terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Angical

*
Por Germano Xavier


Meu bisavô tinha um pedaço de chão perto do fim do mundo. Chão poeirento, estradinhas cor de barro limitadas por cercas de arame farpado, algumas algarobas no meio das visagens, um sol sempre ligado no máximo grau. Era um lugar bonito e misterioso ao mesmo tempo, que muito me encantava em toda aquela minha curiosidade infante, quase sempre disfarçada numa lívida timidez. A família por lá se reunia vez em quando, todos com muitos sorrisos e lembranças contadas nas rodas de papeação iniciadas logo ao anoitecer, isso lá na minha já um pouco distante infância. 

Meu bisavô se chamava Serafim. Era um homem alto, alvo, de uma elegância rústica que impunha respeito. Pai de cinco meninas e casado por longos anos com minha avó Vidinha, como era carinhosamente conhecida por toda a parentada e também pelos amigos mais próximos, Serafim tinha olhos de quem guardava segredos memoráveis. Ninguém sabia responder o porquê do nome do roçado do meu bisavô ser aquele: Angical. Também não me lembro de ter perguntado a ele em algum dia sobre tal escolha. Enfim...

Foi numa tarde sem chuva no céu que acabei parando lá no Angical, na companhia de meus pais. Eu devia ter meus dez ou onze anos. A gente pretendia passar uma noite por lá, o que não significava para mim muita coisa. Todavia, o que haveria de ser mais uma noite normal fora de casa, acabou se tornando algo sobrenatural e por demais inesquecível. 

A verdade é que eu nem sei por onde começar a minha história, que não chega a ser longa. Lembro-me do quarto. Sim, eu estava no quarto de hóspedes. No quarto havia dois tamboretes forrados com couro de boi, um espelho grande com molduras amadeiradas e uma cama de molas que rangiam quando nela eu me deitava. Era um cenário duro, seco por natureza, porém muito amável. Isto de dia, porque durante a noite tudo parecia ganhar outra roupagem. A casa do meu bisavô ficava preenchida de penumbras, as coisas ganhavam umas tonalidades amarelecidas que me causavam calafrios, as estrelas invadiam o firmamento quando das janelas. 

Do quarto, vi um primo meu chegar de viagem. Faria, com os pais, o mesmo que minha família de dispôs. Era um encontro e encontros assim são sempre numerosos. Chamei-o pelo nome.

- Pedro!

- Olá, primo!

- Bom te ver aqui.

- Saudade.

Logo depois, passa o Sílvio correndo desembestado, o filho da muda Celma. Sílvio era um menino muito sabido para a idade que tinha. Era um pouco maior que a gente, mas ainda compartilhava das mesmas brincadeiras. De relance, Sílvio nos avistou e veio falar com nós dois. 

- Ei, vamos brincar?

- Mas já está tarde – fui baixando o ânimo dele.

Sabem como é, não sabem? Do quarto para o quintal foi um pulo, rápido demais da conta. Do quintal repleto de animais que se preparavam para a rotina noturna até o outro lado da estradinha de chão batido foi mais ligeiro ainda. Fizemos todo o percurso à francesa, como que para escapar dos olhares de nossas mães protetoras. Deu certo.

Corríamos, despreocupados no meio da noite, guiados apenas pelo instinto de Sílvio. Ele havia dito pouco antes de sairmos do quarto que conhecia um lugar bom para ficar olhando algumas possíveis estrelas cadentes. Segundo ele, não era tão longe da casa onde todos estavam. De repente, sem antes ter chegado ao nosso destino, Sílvio fez uma cara de sobressalto e parou.

- Vocês ouviram?

- O quê? – retruquei de supetão, a também começar a me assustar.

- Vinha daqui, ó!

Sílvio apontou o dedo para o lado direito do mato baixo e pediu que fôssemos atrás dele. Aquilo não me cheirava muito bem. Pedro e eu em sua cola, cuidando para fazer o máximo de silêncio possível. Corajoso, vimos o menino começar a abrir picada com os pés e com as mãos no meio das árvores e dos galhos que arranhavam nossas peles. Meu coração estava acelerado. Pedro parecia estar com medo e me dizia baixinho que queria voltar para perto de seus pais. 

Sons estranhos tomavam conta do ar.

Foi quando Sílvio parou, a uns três passos adiante, em nossa frente. Olhou para mim e pediu uma aproximação lenta e sigilosa. Fui quase engatinhando até ele. Pedro veio em seguida. Escoramos numa pedra grande que dava para uma enorme cratera. Ali, ao centro, enxerguei três macas rudimentares, feitas também de pedra. Fiz menção de voltar, quando Sílvio me puxou pela manga da camisa.

- Vejam! – sussurrou Sílvio.

Para meu espanto, vi três mulheres com rostos desfigurados entrarem no buraco, vindas do lado oposto ao que estávamos agora. A posição era boa e aquilo me deixava esbaforido. As mulheres deitaram sobre as macas de pedra, todas em bruto silêncio. Totalmente nuas, logo ficaram em posições que lembravam as de parto. As três mulheres, então, começaram uma sinfonia de urros e gritos, quase estridentes. O vento havia ficado mais gelado naquele instante. Estávamos estupefatos.

Fixamos o olhar para o interior do orifício. O medo encarnava. A mulher que estava na maca do meio soltou um som cru e de suas partes íntimas começou a sair uma matéria sombria, uma espécie de fumaça totalmente negra. A sombra vagueou seu corpo, depois os arredores do local, e sumiu atirada ao escuro das horas. Poucos segundo depois, foi a vez das outras duas mulheres repetirem a ação, como se estivessem ali parindo sombras, as sombras do mundo todo.


* Imagem retirada do site Deviantart.

Nenhum comentário: