sexta-feira, 5 de junho de 2015

Para antes das chuvas

*
Por Germano Xavier

à união das gotas


I

amo abismos! certo que minha mãe me gerou em um.
lancei-me em um quando nasci.
só o abismo me acomoda.
só o abismo traduz a minha essência.
sou o meu abismo
(não quero chegar ao chão),
só caibo num abismo infinito
de amor.


II

na teia do amor (tu, aranha?)
a teia eu fiz.

luzes apagadas
teimosas do amor,
brilhar por ser.


III

dê-me a face
do beijo antigo
beijo o céu

chuva incessante
(nuvens dormem?)
em teus olhos-musgo


IV

grita o dia
as horas reclamam decisões
momento de relacionar as perdas
corpo mais ou menos quase inteiro
coração antes mais do que depois forte
intacto somente o amor do pós-morte de todas as mortes possíveis
o amor concreto-mariano-solístico.
o amor-mãe-terra-essencial.
aquele sem-nome

conforma-se no espaço-conforto de esperar a chuva que vem do caos.
atravessa a sala.
atravessa os rumos que a trouxeram ali.
ama-se ao amá-lo abruptamente como a chuva.
a chuva é que conserta os danos.
a chuva salva os corações humanos que amam quando não deviam.
a chuva de nós-aqui ainda sangrando amor.


V

olhos na janela,
não me expulse!
tenho asas fracas.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Rain-and-Umbrella-393405351

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