quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Um aparelho humano no caos

*
Por Germano Xavier


A viagem havia sido um inferno. Sabe-se que você passou por lugares muito perigosos. E que a noite não passava. E que a hora se diluía. E que você deixou até uma espécie de mensagem de despedida antes de partir. Seus familiares não entendiam o porquê de tantas fugas. Você, dona de uma rota feita de maneira turva. Sem saber.

Seus objetos numa bolsa minúscula, também não compreendiam seus destinos sem fim. Você era a estrada. Aérea, por terra, por água, estradas. Deste jeito, você. Havia uma janela em sua alma que se abria toda vez que a cortina do tempo recobria a estação do seu ser.

Você, um aparelho humano no caos.

Você chegou cansada. Havia uma reserva feita em um hotel no centro da cidade estranha. A moça perguntou se você queria trocar de quarto. A camareira faxinava o asco dos outros, deixado logo cego ao abandono dos cômodos.

Você era a incerteza. Seus pés flutuavam em planície estrangeira. Sei bem o que isso significa. Sou desses. Fui um desses. Conheço portas descascadas pelas unhas do tempo. Fugi por inúmeras outras. A vida clandestina que nos aumenta a crosta da pele. O couro da alma. Sabido que nisso tudo há fé. A fé é um embrulho comum. O homem precisa de invólucros. Sempre precisou. Quando se chega a terras de ninguém tudo se insinua contra você. O pó se altera. Transformamo-nos em cacos. Percebemos uma ruptura entre o que nos mantém entre o sonho e a realidade. Você sentia a alvorada das transposições.

Você, um aparelho humano no caos.

Repito.

Você estava lá, como sempre, lindo. Como sempre, forte. Como sempre, irresistível. Irresistível de me fazer tremer, de me fazer embrulhar o estômago pela simples aproximação de sua presença.

A porta se fecha e esqueço a fome, o cansaço, os motivos, a fala, viro incapaz de pronunciar qualquer coisa. Você entrou sorrindo, falante, seguro, sereno. Isso me impressiona e me irrita ao mesmo tempo. O seu controle contrastando com o meu descontrole quase infantil. Mas você sabe que eu não sou assim. É apenas o choque por te rever.

Nada parece real, você chega e é outro mundo. Mas é real. Tem o quarto, a cama, a minha fome, a comida que você trouxe para mim. O teu corpo, o teu cheiro, tudo diz que é real. Mas sabemos que não. É apenas um parêntese num texto que insistimos em escrever. É apenas um recorte no tempo. Logo se fechará esta janela e seremos de novo somente lembrança.

Você fica quieto ao meu lado e a paz vem como se nunca tivesse ido embora. Aquela que sabemos e que criamos com os dedos e as palavras não planejadas. Não tenho filtro, você sabe e é com você com quem falo mais asneira. Todas e mais algumas que sei que você não joga fora sem antes pensá-las. Gostamos de pensar. Até em asneiras.

Sábias asneiras, você diz.

A rua estava acesa. Desde a manhã, quatro da manhã mais precisamente. Antes, a praça vazia. Agora, os bancos povoados indicam a euforia dos movimentos, das pernas e das falas. Sim, um aparelho humano no caos.

E no meio de tudo, uma partida.

Sim, eu sou fuga. Sou um abismo em expansão. Uma pedra caindo sem nunca chegar ao fundo. Estou sempre chegando e partindo. Sou estrada. E vou. Eu digo que nunca mais. Mas vou. Fui em busca da parte de mim que está em você. Que só vem quando olho você. Esta é a parte que flutua. Fui porque sou mais do que carne. Fui porque sou fé.

Atravessei medos diversos até seus olhos.

Fui porque só você me resolve. E me revolve. E me devolve o sorriso bobo que finjo não ter para o resto do mundo. Fui para ser. Para sermos. Mas ir não é fácil porque nunca sabemos como voltaremos. Podemos ir flor e voltar cinzas. Perdemos pedaços nas idas e vindas. Pedaços que nunca serão reconstituídos.

Mas eu fui e aquilo aconteceu. Voltei com a alma nua.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-pool-of-lies-570093236

Nenhum comentário: