terça-feira, 21 de abril de 2015

Em dois tempos

*
Por Germano Xavier

o nosso trevo de quatro folhas pode ter só três.
quando distribuíram a felicidade para as meninas 
que nascem em agosto, você se atrasou por ficar olhando o sol, 
a chuva, a florzinha sobrevivente no meio do sertão. 
(Aquela nuvem parece um elefante branco, veja...)
então ficou assim: Três folhas e a licença para sonhar.

Meu diário de amor solitário a dois, 
o mundo cinza girando tão rápido
e tantas vezes as bases ruíram.

a coisa mais estável em mim hoje sou eu.
a mais bonita? Você. A mais certa? Eu te amo.
Na próxima estação vou comer chocolate em tua boca.

silêncio, penumbra, silêncio
x x x x x x x x x x x x x x x
Meu chocolate sumiu. Foi você, Amor?

Se te escrevo é para te esquecer te desamar te desaguar.
Com a decência de quem tenta deter o sol. Mas é tudo mentira.
Atiro cegamente o amor arquivado, acumulado, empalhado, multiplicado, renegado
para longe de mim (teus olhos), alvo distante flutuante displicentemente 
posto em suspensão perigosa.

fato: ele volta em chamas.
pelo ar flechas incendiárias vingativas.
Então, vivo (ou morro?) de amor que volta.

Se o trem desgovernar (ainda não será o Mangaratiba - improvise Eu,
trilhos quebrados, tu, condutor cego. Qual a classificação do risco de te amar?
Alta estratosférica quase queimando as retinas no sol?
Praga de gente boa sempre pega, pois sigo batendo asas tortas: agora a ironia mais doce:

seja sempre serena - e nada de plural.
Depois da gargalhada engasgada: Tu falas em serenidade?
Diga isso à última chama que passou por aqui.
Mande a capa e corra. 

"A esperança é o mais sórdido dos sentimentos" (Meu dileto: J. L. Borges). Num dia sombrio (daqueles fatais), aves de rapina anunciando carcaças, o coração aqui (cínico? santo?) decidiu, à minha revelia, alimentar-se apenas de tuas sementes-de-fazer-nascer-amor, coração é leme, logo, sem remédio, Jardim Suspenso na Babilônia em chamas: Não me largue e... tente, segure-me em teus delírios - O abismo sempre me atrai mais do que o chão. Mais do que você.

Sacrílega amarração de nós todos - em dois.
Juntos – em duas unidades -, é um vazio cheio de metáforas bonitas e alguma paz criada por dedos. e eu, amor, sempre levado por mãos nenhumas para o teu lugar onde nunca estivestes. Diz de uma vez, equador de minhas vidas, para quantas terras ainda tenho de fugir para escapar de teus domínios? Pode bater o martelo. O amor compensa? Não? Dispensa?


* Imagem:  http://philomena-famulok.deviantart.com/art/Relive-all-the-memories-343466955

Um comentário:

Daniela Delias disse...

te desamar, te desaguar.