quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Para não se esquecer de resistir

*
Por Germano Xavier


Mas você sabe que alguma coisa está trancando as janelas. Sabe que não vai ficar assim essa história de heróis sem herói e sem final feliz. Alguém trancou o escritor na masmorra. Não haverá final feliz que caiba em tamanho abismo. Você não tem tanta imaginação, não é? Sabe apenas que é o fim do suplício, do prazer, da espera, da demora, da desforra. Os fins não chegam ao final. Os fins são todos os percursos que não fazemos. Os fins são os esquecimentos de ser.



Porque tu sabes que cair é bom
e o abismo é o lugar para ser fogo.

Porque tu sabes que ser
é como nascer em dobro.

Porque tu sabes que hoje
é o dia de dizer mais amor.

Porque tu sabes que o céu
já não é só nuvens.

Porque tu sabes que a palavra
é o sangue universal.

Porque tu sabes que o tempo
é o esboço da eternidade.

Porque tu sabes que nós
desenterramos tesouros.

Porque tu sabes que um dia
tudo será verde-musgo.

Porque tu sabes que saber
é um império invisível.

Porque tu sabes que ir
é o destino de quem é.

Porque tu sabes que só há
uma rua entre nossos nadas.

Porque tu sabes que nada
se comparará ao nosso silêncio de água... 



e que um dia silencioso
faz-se todo de amor:
o grito de ser dois.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Image-560783433

Um comentário:

Daniela Delias disse...

Ser é como nascer em dobro...

É, sim.