sábado, 25 de julho de 2015

A noite é uma mordida

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Por Germano Xavier


Mais uma noite cai como um fardo. Diário, rústico e sombrio. Um fardo que, de tão extenso, pesado e lento, é ele que me carrega, e não o contrário. Solombra. Com exceção dos últimos meses, eu sempre gostei das noites. Trocaria todos os dias por elas, sem pestanejar. Dentre os seus tantos atrativos, um dos que mais gosto é a privacidade que ela nos traz. Quando o sol vai embora, finalmente todos vão para suas casas e podemos, por um tempo, tocar a liberdade. Finalmente silêncio, finalmente sombra, finalmente paz e solidão. O dia nos mistura. A noite nos individualiza (estar só é uma dádiva que só quem já desejou muito e não teve, pode compreender e valorizar). A noite é um refúgio, uma caverna de possibilidades onde, finalmente, podemos voltar à essência do que somos (viemos da caverna?). A noite tem a prerrogativa de ser um céu ou um inferno para quem precisa dela. Para mim, ela sempre foi uma companheira de fugas. Fugir do dia, pelo sono ou pelo esquecimento (às vezes pelo choro, estocado nas horas e escondido da luz do dia para, finalmente, libertar-se entre as inúmeras paredes da noite), é algo que só se consegue com a cumplicidade da dama de estrelas. A noite (ou é proximidade de nós mesmos?) traz recordações que, para o bem do nosso presente e do futuro, deveriam continuar enterradas (talvez seja isso, nos últimos meses...). Ela não poupa o cérebro, não poupa o coração, não poupa as divergências (remoemos o moinho de vento da vida inteira). A Dona Noite não poupa ninguém. Nem mesmo os idiotas. A noite é revelação em carne e osso e, principalmente, em sonhos. A noite é uma mordida. 


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/A-small-gallery-at-night-548679421

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