sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Acidentalmente

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Por Germano Xavier

O corpo todo doendo. A alma também. A vida dói em ondas. Dores de ser. Dores de não ser. A dor de sonhar é ainda mais forte. Apocalíptica. Medo de não chegar lá. Lá onde? Medo de não querer mais chegar lá. De não ter mais combustível. Combustão. Coração parado. Motor morto. Morte lenta. Morte súbita. Morte imperceptível. Da alma. Cabeça doendo. Pensamentos em confusão. E ela ainda não falou comigo esta noite. Ela deve estar... O que é mesmo que eu preciso fazer ainda hoje? Dor de cabeça. Tenho certeza de que é algo importante. Não vou tentar lembrar. Maldita agenda. Nada escrito para hoje. Mas tenho certeza de que tenho algo importante. Vou tentar dormir. Preciso tentar dormir. Ela me disse que está feliz. Ela nunca está feliz. Prefiro ela assim. Ela é mais ela quando não está feliz. Como eu. Somos assim. Mesmo quando acidentalmente felizes. Sim, nossa felicidade é acidental. Incidentes, eventos que nos deixam acidentalmente felizes. No mais, a insatisfação sempre vem. A vida. As impossibilidades, as injustiças, o caos. O amor. A falta de. Tudo dói quando o coração é sensível. A dor do mundo também é minha. É nossa. Ela e eu sabemos que não podemos sorrir a vida. A vida dói. A vida só é salva pela sua beleza rara e em raros casos. A beleza da vida nos salva da vida. Quase sempre. Às vezes não. Às vezes morremos sumariamente. No caos da vida, ressuscitamos diariamente. 


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Tomato-and-Cup-2-553561144

Um comentário:

Daniela Delias disse...

A vida dói.

Profundamente identificada, G.

Um beijo