
Tenho a certeza de ver aqui mais boa leitura após esta nova "sociedade", voltarei!
Abraço.