domingo, 31 de março de 2013

Quem quiser um sobre climas


Por Germano Xavier

o sol arde. arde como todo sol há de arder. e a Terra esquece, por um minuto, de que em sua superfície habita uma criatura frágil e debilitada. forja-se, no sempre e no todo, o rumor da falsidade no exato momento em que cria-se a mentira. cada um é o espelho de seu banheiro, de sua sociedade, de seu próprio olhar estático ou transitório, da quentura ou frieza de sua cama. cada um leva o passo que dá, o caminho e a vontade, sua luta. o pior, por vezes, é que, longe de qualquer metáfora de esquina, deixamos de acreditar, sob os auspícios de inumeráveis tipos de restrição, nas instâncias mais obscuras das palavras. a palavra que, como um ser-pessoa, torna-se capaz de exprimir sensações e o tudo. e aí o sol que queima é o mesmo que dá espaço ao frio das relações de inverno. todas as folhas, assim, um dia caem da copa e o inverno acaba. o tempo é esse. o tempo que é sempre. o homem que não. todavia, enquanto não chega o entardecer nevoento, tentar cuidar das partes que nos afligem é sempre um bom começo para uma nova estação.

sábado, 30 de março de 2013

Metamorfose


Por Germano Xavier

Cama de leão.
Camaleão foge.
O leão corre
e a formiga
torna-se
tanajura.

E tudo muta...

Agora a meta é por pose,
metaporpose:
metamorfose.

sexta-feira, 29 de março de 2013

O lead jornalístico e o cotexto


Por Germano Xavier

caminhos para uma simbiose obrigatória


As marcas textuais que caracterizam e qualificam um texto como sendo, ele, um produto jornalístico são diversas, assim como se dá com outras tipologias ou gêneros de texto. Além de requerer sua respectiva presença em um dado suporte midiático, seja ele em formato impresso, radiofônico, televisivo ou eletrônico, o produto textual de ordem jornalística também pressupõe, entre tantos outros mecanismos, a velocidade, a informatividade, o desprendimento e alguns elementos técnicos que auxiliam no processo ao qual se destina. E é justamente dentro deste panorama que se faz demasiado visível a forte dependência que o lead tem para com o cotexto discursivo.

O lead de um jornal impresso, para tomar como exemplo, tem por finalidade fazer com que o leitor, ao ler o primeiro parágrafo de toda a matéria/notícia publicada - local onde geralmente o lead aparece -, seja informado dos acontecimentos basais - em geral, o lead tenciona responder às perguntas "o quê?, como?, quando?, onde? e por quê". Todavia, para que a transmissão da mensagem seja efetuada com clareza, as relações entre os termos utilizados e o sentido agregado à mensagem precisam estar em perfeita harmonia. E, para que isso ocorra, é necessário que haja uma rigorosa observação do contexto, que, para Maingueneau (2001, p.26), "não é necessariamente o ambiente físico, o momento e o lugar da enunciação."

O cotexto encaixa-se dentro do contexto, e forma, juntamente com o "contexto situacional" e com os "saberes anteriores à enunciação", um complexo de instrumentos que auxiliam na compreensão do texto. O lead, como parte fundamental de uma notícia jornalística, deixa-se encaminhar pela íntima relação que tem com os elementos dêiticos/conectivos pertencentes ao cotexto linguístico. Segundo Maingueneau, são estas "sequências verbais encontradas antes ou depois da unidade a interpretar" (2001, p.27) que vão assegurar a qualidade ou o teor de incompreensibilidade/clareza possivelmente presentes no lead.

Sendo assim, percebe-se uma simbiose linguística de fundamentos quase que obrigatórios. É verossímil, e nada constrangedor, dizer que um não existe sem o outro, ou que um é indispensável ao outro. Todo esse processo faz com que, quase que imperceptivelmente, o sujeito-leitor se utilize, ao ler o lead dentro do corpo de um texto jornalístico, de recursos indispensáveis à interpretação do conteúdo, fazendo com que o propósito informacional seja plenamente averiguado no ato da leitura.

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MAINGUENEAU, Dominique. Análise de Textos de Comunicação. São Paulo: Ed. Cortez, 2001.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Da incoerência dos homens


Por Germano Xavier

Degolai-vos, pobres criaturas mortais,
porque não sedes nada diante da ventania,
esta nobre chama invisível e branca
que nos aterroriza intensamente...

... e as brisas suaves
de camarote as vejo,
e sinto se encontrarem
por entre meus flancos.
Cortai-vos as carnes, vossas fraquezas,
vossos pandemônios indecifráveis,
que nos corroem nas íngremes distâncias...
Ah, somos tão pequenos e frágeis,
que nos tornamos noites brancas
recheadas de incontáveis desesperos.

Oh, grandes esperanças, hei de nutri-las!
Serei ainda neste mundo um gato,
a olhar de soslaio
e com ar de desinteresse
para os recantos sujos
de onde os doze cézares abriram seus maxilares.

Degolai-vos, a si próprios,
pois é dos sinceros a alva nuvem dos céus!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Panóptico (ou o olho que tudo vê)


Texto 03: O panóptico ou A casa de inspeção – IN: SILVA, Tomaz Tadeu da (org). O Panóptico. Jeremy Bentham – Belo Horizonte: Autêntica, 2000, pag. 15- 26.

Por Germano Xavier


De cara o título do texto já me conquistou.

Fiz uma espécie de separação, talvez resquícios de uma cadeira ou outra do curso de Letras que faço. A junção do termo “Pan”, do grego “Pantós”, e o seu significado de abrangência, de totalidade... com o termo “Óptico”, do grego “Óptikos”, respeitante à visão, ao enxergar as relações humanas e o mundo, ocasionou curiosidade em mim. Eu estaria diante do “Olho que tudo vê”, do grande escritor e filólogo J.R.R. Tolkien? Por admirar a saga fantástica escrita por este mestre da fantasia, escolhi o texto de Jeremy Bentham. Era dúvida também se esse texto faria uma conversa paralela com os programas estilo “Reality Show” televisionados por “mundos” não tão distantes. Era dúvida, sim, mas eu precisava ler o texto.

E li.

O mundo passou por mudanças. O mundo muda, sim, sempre. Ele é mutável. O homem é mutável, ele muda. As relações sociais mudaram, em todas as esferas possíveis. O contato Homem X Poder mudou, muda, é mutável. Não foi diferente durante a Idade Média, trevas que não sei onde. Não foi diferente nos anos e séculos após o “fim” da Idade Medieval.

Um dia tudo fica velho, perde seu valor ou perde seu mérito existencial. Aí surgem novas coisas, novas idéias, novos homens. E a mudança de paradigma é sempre uma batalha “dente por dente, olho por olho”. O estratagema escolhido para se alavancar muros novos é um signo difícil de ser elaborado.

O estratagema.

Jeremy Bentham quebra os vidros opacos da frente de nossos olhos e revela o novelo de lã que é o alicerce de uma instituição social-humana. O presídio é a fonte de análise, o projeto de sustentação de seus valores enquanto presídio e enquanto aparelho funcional. O seu destinar, o seu “para quem, como?”... Da planta ao telhado, a noção de objetivar uma feitura.

Qual a significação? O valor? A forma que isso toma, qual? Um presídio é só um presídio? Quando ele muda de nome? Quando vira Casa de Inspeção? Transforma-se? Como? Para onde vai? Quem é o habitante? É o homem o habitante? É? Não? Sim? De que tipo? Tem tipo? E esse homem, vai? Quem viu? Para onde? É cimento de construção esse homem? Ou é brinquedo de quebrar? Serve? Ou gasta? Como mudar o nome desse homem? Tem como? Há jeito? Há? Como?

No Panóptico, a função básica parece ser o comunicar para descomunicar, olhos para não ver. Há uma preocupação em produzir afastamento, desligamento, incerteza, desnatureza e desinformação. A tal “inspeção” é feita para privar, reter, castrar.

Capa-se a alma do homem. Capa-se o olho. O homem fica cego...

Será mesmo novo esse método? O ordenamento das funções dentro da arquitetura do presídio deve obedecer a um conjunto de ligações, de comunicações. Os tempos modernos pediram uma revisão na forma de o homem se comunicar com o próprio homem, e também com o que a ele parece superior.

Ficou necessário vigiar.

Vigiar: subtende-se controlar. Controlar, palavra de ordem. Controlar o homem, ele próprio.

Controlar...

O Panóptico é a cadeia da alma. Prisão organizada para matar o fantasma da existência. O ver é a arma que trucida, o vigiar é o sabre que esfacela, o espiar é a mata que esconde, o ser-visto é a faca na jugular, morte sem vida, caimento dos ombros, a dor que suga pouco a pouco...

Alguma semelhança com a noção do Big Brother?

O que diria Orwell?

Daria ele um tiro para o céu e comemoraria a existência já antiga de um de seus mundos?! Ou revelaria influências diante das missivas observadas no texto de Bentham? E por que tanta aleivosia? Não é o Panóptico a câmera que te vigia quando atravessas a calçada de teu prédio? Não é o Panóptico a câmera que registra a placa do seu carro na saída do estacionamento? Não é o Panóptico a imagem tua no televisor do supermercado?

O que é mesmo Panóptico?

Existiu ou existe? Velho ou novo? Usa muletas o Panóptico? Quem vai preso? Eu? Você? Todos nós estamos presos? Quais os crimes? Viver? Viver é um crime? Ser homem é um crime? Somos vítimas? Sim? Não? O que somos?

Tijolos de construção? Ou cimento de quinta categoria?

terça-feira, 26 de março de 2013

Ondas nada comuns


Por Germano Xavier

O uso da esfera pública com a finalidade de formação de uma consciência coletiva (localidade), a democratização da comunicação e a promoção ao engajamento da comunidade em prol da defesa e da manutenção de sua particularidade social, possibilitando a geração de movimentos sociais que encontram no pleno direito ao exercício da cidadania a sua meta primordial, formando também "agentes políticos" saudáveis... Talvez sejam essas as três características mais desrespeitadas no ambiente de uma rádio com a concessão para ser comunitária. Em síntese, a maior parte das características e funcionalidades objetivas ligadas a qualquer rádio comunitária é desrespeitada e/ou desviada a partir do momento em que seu pensamento básico atrela-se, direta ou indiretamente, à mídia. Tal fato explica, de uma forma mais contundente, a desvalorização do caráter original das emissoras de rádio comunitárias. Perde-se assim o foco da racionalidade, abrindo espaço para a introdução de uma metodologia discrepante da que a origina. A defesa e a preocupação com o que é de ordem social e de interesse geral (maioria) da comunidade/localidade é reprimida a tal ponto que o cidadão é obrigado a aceitar posicionamentos que não condizem com a sua realidade, tornando-o alienado e reduzindo-o ao papel de mero consumidor de bens simbólicos. Há uma espécie de prática de uma "violência" simbólica por parte dessas estações transgressoras, um nuvem negra que sobrevoa a atmosfera cognitiva e intelectualizante de milhares de pessoas. Outro ponto a se destacar é a instrumentalização do meio comunicativo, nessa caso o rádio, por meio de figuras políticas ou partidos/legendas, com o desejo de angariar conquistas eleitorais. Uma apropriação indevida de um espaço destinado a outros objetivos, mas que serve de combustível para a máquina da corrupção. E o pior de tudo é saber que esses atos são, indubitavelmente, facilitados por administrações também fraudulentas. Muitos mitos são forjados através dessa prática ilícita. Desse modo, a comunidade acaba perdendo a vez e a voz, o direito à cidadania, à moral e à liberdade de expressão. Essa atitude, quando não aparece clara e inteiramente perceptível aos ouvidos do cidadão, surge camuflada, jamais perdendo o seu caráter degenerante. Não obstante, há a prática do que se convencionou chamar de "coronelismo radiofônico", entre tantos outras artimanhas que são utilizadas. Aqui o patrão (geralmente um candidato político) arma uma rádio comunitária, difunde suas propostas e, depois de se sagrar vitorioso - ou não - "entrega" a emissora à população, manipulando interesses e vontades que deturpam os anseios da massa.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Os estranhos cavalinhos de J. J. Veiga


Por Germano Xavier

O nome do livro já provoca um meio-espanto: Os Cavalinhos de Platiplanto. O curioso pergunta-se: mas que diabos é Platiplanto? Doze contos e pouco mais de 120 páginas. O apressado diz: livro bom é livro grosso. Um tal goiano de nome José J. Veiga assina o livro. O outro vai e retruca: nunca ouvi falar. Estamos falando do livro que há exatos cinqüenta anos – a primeira edição foi publicada em 1959, com o autor já com 44 anos de idade – inaugurava o gênero Realismo Fantástico na literatura tupiniquim. Aproximadamente 12 anos antes, em 1947, Murilo Rubião invadira o cenário de nossa literatura com contos também fantásticos, o que ainda hoje é motivo para embates acerca de quem realmente é o precursor desse tipo de escrita em solo nacional. E, como se não bastasse, chega um por detrás e sussurra: o que significa Realismo Fantástico? Para melhorar as coisas, se eu disser que o colombiano Gabriel Garcia Márquez, autor do clássico Cem anos de Solidão, o belga-argentino Julio Cortázar, cuja obra-prima é Rayuela ( O jogo da amarelinha ), Vargas Llosa e Jorge Luís Borges são expoentes natos deste sub-gênero literário, marco literário da segunda metade do século XX em toda a América Latina, é bem provável que a penumbra comece a esvair-se, e terminemos adentrando um pouco menos leigos neste mundo “real-fantástico”, de estro kafkiano.

Também há dez anos – o escritor, nascido em 1915, morreu aos 84 anos - J. J. Veiga nos deixava, o que fez surgir, sem sombra de dúvidas, uma imensa lacuna em nossas letras. Tratado como inovador e extremamente maduro pela crítica, seu primeiro livro foi logo abocanhando os principais lauréis literários existentes no Brasil naqueles idos, a citar o Prêmio Fábio Prado, um dos mais concorridos até então. Narrados em primeira pessoa, os contos presentes em Os Cavalinhos de Platiplanto são marcados por uma forte aura de “brasilidades”, ambientações e expressões regionalistas, retratando reminiscências, estas com características aventureiras ou não, vividas tanto por personagens infantes quanto por adultos. Num tom quase que avesso à denominação fantástica dada à sua obra, o autor preferia dizer que seus textos geravam não um “realismo fantástico”, mas sim um “mundo fantástico real”.

E justamente nesse contraponto, ao qual se insere o real e o irreal, o que é e o que não é, o verídico e o fabuloso, é que destoa a pena mágica veigueana. Os contos são fabricados de tal maneira que, em dado momento, perguntamo-nos: “mas o que há de interessante nisso?”, como por exemplo, no relato de uma fábrica que é instalada atrás de um morro, fato que causa mudanças rápidas e impensadas no cotidiano das pessoas (conto A usina atrás do morro), ou na história de um pacato professor interiorano que diz saber o roteiro para um antigo tesouro, que sofre com a desconfiança oriunda da população do lugarejo e que um dia resolve fazer um protesto contra todo o descaso vivido por ele (conto Professor Pulquério). Até aqui, nada de tão intrigante. Mas é bem no trato substancial do que aparenta normalidade que Veiga urde com maestria o seu absurdo temático, quase sempre pegando o leitor desprevenido e atirando-o num universo perturbador, extremamente estranho, apesar de parecer simplório ou sem bifurcações quando ao sentido. Um exercício surreal é pincelado em tons amenos, porém firmes, talvez para não afugentar o leitor menos atento, que como queria Cortázar, percebe-se diante de um tipo de conto que prestigia a unificação de mais de uma “narrativa” dentro de uma única história. Segundo Candido, os contos de Veiga são “marcados por uma tranqüilidade catastrófica”. (CANDIDO, 1987, p. 211)

Fruto de uma reformulação literária, presenciada principalmente a partir da instauração do regime militar no Brasil em 1964, a literatura dita fantástica iria romper com as insinuações exacerbadamente realistas, por conseguinte quebrando também com os modelos advindos de um naturalismo já em “irreversível” desgaste. Em seus contos, Veiga busca o insólito, e no uso da ficção faz germinar de suas mãos uma realidade alegórica, distante do que possa simplesmente parecer. A tensão entre o cotidiano e o insólito vai sendo criada ao passo que invadimos as páginas e os pormenores do livro, num movimento de ascensão gradativa – nunca acontecendo o sentido inverso -, para no final terminar por eclodir alguma coisa, revelar algum segredo que ficara perdido no meio da trama ou desmascarar um mistério que estava à vista de todos, todavia imperceptível. O final é quase sempre apoteótico, mesmo sem exageros. É como se Veiga não estivesse, em nenhum momento da obra, disposto a correr o risco, inclusive extremamente natural aos escritores fantásticos, de ter suas narrativas muito distanciadas da “provável” realidade, o que poderia dificultar a compreensão dos textos, mas soubesse muito bem lidar com as dimensões limítrofes tanto do real quanto do irreal. No fundo sabia que, “para assumir significação, o fantástico necessita criar uma curva que o reconecte com o mundo”. (LIMA, 1983, p. 207) Nesse jogo, Veiga superestima a linguagem informal, sem banalizá-la, aproximando-se da literatura produzida por seus escritores prediletos, a citar J. D. Salinger, autor do best-seller O apanhador no campo de centeio, e Graciliano Ramos, romancista brasileiro da geração de 30.

Outro ponto a ser ressaltado é a sua ligação com o momento político brasileiro. Veiga desmente muito da crítica produzida sobre tal relação, mas muitos estudiosos de sua literatura insistem em fazer tais ponderações. Em Os cavalinhos de Platiplanto, talvez o conto mais discutido a partir desse pressuposto seja A usina atrás do morro, cujo teor seria condicionado diretamente ao governo do presidente Juscelino Kubitschek e ao impacto da entrada do capital estrangeiro em nosso país. Wilson Martins, na orelha da décima oitava edição escreve: “liberto das escolas e das modas... deu à literatura brasileira um daqueles livros pessoais e verdadeiramente novos que assinalam a história dos gêneros: na contribuição quantitativa do conto, ele trouxe, com o sr. Dalton Trevisan, a contribuição qualitativa, a do conto mergulhado num mundo próprio, preso a contingências específicas e criando, pela magia do estilo, novos planos da sensibilidade literária”. J. J. Veiga, que nasceu José Pereira Veiga, ganhou esse nome artístico do mineiro João Guimarães Rosa, depois de alguns estudos numerológicos. O J. do centro significaria Jacinto, oriundo do sobrenome da mãe, fator que – acreditavam - lhe traria sorte. Estudou Direito, trabalhou em rádio e no meio jornalístico, inclusive traduzindo e comentando programas na rede BBC de Londres. Quer saber no que deu o protesto do Professor Pulquério, a chegada da misteriosa usina, as peripécias de Cedil e Tenisão, por onde anda o cavalo Balão ou mesmo a espingarda de Seu Juventino? Quer saber onde fica Platiplanto? Então, o que está esperando?!

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CANDIDO, Antonio. “A nova narrativa” in A educação pela noite e outro ensaios. São Paulo: Ática, 1987.

LIMA, Luiz. Costa. “O conto na modernidade brasileira” in PROENÇA FILHO, Domício (org) O livro do seminário. São Paulo: L. R. Editores, 1983.

VEIGA, José Jacinto. Os cavalinhos de Platiplanto. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

domingo, 24 de março de 2013

Ovelha-negra e adjacências


Por Germano Xavier

Lá em casa sempre fui uma espécie de ovelha-negra da família. Bicho desgarrado, sabe... Na verdade, dessa classificação que recebi desconheço a lógica. Nunca fui dado às estripulias ou aos desgovernos ideológicos. Jamais usei algum tipo de entorpecente, nunca demonstrei queda por bandas de heavy-metal. Jurei pela eternidade não deixar de ser fidedigno aos meus pais, jamais importando o teor do questionamento ou obrigação imposta por eles.

Verdade maior ainda é essa: como pode um sujeito como eu ser tido como uma ovelha-negra? Penso que tal termo remete a desmandos, atitudes inconsequentes, badernagens, desobediências e outras coisas piores... Mas, então, por que me intitularam assim?

...

Outro dia, já tarde da noite, fui encontrado por minha mãe no quintal de casa...
"O que está fazendo, meu filho? Vá para a cama, já é hora de dormir!"
"Agora não, mãe."
"Plínio, amanhã você tem de acordar cedo, esqueceu?"
"Já vou, mãe."
"E não se esqueça de fechar a porta, ouviu?"
"Pode deixar, eu fecho."

Àquela hora da noite, a última pessoa que poderia visitar o quintal lá de casa era a minha mãe. Ela era muito medrosa e tinha pavor da noite, da escuridão e de toda a sua aura sombria. Porém, naquele dia, como se fosse de brincadeira, tinha sido justamente a minha mãe, em pessoa, que viera me assustar. "Intuição feminina, e de mãe", pensei.

Então, após a sua saída, continuei a olhar para o céu da minha cidade natal. Sempre achei o firmamento da cidade onde vivi toda a minha infância, ao mesmo tempo negro e estrelado, o mais belo de todos. Ficar ali, perscrutando aqueles pontinhos luminosos, feito círios acesos, estava se tornando um hábito meu. E nunca quis saber se isto era certo ou errado, ou se era bom ou ruim. Eu apenas me deixava levar por toda aquela maravilha. Ficava horas e mais horas fitando aquelas coisinhas, tão interessantes e próximas, e também tão distantes.

Depois de quase entrar em transe, levantei sobressaltado ao ouvir novamente a voz maternal:
"Plínio, o que está acontecendo?"
"Não é nada, mãe."
"Fica aí parecendo um lelé, olhando para o céu... Perdeu alguma coisa, por acaso? Já para a cama, isso é uma ordem! Quem já viu, filho meu agora parecendo não sei o quê, vivendo no mundo da lua... Já para a cama!"
"Eu só estou olhando as estrelas, mãe."
"Não me venha com lero-lero, Plínio! Eu não estou brincando, ouviu! Você vai ter de se explicar ao seu pai amanhã. Você tem sorte dele estar dormindo agora... e eu não quero acordá-lo."
"Mas, mãe..."
"É bom você arranjar uma boa desculpa para eu não colocar você de castigo durante toda essa semana, ouviu?!"
"Eu só estava olhando as..."
"Já chega, vamos!"

...

O dia seguinte foi muito difícil para mim. Fui interrogado por meu pai e, ali mesmo, ficou decretado que eu passaria uma semana longe das coisas de que eu mais gostava, principalmente do céu cheio de estrelas da minha cidade querida.

Foi difícil, mas passou...

Nunca imaginei tais consequências. Daí por diante, eu era a ovelha-negra da família. Simplesmente por gostar de ficar olhando as estrelas, apaixonadamente. O maior título que já recebi até hoje, e também o mais injusto. Por que não ovelha-alva, ovelha-branca ou coisa parecida?

...

sábado, 23 de março de 2013

sexta-feira, 22 de março de 2013

O palhaço de mim


Por Germano Xavier

Morreu aquele palhaço da minha infância, que aparecia esporadicamente, tacitamente, e que sempre cumpria estadia na praça da minha cidade, em frente ao hospital Américo Chagas. A minha infância não é tão longe assim, por isso sofro ainda com a viva lembrança daqueles cirquinhos de meia-tigela, pousados sobre o chão empoeirado daquela praça, praça abandonada.

Uma meia dúzia de artistas vestindo fantasias em farrapos, leões fedorentos, macaquinhos esfomeados, a menininha nômade com quem sempre me apaixonava, de cabelos loiros, que saltava do alto e dava rodopios de borboleta na frente de todo mundo, as lonas desgastadas, remendadas e já sem vida, sem cor, o carro de som divulgando o espetáculo das 8 horas, um som sujo, chiado, quase incompreensível, o palhaço na frente, a garotada esperando o tempo, aquele tempo, que não passava.

Quanta falta faz a alegria, mesmo a alegria comprada, advinda de um ingresso e de um saquinho de pipoca sem gosto nenhum, senão o da felicidade. Eu me lembro muito bem, a entrada sombria, repleta de lâmpadas cansadas, a cortina pendurada. A arquibancada erguida, de madeira, sempre dava a sensação que alguém, em algum momento, iria despencar. Mas a vontade de rir era mais forte que todos os perigos da felicidade.

Já no interior do cirquinho, a voz anunciando "E hoje, tem espetáculo?", em péssima equalização sonora... e todos respondendo "Tem, sim senhor!!!", para um senhor que nunca conhecemos, nunca vimos o rosto, mas que na nossa imaginação existia e tinha a feição de um palhaço. De um palhaço mesmo, artista que aprendia a arte do riso no próprio circo, e não de um Clown, artista estudado em escolas e cursos circenses.

O meu palhaço, o nosso bufão, era palhaço sem diploma, era o palhaço que precisava ser na hora em que estava no picadeiro, que nos dava passagem, tecnologia humana de ponta, feito de improvisos e instantaneidades.

Mas aquele palhaço envelheceu, o Biancorino que tanto caminhou ao meu lado, o Aziz, o Carlitos, o Carequinha, o Benjamim de Oliveira, o Bozo, todos o bobos, o Mixuruca, o Biribinha, os Dangas do Egito Antigo e até a Hilary Chaplain, todos eles, sem exceção, envelheceram em minha alma. Hoje estão petrificados, empalhados e suspensos em alguma parede do meu coração. Todavia, a criança que ainda há no meu peito, ainda espera aquele carrinho velho, sem farol e fumacento, que passava na porta de casa , e que revelava a indelével e fantástica surpresa de um sorriso no rosto.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Português


Por Germano Xavier

Sabe, nessa cidade tudo é outro...
Nessa cidade ninguém é de ninguém.
Olhe as esquinas... "Com quem? Com quem
eu me pareço? Com esse loiro

de camisa xadrez?" É tudo um jogo...
Andando assim fica mais fácil travar a língua.
Porca miséria! Não viverei à míngua
desse ritmo de cores. Então, fogo!

Quero esse francês pelos cabelos...
Brumas do italiano, modelar caminhos.
Beber o inglês num chá das três.

Vulgarizar com o clássico, quebrar com os elos
desses "lácios". Mas, não são sanguíneos?
Oh, querido freguês, conheces o Português?

quarta-feira, 20 de março de 2013

domingo, 17 de março de 2013

Outro eu


Por Germano Xavier

Meu nome, não importa. Ele é o mínimo de mim. Na verdade, não tenho nome. Jamais possuí um. Não sei se homens deviam possuir nomes. É um fator muito reducionista, não somos só isso, apenas um nome. Não sei se somos mais que isso, mas não somente. Hoje estou mais tranquilo. A noite passada foi muito difícil. Não sei para onde foram os ratos, mas receio que eles possam voltar a qualquer momento. Tenho medo de incertezas e nunca gostei de confiar no que vejo. Resumindo, sou um sujeito medroso. Prudente, talvez. Precavido. Ela disse que eu estava mais homem hoje na hora do almoço. Que eu parecia mais homem. Na hora, sorri. Foi com uma mistura de espanto e orgulho e estridor que absorvi aquelas palavras. Qual o homem que não se sentiria mais ditoso ao se perceber mais homem ou mais másculo ou mais macho, como ela disse? Eu devia parecer menos infantil, menos uma criança. Todavia, mesmo nos adultos os cabelos teimam em cair infantis. É aquela coisa de eternidade, deve ser isso. Se já fomos um dia, seremos para todo o sempre. Se participamos de uma guerra e sangramos e fomos sangrados com as marcas da discórdia, seremos para o todo este igual sujeito. É o preço que pagamos por sermos seres eternos, apesar de mortais - o que é mesmo a morte senão o início da glória e da perpetuidade? Na verdade, não sei se gostei de ouvir aquilo. Então nunca me apareci como homem para ela? Nunca me fui? Era a minha melhor amiga e tinha certeza que tudo que ela dissesse seria a mais pura verdade. Ela só sabia falar com o coração. Era realmente uma pessoa muito especial. Uma jovem, com os seus cabelos maviosos e esvoaçantes, magra e branca como um poema. Um sorriso único impregnava-lhe a face de mulher e também de menina. Naquele dia, e para ela, eu não era mais o menino que ela havia se acostumado a ver, mas um homem. Um verdadeiro homem. E não sei até que ponto isso era ser bom ou melhor.

sábado, 16 de março de 2013

Sonolume


Por Germano Xavier

Dorme o sono criança
Vem vindo o ogro
Malvado
Vai
Respira o mundo
Pela boca
Aberta
Enquanto podes
Barquinhos de papel
Descobrindo os mares
Oceanos perdidos
Dorme o sono menino
Dorme o sono criança
Vem vindo o ogro
Malvado

sexta-feira, 15 de março de 2013

O médico e o monstro


Por Germano Xavier

The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde é o título original em inglês do livro que no Brasil ficou conhecido como O médico e o monstro, escrito por Robert Louis Stevenson, autor também do outro clássico A ilha do tesouro. O livro foi publicado pela primeira vez no ano de 1886, em plena era vitoriana, sendo escrito em menos de uma semana. Para quem gosta do gênero suspense a obra é um prato cheio. O livro traz um pouco de todos os ingredientes necessários para que o leitor não consiga desgrudar os olhos das páginas: aventura, mistério, mortes estranhas, investigação, pistas, ambientalização hostil, noite, personagens intrigantes e, mais especificadamente, um caso de dupla personalidade - naqueles idos ainda um tema muito controverso, época também dos primeiros estudos freudianos acerca do inconsciente humano. Para quem tem dois reais no bolso e prefere muito mais um livro usado a uma lata de refrigerante, não há opção melhor - este foi o preço que paguei por uma versão adaptada por Luc Lefort e belissimamente ilustrada por Ludovic Debeurme, editada em 2001 pela editora Ática. Li numa noite, e confesso que vez ou outra olhava por cima do livro os quatros cantos do meu aposento, tomado por um leve assustamento, no intuito de averiguar se o sinistro Mr. Hyde estava ou não em meu quarto. O final do livro é revelador. Uma boa aposta para horas ociosas. Boa leitura!

quinta-feira, 14 de março de 2013

Um dia dos mais importantes


Por Germano Xavier


O dia 14 de março sempre foi, para mim, um dia de muita reflexão, mesmo quando precisei viver o dia e acabei não tendo o tempo necessário para fazer este valioso exercício. Muito mais do que um dia comum, o dia destinado à poesia aqui neste Brasil cheio de brasis sempre me colocou diante de um muro repleto de preocupações e lampejos de alma. Desde muito novo comecei a escrever, isso é uma verdade. Escrevi em caderninhos com capas escolhidas à dedo que até hoje guardo com muito esmero em minhas prateleiras entupidas de livros, escrevi em cadernos maiores, em folhas de ofício coloridas, em máquinas de escrever e também em computadores de mesa. Hoje, no auge de meus 28 anos, conto em meus arquivos muito mais de 1.000 poemas, ou melhor, bem mais de 1.000 tentativas de escrever um poema que fosse, de verdade, "um poema", daqueles que podem servir para salvar uma alma qualquer ou simplesmente ficar guardado na memória de outrem. Enfim, nestes meus mais de 15 anos tentando a poesia, eu realmente escrevi. E escrevi poemas, antes de qualquer outro gênero, em minhas mais gerais tentativas. 

Foi por volta de meus 15 anos de idade, morando na cidade de Irecê-BA, que me descobri poeta, ou melhor, um fazedor de versos. Não gosto muito de carregar nas costas esta alcunha tão incerta e desmembrada nos dias atuais. Depois de uma aula de Literatura no colégio onde estudava, algo aconteceu por dentro de mim. Falo sério. Os anos vindouros seriam de tal modo a mim apresentados, incluindo em meus dias altas doses de poesia, lida ou escrita. As suspeitas foram se configurando em verdades aos poucos, com o justo passar do tempo. Um sarau aqui, outro poema lido em público acolá... e logo começariam a me chamar "poeta" pelos corredores da faculdade de Jornalismo, na tão poética Juazeiro da Bahia. Na área da faculdade petrolinense de Letras, outro curso que fiz, a coisa seria ainda mais contagiante e, por que não dizer, perigosa.

Todavia, deixemos estas questões particulares de lado. Este texto não é para contar a minha história com a poesia - já contei isto em outros textos já publicados nesta rede mundial de computadores e continuo contando a cada poema que escrevo. Este texto é antes um chamamento, um convite, já que não acredito em seres humanos sem poesia. Não acredito em nada sendo feito sem poesia. Não acredito em cidades em cujas ruas não trafeguem poesia. Não acredito em fomes sem poesia. Não acredito em salas de aula sem poesia. Não acredito em dores sem poesia. Não acredito em mulheres sem poesia. Nem em sedes, nem em rotas, nem em gestos sem poesia. Não acredito no mundo sem poesia. Existem homens que nascem com poesia, do mesmo modo que existem homens que nasceram com dois olhos. A poesia é uma transferência, ela vai e volta, entra e sai, corre e para. Não nasci com ela, mas a quis junto a mim. A maioria das pessoas ainda não conheceu a magia da poesia, estas são menos humanas por isso. Estas pessoas precisam conhecer a poesia, porque senão morrerão com suas almas paupérrimas.

Poesia é mistério sagrado e completamente utilizável por cada um dos habitantes deste globo terrestre. Enganado está aquele que pensa que poesia não serve para nada. Pode parecer bobagem, mas o mundo está como está porque falta muita poesia em tudo. Falta poesia nas mãos dos homens. Falta poesia nos globos oculares dos homens. Falta poesia nas palavras dos homens. Falta poesia até naquilo em que intitulam poesia. Poesia é magma, é arco de triunfos, combustível sem volatilidade. Meu amigo, minha amiga, não deixemos, nós, e jamais!, que a poesia perca o sentido e a direção de nossas vidas. Encaminhe-se nela, com urgência, por favor!

Tempos de Poesia


Por Germano Xavier,
para um dia pleno em Poesia.


para o poeta
cair é um tempo de esteio
o que não é sublime não serve
o vazio só embrulha tempo de espera

para a poesia
é preciso sempre um gole a mais de dor
ou de pura alegria
disciplina árdua a de tracejar magmas
relâmpago vivo assentado sobre o acaso

para quem é vivo
sem adiantos nada daquilo que te dispersa
dum caminho sem pernas sem pressas sadias
poesia é um peixe cravejado na pedra
poetas gotejam seus suores de tentar

posto que um poema todo dia expele vida

quarta-feira, 13 de março de 2013

Marcação


Por Germano Xavier


fundamento a didática
de minha lógica
pela música ouvida por dentro
pelo tamanho da queda sem o tombo
pela força desprendida
(pulso aberto por segurar a corda)

sangro toda angústia como sangra a flor
vermelha
ampliada no quesito mórbido da paixão
eu rubro você
quando penso quando quero quando flutuo
na palavra do meu verbo de berço

não se mexa
não
não se mexa

tenho uma flecha apontada para o globo oco que carregas
círculo de pegar fogo
bola-brasa de sinalizar anunciações

não
não se mexa
pode ser agora

Coração líquido


Por Germano Xavier

à guisa de mim mesmo, retiro, pois,
e muito antes retiro-me, desfeito, e mal,
tudo.

ao longo do direito, do traço e do refugo
humano, gero a remoção definitiva
do amar qualquer coisa.

portador de um valor, por mim mesmo,
inoperante hoje nas pirâmides de plástico,
fluido vou. mas

se meu coração disser um dia que te consumo,
não se entristeça. todo vínculo carece mesmo
de uma afetiva destituição.

terça-feira, 12 de março de 2013

Colecionando infâncias


Por Germano Xavier

Na minha infância, o sábado era sempre um dia especial. Eu acordava cedinho para ajudar minha mãe no leva-e-traz corriqueiro da feira livre, tradição de Iraquara. Era mais ou menos assim: depois de me levantar, nunca depois das oito horas – minha mãe dizia que depois de certa hora o consumidor só encontrava as sobras das mercadorias -, eu tomava o café da manhã reforçado e aprontava o bocapil artesanal que iria ser meu companheiro durante o restante da matina. Minha mãe, sempre bonita e bem arrumada, colocava as cédulas e as moedas que seriam gastas nas compras numa pequena bolsa de mão – mais tarde numa polchete de cor preta– e depois, entrando no carro, esperava sempre que eu abrisse a porta da garagem. Abria e fechava, mas nem sempre. Iraquara, naqueles idos, ainda era uma cidade onde os moradores podiam sem medo escancarar as entranhas de seus aposentos à luz dos olhares alheios.

Dentro do carro, rumávamos em direção à praça onde a feira acontecia – ainda hoje a feira acontece no mesmo local, com poucas mudanças -, ora seguindo pela Avenida Sílvio Almeida, ora descendo pela rua do antigo clube da cidade, passando pela pracinha do Banco. De longe já se podia ver o burburinho típico desse evento semanal. Pessoas com suas sacolas nas mãos, animais amarrados em árvores, fastiados e resmungões, quase sempre jumentos e cavalos em sua maioria, descansando sob a sombra, bagaços e toda a espécie de lixo esparramado pelo chão, antigos comerciantes cortando o fumo-de-rolo, os vendedores de especiarias, os gostosos e inigualáveis pães caseiros de Zú, os sacos repletos de farinha em diversas cores e gostos, as conversas amigáveis, as comadres em reencontros saudáveis ao espírito, as mocinhas aloiradas dos distritos e municípios vizinhos com seus encantadores olhinhos azuis ou verdes, as barracas diversas, o cheiro de carne e sangue impregnado na madeira e nas facas dos agrestes açougueiros, os cachorros na espreita por um naco de toucinho, os negociadores de qualquer coisa, ávidos como aranhas diante das presas, tudo, absolutamente tudo era já sentido mesmo estando a metros de distância do local.

Minha mãe procurava um local para estacionar o carro, quase sempre o mesmo, bem centralizado, para que ficasse mais fácil e rápido o trabalho que a mim era designado. Quase sempre começávamos pelas frutas, verduras, legumes, e só depois as carnes. Assim que o bocapil ia ficando cheio, lá ia eu, com a chave do carro em uma das mãos, despejar tudo no porta-malas e voltar para onde minha mãe estava. No começo, quando iniciei essa tarefa, encontrar minha mãe na volta era sempre um martírio. Ela nunca estava na barraca ou em suas proximidades. Porém, quando fui me acostumando, aprendi com a experiência qual o destino possível no qual minha mãe poderia estar. Apesar do movimento frenético das pessoas e da enorme variedade de feirantes vindos de diversas cidades vizinhas e das zonas rurais pertencentes à Iraquara, os barraqueiros tinham uma enorme facilidade em conquistar sua clientela e, desse modo, ficava mais fácil fazer tal dedução. Era quase sempre tiro-e-queda. Eu olhava na direção imaginada e lá estava ela, selecionando mais alguns alimentos.

A sensação de aventura incrustada nesse simples afazer era o que me movia a estar ali, sempre de prontidão quando o sábado raiava por entre os morros da Chapada Diamantina. Para mim, era uma espécie de divertimento. Fazia tudo com enorme prazer, e quão bom foi receber de minha mãe, já após muitos sábados levando e trazendo e carregando as coisas dentro do bocapil, uma quantia em dinheiro, algo entre um ou dois reais, como mérito ao meu esforço. Deveras um incentivo a mais para continuar o meu digno auxílio. Tudo não demorava mais que três horas. Depois da última “carrada”, eu ficava dentro do carro esperando minha mãe voltar. Era a hora de ela ir à parte das roupas dar uma olhada nas novidades. Às vezes passava um ou outro conhecido, amigo de futebol de rua ou colega de classe, e matava assim numa curta conversa o pouco tempo que me sobrava.

Daí pegávamos o rumo de casa. Abria e fechava o portão, depois ajudava a retirar as coisas do fundo do carro e colocar em cima da mesa os biscoitos, as laranjas, a “quebradinha” de que eu tanto gostava, os pimentões, a melancia – quase sempre devorada ali mesmo naquele instante -, onde depois minha mãe arrumaria tudo. Lembro que, com o dinheiro que ganhava em mãos, saía de casa a pé ou com a bicicleta em retorno à feira para comprar carrinhos de metal. Com aquele dinheiro eu comecei a construir minha primeira coleção de alguma coisa – antes eu já tinha experimentado colecionar embalagens de shampoo, bolas de gude ou etiquetas de roupas, mas nada que fosse para sempre. Custavam a bagatela de cinqüenta centavos cada e os mais bonitos eram vendidos na lojinha do pai de uma professora minha, bem perto da igreja matriz. Voltava para casa com quatro novos carrinhos, minha coleção aumentada e mais colorida.

Terminado o serviço, era a hora de construir estradinhas no quintal de casa e brincar sentindo o cheiro do tempero fresquinho que evolava por toda a casa. Andu com costela de porco era o sabor dos sábados da minha infância. Meu pai, depois que terminava de atender seus pacientes, ainda preparava outro tipo de carne na churrasqueira no fundo da casa. Um suco de maracujá ou de caju acompanhava o banquete. Eu tinha ainda toda uma tarde e uma noite de sábado para viver, assim como toda uma semana para sonhar com os novos modelos e as novas cores dos meus próximos carrinhos. Arrastava os joelhos até ficarem roxos por entre as três mangueiras do quintal, empurrando os carrinhos com a força de uma pureza ingênua e fazendo com a fricção dos lábios o barulho do motor como quem acelera e dobra as curvas da vida. Da cozinha vinha a voz da minha mãe dizendo que o almoço estava pronto. Eu estacionava os carrinhos na garagem da minha casa na estradinha e corria para lavar os pés. Era quando a tarde resvalava nas nuvens iraquarenses. Ah, as tardes!, tão tardias...

segunda-feira, 11 de março de 2013

Porque abandonei as outras


Por Germano Xavier

Ela é do mundo. Ela não faz aniversário no Dia do Diplomata. Ela é minha ave de arribação. Ela disse que eu não sabia amarrar o cadarço do meu tênis. E eu que não uso tênis. Ela leu Sartre e disse que pareço muito ele. E ele que pouco sei. Sei mais o russo da lapela amarela. Vai ver é uma feminista besta. Ou é ela mesma. Assim? Ela deve ser ela e eu devo ser eu. Mas ela é eu e eu sou ela. Minha mãe um dia me disse pra ter cuidado com as historinhas que lia na madrugada. Balaustrada, sarrafo, escora, pantomina geral, coro e catarse, teatro de nós ela é que constrói. Ontem fui Teseu e ela matou Ariadne só pra segurar a lã do novelo. Mapeei a orfandade dela e ela foi a própria criança que adotei. Coloquei-a na malinha e fui ser caixeiro-viajante. Toda noite ela aparecia com uma camisolinha de seda. Ela era sobre o futuro, assoviava rosas e ventos. Tinha nome leve, feito clara. Olho de relva. E eu começando apenas a ler o Walt. Não sabia que era ele o pai do Pessoa. Mas ela tinha me dito antes à queda da Bastilha. Foi me ver na prisão. Mulher da plebe, sem dor. Ela é do mundo eu disse. Foi para a Balaiada, foi para a Sabinada. Foi farroupilha, rasgou toda a roupa no quarto e se rasgou inteira de carne. Não sangrou nada. Ela fazia todo o sol gostar. E não tinha contabilidade. Gosta do símbolo Tesla. Ela era até interjeição mineira, apesar de ser personagem da literatura de Anais. Sabia dizer “Anistia” em inglês. Ela era ela e eu era eu. Porção de pêlo junto, calcanhar de Aquiles. Mitologia inteira e não desconfiava de Tolkien. Ela me fez ler “A Pomba”. Juntei sílaba pra dizer que os substantivos são invariáveis, e ela desconfiou de minha teoria. Vontade demais de ser prática, de ser o estouvado dela. Contraí empréstimos para vê-la, fali meu próprio negócio. Li até Zoroastrismo. Marxista eu já era. Fiz preces para pecar. Ela disse que eu poderia ir, que ela morava perto daquela praça e daquele hospital e daquele obelisco corroído pela chuva ácida. Aí eu fui com a minha mesma malinha. Fui ser caixeiro-viajante. Escrevi na viagem o meu maior livro: “A história que se começa assim...”. Título ainda não sedimentado. Ela era a sílaba tônica da diástole. Ela vaticinou califórnias. E fomos procurar ouro juntos. Meu pensamento dominante e obsessivo. Ela foi a minha anatomista, equipamento que utilizei para realizar perfurações. Biodigestor. Desentupiu até a pia da cozinha. Ela era a interjeição de quem testa o microfone, o anseio do imigrante ilegal, o grande crocodilo do Ganges. Aí a gente ligava a estatal italiana e sonhava com o entardecer em Toscana. Ela reagia à insatisfação da platéia pra manter meu bigode. Fazia de tudo para eu manter o foco da atenção no estande de tiro. E com ela eu acertava em cheio o alvo. Bem no meinho. E eu fazia greve geral só para amá-la o dia inteiro. E que a porra do patrão se lenhasse. Porque ela era ela e eu era eu, soberanos persas, guerreiros de Leônidas. Nossas liberdades artísticas em atuação no palco, no picadeiro. Ela adorava circos e telefonar do jardim. Podia chover chuva e ela já tinha perdido há muito o medo da chuva, chuva. Minha conjunção aditiva era ela, principal ilha do arquipélago de Palau. Ela ela, eu eu. Meu motivo para anulações...

domingo, 10 de março de 2013

Cores pavoneadas


Por Germano Xavier

Meus enfeites adquiro com a angústia
do momento. E se não são enfeites os meus
enfeites, chamem-vos de dessorrisos.
Se azul ou se vermelho, branco ou cores mortas,
minha vida no preto é mais sentida.

Manhã que não termina no cerzir diário
da família estranha (sensação de não estar aqui).

Sinceras como o silêncio desencantado de um pássaro
estão minhas adornações imprevistas –
seguem minhas não-sim-vontades,
e me lançam contra o que quase-não-sou.

Meus enfeites adquiro com a ruína inconsciente,
e apelo para minhas escondidas naturezas
em orações epifânicas de ares traiçoeiros:
a ausência, Senhor, que cor?

sábado, 9 de março de 2013

O dinossauro da Super


Por Germano Xavier

Imaginem um homem sentado numa pedra no meio de uma planície desértica. Imaginem agora que este homem não desconfia que a pedra é na verdade um focinho fossilizado de um Tiranossauro Rex. Agora junte à imagem os dizeres "Quem não lê não sabe o que está perdendo", usado numa propaganda da revista Super Interessante. Imaginou? Então, continuemos...

O produto de mídia que começarei a "analisar" a partir deste instante foi retirado de um exemplar da própria revista Super Interessante que, utilizando de seu espaço particular, acabou realizando uma espécie de esforço "metalinguístico", não na essência do significado, mas no átimo em que evidencia uma estratégia publicitária e de divulgação de sua marca dentro do produto que leva e eleva esta mesma marca. Seria isso um novo pré-requisito editorial? Uma nova "tecnologia" para a arte do convencimento? Ou uma nova e "esperta" maneira comunicativa? Não sei bem ao certo, mas esta ideia não me parece original. Faz lembrar os Parnasianos, a coisa da "arte pela arte"... Percebi que existiu uma maior (e bota maior nisso) preocupação com a linguagem visual do que com a escrita. Percebo um enorme fóssil de dinossauro, provavelmente um Tiranossauro, que ocupa quase que todo o campo da página fazendo alusão a um passado incomensuravelmente distante e mágico. No topo, um jovem pós-ultra-moderno vestido ou equipado a la American Way of life - como a maioria, claro -, completamente distraído, contemplando o horizonte e, sem se dar conta, sentado na estrutura óssea superior de um milenar e pré-histórico animal. Mas qual a moral da história? Qual a mensagem que a Super, utilizando-se da própria Super, quis transmitir? A frase presente na propaganda, que diz de maneira direta, "Quem não lê não sabe o que está perdendo", seria, talvez, a melhor resposta para estas perguntas. A informação, ou também a falta dela, ligando-se diretamente àquele velho dito do "ver mas não enxergar". Porém, o que o rapaz está perdendo? Pelo simples fato do rapaz não ser leitor da Super Interessante, ele perde a chance de perceber que não está sentado numa rocha, mas sim no focinho de um Tiranossauro Rex. E mais, perde a possibilidade de ter descoberto o mais novo parque arqueológico do mundo, que simplesmente estava ali, sob suas nádegas! E mais, perde a chance de se tornar famoso, de seguir uma carreira brilhante como cientista ou pesquisador, meramente por ter sido ele o dono da descoberta! Ficamos com a impressão de que a Super é um verdadeiro manual paleontológico, que vai nos mostrar os atalhos e os truques para diferenciarmos uma pedra de um dentre de um Tigre Dente-de-Sabre, por exemplo (desculpe a redundância). O rapaz poderia ser leitor da revista Galileu, por exemplo, fato que não o tornaria capaz de discernir a pedra do fóssil. Este conhecimento só é adquirido por advento da leitura da Super Interessante, e nada além dela. Só, e somente só, a Super Interessante pode mostrar o caminho para uma descoberta desta magnitude. Continuando a leitura e análise da propaganda, é possível extrair a ideia de uma sabedoria consumível, facilmente encontrada nas avenidas e ruas deste mundo. Lá está ela, saída do forno, imótua numa banca de revista, e agora até nas prateleiras dos Supermercados! A ordem agora é ler. Não apenas ler, mas ler a Super, pois só o seu conteúdo pode ser aplicado em seu cotidiano em prol, quem sabe, da humanidade e porque não dizer de um prêmio Nobel de "Faro Paleontológico", se caso existisse. Peço desculpa pela brincadeira. É que a situação chega a ser cômica. Imagine você no quintal de sua casa a olhar um líquido preto e mal cheiroso que brota do chão, achando que aquilo não passa de uma tubulação de esgoto quebrada. Entra ano e sai ano e você não dá a mínima importância para aquele pequeno vazamento, sem imaginar que seu quintal é um verdadeiro manancial petrolífero capaz de produzir mais de 1000 barris de petróleo e seus derivados por dia. E tudo isso porque a senhora não lê a revista Super Interessante todos os meses! Será que tudo isso é verdade? O certo é que a comunicação tem o poder de convencer e de deslocar o pensamento humano. O conhecimento e a informação pelo consumo (ou pela leitura), é o tema principal desta propaganda. Nada seremos se não lermos a Super, pois como ela mesmo diz no rodápé, "saber é Super". Talvez se não lermos, sejamos reduzidos à condição de insetos, feito o Samsa do Kafka. Meu deus!

sexta-feira, 8 de março de 2013

Das perdições precoces


Por Germano Xavier

Cordões violáceos
duram meus regimes.

Temporã é a fruta
do meu ventre-mão

Carteio, em grifos de depois,
meu sonho de ser antes.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Pedido


Por Germano Xavier

Estou aqui. Sinto algo. Que horas são? Esqueceu? Eu não esqueço. O ponteiro marca. Àquela hora. Por favor, meu mais delicado por favor. Eu estou aqui. Sente algo? Que horas são? Você esquece? Quem é capaz? A hora marcada. Meu deus. Eu estou aqui! Sente? A caridade é esta chave, meu bom Rimbaud. Hienas sorriem a esta hora. Quero saber que horas são. Vou fazer um pedido. Não estou bem. Meu rosto. Manchas. A claridade também. O excesso. Tudo me cega. Aquilo. Eu vejo. Ainda vejo. Consigo. Minha cegueira é parcial. De momento. Você vai rir. Eu sei. Pode. Quando pára? Estou aqui. Não sente nada? Tic-tac. Faz o relógio. O que ele aponta? Tenho medo de a hora terminar. O abismo da hora. Estou amargo. É o meu gosto. Isto é um pedido. Minha vida de desculpas. Sempre assim. Não sou assim. Lamento. Muito. Me perdoe. Você vai rir. O minuto. Lembro. Abri meu coração. Não foi hoje. Antigamente. Todo o coração. Tenho um. Pode rir. Vou pôr a mão. Sente? Estou aqui. Sinto. Marca o tempo. Quero começar. Penso. Tanto tempo. Mas tanto mesmo. Minha vida. Me perdi. Como. Não. Sim. Meu espírito dói. Vou levantar. Está escuro. Sempre. Por quê? Eu anseio. Comprei papel. Vou. Escreverei. Pulei nu no mar. Não me lembro se sei nadar. Quem sabe nadar? Do que nos livramos? Pode alguém? Boa noite. Há quanto não nos... que saudade de você. Amor, prezado amor. Estou pedindo demissão de mim mesmo, quero outro emprego de ser. Você me arranja? Me arranha? Aranha. Tua teia. Me enrosco. Fico. Boa tarde, vida. Oi. Estou aqui. Eu sinto. É algo. Há. Os segundos. A marca no relógio. Ponteiros, são em trio. Correm. Quero dizer. Será que vai chover? Ficou bonito o tempo. Estou pensando. Estou lembrando. É o que posso fazer. Recordo. Gravo. Apago o mal que fiz. Você vai rir. Eu me importo. O outono. Me entendo. Bom dia, amor. Escrevo pra dizer. Tudo. Falta. Estou aqui. Não sei como. Mas. Ainda vivo. Eu te peço. Madrugada. Pode haver um corvo na janela. Olhe. Quanto tempo ainda tenho? Pode acabar amanhã. Até já. Eu preciso. Não deixo ouros. Deixo ir. Sem deixar. Jamais. Quero. Vou fazer um pedido. Confie em mim. Sou o que não te sabe. O arrependimento. O egoísmo. O corpo ferido. A alma mais. O corpo vazio. Eu estou morrendo. Falta pouco. Falta apenas. Eu já conheço. O sol quadrado. Já fui escravo. E bandoleiro. Não sou inteiro. Não posso ser. Meu canto é ocioso. Mas deixa que te mostro o fosso por onde andei. Na armadilha. Na arapuca. Pássaro preso. Sou o quintal. Feliz Natal! Feliz ano novo! Feliz ano velho! Aqui estou. Algo sinto. São que horas? Esqueceu? Eu não esqueço. O ponteiro marca. Àquela hora. Por favor, meu mais rouco por favor. Eu estou aqui. Sente algo? Que horas são? Você esquece? Quem é capaz? A hora marcada. Meu deus. Eu estou aqui! Sente? Me levanto. Está claro. Está ameno. O clima. Pode chover. Pode fazer sol. Sempre. Por quê? Eu desejo. Comprei papel. Anotei umas coisas. Tenho um coração. Vou. Escreverei. Pulei nu no mar. Não me lembro se sei nadar. Quem sabe nadar? Do que nos livramos? Pode alguém? Confie em mim. Aperta a minha mão. Segura firme. Por favor. Não desiste. Estamos perto. Estamos tão perto. A onda vai passar. A onda já passou. Vem. Falta pouco. Falta você. Me falto. Sou nada sem. Um braço. Uma jarda. É o destino. Estou nadando. Não sei nadar. Vou te salvar. Meu bem, meu bem. Aperta a minha mão. Que horas são? Vai passar. O frio. Olha a praia. Estamos perto. Segura em mim. Boa noite. Há muito no peito, este ar... saudade. Amor, excelentíssimo. Estou pedindo demissão de mim mesmo, quero outro emprego pra ser. Você me arranja? Me arranha? Aranha. Tua teia. Me enrosco. Fico. Boa tarde, paixão. Olá. Estou aqui. Eu sinto. É algo. Há. Milésimos. A vida no relógio. Ponteiros, são três. Rumam. Quero dizer. Digo. Será que vai chover? Ficou bonito o tempo. Estou pensando. Estou lembrando. É o que posso fazer. Recordo. Gravo. Apago o mal que fiz. Você vai rir. Eu me importo. As estações. O outono. Me entendo. Ria. Acho perfeito o seu sorrir. Bom dia, amor. Tem café pronto. Escrevo pra dizer. Eu também sou clichê. Tudo. Falta. Estou aqui. Sou pobre. Mas amo. Não sei como. Mas. Vivo. Eu te peço. Madrugada. Pode haver um corvo na janela. Olhe. Quanto tempo ainda tenho? Pode acabar amanhã. Até já. Até já. Até já. Eu preciso. Não deixo ouros. Não deixo ir. Sem deixar. Jamais. Eu quero. Como quero. Um pedido. Confie em mim.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Criança olhando o céu


Por Germano Xavier

rota de tâmaras cândidas
de pêssegos macios
eu te consagro
meu ódio
minha ira

eu
te consagro com o sumo das lembranças
te consagro minha estrela preferida
minha grávida luz

brilho de mim
sem mim

terça-feira, 5 de março de 2013

Pobre de mim


Por Germano Xavier

Eu acordaria se não fosse um sonho. Os teus passos no corredor a estreitar a distância entre nossos encontros. Como não sonhar com tudo. Como não se ater às reminiscências mais puras e inspiradoras deste teu colo endeusado pelo tempo. Ah, pobre de mim que não passo de um punho mortal. Pobre. Onde estás? As tuas amarras em meu corpo, feitas com os cordões dos sentimentos profundos. Como não te enxergar ao flanco meu diante do espelho. Ah, pobre de mim que não passo de um poeta. Pobre. Onde vais? A cor do sol dos teus cabelos longos, clareando os caminhos por onde passei. Como não sentir-se preso ao teu semblante mulher. Ah, pobre de mim que não sou cupido. Pobre. Vais voltar? E esta tua epiderme tão macia e tão quente a produzir em minh'alma doces suspiros de amor. Como não libar do teu mel em todas as minhas sedes. Ah, pobre de mim que não sou loquaz. Pobre. Tu me esperas? Toca-me feito o acorde fino dado ao violino, com maciez e ternura de coração sincero. Como não tomar de versos e te cantar. Ah, pobre de mim que não sou serenata. Pobre. Viajas? Quanto quero o teu pranto a se juntar ao meu pranto e dele ver nascer a cachoeira de águas límpidas e cristalinas. Como ser indiferente às palpitações e turbulências mais internas. Ah, pobre de mim que não sei quem sou. Pobre. Estás longe? Quando passava com você, os jardins eram mais floridos e as flores mais coloridas. Como dizer-te a verdade que construo sempre ao tê-la pensamento. Ah, pobre de mim que sou sem brilho. Pobre. Vens? Por que deixa-me a perguntar para o vazio? Não se contenha tudo não passa de um sonho. Um sonho onde sou pó e esperança e você a deusa mulher. Eu acordaria se não fosse um sonho. Mas pobre de mim que sou só palavras. Pobre. Tens vida?

segunda-feira, 4 de março de 2013

Outra carta


Por Germano Xavier

Clack, Caio, e mais uma noite sozinho.


Estou olhando para os lados agora. Um agora que começou bem cedo, matina de arrefecer moléstias. Direita e esquerda, bombordo e estibordo, norte e sul. Onde as escotilhas? Os lemes? Os mastros e as velas? O capitão... o marinheiro. Mar... tão oceano o mar da vida! Todas as coordenadas revistas no mapa do meu coração. Meu coração. Os dados que dele extraio expressam qualquer posição horizontal ou vertical ao fim de um tempo tardio. Se eu dissesse a você que eu estou perdido e desnorteado, o que você pensaria de mim? Fincaria em seu pensamento a impávida suposição de que atualmente ando gostando muito de clichês e que, por consequência disso, estou a me transformar num homem-clichê, num ambulante sem préstimo algum, igual a todos? Eu que tanto soube dar indícios de que seria eu o novo gênio das revoluções internas, manipulador dos sentidos mais puros, que saberia controlar as declinações mais sentimentais e acabaria sendo aquele que lota o cemitério na morte. Eu estou triste porque você não pode me ver agora, assim desse jeito, mendigando a cor de um sorriso, porque há estes impedimentos que fazem de nós duas meras conchas marinhas, moluscos ignotos. É uma pena tanto mar tanto azul tanta luz noturna dentro do meu quarto ou mesmo lá fora, recortando toda sombra que embaça. Você veio tão linda com aquele vestidinho de flores amarelo, com aquele rubor facial que tanto admiro, com o cigarro preso entre os dedos e o tempo era tão do instante entregue que eu mesmo esqueci de alinhar os ponteiros. Era um tempo sem tempo, tempo-temporal. Ainda está aqui o relógio velho da minha avó, que você adotou como amor-objeto da casa. Leste e um espelho não me distrai, tão ácido o espelho com a minha face de tristeza. Oeste e as cortinas pesadas do acúmulo e a poeira agora não baixa. Norte e a televisão informando meus vultos, meus eus-tão-outros, que deslocados do meu corpo oco acreditaram ser possível a reencarnação e até eles, amor, até eles partiram! O sul é sempre a mesma névoa paralítica espetando a mim os dizeres sem razão. Tantas são as cadeias de brumas que me encobrem o ar bom e eu me sinto tão triste agora, olhando para os lados. Tenho vontade de não aparecer no seu aniversário. Aqui dentro eu já não sei se sou tão forte assim. Tudo fraquejou, as mãos braços pernas pés joelhos cotovelos artelhos. Sou homem sem som mergulhado no barulho mais aterrorizante. E minha sorte, álgebra parada no meio-fio da vida, abandonou o barco. A coragem é artifício para quem tem verdade, para quem entende os pássaros, não para um pobre coitado diminuído ao óbito veemente da voz. Eu estou olhando para os lados, solto e doído, olhando para os lados. Tão improvável é a fogueira em terra de gente bárbara. Linha sem a costura que une, tecido entrecortado pela imperfeição. Você vai pensar, sim, eu sei, que ah como você é estúpido e ingênuo!, e vai me chamar de criança e vociferar aconselhando-me a estancar esta dedicação exagerada depositada confiantemente em você como única e derradeira solução para a minha alma pálida. E eu vou repetir sempre que se não for isso eu não sei o que mais será, porque só pode ser isso, só tem de ser isso, este amor doente e tão comum, amor que todo mundo tem e que é amor único porque é o meu amor seu. Esquemão tão batido e você pensando em sair de vez. E acabar comigo de vez. Porque só assim você percebe domínio e sua alteração mais transformadora é sempre o exílio suficiente. Mas bem me lembro que fomos muito felizes, aquela coisa de eternidade e olhar estrelas e pensar e pensar e pensar. Agir agir agir. Atarefados para com o amor, em débito sagrado e profano, comendo-nos. E ver que você preferiu este acidente idiota a meu querer sestroso me enfia tanta faca tanta lâmina tanta dor pelas entradas do corpo. A tua queda derrubou meus muros e eu estou triste, olhando dulcificamente para a hora dos lados. Esquerda e nada, à direita volteio meu desastre de existir tanto. Coisa de não se aguentar mais. Coisa de não se suportar mais. Saber que existo e que sou tão imenso em minha existência é o mal maior. Eu não vou mais ao teu aniversário e daqui deixo meu nenhum-abraço. Amanhã quem sabe eu posso mudar de ideia, e me desbrutalizar, e me desautorizar de mim mesmo, fazer tuas vontades de novo ou simplesmente pegar a estrada. E você. E que seja para matar qualquer um de nós, os dois. Tomemos a parte que nos cabe e sejamos livres de todo pecado de não amar. Eu estou muito triste agora e os lados são estradas após pularmos os muros, quebrarmos as paredes, destelharmos os telhados. Você sempre soube que o amor só existiu entre nós e que o mundo fosse para a fossa. Meu minuto displicente de alegria é este de imaginar você distante e a desnecessária agonia de proferir todas as palavras diante de tua face. Alegria saber que esta carta só existe agora, dentro da minha imaginação, dentro deste segundo. Que ela é um exercício morto de uma estratégia de ataque que jamais existirá. Que tudo não passa de fabulação e mistério, jogo de dar sem receber, afeto de não. Esta é a mentira que quero lhe presentear, a de que não te amo como você pensa. A falsa retórica de se elaborar ruínas. Oratória feita de futilidades. Que agora, gramados arredios penteados pelo alísio, a derrotada verdade haverá em seguida de se ruflar pelos tímpanos-olhos. Pobrezinho, tão maculado pelas injustiças, só queria o bem... ah, pobrezinho, você diria. Desafortunada sina a de amar sem limite, doador de órgãos, de sangue e de ossos. Direita e esquerda, bombordo e estibordo, leste e oeste. Rosa-dos-ventos, astrolábio, bússula, constelação do Cruzeiro do Sul, lua lua lua. Tão nua lua. Tão nu de tu, sem tu, este meu débil desassossego...

domingo, 3 de março de 2013

Cânticos de morte (I)


Por Germano Xavier

Lembro-me bem
de quando morri pela primeira vez.
Meus dezesseis anos incompletos - grãos
de homem que germinavam em mim -,
e uma alma feminil.
Sem querer, sabe a lua,
vieram palavras tortas
...
Tortas palavras.

Lembro-me bem
de quando morri pela primeira vez.
Toda aquela ausência,
aquela angústia,
vazio.
Deus, quanta parede em meu quarto!

sábado, 2 de março de 2013

Uma nova ordem (?): (ou um texto em clichês)



Por Germano Xavier

O capitalismo não teme crises, guerras ou instabilidades (?). O capitalismo é um sistema severo, e talvez por ser tão rígido assim é que ele conseguiu instalar-se de maneira tão abrupta, marcante e essencialmente injusta. É dentro desse sistema econômico/social, baseado na propriedade privada dos meios de produção, na organização da produção visando o lucro, que emprega o trabalho assalariado e o taxamento de preços, que emerge uma nova ordem sociocultural: a Sociedade Tecnológica, que também recebe a designação de Sociedade da Informação, ou Sociedade Pós-Moderna, ou Sociedade Digital ou, também, Sociedade de Consumo.

A sua notável capacidade em se renovar constantemente, e por extensão, solidificar-se e fortalecer-se, mesmo sob as mais duras crises, é um dos fatores ou características que servem para diferenciar a Sociedade Tecnológica dos períodos anteriores. E é justamente nessa imensa capacidade de renovação, de reprodução, que reside o perigo. A Sociedade Tecnológica, utilizando-se do capitalismo e demandando cada vez mais de um aprimoramento e de uma redução dos gastos condizentes ao tempo de produção, acabou provocando uma verdadeira revolução no comportamento dos indivíduos. E nesse âmbito, cabe ressaltar o envolvimento de todos os setores sociais.

É quase que impossível enxergar um espaço que ainda não tenha sofrido a influência dessa Sociedade Tecnológica e desse capitalismo selvagem. Percebe-se, claramente, que, com a vigente necessidade de precisão e velocidade na produção de bens materiais e imateriais, como é o caso da informação, houve uma nova organização de valores, principalmente no que se refere às funcionalidades e capacidades humanas. O homem é constantemente trocado pela máquina, que realiza as tarefas em muito menos tempo.

Enquanto as "constituições capitalistas e tecnológicas" continuam renascendo indefinidamente, o homem moderno vê-se igualmente obrigado a se reestruturar, aprender, desenvolver-se, desapegar e evoluir. Porém, esse desapego e essa evolução não é tão facilmente conseguida, assim, sem custos. A tatuagem da Sociedade Tecnológica já se encontra em nossa pele, que maculada e ferida não sabe como cobrir toda essa mancha. Essa nova ordem fez do homem uma criatura de grandes limitações, escravizado e quase sem nenhuma possibilidade de conhecer o significado da palavra liberdade.

Perde-se, espontaneamente, os potenciais humanos para as parafernálias que sequencialmente surgem em nossas vidas; uma inquietação metabólica que apequena o cidadão, operando em conjunto, no intuito de dominar nossos antigos domínios.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Cuisine d’instinct


A Othon Ledoux, in memoriam.


um homem pode ser
feito das partes
que conhecemos,
ou das partes ainda
inéditas. há sempre uma
parte de nossas casas
que nos pertence mais.
há sempre um lugar onde
descansamos melhor,
onde vamos - e só vamos? -
ou nos recolhemos para morrer
nas águas fundas da paz.

Quando a existência dum livro ressuscita uma vida em sono.