quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O rosto em seu rosto

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Por Germano Xavier


Naquele dia, ele havia escrito o melhor conto de sua vida. Estava contente, embora não completamente satisfeito. Ele, como todo bom perfeccionista, sempre pensa que o que escreve poderia ser melhor, ser perfeito. Mas aquele conto, ele sabia, era realmente especial. Era, talvez, sua obra-prima. Sentiu um calafrio de um gozo íntimo e pessoal. Aquilo era o que ele era. Um escritor dos bons. Sentia-se completo quando sentia que tinha um lugar no mundo das letras. A literatura era a sua segunda pele. Era o seu destino, o seu legado e a sua paixão. Nada poderia afastá-lo disso. Nem mesmo... Precisava mostrar a alguém. Urgente. Sentia-se excitado, extasiado com aquele pedaço de céu que saiu de seus dedos, de sua pena, de sua alma, de algum lugar no universo onde a magia da poesia se faz. Ele sabia-se possuído do puro prazer de ser parte, de ser palavra, sentido e infinito. As letras são a imortalidade da alma. Se não houver nenhuma a mais, ao menos sabemos que sempre teremos esta. Este era o seu consolo e seu conflito. Precisava contar a alguém. Com tristeza e resignação, descartou o primeiro nome que veio à sua mente. Era mais um rosto do que um nome - um rosto envolto em eternidades insondáveis. Olha ao seu lado. Não. Não a acordaria agora. Antes, precisava despir-se do rosto em seu rosto.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/aging-520798548

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