quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Recortes para elucidar desterros

*
Por Germano Xavier

(ou O inverso também pode ser verdadeiro)


I

Aprendi que a vida, definitivamente, não gira em torno do amor. Aprendi mais tarde do que o apropriado. Tarde demais para salvar a pele de minha juventude, mas a tempo de salvar a minha velhice da ruína certa. No fim, tudo gira em torno da sobrevivência. É uma questão de alimentar o corpo, pagar as contas e ter um teto e uma cama para dormir. Daí, dessa necessidade de sobreviver, surgem outras necessidades indispensáveis, como ter um emprego (ou coisa que o valha) e estabilidade social. Quem quer ser um morador de rua ou um andarilho? Tirando o lado romântico disso, o que sobra é o fundo do poço. Sempre achei que a maior injustiça da vida é ter de escolher as coisas mais importantes dela quando se é ainda muito jovem. Engravidar na adolescência, casar-se por engano, envolver-se com o crime inadvertidamente, brigar com a família por rebeldia gratuita, fazer loucuras por suposto amor, fazer a faculdade errada e tantas outras coisas que interferem negativamente no resto da vida deveria ser proibido. O relógio, definitivamente, não volta. A vida, definitivamente, não gira em torno do amor e nem da inocência dos sonhos juvenis. A vida gira em torno da incoerência.


II

Sim, eu preencho as lacunas. Aliás, é só isso que temos. É a nossa obra-prima. Lacunas perfeitas. Telas em branco. Quadros feitos de nada e do tudo com que os pintamos. Somos bons em preencher lacunas. E você sabe que preencher lacunas é um de meus prazeres para viver. Daqueles que só você me dá. Preencho lacunas como quem morre. Sou bom em resistir. Você sabe. Mas não sou bom em ter esperança. Eu acho a esperança um sentimento espezinhador. Uma entidade cruel e sádica. Eu gosto da resistência, da teimosia, da obstinação, da luta, de continuar só para não perder. Só para não ficar sem resistir. Mesmo que não se vença, o que não se pode é perder. Perder é morrer e precisamos amar. Compreende? Sim, temos lindas e promissoras lacunas esperando por nós. O nosso legado é um espaço em branco cheio de nós.


III

e eu que nem tenho fé
penso em milagre e magia
(ou é acidente?)
a permanência inusitada desse amor
é uma curva imprevista no plano
eu te teci tardiamente.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Migration-559388447