sábado, 1 de agosto de 2015

A douta espera

*
Por Germano Xavier

"Não me espanto em despertar no meio da água."
(Adolfo Bioy Casares)


em revolta, o amor. o mesmo amor
que me faz ser triste e que de dentro da água,
fria como a derrota, ou em guerra de amor
vencendo, atira contra meu peito a dor funesta,
como um protesto contra o absurdo,
o mesmo amor da paz solitária de nossos corpos,
insígnia dos andantes passos de sombra.

em revolta, o nada do agora. à ribalta, o amor que mora
longe das reais carências centenárias de minh’alma.
o mesmo amor que desceu com a correnteza,
dobrando-se nas invenções da culpa.

em pormenores de nós: o amor que trama,
impreciso como a hipérbole perfeita,
justo como o começo dos sonhos.

o amor.

como se à meia-noite desejássemos postular
os vis propósitos das negações
ou os fantasmas de mármore do tempo,
a nos deslocar em paralelas difusas
na beira da manta marítima das prisões.

aos fins, o que nos conta a vida tempera a peste:
corremos para a entrada em douta espera.
o amor, como o mar, desobedece os poentes.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Sea-384541491