sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Insustentável

*
Por Germano Xavier


eu não te leio antiga,
picadas, mordidas, vertigens, arritmias.
leio tudo (como quem pisa em brasas
porque precisa chegar em casa),
você eterna desde sempre.

posso com isso? você me faz não poder
com muitas coisas e me faz poder tudo.

engulo tuas letras todas com água de amor.
como até as migalhas que caíram no chão
enquanto as peneirava. encontro-as, escondo-as,
invento histórias de que eram para mim (desde sempre)
e que não caíram por acaso de tua mesa literária

letras caídas, em fuga? de teu poético fogão,
brinco de escrever histórias na lousa do tempo
que não passou. tua proximidade me assusta.
tua ausência me assusta (sou grito distante, sou voz rouca).
habito o vão entre nós dois numa fuga contraditória
(fujo de ti para ti), vivo entre tuas sombras
e carrego o fardo de ser nada: o tudo que me mantém.
a leveza do nunca ser não nos sustenta.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Fog-551789939