sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Pedagogia hipertextual, multiletramentos e a educação contemporânea

*
Por Germano Xavier
(amostra de um texto maior que estou a escrever)


1. CONCEITOS BÁSICOS PARA UMA RENOVADA EDUCAÇÃO

Partindo do pressuposto de que todo texto é potencialmente um hipertexto, torna-se possível aventar um pensamento-estudo mais voltado à análise crítica acerca de tal alicerce epistemológico, hoje tão fundamental para o fazer educacional da contemporaneidade, esfera do conhecimento cada vez mais atrelada ao universo dos saberes globalizantes. Inúmeros foram e são os teóricos e pesquisadores que tentaram e ainda tentam desvendar os segredos do texto plurilinear, ou seja, daquele modelo textual que é constituído de múltiplos sentidos, repleto de ramificações, conexões extras e dotado de possibilidades as mais variadas, tanto em se tratando de suporte quanto de significados. 

Pensar em educação é pensar na interação aluno-texto, e pensar em educação em pleno século XXI é também pensar no tripé aluno-texto-cibercultura. Para Baladeli (2011), os caracteres de multiversatilidade do texto, anteposto à linearidade típica do material impresso comum, evidencia-se ainda mais claramente quando esbarramos nos conteúdos textuais presentes na atmosfera dos ambientes virtuais. Neste âmbito, vale ressaltar o fenômeno da hibridização, tão notável nos gêneros textuais de mais uso no tempo presente.

O que se observa nas páginas da web é a hibridização crescente entre gêneros textuais; o surgimento de gêneros digitais e a fusão entre palavras, ícones, imagens e símbolos. Dado que pode ser constatado em gêneros digitais como o e-mail e o bate-papo virtual em que emoticons (carinhas que representam emoções) são utilizados com muita frequência em lugar de palavras (BALADELI, 2011, p.2).

Um novo movimento de interpretação sobre as possíveis interações envolvendo o texto e seus interlocutores/atores é assim demarcado, a contar, primordialmente, a partir de tudo que é posterior ao advento da popularização das tecnologias da informação e comunicação – TIC, principalmente da Internet.

Dizendo de outra forma, a relação entre aprendizagem e tecnologias na educação demanda agora maneiras outras de fazer florescer as competências e as habilidades desejadas na mente e na práxis do aprendiz com o suporte de tais dispositivos tecnológicos (XAVIER, 2009, p.44).

Observa-se, também, que a visão ou molde enfático que temos acerca do que realmente seja letramento nos dias atuais vem passando paulatinamente por mudanças expressivas. Destarte, o hipertexto surge agora como um complexo processual de construção de sentidos. Resumindo, o hipertexto aparece como um corpo plurilinear e multiramificado. Para tanto, independentemente do suporte que utiliza, todo texto é em si um potencial hipertexto, sendo que a diferença com relação ao hipertexto eletrônico reside apenas no suporte e na velocidade com que essas outras "direções" são acessadas. 

Como exemplo mais contundente do fator acima supracitado, podemos citar o exemplo do gênero reportagem, que geralmente é circundado por boxes explicativos, sejam eles gráficos, tabelas ou mesmo fotografias. Observado deste ângulo, o hipertexto possibilita ao leitor ser ele uma espécie de construtor ou co-autor do texto, a partir do momento em que, na posse do objeto textual, o leitor desvela diversas fontes de informação, assim como diferentes aspectos, nuances e propriedades que só serão reveladas de forma aleatória e/ou desfocada.

Entre as principais características do hipertexto, estão a não-linearidade, a volatilidade, a territorialidade, a interatividade, o descentramento e a multisemiose. O principal componente do hipertexto é, indubitavelmente, o hiperlink, que é o dispositivo técnico-informático que permite efetivar ágeis deslocamentos, realizar remissões de outros textos, bem como possibilitar o acesso a outros campos informacionais. São três as funções do hiperlink: 1) Dêitica (indicar, sugerir caminhos, enunciar e focalizar); 2) Coesiva (entrelaçar discursos, amarrar informações); 3) Cognitiva ("encapsulador" de cargas de sentido, acionador de memória e de construção estratégica). 

Outra característica marcante do texto é ser ele um elemento multimodal, produzido em camadas, e por consequência tido como um produto segmentado, composto por etapas de construção bem definidas. 

Todo texto carrega em si um projeto de inscrição, isto é, ele é planejado, em diversas camadas modais (palavra, imagem, diagramação, etc) e sua materialidade ajuda a compô-lo, instaurando uma existência, desde a origem, multimodal. Um texto é resultado de seleções, decisões e edições não apenas de conteúdos, mas de formas de dizer (RIBEIRO, 2013, p.21).

Por conseguinte, para novas modalidades de textos, híbridos e transversais que estão vivos dentro e fora de um conceito já bastante enraizado de cibercultura, há a preocupação plausível para com a larga pronunciação da ideia de multiletramentos, e não somente de letramento digital, como alguns podem preconizar. 

A evolução das tecnologias da informação e comunicação – TIC e do uso delas como ferramentas interacionais o leitor tem sido desafiado constantemente a desenvolver novas habilidades de leitura que possibilite a exploração do texto no suporte virtual – a web. A linearidade comum no texto impresso esbarra na versatilidade e na interatividade próprias do hipertexto em ambiente virtual (BALADELI, 2011, p.2).

Soares (2002) indica que o momento atual é bastante propício para o estudo dos fenômenos plurais de letramento, haja vista que estamos vivenciando novas práticas e modelos de produção e socialização da leitura e da escrita, proporcionadas muito devido ao computador e à internet, fator que incute nos profissionais da educação um senso de aprimoramento contínuo para que não fiquem à mercê das massivas transformações do campo de atuação educacional.

Diante disso, Rojo (2004) depõe sobre a importância de a escola se encaminhar para os letramentos que surgem a todo instante na sociedade. Para a real eficácia deste propósito, pensar e repensar currículos é tarefa que não pode passar despercebida. Atualizar-se, pois, é palavra de ordem, para que nenhum dos atores sociais fique literalmente para trás no panorama evolutivo já instaurado e anunciado a todos os cantos e recantos do mundo.

REFERÊNCIAS

BALADELI, Ana Paula Domingos. Hipertexto e multiletramento: revisitando conceitos. e-scrita Revista do Curso de Letras da UNIABEU. Nilópolis, v. 2, N. 4, Jan.-Abr. 2011. 

RIBEIRO, Ana Elisa. Multimodalidade e produção de textos: questões para o letramento na atualidade. Santa Cruz do Sul, v. 38, N. 64, p. 21-34, jan.-jun. 2013. Disponível em http://online.unisc.br/seer/index.php/signo. 

ROJO, Roxane. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

SOARES, Magda. Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura. Educação e Sociedade, Campinas, v.23,n.31,p. 143-160, dez. 2002.

XAVIER, A. C. A Era do Hipertexto: linguagem e tecnologia. Recife: Editora da UFPE, 2009.


* Imagem: Google.

Um comentário:

Prof. Robson Santos disse...

Lindo texto....feliz por ler tua producao......parabens