domingo, 20 de dezembro de 2015

Nas palavras

*

Por Germano Xavier


#1

Ela sabia que ele não atenderia o telefone. Não sabendo que era ela. E ele sabia. Mas a curiosidade, a vontade de tentar, a teimosia ou simplesmente o desejo insano, humilhante e quase mórbido de estar próximo... (Ao menos ouvindo o som do chamado do celular dele que ele nunca atenderia) era mais forte e dominante. Ligou. Chamou e ele não atendeu. Mas ela não chorou. Nem sofreu. Apenas revestiu-se de cacto e continuou.

#2

Naquele instante ela desejou apenas ser algo que ele amasse. Mesmo que fosse um livro. Sim, um livro. Livros são o que ele mais ama. Ou até uma palavra. Ele ama certas palavras com um amor especial. Pensa em como seria ser amada por ele como algo que lhe pertence para sempre. Gostaria de ser amada como ele ama um rio, uma rua, uma época, um lugar, uma lembrança. Gostaria de ser mesmo as letras que saem de seus dedos, adocicadas com o seu amor ou mesmo as lágrimas que caem em seu rosto, lavando a sua alma. Desejou mais do que tudo, ser Poesia e habitar seus pensamentos mais puros. Ser Literatura e conseguir transportá-lo para longe, muito longe. Para onde os mundos são criação sua e os seres são feitos de amor e nuvens.

#3

Depois de tudo, ele ficou rígido demais, formado demais, informado demais, calculado demais, ferido demais, cauteloso demais, para entender que ela apenas o amava do jeito mais primitivo e inútil. Nas palavras.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Figure-19-7-14-469209806

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