segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Desde o dia em que não te vi

*
Por Germano Xavier


desde o dia em que não te vi
tão tigresa em passos
nada lassos foram meus afãs
aos desejos de você com cheiro
de rebeldia e gosto
marginal

amei a hora que te fazia
em mim o branco torvelinho
desde o dia em que não te vi
sob o sol manso daquela tarde
de rio sem tamanho

teus modos de enluarar tardes
compilando instantes de eternizar
a espera insustentável e leve
de ser o que se foi
desde o dia em que não te vi

levei o doce amargo na boca
na busca árdua e até triste
pela água calorosa
que teus centros expeliam

dobrável corpo a abraçar
a maciez das epidermes
a lançar fora o ribeirão
das passagens e o amor

antes e depois
desde o dia em que não te vi


* Imagem retirada do site Deviantart.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Nada muito sobre filmes (Parte XI)

*
Por Germano Xavier


ELEFANTE BRANCO

Bucaneiros e bucaneiras, é o seguinte: ainda estou por ver um filme ruim com o Ricardo Darín no elenco. O moço só sabe estrelar filmaços. ELEFANTE BRANCO (2012), dirigido por Pablo Trapero, é um exemplo vivo do que estou a falar. O drama mescla religião, miséria, política e jogos de poder, tendo como pano de fundo uma favela da capital argentina que dia após dia se vê à mercê dos desmandos de toda uma ordem formada. O início é lento e monótono, mas em sua segunda hora consegue se superar. Para ver e rever com calma. Recomendo a todos os mortais!

IRMÃ DULCE

Bucaneiros e bucaneiras, eu estou profundamente encantado com o filme IRMÃ DULCE (2013), dirigido por Vicente Amorim. Uma cinebiografia digna de toda a história que perpassa este mito baiano-mundial da bondade e da caridade. Para quem não conhece o legado do "Anjo Bom da Bahia", como ficou conhecida, favor assistir ao filme o quanto antes para melhor se inteirar. Vocês entrarão em contato com uma emocionante lição de amor para com os mais pobres e desassistidos. Em tempos de hedonismos e de crueldades as mais variadas, o filme nos serve como um soco no estômago e nos deixa sem ar do começo ao fim. Grande atuação de Bianca Comparato. Recomendo a todos os mortais!

BOA SORTE

Fui ao cinema assistir ao tão falado e pouco visto BOA SORTE (2014), filme dirigido por Carolina Jabor. Cria-se uma expectativa enorme no começo do filme, mas infelizmente a trama, que termina sendo mais uma historieta de amor proibido, não consegue se sustentar e faz de seus parcos 90 minutos mais longos que o esperado. Não deu para sentir quase nada. O pano de fundo é o quesito das internações psiquiátricas, mas fica lá no fundo mesmo. Sem mais delongas, há muita coisa melhor por aí. Sigamos, bucaneiros!

O HOBBIT - A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS

Hoje tive a oportunidade de assistir ao último capítulo da trilogia O HOBBIT, de subtítulo A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS (2014), dirigido por Peter Jackson. Em 3D, a experiência foi incrível. Um ano de espera e o filme que conta o maior feito de Bilbo Bolseiro na Terra Média, quando longe do Condado, fecha com maestria toda uma saga que, na verdade, inicia-se bem antes de O Hobbit e termina com a trilogia O Senhor dos Anéis, todos baseados nos livros de J.R.R.Tolkien. Quem conhece a obra de Tolkien, sabe do que estou falando. Eu sou fã de carteirinha de toda essa mitologia literária. Por isso, recomendo a todos os mortais!

O CORVO

O CORVO (1994), dirigido por Alex Proyas, é um filme apenas razoável. Há muito mitificado pelo fato de o ator principal do elenco, Brandon Lee, ter falecido em cena, quando visto hoje o longa não causa mais tanto espanto assim. Possui toques mórbidos a la Edgar Alan Poe e a trama ocorre numa atmosfera bastante caótica. Influência enorme dos quadrinhos. Vale uma olhadela!

LUÍSES - SOLREALISMO MARANHENSE

O filme LUÍSES - SOLREALISMO MARANHENSE (2013), dirigido por Lucian Rosa, é parte-manifesto do movimento Solrealista, gerado na capital do Maranhão pelas mãos de artistas e cidadãos em geral, que mescla ativismo cultural e engajamento político. Tomando como ponto de partida a lenda da serpente adormecida que vive nas profundezas da cidade-ilha, o longa escancara a real face da cidade e de seu povo, (des)governado há mais de 40 anos pelos Sarney. Para mim, que fui tentar a vida em São Luís no ano de 2011 e que praticamente só tive a oportunidade de conhecer a face "nobre" da Ilha do Amor, o filme revelou-se bastante esclarecedor. Há pitadas de Glauber Rocha. Recomendo a todos os mortais!

PARA ROMA COM AMOR

Mais um filmezinho do Woody Allen que consegui ver recentemente. PARA ROMA COM AMOR (2012) diverte e ao mesmo critica inteligentemente a efemeridade das coisas mundanas e, também, das relações humanas. Filme construído em cima de historietas que se mesclam, cada uma com suas terminações insuspeitadas. Típico filme dirigido por Allen, com muitos diálogos e verossimilhança incrível. Merece nosso tempo na tela. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: Google.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Os bons fins do amor

*
Por Germano Xavier

madrugada de um dia


não olhe para trás
somos atores de um futuro
inexistível a contar os quilômetros

venha de longe com pouca roupa
há contos ainda não escritos
sobre os olhos com fome

narrações sobre os abraços com pressa
de um momento de paz
(mesmo que a paz seja um demônio)

e na curva de encontro
caminhe comigo imaginando inimigos
afeitos ao andar de não-liberdade



Nero quer mostrar o fogaréu do alto

aqui do alto
a chama a pele queima
cidade espiritual atingida pelo fogo
mulher aberta



o poema com chocolate

voltarás para casa
com a intensa frase do que não cessa
a dizer um sol impróprio para amadores

há doce sobre a mesa
coma o instante

(num instante há amor)


* Imagem retirada do site Deviantart.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

As árvores amorosas (Parte IX)

*

poema para a mulher da bocarra

Por Germano Xavier

por volta das três horas da tarde
na praça da cidade histórica os dois
elaboram a primeira noite de amor:

rio à frente
conversam sobre as quase-coisas
pensam em ir à padaria e pedir um suco
de laranja com gelo
sentem formigamentos nas mãos
beijam-se em anunciações de desejo
enroscam as mãos e os dedos
caminham para lugar algum

na noite tão esperada
resolvem correr caminho
para afugentar fumaças de charutos alheios

no retorno
zíperes são desatados
Montezuma coordena em tragos banais
o amor

o amor não tem solução


* Imagem: Google.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

As árvores amorosas (Parte VIII)

*
poema para a mulher augusta

Por Germano Xavier

as observações que faço 
diante dos fatos por nós vividos
podem não caber num poema

há um receio do poema
(como água ou sêmen)
extravasar a borda

por isso hei de ser digno
com o tempo que a palavra 
abarca ou abarrota
e dizer apenas que 

foi azul


* Imagem retirada do site Deviantart.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Todo caminho me leva

*
Por Germano Xavier

devo chamar de perdição
todo caminho que me leva à morte
não as estradas que caminhei
para me desencontrar

todo caminho me leva
todo caminho me traz
- como parte de meus passos
doei-me inteiro aos silêncios
de sede de fome de amor

no fim o olhar se renova
na linha de chegada a paixão
brutaliza-se

devo chamar de encontro
toda morte que não me aceitou
não as setas que me quiseram
na imprudência gozosa das bifurcações


* Imagem retirada do site Deviantart.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte IV)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


sábado 06/12/14
A piscina

La piscine

tu entres
délicatement
dans l’eau

(il y a en cela une redondance voulue)

le cœur aquatique
floral, humide
sous le maillot

ce n’est ni toi
ni le tissu
c’est le bleu qui se mouille


* Imagem retirada do Google.

sábado, 6 de dezembro de 2014

A piscina

*
Por Germano Xavier

você entra
delicadamente dentro
d'água

(há redundância proposital)

coração aquático
em floral úmido
sob o maiô

não é você
nem a malha
é o azul que se molha


Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A última quimera da noite escura

*
Por Germano Xavier

dois giros no eixo e abro
a porta do quarto
do hotel silencioso

(a essa hora
ralos escorrem os sujos humanos)

vejo você no meio dos livros
abertos que deixei sobre a cama
teus seios brancos me orientam nortes labiais
e a palavra se manifesta
(há uma intermitência) em língua
- em idioma de amor

visito escotilhas e abro-as
fecho-as (você me sabe marujo)

a última quimera da noite escura
reúne a medida certa das águas
que dão para chegar em tua flor
razão de minha selvageria


* Imagem retirada do site Deviantart.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Os versos grávidos de Maíra Ferreira

*
Por Germano Xavier


“os velhos que um dia
seremos estão pedindo
perdão”

Excerto do poema face a face, de Maíra Ferreira

Maíra Ferreira é o nome da poetisa que estreia sua inaugural fatalidade no mundo das palavras impressas. A PRIMEIRA MORTE é o nome do livro da poetisa e é também o nome do poema que abre seu livro de poemas: “quando era criança tinha um medo/de borboletas como quem não suporta/tamanha delicadeza desde sempre”. Poema-fala de uma grandiosidade perigosa gerada a partir do que é sutil e mantido entre ternuras.

Figuras infantis brincando de ofuscar nossas fatigadas vistas são encontradas nas ladeiras que as estrofes não ousam subir nem descer, como em “entre os instantes e eu vejo pensando que é tudo/na verdade simples e o mundo é no fundo/isso mesmo só isso tudo isso”. Melhor deixar tudo intacto no meio do percurso. Esplendores alheios fazem o papel dos arruaceiros derrotadores de silêncios e iconoclastas.

Cantos de erros em datas importantes que maculam as imensidões, tal qual no trote “e logo é tarde e já se perdeu tudo/o que nunca se teve”. Parece poesia feita em rota marginal, apesar da nítida presença dos saberes universais de ordem. A veia de Maíra discute a pressa das horas sem construção, a vida gasta sem ter motivo real. E pede autorização para romper cada vez mais.

Poema lindo é “pequena princesa”, versos com sal. Referências depostas e provadas no abrir das rimas inexistentes, o livro de Maíra é um exemplo de paraíso caótico. Cada poema é uma viagem, cada um é uma chegada e cada qual uma partida. Somos atingidos. A poesia vence no final da escaramuça, eis a única certeza que o desavisado leitor tem logo no passeio das páginas primeiras.

A palavra como artefato. Arma para dizer, mesmo que nada se compreenda ou mesmo que nada sofra incorporações. A PRIMEIRA MORTE dá vida a uma voz nova que tem vez no singular mundinho das frases quebradas com sanha que todos os poetas inventam de inventar. Outra coisa: poesia que debocha e quem ri não é o leitor. O leitor antes sofre sabendo-se infame e partícipe de todas as peripécias devotadas. O leitor dessas primeiras mortes de Maíra é parte do cortejo. O funeral é de espantos.

Assim: “quando me perguntarem vou ser/completamente aberta/horrivelmente honesta/e por isso aviso/nenhuma verdade vai sair/de mim”. Maíra Ferreira, pois, é o nome da poesia que tem autoridade para ser inaugural, não decepcionar e, ainda mais, para ser horizonte no universo das palavras que mancham papéis de preto em tipos misturados. Falseia tudo cobrindo os equadores (centro) das coisas com o limão das bocas em ira. Palavras grávidas: logo nascerão outras de seu ventre. Favor, não duvidar. Favor, desejar.


* Imagem: Google.

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte III)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


domingo 30/11/14
Emboscada no coração do amanhã

Une embuscade en plein cœur du devenir

j’ai visité des labyrinthes
au moment où tu as accosté à ce fort

(au milieu du jardin bleu
je ne voyais que les mâts
des navires dans tes yeux)

fatigué de m’étayer par les coins
je suis allé te joindre, mon refuge
dans mes rêves tu entres dans ma bulle
- et le vent se charge du reste

obéissant à un ordre inconnu
mes pieds m’on offert leurs pas
je ne pouvais pas imaginer
qu’ils seraient autant, à ce point-là

pour te sauver de la planche
je me prenais par Ahab en fureur contre le cachalot blanc
(l’amour est le plus grand des mammifères)

en transmutant les peurs d’autrefois
j’ai banni les axes des centres sans équateur


* Imagem retirada do site Deviantart.