sexta-feira, 26 de junho de 2015

A prática das águas

*

Por Germano Xavier

#1

o mais amado dos homens
vou sentir-me quando
entre gemidos e sussurros
ver-me perdido e recriado
vagando (em êxtase)
entre seus dentes


#2

passeando em meus olhos
(deslizando como nuvens fecundas de amor)
a mulher que lê
(lê a alma do autor enquanto palavra)
a mulher que contempla
(seus olhos sentem e escrevem, com paixão)
a mulher solitária
(ilha de ramificações universais, ligada ao mundo pelo cordão umbilical do amor à poesia)
a mulher que recorda
(mundos em suas mãos são brinquedo e alma)
a mulher que eu amo
um astro?
uma poeta.


#3

Matilde não gosta de conhecer profundamente as coisas que ama. Com três décadas de anos feridos com todas as armas humanas de ferir almas já inventadas e muitas histórias com finais abreviados por sabotagem própria, ela se tornou minimalista, buscando apenas um pouco do que gosta em tudo, por medo de entorpecer os sentidos ou esgotar o que precisa sempre desejar. (A felicidade está no desejar e não no ter?) Para ela, uma coisa quando dissecada à exaustão transforma-se irremediavelmente num cadáver. E cadáveres não são atraentes. E até são, mas de um jeito mórbido, que ela não gosta. (Porque o mórbido mobiliza os extremos do sentir e é melhor ficar só nas beiradas dos sentimentos também). Para Matilde, (deve ser por isso que ela não consegue se imaginar dormindo ao lado do homem que ama mais do que dois dias seguidos) para dissecar algo é preciso matar. É preciso violar. Pegue um passarinho, mate-o e disseque-o e terá um cadáver em suas mãos. Nada mais. (Uma coisa dissecada e desmembrada só pode ser um cadáver).

Para ela, mais do que perscrutadas, as entranhas de tudo precisam ser preservadas. Tudo merece apenas ser sugado até um limite de mostrar uma nudez insinuada, prevista e indicativa. Nunca explícita, nunca finalizada, nunca encerrada em conclusões mortais. Matilde pensa que quando se vai além do mediano das estruturas, elas perdem o encanto do desconhecido, do sagrado, do intangível. (Tudo tem uma aura? Como o amor pode ser intimidade sem decair ao banal?) Os temas precisam ser resguardados da luz plena. O amor em todas as línguas nunca deve ser traduzido. Apenas adivinhado, em sussurros, para não despertá-lo nunca. É preciso deixá-lo dormir em paz, a nos torturar com o prazer de querer saber os seus segredos que nunca saberemos. A obscuridade é que nos mantém despertos e embevecidos. Para desejar é preciso continuar com fome, com vontade de ter mais do que gosta e sonhar que aquilo está lá, escondido. Esgotar o que se gosta é como morrer.

Matilde ama Literatura. Começou a estudar Letras. Desistiu para não chegar ao fim e saber que era só aquilo; que a magia estava em conhecer as escolas, os gêneros, os estilos, as técnicas, as manhas, as graças e desgraças, as editoras, a diagramação, o mercado, o público. Então o livro passaria a ser um cálculo e os mundos fugiriam em disparada ante seus olhos céticos. Desistiu. Melhor ficar no básico de saber apenas o que os escritores sofreram e penaram e como amaram e como morreram para que suas palavras tivessem cor e gesto e sabor de amor e sangue...


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Water-Practice-542223983

Um comentário:

Daniela Delias disse...

que linda se torna esta mulher amada aqui.