terça-feira, 20 de outubro de 2015

Antes de tudo

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Por Germano Xavier


Nessas estradas sertanejas, tão nossas, fotografo mentalmente cenas de poética configuração. Tirando, quiçá, um pouco de beleza de onde outro olhar tiraria muita. Pode alguma outra alma estar mais próxima da beleza do que a minha. Esta, mais próxima da sombra e do caos, tenta enxergar com os teus olhos o nosso sertão, selvagem e doce. Vi uma serra despontando à nossa frente e logo pensei em como ela era bela, selvagem e sensual. Aquelas curvas de um marrom esverdeado, sinuosas entre a terra e o céu, só poderiam ser uma provocação. Como alguém pode ver ali somente uma serra? Vejo o povo tão ferido pelo destino, quase sempre em consequência da falta de capacidade e, principalmente, de honestidade políticas. Povo que é todo de generosidade, esperança e resignação. Povo doído que sorri. Apesar. Eis aí uma bela forma de resistência. O Sertão, esse pedaço inteiro de um Brasil peculiar, sempre me encantou e me assustou. O sertão poderia ter sido o meu túmulo. Em vida. E além. Mas eu me rebelei contra essa (pseudo) fatalidade quando ainda nem sabia o que era rebeldia. Venci. O sertão não me reteve, mas eu retive o sertão dentro de mim de modo que só em suas entranhas me sinto em casa. O Sertão é tão incompreendido por quem não habitou o seu útero quanto contraditório em sua diversidade de faces. A melhor, talvez a única palavra que mais se aproxime do mistério sempre inalcançável desse país de sorriso na cara e mão estendida, seja a palavra violência. Uma violência contínua e extrema que gera uma resistência incansável. E como estava enganado o jornalista da capital. O sertanejo é, antes de tudo, gente.


Imagem: http://www.deviantart.com/art/Night-in-the-desert-567297204

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