sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O primeiro poema do ano

*
Por Germano Xavier

no primeiro poema do ano
caberá uma tormenta falsa de paz
na alma bêbada do dançarino
uma mulher aturdida que descontará
flagelos de vazio aos beijos estranhos
(com o estranho pintado em confetes)

o céu estourará
lançará ao breu a luz fabricada
os sorrisos confusos singrados ao passar
do tempo farão perecer os engenhos sinistros
das horas num timbre de evolução inventada
(tudo regressará num nascer que se espalha)

mas tudo será costurado
sacerdotes e fogueteiros
marchantes e vendedores de raízes nas feiras
- livres?

(tudo poderá ser curado, pois serão dias novos)

no primeiro poema do ano
oficialmente estipular-se-á o berro
entreposto aos sertões de nós-todos
como artefato da salvação

tropeiros gritarão
caixeiros e ceguinhos
poetas e coristas enlaçados sendo um só corpo
no coração do centro que consome filas de espera

tudo caberá no poema que durará um tempo inteiro

que inaugurará a nova oração
redentora para as almas já perdidas
em meios aos canaviais e senzalas modernos
(tudo caberá, inclusive a venda de nossos olhos
para não ver nada que seja feio ou asqueroso)

caberá no primeiro poema do ano
a reza da engomadeira
a morte do índio
o levante do injustiçado
o cheiro das fortunas ilícítas
a impunidade que há num verso sem dor

no primeiro poema do ano
a natureza do verbo desfrutará a comoção
do que é espelho

(monumentos de água serão erguidos
em prol de predileções e vaidades)

e nada (absolutamente nada)
irá sobrar ou ser esquecido


* Imagem retirada do site Deviantart.